Crônica do Desagrado

Rubro tirano em formato discoide, o sol enterrava-se no horizonte debaixo de um deserto monótono que se estendia por quilômetros. Apenas duas crianças caminhavam solitárias entre a cadeia de montanhas arenosas e assentadas por milênios de exploração mineral. Agora o planeta era administrado pela família de Wuduee, uma das crianças, a outra era seu amigo e tutor por ser uma representação carnal da raça pandimensional conhecida por muitos nomes, mas que o pequeno Wuduee costumava chamar de Anjos Além da Luz, em alusão à localização do sistema em que vivem em sua maioria.
“Por que vamos tão longe hoje?”, indagou Leskat, o amigo-tutor.
“Você já deve saber que estou intrigado com nossa última conversa”
Leskat meneou a cabeça, realmente sabia. E quando Wuduee o forçava a andar mais longe, era porque a ideia tirou algumas noites de sono.
“Sim, mas antes que o sol do meridiano central nasça quer ir até algum lugar especial? Uma caverna talvez?”
“Não. Só vamos subir aquela montanha”
“Wuduee, essa andança toda cansa o meu corpo encarnado, mas a sua intenção de que isso fragiliza a minha mente para que eu solte algum conteúdo extra que esteja propositalmente ocultando não confere”
Leskat encarnou de forma brusca em um corpo fadado à morte. Nasceu com uma pele frágil que emitia um brilho alaranjado e a estrutura óssea no rosto deformada era esteticamente horrível. Não fosse a energia adicional de sua real espécie tal corpo teria sido mais um natimorto.
“Isso eu já sabia. Só quero andar mesmo, superar a distância da última vez”
“É quase uma analogia ao tipo de informação que você requer”
Os dois se encontravam semanalmente para o contato acordado por um pacto antigo. A raça de Wuduee eram uma das mais atrasadas no universo, porém, uma das mais bondosas perante a Confederação Estelar. O pacto proposto pelos próprios Anjos Além da Luz indicava que cada cidadão receberia o acompanhamento desde a infância de um dos seus encarnado à mesma espécie como forma de suporte à evolução. Sabiam que devia ser um processo gradual e tal levaria alguns séculos para atingir o equilíbrio necessário, mas os resultados eram satisfatórios.
“Pronto, aqui estamos”, disse Wuduee assim que chegaram ao topo da montanha.
“Sim, agora diga o que tem te deixado inquieto”
“Quer água?”, indagou oferecendo uma alga colada à sua palma da mão, a água era absorvida por sua pele porosa.
“Não, obrigado. Já colhi alguns mililitros do ar que está bem úmido hoje”
Apesar do corpo deformado, Leskat forçou algumas adaptações no corpo, por sorte, todas permitidas pelas regras do pacto.
“Em nosso último encontro você me disse que muito mal pode surgir de uma ação do bem, ou de uma deturpação e interpretação de algo com boas intenções”
“Sim. Conseguiu elaborar os exemplos que pedi?”
“Sim. Consegui”,  Wuduee enumerou dezenas de exemplos reais do cenário político de seu sistema solar, com referências históricas baseadas nas fontes das enciclopédias que Leskat havia sugerido.
“Perfeito! Tudo certo”, Leskat olhou para o oeste. Antes que a escuridão dominasse o sol do meridiano central surgia no horizonte.  “Pensei que estivesse preocupado em não ter conseguido cumprir com o dever de casa. Então estava enganado, não faço ideia do que te preocupa”
“Mesmo você entrando na minha cabeça?”, provocou Wuduee.
“Ora, já lhe expliquei setecentas e vinte e seis vezes que eu não consigo ler os seus pensamentos. Quando estou ao seu lado, consigo trabalhar de forma telepática na evolução parcial de seu cérebro, corrigindo sinapses e massageando os neurotransmissores para não permitir redundâncias neurológicas. Mas não consigo ler os seus pensamentos, muito menos suas emoções”
“Verdade, desculpe, não quis parecer desconfiado. Você é meu amigo”
“Perdoado, não precisa ficar com essas bochechas coradas. Isso me deixa com inveja, você sabe”, brincou Leskat que de fato não gostava da atitude porque as suas bochechas ficavam num tom laranja fosforescente.
“Existe o oposto?”, indagou Wuduee enquanto forçava os olhos contra o sol que nascia mais rápido que o antecessor.
“Perdão. Não entendi a sua pergunta”, Leskat também dirigiu o olhar ao sol, mas os seus olhos mais frágeis arderam em três segundos e o forçou a desviar. “O oposto do quê?”
“De algo mal que se origina do bem?”
“Hummm”, Leskat fazia a pausa enquanto buscava a informação em seu próprio cérebro encarnado, menor devido à microcefalia, mas a carga neural pandimensional fora direcionada para a medula, outra adaptação permitida pelas regras do pacto.
“Sabia que essa pergunta era a mais forte de todas”, comentou Wuduee após três minutos. A média do tempo de resposta era menos de meio minuto.
Leskat abriu um sorriso, mas tinha os olhos pesados, como se sentisse dor no processo que se prolongava.
“Consegui a sua resposta”
“Não esperava menos de você”, Wuduee sempre gostou do amigo e não escondia o afeto que sentia.
“Sim, existe o oposto”
“Uou! Eu sabia. Mas há algum embasamento em alguma enciclopédia?”
“Sim. Pegarei um exemplo recente. Demorei muito para te responder porque testei a qualificação da informação pelos filtros da heurística e hermenêutica”
“E então?”, Wuduee abriu seu sorriso de entusiasta.
“Essa história pode ter o peculiar rótulo de uma crônica, seria uma ‘Crônica do Desagrado’”
“Sendo o desagrado como o objeto do mal inicial?”
“Exato. Essa história se remete a cinquenta e dois anos e quatro meses e dois dias antes de seu nascimento”
“He-he-he, novamente aquele seu recente, não para mim”, Wuduee ainda ria das diferenças entre os dois, como se tivessem se conhecido há poucos dias.
“Pesquise depois sobre o planeta Abdiaae no quadrante C204 da galáxia de SisiKnum II, administrado por uma democracia confluente, mas dividida por dois hemisférios com economias distintas, o que acabou por atrasar seu desenvolvimento. Nossa história tem pé no palácio do duque do hemisfério sul, que em uma de suas festas que costumava dar chamou um de seus colegas empresários para visitar um viveiro que ficava escondido dos olhos de quem não fosse convidado. Imagine agora, caro Wuduee, uma enorme cúpula de vidro, tão grande que caberia oito vezes todas as casas de suas vilas e sete montanhas dessas de tão alta. Agora, a espessura era tão grossa que a tornava blindada. E a parte exterior continha um escudo que camuflava, por isso ninguém a via de fora. Quando o empresário adentrou o viveiro ficou boquiaberto. Seus olhos arregalaram-se para centenas de espécies de aves diversas, umas em galhos de árvores gigantes, outras voando em direção ao vidro. Imagine aves que têm pernas que são três quartos de sua própria altura, e outras que possuem bicos longos o suficiente para engolir cobras de nove metros estendidas. Imagine penas exuberantes que renderiam penachos soberanos aos seus antepassados da aurora de seu tempo. Toda essa beleza encheu os olhos do empresário, que ficou intrigado com tudo o que via. ‘É uma coletânea rara’, disse o duque com um sorriso convencido. ‘Ninguém nessa galáxia poderia ter outro igual, nem mesmo você’. O empresário ficou fascinado por muito tempo com o passeio, realizado por uma passarela que atravessava toda a cúpula, abrindo espaço entre a vegetação. Ele quase ignorou o comentário do duque, mas depois seu humor se alterou e uma espécie de raiva tomou conta de seu peito. ‘Mas, se eu quiser, posso comprar e ter uma coleção maior’, ‘Tente, se conseguir um décimo do que eu tenho lhe entrego até o meu título’, desafiou o duque. O empresário calculou mentalmente e sentiu o peso da derrota, seria um gasto altíssimo para uma disputa feita para poucos olhos. Porém, seu ego ansiava por uma intervenção. Ele desfrutou da visita e das palavras arrogantes do duque com um sorriso falso e elogios improvisados. Assim que retornou ao seu gabinete onde elaborava estratégias comerciais, buscou formas de sabotar o orgulho do duque”
“Sabotagem como uma explosão?”, interrompeu Wuduee.
“Não, de início o empresário até cogitou algum tipo de ato violento ou que tivesse como fim a destruição do viveiro e as aves. Mas era arriscado demais, se houvesse falha no plano poderia perder tudo, já que lhe ensinei outro dia, lembra da história sobre a reputação?”
“Sim, reputação é como um castelo de cartas”
“Exatamente. E empresários costumam ter essa noção, mesmo que de forma subconsciente, pelo menos em Abdiaae”
Wuduee ficou pensativo, a alga em sua mão já estava quase seca. Pegou de uma algibeira presa ao cinto um punhado de erva e a comeu.
“Estou tentando adivinhar o que o empresário fez, mas nenhuma imagem que consigo criar daria certo na resposta para minha pergunta”
“Se quiser aguardo o tempo que desejar, mas logo o sol vai arder sobre nossas cabeças”
“Não precisa, não conseguirei adivinhar. Pode prosseguir”
“Burocracia, esse é o primeiro verbete que nos direciona para a resposta. O empresário era um burocrata experiente. Assim, como grande influenciador dos legisladores do hemisfério sul. Sendo assim, o mesmo obteve sua ideia ao analisar as papeladas mais recentes que impediam seus avanços de exploração em áreas de preservação ambiental. Lutou décadas contra os ativistas que zelavam por florestas, mares e animais silvestres. Em sua mesa continha centenas de petições desses grupos, muitos deles com destino certo de acordo com o seu poder: o arquivamento eterno”
“Tipo um enciclopédia?”
“Não, enciclopédias existem para que a informação seja viva por períodos que transcendem corpos biológicos, mas com o propósito de servir a mentes sedentas por conhecimento. As salas de arquivos de um burocrata são é lugar em que a informação morre, oculta na escuridão, estagnada por um lacre sucinto”
Um som ribombou tal como um forte trovão. As duas crianças olharam para o leste. Um traço cortava o céu.
“Deve ser meu primo Wukaee, mas ele não está atrás de nós porque avisei para minha mãe que iria longe hoje e demoraria mais que de costume. Ele deve estar indo checar a estação autônoma de monitoramento do norte”
Leskat observava a atmosfera úmida resvalando ao longo do metal azul.
“Wukaee, o seu primo que reprovou na segunda fase de aprimoramento de evolução pilota uma nave supersônica”, ponderou Leskat com um sorriso zombeteiro. “Se você continuar com sua dedicação aos nossos ensinamentos poderá se tornar o patriarca não só de sua família, mas também ocupar um cargo importante no sistema de seu povo”
“Como um empresário burocrata?”
“Não, pedra pontuda. Voltemos a história para que você possa sonhar e almejar corretamente”
“Há-há-há, sim, voltemos”
“O empresário burocrata requisitou que uma assistente sênior buscasse as petições  recentes que mencionassem tráfico de aves silvestres. Assim que teve em sua mesa todos os documentos suplicados por entidades ativistas decidiu convidar um representante para oferecer apoio à promulgação de uma lei que proibisse que qualquer ave, fosse do tamanho de uma semente fosse do tamanho de uma montanha vivesse em cativeiro de qualquer tamanho fosse gaiola fosse viveiro em qualquer dos hemisférios. Seu poder de barganha convenceu de imediato outros sócios em outros empreendimentos e servindo-se de pressão econômica levou a cabo e em tempo recorde a votação da lei que intrigou os opositores, no entanto, comprados com outros acordos, ratificaram o processo e sua legitimidade e logo, o rei a qual o duque servia, sancionou a lei, suas condições e punições em caso de violação. Imagina a bifurcação que dá vida à sua resposta?”
“Sim, duas vias. Uma para o mal e outra para o bem”
“O mal surgido seria a vingança consumada. O empresário burocrata delatou para grupos de ativistas que o duque escondia uma coleção particular. Não somente teve sua propriedade invadida e destruída enquanto as aves antes presas puderam alçar voo além da cúpula, como toda a ação foi documentada e divulgada para o público. O duque perdeu seu título e suas posses reais. O empresário foi visita-lo na semana seguinte, com uma espécime rara de ave de rapina sobre o seu ombro. ‘Onde está sua coleção?’, perguntou o empresário, ‘Não a possuo mais, ativistas malditos destruíram tudo que eu tinha’, ‘Que pena, eu queria mostrar a minha. Só tenho este, mas não sabia que sem querer eu o ultrapassei’, ‘Mas, como? Tem uma lei que entrou em vigor nesse ano, e ela é mundial’, ‘Sim, mas a lei é clara quando diz que não podemos mantê-los presos’, ‘Não entendo, então ele não é seu’, ‘Sim, pertence a mim, vive em minha fazenda sem grades ou cúpulas de vidro a impedir que vá para longe. Apenas o adestrei para que não deixasse a minha propriedade, ele voa para vários lugares, mas nunca me deixará. A lei não era contra isso’, triste, o ex-duque apenas concluiu: ‘infelizmente não tenho como lhe entregar o meu título, pois o perdi pelas mãos de meu rei’. E desse diálogo o empresário obteve sua vingança pessoal contra um simples insulto. A outra via, podemos visualizar…”
“Milhares de gaiolas sendo jogadas fora”, Wuduee pulou com os braços estendidos, sorriso puro, exaltando-se numa atitude que uma criança se permitia. “Várias aves voltando para a glória da liberdade, poderem cantar alegria verdadeira”
“Sim, o bem surgido por alguém que tinha como propósito seguir a outra via”
“Mas…”, Wuduee interrompeu o que iria dizer, ficou pensativo por meio minuto. “Ah, eu iria perguntar se isso acontece muito no universo, mas acho que já sei a resposta, é sim, né?”
“Sim, o tempo todo”
“Daí eu penso em outra coisa, se levar em consideração, pelo menos nessa história o bem vence pela quantidade o mal. Esse oposto é quase o equilíbrio perfeito da ideia de que há mal que surge do bem, né?”
“Não creio que há equilíbrio para esses casos”
“Tudo bem, não importa, você já me ensinou sobre os equilíbrios congruentes e incongruentes. Mas dessa história, desse exemplo podemos nos concentrar no que o bem proporcionou, né? No caso, várias histórias felizes surgiram para as aves e o mal que foi feito ao duque  pode ser quase ignorado. Né?”
Leskat meneou a cabeça concordando, mas pensativo e com certo olhar cansado.
“O que foi?”, indagou Wuduee preocupado.
“Nada. Você tem razão. A resposta neutralizou por completo a sua dúvida?”
“Sim!”
“Perfeito. Então como dever de casa ficará incumbido de me trazer exemplos semelhantes”
“Pode deixar, essa será fácil, estou ficando craque nas pesquisas das enciclopédias”
As duas crianças iniciaram a descida da montanha rumo às suas casas. Wuduee à vila em que sua família e gestora do planeta vivia e Leskat à estação subterrânea em que ele e outros membros de Anjos Além da Luz iam restabelecer suas energias.
“Notável o desgosto em sua face esteticamente falha”, observou um parceiro que descansava em uma cápsula disposta na vertical.
“Lecionar e suas consequências psíquicas”, Leskat respondeu enquanto adentrava na cápsula ao lado do parceiro.
“O padrão lógico indica mais um abatimento sentimental”
“É. Esses corpos costumam nos providenciar isso”
A capsula emitiu ruídos ao se fechar com o comando interno. Leskat confirmou o sono criogênico por pelo menos dois dias. Antes que seu corpo fosse induzido ao relaxamento total ficou imaginando sobre o que ensinou naquele dia ao jovem Wuduee e como o tal oposto que ele gostaria de saber trazia a tona a real intenção dos Anjos Além da Luz em auxiliar a evolução de seu povo.
Desde o descobrimento dos povos primitivos de Wuduee, uma simulação indicou que se providências não fossem tomadas, eles se tornariam inimigos mortais num futuro distante, mas que em termos de relatividade cósmica, seria prejudicial ao legado. Dessa forma, a tal evolução os forçaria a uma posição que os manteriam subjugados e a um passo de se tornarem servidores eternos com a etapa de dizimação total como objetivo final.
“Uma maldade”, pensou pesaroso Leskat. Tal informação não constava em nenhuma enciclopédia, mas era um conhecimento coletivo.
Mas o ânimo inocente de Wuduee o acalmou, pois a conclusão dele indicava que todas as generosidades e bondades tornavam a via do bem mais extensa. E é lógico, a não menos importante amizade, essa que se tornava mais densa conforme o sóis nasciam e se punham.

Projetos Secretos

Pavor.
O homem de mente simples estava apavorado. Seus companheiros estavam ao seu lado, ajoelhados como ele. Um pouco à frente um soldado tinha um telefone por satélite na altura do rosto, aguardando o momento oportuno para responder.
“São oito”, disse.
A recomendação veio quase instantaneamente:
“Leve-os daí, não deixe que vejam coisa alguma”, a voz andrógina se acentuava num tom mais sombrio com a interferência do sinal.
“Sim-senhor”
Isso bastava para justificar o pavor que o homem de mente simples sentia. Mas outros elementos não podiam passar batidos.
Ele e seus companheiros trabalhavam na condição de escravos para uma quadrilha que abria caminho na mata virgem para que outros viessem depois e construíssem pistas para pousos clandestinos. Eram colaboradores das rotas do narcotráfico.
Como um modo de garantir uma refeição e um lugar para dormir, eles aproveitavam as valiosas madeiras das árvores derrubadas e entregavam ao “bom coronel”.
Não sabiam ler nem escrever. Foram privados de uma educação digna. Alguns se gabavam porque sabiam ler as pesagens. Vestiam-se com farrapos que duravam por anos. Assolados por doenças, costumavam morrer cedo, em angústia. Mas rapidamente eram substituídos por outros mais novos. No geral, eram homens de mentes simples e uma vida nada digna.
No entanto, apesar de não serem capazes de realizar cálculos matemáticos básicos, eles sabiam que os soldados que os interceptaram na área recém desmatada era um exagero para aquele tipo de operação.
Além dos soldados, que estavam com um armamento pesado, havia dezenas de helicópteros que sobrevoavam onde se encontravam, desaparecendo de vista, seguindo para o que eles consideravam como o “território da morte”. Pois não só se tratava de uma mata mais densa e fechada como havia crateras e fendas que engoliriam sem remorso quem quer que fosse para as trevas.
Evitavam explorar aquela área em diante. Era o mínimo de raciocínio lógico que podiam ter, mas que se originou pelo medo.
O homem de mente simples nunca viu um helicóptero além da televisão.
Abriam a mata e eram alertados a não se aproximarem de uma pista de pouso quando a mesma fosse usada por uma quadrilha, a desobediência seria retribuída com a morte.
Espiavam intimados pela fustigante curiosidade os aviões pousarem desajeitadamente nas pistas abertas por eles.
Vários soldados estavam seguindo o caminho dos helicópteros. Adentravam o território da morte sem receio algum. Ou será que o homem de mente simples não conseguiu captar o medo que sentiam por esconderem seus rostos com máscaras pretas?
Ajoelhados e com as mãos atadas por um “enforca-gato”, não era inteligente tentar fugir deles.
Um estrondo ruidoso. Um trovão monumental fez o pavor se acentuar enquanto a espinha gelava.
O homem de mente simples não fazia ideia do que acontecia, mas aos poucos, uma certeza foi florescendo. Gradualmente ele pôde chegar à conclusão de que os soldados não estavam ali por causa deles. Em paralelo, na mesma proporção do pavor, uma esperança ilógica foi crescendo.
O soldado com o telefone por satélite reapareceu a frente deles.
“Senhor! Detonaram a bomba”, disse para o telefone.  A resposta foi inaudível.
Poucos segundos após a explosão um zumbido exótico intensificado por um chiado agudo fez todos sentirem calafrios.
Todos olharam para a mata que avançavam. Já não havia mais o tráfego contínuo de helicópteros.
No entanto, uma nuvem no céu limpo daquela tarde surgiu como uma mancha pincelada por um pintor gigante. Escura como carvão, parecia ter vida própria, com a textura felpuda e seus movimentos expansionistas como um animal que se esforçava a se rastejar.
“Contato visual!”, gritou para o telefone, e na voz o pavor que qualquer homem poderia se dar o luxo de ter.
A voz andrógina ordenou algo, mas novamente não conseguiriam ouvir.
“Sim-senhor!”
Outros soldados trouxeram capuzes e um a um cobriram os rostos dos homens ajoelhados.  O homem de mente simples mal conseguia imaginar o que estava ocorrendo. Seu pavor e esperança se mesclaram criando uma sensação inédita.
O soldado que tinha o telefone por satélite encarou os outros soldados, como se todos pensassem a mesma coisa.
“Me perdoem”, disse o soldado e encostou o cano de sua arma na nuca do homem de mente simples. “Mas vocês são testemunhas de um projeto secreto”
Sentença proferida. Nos primeiros segundos não entendeu o que ele quis dizer, mas aos poucos, um julgamento das palavras daquele que o mataria em pouco tempo ganhou forma, tal como a imagem da nuvem negra no céu acima deles, figura essa que ainda estava gravada em sua cabeça.
“E não são todos os pensamentos fragmentos de projetos secretos?”, indagou, incrédulo quanto a eloquência e autoconfiança que escapou por sua boca abafada pelo capuz.
O soldado não compreendeu. Apertou o gatilho e desfez a esperança e pavor que percorriam a carne do homem de mente simples, oferecendo-o para a escuridão.
Seus companheiros fizeram o mesmo, todos os homens ajoelhados tombaram no chão sem vida.
Sua missão continuava, aqueles homens foram um inconveniente. A nuvem negra sumiu, ele não reparou para onde se foi. Mas as horas seguintes foram cruciais para que sua consciência fosse douta do que a sua vítima quis dizer.
Todos os helicópteros foram inábeis, nenhum deles cortava o céu acima dos soldados ou dava o ar de sua presença acima da mata.
Em sua maioria, os homens que avançaram sumiram, provavelmente pelas fendas e buracos de erosões suspeitas para a tipografia daquele ambiente.
Dos que retornaram metade estavam em estado catatônico.
Um amigo de longa data do soldado que mantinha o telefone na cintura e vislumbrava toda a situação da missão com espanto surgiu de folhagens. Ele fitou seu companheiro e um sorriso indevido para a ocasião aflorou em seu rosto marcado por arranhões de galhos e gravetos. Sacou a arma do coldre e atirou mirando sua têmpora.
A missão já se declarava malsucedida. Indagou para o supervisor de operações pelo telefone qual seria o próximo passo. Pois não teria como capturar a…, o…, o quê mesmo?
“Seu nível não garante permissão de saber o que é o alvo, soldado. Entenda, esse projeto é muito secreto”
Um calafrio percorreu sua carne quando ouviu um zumbido exótico.
Mas por que estava se entregando ao pavor? Tinha ciência dos riscos, não resguardava remorso em remover os empecilhos da missão.
Olhou para o alto e a nuvem estava no céu novamente.
Sabia que não tinha pavor daquilo. Então, concluiu que fosse qual fosse a razão de seus temores, tudo, seus pensamentos ou emoções, não passavam de fragmentos de um projeto secreto de algo muito maior.

Mínimo de Culpa

Leu algumas chamadas de notícias em seu site predileto pelo celular enquanto o copo plástico era preenchido com cappuccino, algo que podia ser medido em vinte segundos. Conversou com a equipe no momento da pausa matinal, discutiram sobre o fim de semana, comeu o pão de queijo e voltou para a sua mesa. Um sorriso modesto estampava o seu rosto, até quando um novo e-mail invadiu a caixa de entrada.
“Nota de Falecimento”
Correu a ler, na esperança de encontrar a tão sonhada gafe: “É com imenso prazer que anunciamos a m…”, rindo só de lembrar de que comentara uma vez com os amigos numa das conversas especulativas, mas nada espetaculares, partindo do “já pensou se”.
Não havia resquícios de gafe alguma. Indicava apenas o falecimento de algum Isaías. “Esses nomes bíblicos, deve ser algum tiozinho da limpeza”. Excluiu a mensagem sem ao menos ler o local do enterro.
O almoço chegou e ele estranhou que a costumeira movimentação dos companheiros de equipe não ocorria. Alguma nuvem negra descera no andar. E ele não suspeitava de nada.
“Alguém vai ser demitido?”, caotizou sua expectativa.
Foram almoçar todos juntos, saíram dez minutos mais tarde, então para evitar o pico de esfomeados decidiram ir a um restaurante mais luxuoso e seletivo.
Os colegas de trabalho que formavam a equipe se restringiam a quinze, o que na ocupação das mesas do restaurante causava uma distribuição única num canto, naquele dia, ele ficou na ponta.
“Eu pago tudo hoje? Hehehehe”, esperou arrancar mais do que simples sorrisos amarelos de meio segundo.
Assim que escolheram os pratos e devolveram os cardápios ao solicito garçom, alguém de fato quebrou o encanto sombrio:
“Viram quem morreu?”
Não aguentando seu humor escroto soltou:
“Recebi um e-mail, não vi ninguém morrendo, he-he”
“Não era aquele rapaz especial?”
“Ele mesmo”
“Vocês duas o conheciam?”, sua curiosidade se aflorou.
“Ah, ele passou lá algumas vezes, no andar. Acho que ele trabalhava para a diretoria”
“Vocês estão falando do rapaz que sempre vinha de jaqueta?”, a analista contábil bebia o refrigerante como entrada e tinha certo receio na voz.
“Ele mesmo, você também já conversou com ele?”
“Acho que sim, uma vez ele foi até a minha mesa, e puxou conversa quando viu o boneco de lhama”
“Ah, foi o garoto retardado que morreu?”, ele deu risada ao compreender de quem falavam.
Em represália, os olhares julgaram aquele arrogante ao lago de fogo. Em resistência, fingiu que não percebeu que cometera uma indelicadeza quanto a memória de alguém querido e virou seu rosto em direção à televisão que exibia os gols de domingo.
“Troquei uma ideia com ele há duas semanas”, se pronunciou o analista de sistemas. “Simpático, puxava conversa sobre qualquer coisa”
Uma pinçada na mente, e ele sentiu o quanto aquela frase era falsa, normalmente, nas poucas vezes que testemunhou o encontro do falecido com alguém de seu andar, sentia aquela vontade de cair em gargalhadas ao ver alguém consternado de ser abordado do nada por alguém “especial”. Especial era piada, para ele, o rapaz que sempre vinha de jaqueta devia ter algum problema mental, o que em suas classificações se concluía como um retardado.
E o tal de Isaías sempre se aproximava de alguém que não conhecia puxando conversa com algo além da situação climática. Fosse sobre algum objeto na mesa de trabalho, fosse sobre algum detalhe da roupa que estivesse usando. Era um tipo de aproximação que instantaneamente podia identificar que ele era especi…, retardado. Não somente no julgamento dele, mas também no de muitos.
“Morreu do quê?”, a analista de contas quis saber.
“Sabe não? Se matou o coitado”
“Ah não. Sério?”
“Uhum, tomou uma porrada de comprimidos, amanheceu morto”
“Pobre coitado, alguém tão bom. Lembro que ele uma vez falou que não tinha os pais. Eu sempre conversava com ele”
E naquele momento ele compreendeu que todos estariam dispostos a se defender, relatar sobre o encontro, amenizar a situação constrangedora, minimizar a culpa.
“Bom, e ele vivia com quem?”, ele quis saber, de certa forma para entrar na conversa, mas sem entrar no jogo de mentiras dos hipócritas.
“Não sei, acho que morava sozinho”
“Amigos?”
“Também não sei”
“Namorada?”
“Ah sei lá, conversava com ele, mas não sabia de tudo da vida dele”
‘Aparentemente nada’, pensou com certa satisfação.
“Fim de papo. O garoto ‘especial’ parece que estava sozinho. E se ele tinha aquele jeito de se entrosar devia ser um momento de compensar uma coisa que faltava na vida dele. E se só no nosso prédio ele tinha alguém que o tratava com dignidade, ainda era uma vida ruim, né?”
Todos pareceram chocados com o que dissera. Mas ele não esperava reação diferente.
Os pratos foram servidos, o vapor das massas que eram a especialidade da casa a tornar porosas as faces. Com o cuidado de não se queimar ele começou a comer enquanto apreciava os diálogos.
“Quando foi a última vez que ele subiu lá?”, indagou a analista comercial.
“Faz muito tempo não, acho que foi na quinta-feira”
“E faz alguma diferença?”, quis saber o analista de sistemas.
“Ah, queria saber com quem ele conversou por último”
Aqui ele pescou o que poderia ser o golpe fatal, ela queria se livrar de certo grama de culpa ao indicar alguém como o grande fracassado que não pôde salvar a pobre alma.
A exploração direta de delegar o crime a outro não tardaria como pensou após um tempo.
“Conversei com ele no mês passado”, adiantou a defesa o analista de sistemas.
“Ah, que importa com quem ele conversou por último?”
Todos fitaram a analista de projetos com olhares inquisidores, até mesmo ele, por pura diversão.
“Você conversou com ele na quinta-feira?”
Ela fingiu demorar a mastigar a simples garfada de massa com molho à bolonhesa.
“Falei com ele pela manhã. Ele parecia estar bem, do mesmo jeito de sempre”
“Sobre o que ele falou?”
“Perguntou como estava, depois de falar que a manga da jaqueta dele tava curta”
“Desde sempre a manga da jaqueta dele estava curta, né? Hehehehe”
Ele não parecia ter pudor, e mesmo que todos o reprovassem com olhares e caretas contidas, um misto de alívio vinha surgindo.
“Você conversou com ele alguma vez?”, indagou o analista de sistemas.
“Falei”
“E quando foi a última vez?”
“Olha, acho que foi na quinta”, a resposta veio com um misto de investigação mental.
“Sobre o que conversaram?”
“Não lembro, ele falou da manga curta dele, eu falei que não estava sim tão curta, ele pegou um café e deu um tchau. Ué, por que estão me olhando assim? Queriam que eu dissesse: ‘A vida é bela’, ‘não desista, tudo vai dar certo’ e coisas assim? Eu devia adivinhar que o cara iria se matar? Alguém aqui deveria saber?”
“É, acho que ninguém aqui deveria saber o que se passava na cabeça dele”, concluiu o analista de sistemas.
Sabia que ninguém insistiria mais, pois a absolvição coletiva foi dada.
Restou apenas a lembrança da manhã de quinta-feira, quando Isaías invade a copa e o ataca com o comentário sobre a manga curta. A resposta dele fora instantânea:
“Sempre esteve, cara. E tudo mundo já sabe disso. Acho que até você já está farto de saber, né?”
“É…, mas eu gosto dela. Ela é bonita, não acha?”, o rapaz com problemas mentais tinha que ter aquele tom infantil?
“Não sei”, ele pegou o celular e fingiu estar atrasado. “Vou voltar pro meu lugar, acho que você devia encontrar o seu também”
Foram palavras duras? Determinantes? Mortais? “Lógico que não”, sua mente agora latejava. “Não vou entrar no joguinho patético desses merdinhas mentirosos. Que culpa tenho eu? Ninguém mais dava atenção pro retardado? Que culpa eu tenho se ele não tinha família? Não vou entrar nesse jogo idiota. Que culpa tenho eu se o cara…”
E mesmo após pegar a disputada fila da sobremesa, cortesia da casa, ele não percebeu que vinha participando do jogo de forma consensual desde quinta. Antes mesmo de uma vida ter deixado o mundo.

 

 

Máximo de Culpa

Ajeitou seu bigode num ato desnecessário de vaidade.
Se tivesse um pequeno pente seria melhor.
Mas não podia exigir muito.
Naquele momento, tudo a que se disponibilizou a fazer escoou pelo ralo e seu suor indicava, não somente pela abundância e odor, e sim da origem que segregou tal substância aquosa, que as falhas foram, no mínimo, patéticas.
O plano fora traçado e testado para ser perfeito. As vilas que ficavam próximas ao sopé da montanha estavam calmas naquele dia. O humilde povo nem imaginava que era alvo de um ataque ordenado pelos próprios governantes do país.
Mantiveram-se de cabeça baixa após rápidas olhadelas nas instalações militares. Ordenhavam as cabras, aravam a terra, regavam girassóis e carpiam as bordas da lavoura.
O exército lançaria os mísseis contra as vilas e depois, com a certeza absoluta e garantida de que não haveria sobreviventes e posteriormente testemunhas, culpariam o país inimigo da ofensiva e teria uma bela desculpa, ou álibi oficial como diziam nos jornais, para testar seus novos apetrechos criados por seus cientistas anônimos em laboratórios subterrâneos secretos e renovar a supremacia na região, algo deveras importante para a mentalidade nacional.
O ministro da defesa deu carta branca. Os encarregados de fazerem tal monstruosidade foram selecionados a dedo e o capitão recebeu o envelope ultra-secreto contendo a estratégia a ser usada numa missão intitulada “Gratidão”, qual o significado? Sabe-se lá. Alguns afirmam que são atribuições aleatórias, mas quando se questiona se ninguém pensa em apertar o botão para outro título cuspido, risadas sinceras ecoam até sumirem no corredor.
Um grupo de trinta soldados, mais ou menos, poucos poderiam indicar o número exato, mas era um contingente aceitável.
Instalaram as armações que disparariam os mísseis, esqueletos metálicos, rampas e plataformas temporárias.
Tudo corria como planejado quando o capitão que observava atentamente a execução do plano sentiu a terrível e angustiante vontade de urinar que o acompanhava há muito tempo.
Ele sofria de uma infecção urinária que lembrava a arame farpado pedindo passagem pela uretra e não podia segurar a vontade. Nisso, correu para a cabine no interior do caminhão militar.
Todos os soldados estavam no lado de fora e apreciavam a vista do topo da montanha.
Um deles carregava o último míssil para o disparador distraidamente, pois esforçava em resgatar as fotografias mentais da namorada sensual que tinha. Não via a hora de voltar para ela e satisfazer suas fantasias.
O serviço secreto clandestino esmagava toda a sua libido. Tanto mais em momentos como aquele, em que há pressão para entregar resultados em curto prazo, entre dezenas de outros parceiros que disputavam a aura testosterônica a cada frase e cada gesto.
Carregava o míssil de pequeno porte nas mãos, deixando o aparato que facilitaria o serviço de lado, a fim de estufar as veias e deixar a luz solar deslizar nos traços de sua musculatura.
“Olhem isso seus babacas fracotes, invejem o meu corp…”, quando tropeçou numa pedra deixando o objeto bélico cair de bico, com toda a carga aprisionada e sensível a poder gozar da liberdade imediata.
E como estava a poucos passos do disparador carregado, travado e ansioso pro trampo, com mais vinte e sete mísseis a explosão que sucedeu fez todos os outros soldados serem lançados alguns montanha abaixo, outros contra o caminhão que por sua vez tombou, fazendo o capitão bater com a cabeça na privada fétida com armação de alumínio, restando ainda alguns decilitros na bexiga e na sofrida uretra.
Ele, por alguma razão sabia que foi um acidente causado por um dos jovens soldados. Quando viu e conversou com os selecionados percebeu que eram burros e que logo o ministério da defesa os aposentaria em gracioso método para que a verdade nunca chegasse a tona.
Sabia que as pessoas das vilas escutaram a explosão e logo chamariam socorro. Elas que seriam martirizadas, eternizadas em símbolo de uma vingança, estariam se recuperando do susto e se mobilizando para descobrir o que ocorrera e talvez ajudá-lo, que na certa era o único sobrevivente.
Naquele momento sentiu um remorso que só teve na infância.
E o que sua mente pôde propiciar como atenuante, era deixar-se levar pela ideia de que o álibi ainda poderia ser usado, e que o orgulho nacional poderia ser comemorado pelos lavradores humildes que o salvaram para contar a verdade do ataque surpresa.
Sangue, suor, urina e matéria fecal da latrina a vomitar o acúmulo fétido se misturavam e ensopavam o bigode que saía em grande estilo nas fotos.
A ferida recém aberta na testa ardeu e seus pensamentos foram atormentados a quase atingir o máximo da sensação de culpa daquele momento.
Deve haver algum padrão militar de vergonha no fato da urina ou merda de outros tocarem a ferida de alguém com maior patente.

Dias Sensíveis

Entre centenas de existências que se expandem universo afora, além de outras que se encaixam entre os paralelos, uma em particular se desfigurava em sua rotina.
Os seres dominantes carregavam o duro fardo e vazio da existência.
Se cotavam muitas poesias terríveis, trágicas, belas e contraditórias acerca da fragilidade desses seres dominantes.
Em poucos milênios desenvolveram seus corpos moles, voláteis, que se expandiam a um nível tal qual podiam atravessar uns aos outros sem pudor. Um salto considerável na evolução e então acordaram mais rígidos, com corpos que atendiam às regras da gravidade, dos fatores climáticos, da durabilidade material.
Mas o padrão evolutivo não se tornou escalar. Estagnaram na forma rígida e no transcorrer de milhões de anos viram apenas as civilizações desabrocharem e fenecerem.
A fragilidade foi notada logo após a última fase evolutiva.
Uma morte súbita, sem aviso, colhia tais seres em um ritmo incalculável.
Um trabalhador retornando de um dia árduo, carregando sua valise com contas e apólices… cai sem vida no meio da calçada. De seu corpo rígido um orifício surge e uma fumaça fina escapa como uma alma livre de sua prisão material. Os demais transeuntes olham, se chocam por poucos segundos, até perceberem que é a morte mais comum do mundo. O corpo é retirado e levado para as devidas formalidades funerárias.
Tal morte nunca foi compreendida. Acontece a qualquer indivíduo.
Grande, pequeno, belo, feio, bom, mau, alegre, triste, prospero, miserável, jovem ou velho.
Uma dançarina num espetáculo, ploft. Cai sem vida.
Um bebê recém-nascido, trincando a casca materna, sffff, a fumaça é cuspida quase sem folego.
Um atleta num campeonato mundial, a bater o recorde, brump. A violência da queda na pista não foi a determinante, os espectadores já imaginavam o que o fez perder.
Tais seres não eram imortais, morriam em choques de aeromóveis, em tragédias geológicas, de velhice, de pestes variadas.
Mas a morte súbita não era compreendida, estudos tentavam apontar algum padrão, encontrar algum ativador, algum motivo que pudesse ser contornado.
Nada, milênios e milênios transcorreram e nem mesmo um panorama estatístico pôde ser apontado.
Dormindo no quarto confortável, o marido nem se contorce, a fumaça é expelida umedecendo parcialmente a fronha.
O médico a consultar a criança com os membros raspados por alguma alergia, um gemido fraco, que se perde em meio à queda lenta.
A caixa do banco não completa a digitação do protocolo.
Leves suspiros das testemunhas, mas a vida continua.
Próximo a uma praia, um casal de jovens sentados num banco observavam o desfile de seres aquáticos que insistiam em quebrar a monotonia do mar cinéreo.
“E se fossemos dez vezes mais resistentes?”, indagou a menina com a cabeça sobre o colo do namorado.
“Acha que surtiria alguma diferença em nossa consciência?”, indagou o namorado.
“Cem vezes?”
“Não creio”
“Então mil”
“Duvido muito”
“Fala como se nunca se importasse, não sentisse a nossa vida frágil”
“Não hoje. Talvez eu não esteja no meu dia”
“Mas mesmo quando forço a questão tem uma resposta rápida, indiferente, fria”
“Levo em consideração a questão da relatividade, simples assim”
“Não importa a nossa resistência, sempre estaríamos sujeitos à uma fragilidade?”
“Acho que para ter noção dessa resistência, força ou seja lá o que você chamaria, teríamos que ter em paralelo a consciência da perda. Não é essa sensação que torna tudo mais empolgante de ser vivido?”
“Sim, mas seria bom se tivéssemos ao menos um certo controle”
“Nascemos sem pedir e morremos sem querer, é verdade. Mas esse meio já é o suficiente para nos esgotarmos de momentos”
Entre afagos e carícias, entraram em consenso, assim como milhões de seus semelhantes, que todos os dias adotavam a conclusão mais digna. E criavam poesias, romances, tragédias, comédias, reflexões, citações…
Não antes, é claro, de se sensibilizarem com o fato.

O Caracol mais Rápido do Mundo

Por causalidade ou desconhecida intenção, o caracol B-12 alcançou a extremidade marcada por uma faixa vermelha denominada como ponto B sendo o mais rápido dentre os seus antecessores.
Como se ausente de atividade alternativa, sem o mínimo resquício de confrontar as suas vontades, ficou parado sobre a haste de ferro polido, cuja forma cilíndrica distorcia seu reflexo de modo cômico.
Retirado dali, fora colocado na caixa de vidro junto com seus parceiros de vivência em cativeiro.
“E ae chapas, de volta na área”, disse em seu tom juvenil.
“Olhe só, ele já voltou”, disse B-07.
“Então é ele”, ponderou quase que para si mesmo B-04.
“Verdade, considerando a meticulosidade dos de Branco, é ele”, concordou B-03.
“O que sou? Que meticulosidade dos de Branco? Do que estão a falar seus cabeça de molusco”
“Você não presta atenção nas coisas, B-12?  Não ouviu a conversa de ontem?”
B-12 desconsiderou o fato de que um caracol não possuía a audição como sentido básico, mas preferiu não entrar no mérito da discussão, até porque havia inexplicáveis razões que permitiam a comunicação necessária entre os de sua espécie, e palavras como “ouvir” era uma liberdade de expressão aceita por aqueles que viviam naquele laboratório.
“A meticulosidade dos de Branco é peça fundamental de nossas especulações. Os de Branco não tardariam em retirá-lo da Caixa Olímpica e depositá-lo aqui novamente. O que nos leva a concluir que você é de fato o mais rápido de todos”
“Mais rápido? Mais rápido de todos? Mais rápido em relação ao quê afinal?”
“Em deslocamento, ora, ele nem sabia qual era a competição”, queixou-se B-05.
“Competição? Era uma competição?”
“Santa lerdeza B-12! Acorde! Você não desconfiou da sua existência aqui nesse laboratório?”, indagou nervoso B-01, o mais velho do grupo.
“Sim, mas o que as questões filosóficas têm a ver com a competição de velocidade?”
“Com essa mente em marcha lenta e ele é o mais rápido de todos, como pode isso?”, B-09 trazia em sua voz um misto de uma risada abafada e fracasso emocional. “Você também não questionou os métodos utilizados? Não estranhou que fugiam ao padrão?”
“Um pouco, mas não me incomodei com isso, sabe, sempre soube que nosso propósito era sermos analisados em experimentos variados, mas prefiro pelas mãos dos de Branco, em suas meticulosidades, como vocês chamam, do que ser experimento de um garotinho rechonchudo a brincar no jardim da casa da avó enquanto joga sal sobre nosso frágil corpo. Até a palavra sal aqui é menos chocante, nem parece que Cloreto de Sódio pode nos matar”
“E ainda sou obrigado a ouvir isso, B-12, você não merecia isso”, B-09 afundou para dentro de sua concha.
“Hum, estou vendo aqui”, disse B-01 retesando suas antenas maiores ao ponto de deixar seus olhos grudados no vidro da caixa. “Vejo no tablet do pupilo de Branco, há uma tabela com os dados. O título é: O caracol mais rápido do mundo. Você B-12 é 16.2 segundos mais rápido do que B-23, portanto, um vencedor de impressionante marca ”
Por mais que tenha se esforçado a ocultar a satisfação própria, B-12 notou que seus companheiros já aguardavam certa animosidade de sua parte. Sendo assim, decidiu não encenar uma falsa modéstia e disparou, em sua velocidade observada como a mais rápida do mundo dentre os da sua espécie até o vidro da caixa. B-01 afastou-se e ficou a observar B-12 quase se esborrachar na superfície de aspecto quase onírico, de material invisível quando visto distante, mas que refratava todas as luzes quando se colava os olhos nela.
“Ei!”, gritou B-12.
Os de Branco estavam a brindar o resultado, ou pelo menos, era o que os caracóis julgavam estar fazendo. Com a preocupação e zelo por não sujarem seus jalecos impecavelmente brancos de mostarda escura quase não notaram o vencedor avulso ao grupo e grudado no vidro do cubículo de descanso.
Quando o notaram aproximaram-se para observá-lo.
“Ei! Vocês… de Branco”, B-12 gritava, desesperado em ser notado. “Olha, aqui…, err, eu não sabia que era uma competição, no duro. Sério mesmo, não fazia a mínima ideia”, decidiu evitar o preambular comum que deveria ser um agradecimento ou início de discurso da vitória. Tomado por uma sensação nunca antes experimentada, sua voz escapava pelo orifício bocal ao lado do genital quase que por impulso próprio, exalando uma ansiedade que transparecia seu orgulho, prepotência e arrogância.
“Não sabia que estava competindo com os outros, sério mesmo”, continuou, agora fitando os olhos dos cientistas que observavam enquanto mordiscavam seus sanduíches de atum. “Se eu soubesse, rá, meus chapas, eu teria sido mais rápido, talvez 0.7 segundos ou quem sabe até 0.9. Sério mesmo, sou mais rápido do que isso, vocês não têm ideia. Aquilo foi moleza para mim. Eu sou muito mais do que testemunharam, o meu potencial está além de todas as regras da natureza, esses meus comparsas podem não acreditar, mas acho que vocês compreendem, não é?”
B-12 continuou a discorrer sobre a sua habilidade sem se preocupar com o tom grotesco que suas palavras poderiam adquirir, afinal, ele podia se engrandecer, não? Ele podia reconhecer que era o melhor, não?
O que ele via era o semblante curioso dos cientistas a observá-lo tornou-se uma imagem congelada no tempo, não cessou suas palavras entremeando-se de sinônimos e inflando seu ego com metáforas e eufemismos.
Mas, os cientistas não se importavam com o potencial máximo não alcançado do caracol, muito menos do que ele estava a gritar naquele momento.
O que complicava era que a B-12 não importava se eles estavam de fato interessados no que dizia, pois já havia pré-concebido essa ideia.
O que sobrava em uma análise mais externa era a conclusão de como a natureza era generosa. Pois, o caracol tinha a liberdade de expressão, mas a quem importava o que dizia? Os cientistas não se importavam com a sua necessidade de de se expressar, tão menos seus companheiros de cativeiro. Porém, a generosidade da natureza não era de impedir a comunicação entre as duas raças num manto de sufocamento da liberdade de expressão, mas sim, e também, na do direito do caracol poder se vangloriar em seu pedestal da vitória por um título merecido e não sair vaiado por um público exigente ou se tornar um novo motivo de chacota.

Caracol mais Rápido do Mundo

Caracol mais Rápido do Mundo

Monstro Invisível

Eu, Jennipher Diogenes Assumpção relato as sessões com o cliente mais inusitado e insólito de minha carreira, que apesar de curta, até o presente momento nunca tive contato semelhante e tenho fortes convicções de que em um futuro distante tal fato não ocorrerá novamente.
O início se faz presente numa terça-feira comum, com muita chuva pela manhã. Aquele congestionamento irritante na avenida do meu consultório e clientes atrasados quanto à hora marcada.
Minha atendente disse que alguém apareceria às três da tarde, mas que o mesmo não quis se identificar por motivos não declarados.
No horário marcado, a sala de espera parecia vazia. E enquanto eu procurava um documento em meu arquivo e tinha em mãos o celular para ligar para o advogado responsável pelo processo de divórcio eis que a porta se abre, mas sem a presença de alguém sequer. Poderia ser um tipo de vento forte, mas notei de que a mesma não estava encostada e que estranhamente a maçaneta se movimentou como se estivesse forçada por um peso fantasmagórico.
Deixei o celular cair quando vi que a poltrona à frente que deveria ser ocupada pelo cliente sofreu um recolhimento.
“Oi”, foi a voz que escutei à minha frente.
“Oii!?”
E então ele se apresentou, o cliente das três da tarde que não dissera seu nome.
“Estou aqui após muito tempo pensar e quando me enchi de coragem não tive dúvidas em marcar com você”, disse a voz que soava gutural.
“Pirei!”, foi o que pensei na hora.
“Não, você não pirou. Eu sou assim mesmo. Sou invisível”
Fiquei calada por uns dois minutos, petrificada, pasma, chocada como se tivesse sido abatida por uma esquizofrenia momentânea. Seria a pressão? A preocupação com o divórcio? Algum transtorno hormonal? Alguma crise específica de psicólogos. Minha cabeça viajava a mil.
“Imaginei que o começo não seria fácil, então não me irritarei caso hoje fiquemos apenas nas meras apresentações cordiais”
Permaneci na mesma posição por uns cinco minutos, incapaz de gritar pela minha atendente, para que a presença da mesma expulsasse o devaneio.
“Pois bem, vamos começar ou não?”
“Começar?”
“Sim, eu vim aqui como seu cliente. Eu marquei para esse horário. Vamos começar ou não?”
“Você é algum espírito?”, me limitei a essa pergunta quando minha mente já tinha forçado todas as respostas lógicas.
“Não, sou um ser vivo. Eu sou um monstro. Um monstro invisível”
“Você é o diabo?”, nesse momento todo o ceticismo caiu por terra.
“Não. Não pertenço às espécies denominadas como seres das trevas. Mas sou um monstro de qualquer forma, se me enquadrar na classe de demônios não vou me importar porque esse preconceito é universal”
Com a mão trêmula abri a gaveta de minha mesa e procurei sem tirar os olhos da poltrona uma das ampolas com fragrâncias virtuosas. A que peguei tinha no rótulo a inscrição “Lealdade” e quando li desisti de inalar o odor purificador. Percebi que toda aquela loucura tinha sim a ver com o divórcio. Lágrimas escorreram e eu desatei a chorar.
“Droga. Parece que você tá pior do que eu”, lamentou a voz. “Façamos o seguinte. Voltarei aqui na próxima semana, está bem?”
E assim enquanto eu chorava a poltrona restituiu os amassados, a porta abriu-se e fechou-se magicamente e me senti num ambiente solitário.
Depois de alguns minutos, quando enxuguei as lágrimas fui verificar com Ana sobre quem estava na sala de espera.
Vazia.
Ana estava a conversar com o namorado no comunicador instantâneo com fones de ouvido ouvindo alguma música da Lady Gaga. Percebendo a minha figura a espiar a sala da porta removeu os fones e me dirigiu a palavra:
“Não veio o senhor sem nome, né?”
Eu a olhei com os olhos limpos.
“A porta está aberta”, indiquei a entrada do consultório.
“Sim, você quer que eu feche? Eu abri depois que parou de chuviscar”
“Você não viu ninguém entrar aqui?”
“Não. Por quê?”
“Nada. Pensei ter ouvido alguém entrar”
“Ninguém entrou, senão eu teria visto. A não ser que fosse invisível”
A jovem Ana era uma menina que trabalhava bem, tinha um senso de humor agradável, mantinha um espirito juvenil como se não houvesse pressões da maturidade do mundo externo.
Uma semana depois Ana me informou sobre o paciente que não compareceu na terça passada.
“O senhor-sem-nome marcou para hoje. Fiquei de retornar para confirmar, às cinco é um bom horário?”
Engoli seco. Fiquei tensa novamente. Seria apenas uma coincidência? Ou seria contemplada com  a visita do ser invisível novamente?
“Tudo bem, pode ser às cinco”
E assim, no horário marcado a sala de espera se encontrava vazia novamente. Deixei a porta aberta, esperando enxergar a silhueta do meu cliente nada pontual.
Sete minutos e cinquenta segundos após o horário marcado a porta fechou-se sozinha. Meu coração disparou novamente.
Acomodou-se na poltrona e me cumprimentou.
“Boa tarde”, respondi categórica.
“Espero que hoje possamos iniciar as sessões de fato”
“Quem é você?”
“Essa é a pergunta que venho tentando responder a mim mesmo, sem sucesso até hoje. Por isso estou aqui. Preciso de sua ajuda”
“Minha ajuda?”
“Sim”
“Você não sabe quem você é?”
“Eu tenho uma ideia, mas foi imposta. Não sei de fato quem sou eu. Acredito que me entenda”
“Eu…, eu…”
“Passado o susto acho que hoje já podemos nos conhecer. Que tal fazer um breve resumo de seu currículo”
“Espere! Eu estou falando com um monstro que não existe. É isso mesmo?”
“Ah mas que droga. Você não vai chorar de novo, vai? Eu estou aqui justamente para encontrar respostas sobre minha existência e você diz que não existo somente porque não pode me ver. Isso é ético?”
“Me de-desculpe”, e então, não sei como se sucedeu, mas passei a aceitar a estranha ideia que tinha um monstro invisível como cliente.
“Está perdoada. Agora por favor, faça um breve resumo sobre a sua formação, apenas para creditarmos as cordialidades e eu inicio as explicações atentando-se à maiores detalhes”
Discorri sobre a minha formação acadêmica e sobre a experiência que havia acumulado após a conclusão do curso. Disse tudo em um tom baixo, temendo que Ana ouvisse e imaginasse que eu conversava sozinha.
O monstro invisível se apresentou falando o mínimo possível:
“Como disse antes, eu sou um monstro. Invisível, mas ainda sim real. Sofro com uma questão e gostaria que me ajudasse a encontrar a resposta”
“Entendi”, levantei-me da cadeira e andei atrás da mesa como se aquilo fosse me dar mais ar. “Você disse que não sabe quem é”
“Exato”
“Sofre de algum tipo de amnésia?”
“Não, me recordo de tudo desde que nasci”
“Certo. Então pode reformular a pergunta?”
“Não sei quem sou. Vocês humanos já pararam em algum momento da vida questionando tal coisa, não?”
“Sim”
“Então. Acredito que tenham criado correntes filosóficas que orientem a reposta”
Sentei na quina da mesa, ainda amedrontada e receosa para me aproximar. Naquele instante engoli a bizarrice vivida e o imaginei como um cliente comum.
“Qual o seu nome?”, indaguei.
“Não tenho um nome como vocês humanos. Mas me chamam de Monstro Invisível”
“Entendi senhor Monstro Invisível. Por que você acha que não sabe quem é?”
“Porque eu não sei”
“Você sempre não soube, ou passou a se questionar a partir de um período ou fase?”
“É…, na verdade, venho pensando nisso somente nos últimos dez anos”
“Qual a sua idade?”
“Comparados aos seus devo ter uns duzentos. Mas vim do Buraco Escuro há cinco mil anos”
“Buraco Escuro? Isso é algum…”
“É a dimensão onde nascemos. O monstros da minha raça”
“Como é esse lugar?”
“Escuro, bem escuro”
“Continue”
“É só escuro, não há mais nada. Nada cresce lá, não há chão, céu, gases. É apenas escuro”
“E você veio de lá pra cá…”
“Quando chega a hora. Do nada, apareci nessas terras”
Nesse ponto eu sentei novamente e comecei a digitar ligeira, tomando notas sobre o que ele relatava.
“Por favor, continue. Conte-me tudo que seja relevante para a sua questão”
“Antigamente eu me alimentava de pessoas…”
Congelei com a afirmação, um frio me subiu pelas pernas adentrando a minha saia e se concentrou em minha barriga. Meus dedos sobre as teclas ficaram paralisados aguardando alguma ordem.
“…mas faz tempo que deixei esse hábito quando descobri que frutas são mais deliciosas. Mas o último homem que peguei…, ah, deixe-me esclarecer, eu só me alimentava de homens maus, comprovados aos meus olhos. O último deles começou a gritar como uma menininha chorona quando o suspendi no alto enquanto abria a minha boca para engoli-lo. Gritava ‘O que é isso? O que é isso?’ repetidas vezes e quando se calou pelo ácido do meu estômago fiquei pensativo quanto ao assunto”O fato dele ter dito que o seu hábito alimentar era motivado por certa justiça própria me fez relevar a ideia psicótica. Ele já havia se declarado um monstro. Era um monstro que comia frutas, algo que devia ser contra a sua natureza ou uma peculiaridade incomum. Mas eu continuei a ouvi-lo.
“Sabe, ser invisível não é fácil. Aqueles ‘O que é isso?’ daquele assassino desgraçado me perturbaram por vários anos. Pois veja, ele não podia me ver. Morreu por algo invisível. Mas o que teria pensado? Foi o que tentava imaginar e para a minha desgraça não consigo formar uma ideia de mim mesmo.
Entendi que o problema dele era a famosa crise de identidade. Para um paciente comum, seria algo normal de se resolver. Mas como eu faria com um não-humano e ainda por cima invisível? Olhei para a prateleira. O que Freud diria sobre isso? O que Sartre pensaria sobre tal diálogo?
“Mas você me disse que existe fisicamente, já que não é um espírito”
“Sim, eu existo fisicamente”
“Pois então, você não possui cor, mas tem forma. Podemos começar por aí, não é verdade?”, disse isso com um tom animador e eu estava de fato animada.
“Não, não é verdade”
Meu rosto fechou uma expressão de dúvida, fiquei esperando que ele complementasse sua explicação.
“Eu não tenho uma forma única, posso me modificar a necessidades”
“Perdão, não entendi”
“Deixe-me explicar melhor. Eu poderia muito bem jogar um lençol sobre mim e ter a figura de um fantasma, mas o que ocorre é que tudo entra em contato com meu corpo torna-se também invisível, bom, nem todas. Ás vezes, objetos como essa poltrona permanecem visíveis, mas a maioria desaparece ao menor toque”
“Mas ainda assim você possui sensibilidade, não?”
“Sim. Mas no que isso me ajuda?”
“Você sente e sabe se tem duas pernas, dois braços, dois olhos, não?”
“Como disse, eu posso me adaptar a necessidades. Como agora por exemplo, eu encolhi dois metros para caber nessa sala. Tenho duas pernas, quatro mãos, olhos?… eu sinto os músculos e nervos de quatro, mas para  obter a visão de trezentos e sessenta graus poderia criar mais dez se necessário. Assim como meus braços podem se multiplicar em vinte ou trinta e tomarem formas distintas como tentáculos, pinças e ferrões”
Minha surpresa entrou em outro nível. Passei a buscar as respostas mais óbvias, porém, nada me veio à mente. Imaginei professores antigos ministrando aulas monótonas e vagas. Lembrei de inúmeros exercícios mentais que poderiam me ajudar naquela ocasião.
“Acho que você compreendeu o meu problema”
“Sim”
Fiquei digitando, mas em um ritmo mais lento de forma que ganhasse tempo. A percepção externa ajuda em muito para a formulação do eu interior. E no íntimo daquele ser não havia essa base para sustentar alguma ideia. Ele mencionou que a ideia de que tinha havia sido imposta, certamente pelos termos e denominações que os devorados devam ter gritado em desespero.
“Pois bem senhor…, pela sua voz você é um macho, certo?”
“Não temos distinção entre sexo. Nós não nos reproduzimos como vocês. O Buraco Escuro é o grande progenitor”
“Ok, vou chamá-lo de você para evitar variações e possíveis confusões”
“Tudo bem. Você conseguiu pensar em algo? Algo para começar?”
“Por enquanto não. Temos que prolongar as sessões. Eu gostei de conversar com você, adoraria que voltasse”, não consegui evitar a frase clichê.
“Tudo bem, pelo menos você não chorou hoje”
Ele retornou duas semanas depois.
“Bom dia, como se sente?”
“Com a mesma dúvida a latejar em minha cabeça”
“Como passou sua semana?”
“Fazendo as mesmas coisas de sempre. Visitando feiras, roubando frutas sem grandes dificuldades”
“O que você sente quando pensa sobre a sua identidade?”
“Um vazio”
Transcrevia tudo com a maior agilidade possível e sendo fiel a cada palavra dita.
“Você tem contato com os da sua espécie?”
“Não”
“Já teve?”
“Não”
“Como sabe que não é o único?”
“Não sou. É uma noção básica que temos. Sabemos que estamos espalhados pelo mundo. Cada um deixa o Buraco Negro sozinho, sem despedidas”
Tudo que pensava falia nos testes primários, todas as hipóteses que elaborava nos finais de semana não se encaixavam na situação do monstro.
Após a décima quarta consulta propus o seguinte:
“Por que você não pensa em uma cor que não existe?”
“Eu não entendi, isso é outro exercício?”
“Sim, tente. Você não conseguirá saber que tipo de cor seria essa, mas teria como base que pelo menos sabe que ela não é alguma das cores existentes”
“O que isso quer dizer?”
“Um modelo a seguir quando não sabemos quem somos é termos como base quem não somos”
“Você acha que isso funcionará?”, o monstro estava incrédulo quanto ao proposto.
“Acredito que sim. A definição do seu eu poderá emanar a partir daí”
Considerei ter sido a pior ideia. Poderia funcionar para um adolescente de classe média, mas não para ele. Nas sessões seguintes ele detinha inúmeras definições do que não era, e o montante acumulava cada vez mais, o que o incomodou muito.
“O vazio aumentou. Sei tudo o que não sou, mas não tenho a mínima ideia do que poderia ser”
Lamentei o erro, voltei a pesquisar mais, procurei estudos de grandes físicos, de filósofos que vagavam na antiga Grécia. Não conseguia absorver tudo no tempo certo. Tinha que dedicar meu tempo em casa como uma mãe. Não podia ignorar o meu filho de quatro anos.
“Mamãe sabe tudo”, disse ele outro dia se aproximando com os olhinhos brilhando. Costumava dizer isso para que eu o ajudasse com alguma coisa, fosse para ajudar a calçar a sandália ou encontrar um brinquedo. Aprendeu tal frase com a minha irmã há poucas semanas quando ela o alertou: “Ouça sempre sua mamãe. A mamãe sabe tudo”
E diante disso pensei no que poderia ser a solução. Na próxima sessão ofereci o que poderia ser a minha última solução:
“Bom dia, tudo bem?”
“Bom dia. Não muito. Já sei que não sou o Bicho-papão, o Pé Grande, o ET de Varginha, a Cuca, o Tinhoso, o Lobisomem, o Godzilla…”
Tive de interrompê-lo, estava ditando a infinidade propositalmente, queria me provocar.
“Hoje quero que você me relembre sobre a sua origem”
“O Buraco Negro?”
“Exato”
“O que deseja saber?”
“Lembro que disse sobre as suas noções básicas”
“Sim”
“Muitas respostas você sabe de modo natural, esse saber provém do Buraco Negro?”
“Sim”
“Você já perguntou algo ao Buraco Negro?”
“Não, por que deveria?”
“Nunca lhe ocorreu que pode ter a resposta de que tanto precisa?”
Ele permaneceu em silêncio por algum tempo.
“Tudo o que precisava saber o Buraco Negro já me deixou ciente”
“Mas restou uma pergunta, você nunca a conjurou?”
“Nunca”
“E então, não quer tentar?”
“Acha que vai dar certo?”
“O Buraco Negro seria incapaz de responder algo a você?”
“Isso seria impossível”
“Então tente. Inicie a introspecção clamando o grande progenitor”
“Por que você acha que isso vai dar certo? E se tornar outra frustração para mim?”
Senti toda a minha confiança sobre uma corda bamba.
“Pelo que você me disse o Buraco Escuro é o grande progenitor, a vontade de existir trouxe vocês ao mundo, mesmo em um lugar em que nada podia ser visto, ou que nada existisse além da escuridão. E de modo mágico, aqui está você. A sua origem como história pode não ser a essência do seu eu. Mas, a vontade…, a vontade existir está além de nomes, cor, cheiro, formas. Ela é o mínimo necessário para que mantenha a vida nesse mundo…, e até mesmo no Buraco Escuro. A partir dessa vontade, todo o resto torna-se possível, as definições são reais graças a essa vontade e não o contrário”
O silêncio reinou novamente. Eu pensei que ele tinha duvidado de cada palavra dita, eu mesma estava perdida na minha explicação, não conseguiria repeti-la caso ele pedisse.
“Interessante”, disse ele calmamente. Pensei que ele fosse satirizar assim como fizera com o exercício anterior.
“Você perguntou ao Buraco Negro?”
“Sim”
“E então…”, meu coração estava prestes a saltar pela boca de tanta ansiedade.
“Respondeu algo semelhante, em outras palavras”
Respirei aliviada, meus ombros relaxaram a tensão, me joguei em minha cadeira.
“Isso quer dizer que a minha pergunta não tem tanta importância?”
“Sim, pelo menos não há a necessidade de lhe trazer angústia. Ela é mera possibilidade diante da sua existência”
“Entendi. A resposta no fim não era um bicho de sete cabeças…
“Isso é recorrente na minha profissão”, um sorriso brotou no canto de minha boca.
“Enfim, acho que agora posso finalizar a terapia”
“Se assim você o diz”
“Nos despedimos aqui”, disse ele. Percebi que se levantou.
“Espere, tenho que lhe mandar a conta. E já vou avisando que não aceito o pagamento em frutas”, disse utilizando um tom cômico, não pude evitar a deixa.
“Que é isso? Bom, acho que a terapia vale pela experiência. Considere isso como uma possibilidade”, me respondeu com uma voz sorridente.
“Ok”, caímos na gargalhada.
Nos despedimos, ele me agradeceu novamente e partiu, abrindo a porta e tornando-se invisível como nunca me fora.

Fome do Pai

Um estrondo ruidoso não se propagou no vácuo devido às leis básicas da física. Muito embora, pudessem chama-las de leis. Afinal, tudo era muito novo, tudo estava no princípio.
No futuro, em outros tempos, em outras ideologias ou mitologias dirão que no princípio era o verbo. O que sim, era verdade. Embora não apenas um, mas vários: espetar, lamber, abocanhar, mastigar, cercear, triturar, engolir, comer, banquetear, roncar, esfomear e por aí vai.
O estrondo nada mais era do que o ronco do estômago de Cronos, filho do Céu e da Terra, senhor do universo. Sempre faminto, deixando sua boca sedenta se perder no tempo, pois podia manipular as distorções do que poderiam chamar de leis da física e suportar a fome.
Em outros tempos, poderiam dizer que Cronos devorava os seus filhos. O que sim, era verdade. Mas estariam completamente errados quanto ao motivo, caso digam que a sua obsessão em devora-los era por certo terror ao que fizera ao seu pai, o Céu.
Não sentia terror de acontecer o mesmo, quando o próprio Céu o advertiu após ter o corpo rasgado por uma foice. Cronos não temia que um ou mais filhos desejassem destrona-lo.
Enquanto viajava pelo espaço, se deslocando entre ondas de tempo, o senhor do universo pensava nas suas responsabilidades como divindade suprema. Existia todo um legado a respeitar, e o seu sucessor, caso um dia necessitasse existir, mesmo que contra a sua vontade, deveria ser alguém superior a ele.
Nisso, costumava descer até a Terra após contar e dar nomes à estrelas longínquas que tardariam a serem descobertas, se estabelecia em domínios de seus filhos e os observava ocuparem o vazio do existir.
E então, se em sua análise algo fosse suspeito, contundente, aviltante ou que fosse indigno, o senhor do universo não hesitava em materializar um garfo e com grande efeito liberava a vontade de se saciar. O garfo era lançado contra o seu filho, trespassando o corpo místico, fixando a carne divina nas pontas. E em poucos segundos, que eram relativos ao grande ser supremo, sua boca se abria e fechava, juntando seus imensos e incontáveis dentes transformando o seu descendente em uma pasta deliciosa e engolindo até o estômago sedento o dissolver como se uma explosão de uma estrela gigante ali estivesse.
Dessa maneira, Cronos saciava a sua fome. Mas, antes que pudesse se vangloriar de seu feito, os roncos voltavam.
Cronos não escondia dos outros filhos o seu estranho passatempo.
E não tardou para que os que continuavam sobre a face da Terra começar a se consultarem com sua mãe, Cibele, a fim de compreenderem os motivos que levariam o senhor do universo a devorar os próprios filhos.
“Não há nada com o que se preocuparem, afinal, ele tem os seus motivos. Mesmo que isso seja inaceitável, o que poderiam fazer?”, embora seus prantos eram ouvidos sobre a face da Terra toda vez que um filho desaparecia no abismo de Cronos.
Zeus, já em sua adolescência florida coçava a sua barba rala quando ouvia os conselhos da mãe.
“Está angustiado meu irmão?”, indagou Poseidon ao notar o olhar vago de seu irmão mais velho.
“Não, um pouco preocupado com Cronos”
“Com nosso pai? O que te aflige?”
“Não quero estar no estômago dele amanhã”
“E o que te faz pensar que pode estar na pança dele amanhã?”
“Ando com teorias, e nenhuma delas são animadoras. Precisamos conversar em um lugar mais particular, de modo que ele não nos ouça”, pediu Zeus seriamente para Poseidon.
“Tudo bem. Podemos ir até Hades. Ele pode nos levar a uma gruta nas entranhas da Terra. Se não me falha a memória, ele conhece várias”
“Boa ideia, seria bom compartilhar com ele os meus planos”
“Planos? Que eu saiba, planos são mentalizados com o propósito de serem transformados em atitudes”
“Sim, esse é o propósito”
“Estou incerto de suas intenções. Quer tramar contra o nosso pai?”
Zeus levou o indicador à boca, em um gesto imediato por silêncio. Como se as palavras no tom calmo de Poseidon pudessem chegar aos céus.
“Está bem, espere eu terminar aqui”, disse Poseidon enquanto materializava pequenas ovas.
“O que é isso?”
“Será o meu mensageiro no futuro. Ele poderá se materializar em várias formas. Levará as minhas mensagens às terras mais longíquas”
E então Poseidon lançou as ovas no mar.
“Acho que nosso pai se orgulharia desse feito, não acha?”, indagou em um tom provocador.
“Hum, não creio. Héstia, nossa irmã mais velha considerou que a sua criação, uma morada confortável da qual batizou de ‘Lar’, encheria nosso pai de orgulho. O que sucedeu foi que ela foi para em uma morada nada hospitaleira, foi emborcada em um vulto só”
Poseidon engoliu a seco, o que nunca havia lhe ocorrido.
“Pois então vamos nos encontrar com Hades agora mesmo”
E assim eles rumaram ao encontro de Hades, que era mais velho, porém, muito imaturo. Hades era muito chato aos olhos dos dois irmãos. Sempre que iniciavam algum debate, Hades achava necessário ser o detentor da palavra final. Ele mesmo proclamava-se como criador do conceito do fim. E sempre que dizia ter vencido um debate, seus irmãos se entreolhavam como se trocassem mensagens telepáticas e num gesto afirmativo sabiam que deram a palavra final ao irmão meticuloso apenas para calar a boca.
“Olá irmão, como está?”, indagou Poseidon.
“O que vocês querem?”, Hades não escondia seu tom irritadiço.
“Viemos falar sobre algo muito importante”
“Vieram me desafiar para um debate?”
“Não, viemos falar de algo que interessa a todos. É sobre o quem vem acontecendo aos nossos irmãos e que certamente poderá ser o nosso destino também”
“Entendi. É sobre o nosso pai?”
Novamente Zeus advertiu com um gesto para que não comentasse a respeito. Poseidon confirmou e murmurou algo.
“Por que tanto silêncio oras?”
“Ele não pode nos ouvir”
“Por que não?”
“Por que entraria em ira se soubesse que estamos tramando contra ele e viria até aqui num piscar de olhos para nos devorar”
“Mas, quanta idiotice. Por que tramaríamos contra ele? Nossa mãe disse que estava tudo nos conformes”
“Você realmente está satisfeito e seguro com as recentes ocorrências?”, perguntou o petulante Zeus.
“Acredito que no fim eu estarei, não me preocupo com isso”
“Pois bem, então viemos até aqui à toa Poseidon”
“Espere Zeus. Hades, apenas me responda uma coisa, o que você fez de útil que poderia orgulhar o nosso pai, senhor do universo?”
Hades abriu a boca para responder de imediato, mas sua voz não saiu. Ele ficou boquiaberto como se tivesse sido petrificado. Tentava encontrar as palavras para convencer os irmãos.
“Vejo que no fim, não está tão certo assim”
“Está bem, vocês venceram. Não ando dormindo nas últimas noites por pensar nos fatos recentes, mas se vamos conspirar, temos que fazer em um local mais discreto”
“Concordamos, sugere algo?”
“Sim, nos subterrâneos, nas entranhas da Terra”
Os três irmãos então desceram os níveis da crosta terrestre, chegando a grutas aquecidas e empestadas pelo cheiro de enxofre.
“Que lugar é esse? Nós entramos por uma montanha, mas nunca imaginei estruturas desse tipo?”
“Eu costumo chamar de Tártaro, mas preciso cavar mais, pois ainda não cheguei ao fim”
Estando em um local escuro, Hades trouxe luz com um fogo flutuante.
“Aqui estamos, comeceis a falar”
“Diante do que nosso pai anda fazendo, acho que temos que enfrenta-lo”, disparou Zeus, com um tom baixo, ainda temendo que tais palavras pudessem ser transportadas além das milhões de toneladas da estrutura rochosa acima deles e chegasse aos ouvidos de Cronos.
“Teríamos que utilizar o elemento surpresa, não podemos invoca-lo e marcar um duelo, seria uma desvantagem para nós”, disse Poseidon.
“Então planeje o engodo”, Hades parecia não ter esperanças.
“Sim, tenho algo em mente. Todavia, tenho que lembra-los que a queda de nosso pai deixará o trono ausente, e o universo não pode ficar sem um comandante”
“Sim, bem lembrado, então temos que definir como será a sucessão”
“Sim Poseidon, eu já deixei a partilha nos seguintes termos: cada um de nós terá um domínio”
“Hum, gostei, mas você já decidiu por nós ou teremos como escolher os domínios?”
“Eu escolhi o que considerei o mais adequado para cada um de nós”
“Baseado em quais critérios?”
“Nas suas próprias vocações”
“Prossiga irmão, estou curioso”
“Você Poseidon, ficará com os mares, todos eles”
“Serei o senhor de todos os mares?”
“Sim, não é você que vive nele, sempre criando peixes e serpentes marinhas? Pois bem, o domínio dos mares será todo seu”
“Hum, minhas suspeitas se confirmam”
“E com o que é que eu fico?”
“Vocês têm que confessar que eu sou um visionário”
Poseidon e Hades entortaram o olhar desconfiados da vaidade do jovem irmão.
“Eu percebi que a demanda por vida humana irá aumentar, será uma coisa natural, eles vão se multiplicar a um número incontável como as estrelas dos céus. E consequentemente a morte os apanhará quando a hora definida pelo destino chegar. E para irá as almas desses mortais?”
Os dois não souberam responder.
“Para o seu domínio Hades”
“Meu domínio?”
“Sim. Será seu o reino dos mortos”
“O meu domínio será o reino dos mortos? E qual a lógica de que as minhas vocações me definem como senhor do reino dos mortos?”
“Ora meu irmão Hades, você não se diz como o definidor do fim? Pois então, é totalmente apropriada a ideia de tal posse, pois somente você poderia dominar o fim da vida dos mortais”
E então Hades pensou melhor, após a justificativa de Zeus a proposta soava melhor.
“Aceito”
“Então vamos aos planos…”
“Espere”, Hades fechou o olhar desconfiado.
“Sim irmão, algum problema?”
“E qual seria o seu domínio?”
“Ah, eu…, bom, eu não sei bem o que seria mais adequado para mim. Gosto de muitas coisas, não sei qual a minha vocação. Nisso, ficarei no trono como líder supremo, pois de lá poderei realizar várias tarefas distintas até encontrar o que seria a minha ocupação definitiva.
Hades e Poseidon se entreolharam, conheciam a prepotência do irmão mais novo, e sabiam que ele ambicionava um poder além do que lhes fora destinados. Mas diante das circunstâncias tiveram que aceitar, discutiriam a sucessão depois. Os domínios oferecidos já estavam de bom tamanho.
E então, os três filhos de Cronos, unidos com o propósito de derrubarem o próprio pai planejaram o grande golpe. Após muita discussão chegaram a uma boa estratégia para o engodo. Ao retornarem para a superfície eles partiram em direções opostas para dar início ao plano.
Cronos deslizava pelas nebulosas. Um ronco explodiu enquanto ele separava pequenos conjuntos de massas para formar satélites em um planeta.
Já não sendo de sua vontade permanecer ali decidiu voltar à Terra para saber do comportamento de algum filho seu.
Por coincidência, assim que pousou seu corpo gigante no solo, Zeus invocou sua presença. A cerimônia além de formal devia ter toda a subordinação explícita. Não podia invocar a presença do senhor do universo sem o devido respeito.
“Olá grande pai, senhor do universo”
“Olá filho, qual a razão de invocar a minha grandiosa presença em tal lugar?”, Cronos percebeu de que estavam em uma praia, próximo da divisão da areia com a maré.
“Eu gostaria de lhe mostrar algo que lhe trará orgulho de sua descendência”
“Hum, e o que seria?”
“Bom, antes de mostrar a você, eu gostaria que deixasse o seu garfo no chão, para que não haja infortúnios e que sua ira seja declarada”
Cronos ficou surpreso com o pedido, mas não desconfiou de nada. Sendo assim, largou o garfo que caiu pesadamente sobre a areia úmida. O garfo se posto de pé teria a altura de Zeus.
Cronos era dez vezes maior do que seus filhos, ele gostava daquela estatura, tinha a consciência de sua grandeza divina e sabia que ela devia ser proporcional materialmente.
“Pois bem, ande logo, mostre-me o que criaste”
“Sim”, Zeus estendeu as suas mãos. Nuvens brancas que estavam dispersas começaram a se acumular.
“Vai criar um dilúvio?”, Indagou Cronos debochadamente.
“Não, algo muito mais potente do que isso”
E então, quando o céu foi coberto por nuvens negras e o dia tornou-se escuro como noite um feixe de luz voou até as mãos de Zeus.
Com as mãos próximas ele conteve a energia e o calor emitido o fez pingar de suor.
“Hum, o que é isso? Um raio?”
“Sim”, Zeus respondeu com esforço, pois conter o raio consumia quase toda a sua energia.
“Essa é a sua grande invenção?”, Cronos não se mostrou perplexo.
“Sim, não gostou?”
“Eu vi bilhões de raios no céu, raios maiores do que a Terra e a luz destes cegariam todos que tivessem a capacidade de enxergá-los”
“Eu levei um bom tempo para fazer isso, pensei que fosse se orgulhar”
“Tempo não importa meu jovem”, o estômago do senhor do universo roncou como se pedisse para finalizar a conversa e que saciasse a grande fome.
“Você fez sozinho?”, indagou Cronos como se a resposta pudesse ser fatal.
“Bom, não, eu tive a ajuda dos Ciclopes”
“Dos gigntes babões de um olho só?”
“Sim, eles mesmos”
“Precisar da ajuda dos Ciclopes para construir algo tão patético. Isso lhe dá o direito de ser classificado como indigno”
“Mas, indigno? De lhe suceder?”
“Exato filho, não merece o trono”, e Cronos se surpreendeu por neste momento, ao invés de surgiu um olhar de terror, Zeus abriu um sorriso demasiado provocador.
“Pois bem. Então o que fará? Me devorar?”
“Garoto arrogante. Merece sim, ser mastigado lentamente até sua carne se desfazer em minha boca”, e então Cronos estendeu a mão para pegar o garfo que havia largado na areia, mas foi surpreendido ao ver que o objeto não se encontrava lá.
Ele voltou a sua atenção para Zeus que ainda concentrava esforço para conter o raio em suas mãos.
“O que está havendo aqui? Onde está o meu garfo?”
Zeus não respondeu. Quando Cronos pensou em partir para cima do jovem, sentiu algo ferir as suas costas. Um arpão atravessou seu corpo.
Ao se virar viu Hades que enlameado havia aparecido da terra.
“Foi você quem pegou meu garfo, jovem tolo?”
“Não, eu só o feri com meu arpão”, respondeu Hades sem demonstrar medo diante do olhar aterrador de seu pai.
E antes que Cronos desse conta, uma onda disparou formando um cone d’água, cuja ponta sobressaltou o seu garfo. O golpe foi tão veloz que o senhor do universo não pôde se defender.
O gigante corpo do supremo deus tinha duas armas fincadas.
Ele não estava acostumado com dores, então realmente ficou perturbado com a situação. Ele viu Poseidon surgir.
“Vocês se uniram para me enfrentar. Que coisa mais desagradável”
Ele cambaleou, caiu de joelhos de frente para Zeus.
“Golpe de misericórdia?”
“Mais ou menos”, e Zeus liberou a força do raio contra o abdome de Cronos.
A potência do golpe comprimiu os órgãos divinos de tal maneira que ele regurgitou todos os filhos devorados que foram restaurados à sua forma original como se nada tivesse acontecido.
Uma fraqueza incomum tornou tudo rodopiante e o senhor do universo caiu ao chão, sentiu frio.
“Vocês não deviam ter feito isso. Meus irmãos, os Titãs, irão me vingar”
“Não, não vão. Nós os derrotamos um a um e cuidamos para que fossem aprisionados”
“O que? Mas como?”
“Não importa como. O que importa é que não haverá uma guerra entre primeira e segunda geração de deuses, poupamos o mundo de algo tão destruidor”
Cronos viu todos os filhos que devorou na praia. Mesmo que conseguisse forças para se levantar não teria como lutar com todos ao mesmo tempo.
Hades retirou de seu corpo o arpão. Poseidon retirou o garfo.
“Vou ficar com isso. Nosso pai o energizou muito e também servirá de lembrança”
Zeus deu de ombros.
Cronos olhou para os três que exibiam sorrisos vitoriosos.
“Filhos de parricida, parricidas são”, apenas murmurou e seu estômago roncou.
O senhor do universo, caído, fraco, humilhado, não encontrou outras palavras e decidiu não lançar maldição sobre seus filhos como fizera o Céu, seu pai.
“Pois bem, qual será o meu fim?”, indagou.
“Isso é tarefa minha”, disse Hades que se aproximou do corpo caído do pai e tocando as suas feridas os dois se desfizeram em nuvens de enxofre desaparecendo dali.
Cronos foi para o Tártaro, juntamente com seus irmãos, os Titãs. E então os seus filhos tomaram posses das criações, cada um com o seu domínio.
No futuro, em outros tempos, em outras ideologias ou mitologias dirão muito sobre a loucura de Cronos. Dirão que os raios são uma lembrança do que houve no dia em que ele fora destronado. E que acordado pelos raios, os roncos de seu estômago explodirão em estrondo  indicando uma fome desejando ser saciada. E que ele estaria desejando o seu retorno ao trono enquanto sofre nas entranhas da Terra, pois o tempo não o incomoda. O que sim, é verdade.

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Mariposa Morta

“Por que você matou a burbroleta?”, perguntou sua filha inconformada. Seus pequenos olhos lacrimejaram e criaram um brilho angelical.
“Porque sim!”, Paulo respondeu do modo mais grosso possível, não somente para demonstrar sua autoridade sobre sua filha de quatro anos, mas para deixar claro de que não iria discutir com ela.
Sua filha agachou para olhar a borboleta pisoteada. Seu corpo não fora totalmente esmagado, somente parte da asa.
“Agora já pra cama!”, ordenou seu pai.
Ela se dirigiu ao seu quarto com a garganta doendo, segurando um choro.
Paulo olhou para a mariposa que invadiu a sala. Ela havia entrado pela janela, ligeira, como se conhecesse o local e estivesse apenas fazendo uma visita.
Paulo se levantou do sofá, pegou seu chinelo e rebateu a mariposa indefesa fazendo-a ficar abobada e cair próximo ao rodapé do canto da sala. Sem titubear, pisou nela, com a intenção de matá-la. Sua filha que testemunhou a cena, ficou assustada, mas quando reparou que a forma lembrava a uma borboleta abriu um sorriso que durou três segundos.
Paulo ficou pensando se o que fez foi algo desnecessário. Não havia necessidade de matar a mariposa. Ela devia estar perdida, ou então a procura de comida para alimentar sua família. O nível de ameaça que representava era praticamente zero.
“Por que diabos fui matar essa coisa feia?”, se perguntou. Aproveitando de que sua filha foi dormir ele voltou a assistir o mesmo programa fútil de todas as noites de domingo. Mas por mais que se esforçasse não conseguia tirar a imagem da mariposa morta de sua mente. Algo o perturbava. Não conseguia ao menos retirar o corpo dela da sala. Deixaria essa tarefa para sua mulher assim que ela voltasse da igreja.
Quando se deu conta, Paulo estava alternando os canais para ver se encontrava alguma atração que fosse mais interessante e ocupasse seus pensamentos.
“… a religião Jainista prega a abnegação e a não-violência, seus monges usam bocais para evitar que algum inseto entre e seja morto…”, o único documentário que era exibido naquele horário e ele pegou justamente um trecho que fez com que a mariposa revivesse. Em fúria, ele desligou a televisão ao ver a imagem de monges vestidos de branco e usando bocais. Como não havia jantado resolveu preparar uma refeição.
Ao olhar o refrigerador se deparou com várias bandejas de carnes, algumas, com etiquetas contendo descritivos sobre a qualidade e até mesmo com as imagens dos animais abatidos. Ao pegar uma bandeja de contra-filé e observar a imagem de um boi com olhar fotogênico veio do modo mais natural possível a cena daquele animal perdendo sua vida no abatedouro. Por mais que seu apetite fosse o de comer um boi inteiro, ele preparou uma salada e fritou um omelete.
Sua mulher voltara, toda cheia de esperança de que a vida melhoraria nos próximos dias, pois o sermão havia sido inspirador e motivador. Mas seu sorriso se perdeu ao notar a mariposa morta próxima ao rodapé.
“O que é isso?”, indagou.
“Uma mariposa”
“Por que você matou ela?”
“Ah, você também. Eu vou dormir, não quero papo. Joga essa coisa feia no lixo”
Aquela noite foi longa. Sua mulher não comentou sobre a morte da mariposa, mas Paulo sabia que ela compartilhava da piedade e indignação da filha. O sono tardou a dominá-lo. Enquanto isso, procurava alguma posição confortável para adormecer. E mesmo depois do que parecia ser horas, seu estado de sonolência foi um dos piores de sua vida.
Seus sonhos foram dominados pelo espírito vingativo da mariposa morta. A cena do que ocorreu na sala era repetida centenas de vezes, sempre com algum detalhe do cenário sendo modificado. Em um momento sua filha chorava esperneando e pulando no chão, em outro, ela apenas balançava a cabeça negativamente, deixando transparecer toda a sua decepção com ele. Várias vezes, a mesma cena, sempre com algum detalhe diferente, como estivesse tentando corrigir seu erro. Mas toda vez seu chinelo pesado comprimia o frágil corpo da criatura contra o chão, despedaçando parte de suas asas e mantendo o resto intacto.
“O que aquilo queria dizer?”, refletia.
No dia seguinte, segunda-feira chuvosa, seu trabalho não rendia como esperado. Era um funcionário exemplar, mas seu cansaço estava afetando seu desempenho. Um motorista de uma empresa especializada em entregas devia estar totalmente recomposto.
Atrasou dois compromissos e aquilo repercutiu de forma desagradável. No final da tarde foi chamado à sala de seu chefe.
Ao entrar foi agraciado com temperatura controlada do cômodo e vários prêmios importantes do meio logístico numa estante de vidro, e ainda, de quebra, reparou que seu chefe exibia um sorriso amigável.
“Me desculpe, eu não tive uma noite muito boa e…”, Paulo decidiu declarar a sua culpa e já pedir perdão.
“Espera Paulão, fica calmo!”, seu chefe riu. “Eu não vou te dar bronca. O que ocorreu hoje não foi bom, mas não vou te queimar. Você é um dos meus melhores e como nunca deu mancada te dou toda a oportunidade de se explicar. Eu só queria saber se está tudo bem, se precisa de algo. Se quiser conversar ou pedir algo, agora é a hora”
Em outro momento aquela situação cairia como uma luva. Era a oportunidade exata para pedir uma aumento salarial, mas ao invés disso, Paulo sentiu a necessidade de desabafar.
“Sabe aquela sensação de você estar se sentindo mal? Mas mal no sentido de malvado, sabe? Mau!”
Seu chefe contorceu seu beiço como se concordasse com ele. Expressão essa muito usada por ele. Na verdade, todos os seus funcionários já sabiam de que era um mero sinal de que a conversa seria iludida por sua compreensão.
“Sei sim. O que aconteceu?”
“Eu notei hoje de manhã numa esquina, um padeiro correndo com uma vassoura atrás de um rato. Ele queria matar o rato. Eu sei que era por questão de higiene, mas fiquei pensando em como nós somos, como posso dizer…, como nós somos maiores em relação aos outros animais”
“Superiores?”
“Isso, superiores. Quer dizer, hoje nós dominamos todo o resto, né?”
“Sim, até onde eu sei, dominamos tudo”
“E eu estava pensando, há necessidade de certas coisas?”
“Olha Paulão, eu entendi o que está pensando. Você está se sentindo culpado por uma dádiva. Nós somos os dominadores do mundo, mas já fomos presa fácil quando pulávamos de galho em galho. Conquistamos nosso espaço. Não somos ameaçados por nada. Tudo bem que não podemos jogar uma pedra em um leão faminto, mas hoje nós podemos aprisionar qualquer animal que desejamos. Nós temos o poder de predadores, mas isso faz parte de um papel desempenhado não somente por sermos humanos, mas seria a atitude de qual raça que fosse que estivesse no topo, entende?” seu chefe inclinou um pouco para trás em sua cadeira confortável e se orgulhou de sua explicação, mas voltou seu olhar para Paulo e continuou: “Mas ainda não entendo como isso te abalou. Você viu o padeiro matar o rato e isso o distraiu o dia inteiro?”
“Não, eu não me preocupei com o rato, porque ele era muito rápido e fugiu para um bueiro antes que o padeiro conseguisse pensar em acertá-lo”
“Mas por que me contou isso?”
“É que na verdade aconteceu ontem o lance”
“O que aconteceu ontem?” Paulo contou o ocorrido. Pensou que após toda aquela história sobre raça dominante o seu chefe torceria o beiço e o chamasse de idiota por se sensibilizar com aquilo. Mas a reação foi a de que seu chefe ficou tentando buscar alguma explicação.
“Mas por que você matou ela?”, perguntou. “Não bastava tê-la espantado para fora?” Paulo sentiu o fantasma da mariposa estar sobrevoando a sala.
Se até mesmo seu chefe que era orgulhoso de estar no topo da pirâmide da cadeia alimentar não amenizou a sua confusão, então estaria ele perdido?
“Tire o dia pra descansar Paulão”, ordenou seu chefe com um sorriso forçado.
Ao chegar em casa ele foi até a lixeira procurar pelos restos mortais da mariposa. Não estava lá. Desta forma, chegou a conclusão de que o lixo fora retirado e naquela altura seu corpo estaria todo esmagado com resíduos diversos.
Mas por que ele queria vê-la? Não tinha como desfazer seu ato. Como sua mulher e filha não estavam em casa, decidiu deitar para relaxar e compensar o sono atrasado. Acordou no meio da madrugada, sua mulher deitada ao seu lado e toda a casa escura. Foi até a cozinha pegar algo para comer, apenas para tapear o estômago.
Ao acender a luz viu sobre a pia uma formiga carregando um grão de arroz cozido, que devia ter caído da panela. Quase sem pensar seu dedo indicador foi levado para esmagá-la, quando que, por poucos milímetros parou e viu a mariposa viva em sua mente.
Um espírito vingador. Vingador?
Afastou o dedo titânico e observou a formiga, notável trabalhadora, sumir.
Por um momento, pensou ter visto a mariposa passar pela cozinha e desaparecer pela janela. Sentiu-se aliviado.
Como pode um animal tão indefeso afetar um ser superior?

Ótimo nos Negócios

Encostada á porteira da fazenda de seu pai, uma moça de beleza notável encaracolava o cabelo com os dedos. Viu ao longe um homem vestindo roupas diferentes e levando consigo uma mala de médio porte.
Quando este homem se aproximou parou ao ver a moça bonita.
“Boa tarde moça”
“Boa tarde”, respondeu educadamente a bela moça.
“Eu não a conheço de algum lugar?”, perguntou o homem deixando a mala no chão e parando próximo á moça.
“Sou filha do Barão Plínio”, afirmou como se isso bastasse.
“Ah sim, eu bem que sabia que lembrava desse rosto maravilhoso”
“Lembrava?”, a moça se mostrou curiosa.
“Sim, eu a conheci na escola. Não se lembra de mim?”
A moça franziu a testa. Esforçou para se lembrar daquele rosto, mas talvez o bigode estivesse atrapalhando por fazê-lo parecer anos mais velho.
“Me desculpe, mas não me lembro não”
“Me chamo Ahmad”, disse o homem fazendo reverência á moça.
“Ah, agora sim, me recordo. Você é filho do turco, não é?”
“Sírio”
“Ah sim, me desculpe, mas você não tinha viajado para o estrangeiro?”
“Sim, viajei. Vou além dessas terras todos os anos”
“E você está indo viajar de novo?”, indagou a moça apontando com um olhar a mala de médio porte.
“Sim, sempre estou viajando”
“E o que você está fazendo da vida?”, a moça não pôde esconder a sua curiosidade.
“Eu sou um mascate”
“Ah…”, ela não conseguiu esconder a sua frustração. Do pouco que se lembrava dele era que era excepcional em matemática e ciências, e todos os professores indicavam que seu futuro era promissor, a maioria arriscava dizer que seria engenheiro ou médico.
“Não me pareceu muito impressionada.”, Ahmad exibiu um sorriso modesto.
“Não, é que não sei como consegue se sustentar com isso”
“Ora, sou ótimo nos negócios”
“Bom, me desculpe se fui rude com você”
“Não se preocupe, posso mostrar a você a vantagem de ser um mascate”
“Não precisa, se você diz que…”
“Permita-me bela moça.”, Ahmad abriu a sua mala e começou a tirar vários objetos de seu interior.
Ela não gostou do fato dele não dizer seu nome.
“Além de eu estar conhecendo o globo, viajar pelos sete mares, conhecer rostos diferentes, culturas diferentes, respirar outros ares e me apaixonar por mulheres com olhares distintos, eu também tenho contato com criações maravilhosas, como esta por exemplo”, ele mostrou uma pena.
“O que é isso?”, indagou a moça curiosa.
“Isso foi a caneta de um rei da Inglaterra”
“Jura?”
“Uhum. E tenho isto também”, ele guardou a pena e pegou um bumerangue.
“Que é…”
“Um bumerangue usado pelos aborígines da Austrália”
“Que interessante”
“Tenho também isto”, guardou o bumerangue e pegou um frasco violeta.
“É um perfume?”
“Sim, muito forte para fazer que alguém se renda aos seus encantos, mas acho que você não precisaria dele”
Ela abafou um riso e se sentiu um merecedora do elogio.
“Ahmad, você visitou a terra de origem dos seus pais?”
“Sim”
“Conheceu o deserto do Saara?”
“Minha família não é de lá, mas sim. Eu viajei pelas dunas do Saara com uma caravana de beduínos”
“E você encontrou alguma lâmpada mágica?”, ela se sentiu idiota ao ter perguntado aquilo.
“Bom, não uma lâmpada, mas tenho isso”, ele retirou um pequeno tambor, do tamanho da palma de sua mão.
“Mas tem um gênio mágico aí dentro?”, ela tentou se mostrar irônica ao formular a pergunta, mesmo na verdade querer acreditar naquela fantasia.
“Na verdade, tem um Djin. Sim, para que ele saia daqui eu dou três toques com o meu polegar”
“Jura?”
“E quanto é? Eu posso pedir para o meu pai comprar”
“Humm, pode ser seu se você quiser”
“Jura?”
“Sim, mas tem pagar mesmo assim”
“Hã? Não entendi”
“Um beijo”
“Ficou maluco? Eu não vou beijar você”
“Tudo bem, a escolha é sua”, Ahmad ia fechando a sua mala e fez menção de ir embora.
“Não, espere”, a moça olhou para trás, onde estava o casarão de sua família. Quis se certificar de que não havia curioso algum olhando para eles naquele momento.
“Um beijo?”
“Sim”
Ahmad abriu um sorriso vitorioso. Se aproximou da moça e eles se entregaram a um beijo quente.
Apesar dela sentir uma repulsa por se vender por algo que parecia ser um absurdo ela acabou gostando do ato.
“É todo seu”, disse ele entregando o pequeno tambor.
De imediato ela se apoderou do objeto e deu três toques com o polegar esperando que um gênio saísse de lá por uma fina fumaça e se materializasse, pronto a realizar os seus desejos. No entanto, nada aconteceu.
“Mentiroso!”
“Ora, ora. Por que ficou brava?”
“Você disse que ele saía daqui com três toques do polegar”
“Sim, esta é a forma que ele sai comigo. Você precisa descobrir como será com você. Do seu jeito”
“Sério?”, por um momento ela se sentiu idiota. Mas no fim, precisou acreditar.
“Sim. Preciso ir minha bela. O trem parte logo mais e é uma longa caminha daqui”
O mascate mandou um beijo no ar e começou a andar pela estrada.
“Espere”
“Sim”
“Você está usando aquele perfume?”
“Não. Eu não preciso”
“Quando você vai voltar?”
“Antes de você se casar”, respondeu com um sorriso malicioso.
“Então faz o favor de me trazer um presente”, disse ela se entregando ao momento.
“Pode deixar minha bela. Pode deixar”
E assim o mascate partiu, para seu destino. Deixando para trás mais uma vitória. Mais um coração esperançoso.