Computadores Fazem Arte

O que paga os meus boletos não são os (ínfimos) rendimentos de direitos autorais de meus dois livros publicados.
A minha ocupação oficial ainda é de TI, e essa, por sorte de me simpatizar, é o que mantém tudo em dia e as prateleiras cheias.
Desde que iniciei esse site sempre reservei as postagens para a carreira paralela da escrita, nunca foi o intuito misturar as postagens sobre livros, músicas, filmes, gibis, visitas a exposições com dicas e tutoriais de programação.
Porém, hoje (10/05), é o aniversário que completa uma década de atuação com uma tecnologia específica, e o mais concreto que posso chamar de carreira. E apesar de às vezes sentir cargas de neurose estressantes, levanto todos os dias com alegria por trabalhar com algo que gosto, e ter o retorno financeiro que permitiu realizar o sonho da casa própria e permitir confortos como o de sobreviver sem muitos perrengues uma pandemia mundial (até o momento).
A minha “carreira” literária ainda é apenas um passatempo e não paga uma mísera conta de luz, porém, é um sonho a ser conquistado do qual não desisti.
E apesar das carreiras serem opostas, com distâncias abismais, estava relembrando a música do Chico Science & Nação Zumbi conhecida como Computadores Fazem Arte, e a canção me fez pensar no quanto de arte daria para extrair nessa década trabalhando com uma tecnologia de uma empresa multinacional brasileira cujo sistema principal é utilizados por milhões de trabalhadores diariamente não somente em terras tupiniquins mas em vários países da América Latina e até Rússia.
Poderia criar minicontos sobre pequenos detalhes desses dez anos, desde o início acidental, cujo amigo não quis a vaga e ao me indicar não lembrava bem o nome da empresa contratante ou da mulher com quem falou e que eu, na época estagiário lutando para qualquer vaga CLT na área, correu no Google e ficou digitando as variações das partes dos nomes que ele lembrava até encontrar o site correto com a vaga.
Há histórias de um dia inteiro analisando fontes com mais de 20 mil linhas de código legado e no final descobrir que o erro era um ponto e vírgula que impactava em todo o processamento.
Noites viradas, escritórios escuros e vazios, sua alma única no andar inteiro no desespero para finalizar o job.
Debugs que não faziam sentido. Usuários que pegavam o erro na primeira ação na rotina que você jurava ser perfeita e sem erros.
Gambiarras Contornos técnicos alternativos fora dos padrões das boas práticas aplicados nas mais variadas situações.
Deadlines injustos e chefias tirânicas.
Muitas histórias, talvez bem chatas se comparadas às aventuras vividas por seu amigo bombeiro, sim, é verdade…
Mas a arte que eu queria extrair como um profissional de TI não eram minicontos desses causos.
Tão menos os modelos, a indentação dos códigos, a documentação primordial e bem escrita nos comentários para o próximo, o melhor uso das estruturas de dados. Nada disso.
A conclusão que cheguei foi pensando como um engenheiro que constrói uma ponte.
Além da realização, há o trunfo de que tal trabalho gerou uma economia de tempo e recursos para pessoas que antes precisariam percorrer um caminho mais longo para chegar na outra extremidade.
Eram detalhes como o trabalho que uma gerente demorava de dois a três dias para realizar, e com o seu conhecimento e técnica ter criado uma rotina que otimizaria tudo em dez minutos com o esforço de apenas apertar um botão.
Criar um software, um simples programa de computador tem a mesma aura da criação de um artista, ela pode trazer emoções como felicidade e ódio (quem nunca xingou o sistema quando trava ou buga?), traz liberdade e aprisiona também (aqueles problemas que não existiriam se o sistema não tivesse calculado os impostos da Nota Fiscal incorretamente e o ajuste é manual).
Consigo computar cada centavo que essa carreira proporcionou ao meu bolso.
Mas é praticamente impossível saber o que proporcionou aos outros (ou stakeholders e users se preferir) no que diz respeito aos ganhos e perdas além do quesito monetário.
No refrão o Chico diz: “Computadores Fazem Arte, Artistas Fazem Dinheiro”.
Enquanto minha carreira de escritor não paga as contas em definitivo, sigo em paz com a arte que os meus terabytes proporcionaram na última década.

Ma’a salama!

O Melhor de 2019

Tem gente que ainda faz retrospectivas, e olha só, esse ano rende a retro da década, mas, como foi tudo muito rápido, não vou me prolongar num post extenso.
Lembrando a minha regra, só coisas boas, para tentar esquecer as insanidades de lá fora.
Então bora lá:

Esse ano reli muitas coisas, principalmente dois livros que gostei bastante na adolescência do mestre Kurt Vonnegut, as ficções científicas Matadouro 5 e Cama de Gato, dessa vez, em edições novinhas em folha que estão marcando presença em minha prateleira.
Aproveitei para voltar a ler algo do mainstream, A Mulher na Janela, do autor A.J. Finn, um crítico literário que decidiu ser criticado e adaptado para as telonas, vi o trailer hoje de manhã.
Mas o melhor é um nacional, para nossa alegria tupiniquim, com uma história que se desenvolve entre o passado e presente e interlúdios de outras épocas, com grande apelo a amizades, inimizades, suspense, folclore e com uma penca de referências de serpentes.
Eis que Serpentário, do autor Felipe Castilho merece o pódio desse ano.

Ssssssssss

Ssssssssss

De HQs infelizmente acompanhei pouco, queria poder ganhar mais gibis de presente (fica a dica se tu nunca me deu nada).
Mas consegui fazer uma modesta contribuição e eis que o Opticus -Intervenções do autor Tiago P. Zanetic e dos ilustradores Mauricio Leone e Gustavo Lambreta chegou na caixa de correio.
Para não entregar muito, a história se inicia com uma intervenção cirúrgica, em que um médico tenta criar uma de cura definitiva da miopia, mas o processo cria um resultado de super-visão, em que ele passa a enxergar as mínimas falhas das coisas e até microrganismos vivendo nelas.

Para ver melhor...

Para ver melhor…


Nesse ano em que muitas séries resolveram acabar, e não estou falando apenas dos cancelamentos em lote da Netflix, mas de pesos pesados como Game of Thrones, que decepcionou muita gente, e Mr Robot que para meu alívio fechou a história com proeza e coragem por parte da produção.
Derrubar o sistema e se manter são não é para qualquer um, vai deixar saudades Elliot Alderson (e amigos).

/* Tá funcionando assim, não mexer nesse final */

/* Tá funcionando assim, não mexer nesse final */


Mas as melhores séries desse ano foram as minisséries, e as baseadas em fatos reais e/ou históricos.
Acho que em empate são as Chernobyl, Olhos que Condenam (When They See US) e Inacreditável (Unbelievable).
Pequei em não resenhar cada uma em separado, mas considero como obrigatório ver as histórias do desastre radioativo que poderia ter sido muito pior, das condenações absurdas dos cincos do Central Park e da investigação de estupros por duas detetives que honraram não somente o distintivo como também a luta das mulheres no mundo varonil.

"Qual o custo das mentiras?"

“Qual o custo das mentiras?”



Menções honrosas para a primeira temporada da série da terrinha: Our Boys, a segunda de Mind Hunter, a terceira de True Detective e a quinta de Peaky Blinders. A única (será?) de Watchmen, e os curtas da antologia animada Love, Death + Robots e Boneca Russa (Russian Doll).

Nesse ano de polêmicas envolvendo o ótimo Coringa (Joker), o longo porém prato cheio para fãs de Scorcese-Pacino-DeNiro O Irlandês (The Irishman), e a final da saga (seria mesmo?) Star Wars, e de filmes de peso como Era uma Vez em Hollywood (Once Upon a Time in Hollywood) e Vingadores – Ultimato (Avengers End Game) eu devo confessar que o meu predileto foi O Farol (The Lighthouse), em preto e branco, com ótimas atuações de Willem Dafoe e Robert Pattinson, ok, o filme foi um palco aberto para atuações de dois homens isolados se degradarem em meio a uma ilha com elementos de fantasia envolvendo a loucura de ambos, mas foi isso que me fisgou, e esse árabe adora filmes doidos em P&B.
Menções honrosas: MidSommar, O Rei (The King), Vidro (Glass), Vice, Nós (Us), Parasita (Parasite), Na Sombra da Lei (Dragged Across Concrete), Dor e Glória (Dolor y Gloria), Dois Papas (The Two Popes), El Camino.

Trampo leve e normal

Trampo leve e normal

O Rock respira por aparelhos, mas nesse ano o Metal deu espasmos fortes e uma pálpebra ficou entreaberta.
O clássicos do Nu Metal como Korn, Slipkot (Birth of the Cruel ficou no repeat por semanas) lançaram grandes álbuns mais do mesmo, deixando a sua marca quase despercebida dos anos 2010.
Após anos Rammstein lançou o sétimo disco intitulado Rammstein, cuja música e clipe Deutschland ficaram nas paradas por muito tempo. Porém, em termos musicais não tem muita diferença do que já fizeram antes.
Thom Yorke lançou seu terceiro álbum solo, Anima, para arrebatar corações daqueles que são apaixonados por suas músicas quase sem consoantes.
A música Last I Heard (…He Was Circling The Drain) foi outra que ficou no repeat, e que ainda ouço ao menos uma vez na semana.
“I woke up with a feeling I just could not take”
Agora, o grande trabalho musical do ano que merece o primeiro lugar foi o lançamento de Fear Inoculum, da banda Tool.
O hiato de 13 anos compensou, o álbum conquistou também de forma inesperada os tops da Billboard.

Tiozões do Rock (banda Tool)

Tiozões do Rock (banda Tool)


Fecho essa humilde retrospectiva com essa foto de um indivíduo caminhando em sua solitude nas dunas de Socrota, no Iêmen.

Uma leve introspecção

Uma leve introspecção


Nos vemos nos anos 2020!
Ma’a salama!

Our Boys – Parte 2

Esse post se refere aos acontecimentos dos episódios 2, 3, 4, 5 e 6 da série Our Boys, uma produção israelo-palestina que está sendo transmitida pela HBO e que eu recomendo para quem se interessa pela região e a história dos conflitos.

O segundo episódio “Eu amo Toto” (I love Toto) tem um fluxo natural da continuidade em relação ao piloto, a Shabak (Agência de Segurança de Israel) inicia as investigações do sequestro de Mohammed Abu Khdeir, encontram seu corpo carbonizado e montam uma força-tarefa que analisa imagens do local da abdução. Além do pai desnorteado, um dialogo interessante na sala de comando é quando discutem sobre os principais suspeitos não serem árabes, e sim judeus.
“Tem a ver com linguagem corporal”, diz Simon Cohen, o personagem principal na empreitada das investigações, e o dialogo é interessante porque entre os dois povos há muitas semelhanças, devido ao ancestral comum e por partilharem de religiões abraâmicas.

Outro ponto de grande destaque é o do terceiro episódio “Dois Maços de Next Vermelho” (Two Packs of Red Next) em que recai a suspeita de que o sequestro se encaixe em violência doméstica quando a Shabak associa conversas de celular e fotos a um comportamento homossexual do sequestrado.
O baque ao pai é grande deixando mais desnorteado, afinal, o assunto é grande tabu em países árabes, onde homossexuais devem viver na surdina por temor de serem mortos. Do lado israelense plantam notícias falsas dizendo que o garoto já havia procurado ajuda em ONG’s especializadas. Um dos envolvidos na notícia plantada confessa e justifica que o sequestro do jovem palestino fez todos se esquecerem dos três adolescentes judeus mortos.
O quarto episódio “O Mártir do Amanhecer” (The Dawn Martyr) traz uma cena que muitos podem ter visto em noticiários, quando uma multidão acompanha em fervorosa um procissão fúnebre, carregando o corpo do mártir, endossando a vontade de luta de todos os envolvidos.
O pai fica irritado quando vê as pessoas levando os restos mortais do filho evocando como ele se fosse um “mártir de Al-Qsa”. Sua revolta se dá pela incoerência, afinal, seu filho não se habilitou para morrer por uma causa, tão menos era militante. “Nunca nos envolvemos com política”.
Durante a procissão, temendo que o destino fosse a jerusalém oriental e se enfiassem em um combate com as polícias de fronteiras ele improvisa outro cântico: “o mártir do amanhecer uniu os palestinos”, ganhando evocação aos próximos, até que mudam a direção da caminhada, se mantendo na cidade.
Essa cena em particular me lembrou a de outro filme israelense: Belém – Zona de Conflito (Bethlehem, 2013), quando um corpo de um militante é disputado em seu funeral por diferentes grupos terroristas, que o reivindicavam como um dos seus.
O requinte de espionagem se acentua quando Simon vai a uma sinagoga para se infiltrar em uma família suspeita no episódio “Bom Sábado” (Shabbat Shalom).
Com escutas e imagens capturadas por drones a Shabak acompanha o policial indo a um jantar na casa de um rabino, onde seu filho e netos são os principais suspeitos do sequestro.
Um judeu russo comenta sobre a eficiência da Shabak, dizendo que ela não era como a antiga KGB, não que a apoiasse, mas que os métodos dela, de possuir conhecimento de tudo e todos era um dos pontos que faltavam para uma força policial mais assertiva.
Nessa mesa de jantar há declarações sobre razão e emoção, e é lógico que são mencionados versículos da Torá, que descrevem fatos de violência justificados pelo grande Deus monoteísta. Não muito diferente se fosse em uma família muçulmana focada diariamente e estritamente nos preceitos religiosos.
No episódio “Aceitação do Silêncio” (Acceptance of Silence) dá-se a continuidade das investigações, mas agora, com os principais suspeitos presos. Simon, desde o momento em que se infiltrou na casa do rabino se afeiçoou com o jovem Avishai, que no piloto se emocionou muito com os sequestros dos adolescentes judeus e acabou se influenciando por seu tio a realizarem um ato de vingança contra os palestinos.
Pouco antes de ser preso, Avishai inicia um voto de silêncio, que se prolonga após estar encarcerado.
Não pesquisei se esse lance do principal investigador se relacionar com a família está fiel aos fatos, ou se é meramente liberdade criativa.
Existem muitos detalhes a serem explorados, mas se eu for comentar todos acabaria por transcrever tudo, e não é o intuito aqui, a ideia é incentivar a alguém interessado naquele pedaço de terra de tantos conflitos a assistir essa série.

Provavelmente a Parte 3 será um post final sobre os últimos episódios.

Ma’a Salama!

 

Punk de Minneapolis

Setembro é aquele mês em que a nação roqueira adora desenterrar piadas sobre o cara do Green Day devido a música “Wake me up when september ends”.
Só lembro de que existiu Green Day por causa desses memes que já se equiparam ao tiozão querendo ser engraçado com a piadinha do pavê.
E apesar de ter gostado de algumas músicas no passado dessa banda, nunca estive na pegada a ponto de querer ir a um show deles.
Afinal, eu era aquele metaleiro que andava de preto,  coturno,  calças rasgadas,  correntes e às vezes cara pintada (magina um corpse paint feito com tinta de tecido e não ter ficado cego o_O).
E metaleiro jagunço quase não dá bola para o estilo punk. Quase.
Principalmente esse que vos fala, que vibra com eletrônicos variados, clássicos (eruditos mesmo) e árabes para honrar a origem.
Dentro dos sub-gêneros do rock o punk é um dos que se mantiveram na linha e eu curti uma outra música que provavelmente está no mainstream e gaveta das modinhas.
E embora nunca tenha sido um punk ou tido um moicano ainda conseguia me encaixar no que era de bom tom para o Mov.
E falando em Mov me lembro daquele outro que volta e meia é dito como “quem traiu o mov”: João Gordo.
(Muitos) anos atrás o vocalista da banda Ratos de Porão estava explicando sobre estilos punk’s e acabou por enquadrar o Green Day no “punk californiano”.
E é com todas essas voltas que eu chego no intuito desse post.
O álbum Be Good da banda Off With Their Heads.

Lançado nesse ano, caí no gosto de algumas faixas e o tom, estilo e vibração acendeu a fagulha do que o JG disse há muito tempo.
Em rápida pesquisa descobri que a banda é de Minneapolis.
E nos filmes que assisti a cidade sempre me pareceu um ótimo lugar para se viver.
A composição do nome vem de Mine que significa água no idioma indígena Dakota e Pólis, mais popular, significa cidade, do grego.
Às margens do rio Mississipi e com dezenas de lagos, com uma população abaixo de meio milhão.
Em séries e filmes sempre era exibida com a estrutura de uma metrópole com a qualidade de vida interiorana.
E o meu preconceito com esse detalhe urbanoide é que sempre que analisava o momento do surgimento do movimento punk e consequentemente as suas vertentes musicais punk rock as imagens que predominavam eram cenários industriais ou de ruas marginalizadas.
Todo o background de contracultura estava associado a certas decadências da sociedade, e as cidades sempre foram determinantes, pelo menos para mim.
As mudanças políticas que trouxessem desequilíbrios sociais teriam por efeitos estragos nas belas ruas e suas fachadas com as pichações de anarquistas insatisfeitos, números de desabrigados, vadios e outros indivíduos cuspidos para centros comerciais e bairros do submundo.
Quando o João Gordo explicou que Green Day era punk sim, mas um punk californiano, essa ideia intricou na mente de vez.
E toda vez que via uma banda nova que declarava punk, mas que era de uma cidade fodástica ou do primeiro mundo eu meio que torcia o beiço e menosprezava.

Green Day era um exemplo.
Um dos meus sonhos de adolescente era morar na Califórnia num triplex, curtir a vida enquanto rolasse a greenback boogie no meu bolso com o inevitável sucesso da minha carreira de cineasta.
Nunca conseguia imaginar uma revolta punk surgindo de um lugar como a Califórnia.
Anos se passaram e a banda Off With Their Heads lança o álbum Be Good.

Pois bem, esse árabe adulto e que nunca mais sai nas ruas de preto com coturnos e correntes ainda tem seus preconceitos.
Mas alto lá!
O amadurecimento torceu minha mente. Faço careta de bate e pronto, porém, ouço as faixas disponibilizadas pelo canal da gravadora (Epitaph Records) no Youtube.
E eis que relevei com a simples noção de que a ambientação não parece mais um fator tão determinante para a “revolta”.

Talvez seja o momento atual deste século, em que todas as previsões sombrias do cyberpunk se revelam com espectros coloridos e todos humanos sempre excepcionais e felizes em seus avatares virtuais ao invés de céus escuros, paisagens monocromáticas e personas pálidas e taciturnas.

Be Good tem um vocal gutural e carregado em boa parte das faixas.
Mas ainda assim o som que tem sim uma aproximação do punk rock traz uma sensação de estranheza quando parece estar dando esperança.
Se na banda nacional Os Replicantes a música Festa Punk exaltava uma revolta por aqueles que queriam uma festa que rolasse discos punks, Be Good tem uma faixa intitulada Death.
Com um vocal sem letra, e um instrumental que se encaixaria em uma porrada de banda indie.
Be Good até parece uma evocação de revolta, em época de social medias, fastnews, fakenews, ansiedade, neo-facismo, populismos e moralização exaltantes de todos os espectros de polarizações.
“Seja Bom” seria a saída mais simples e de melhor resultado para um revoltado, mesmo que ele já seja cidadão de uma cidade bonita e farta.

Pô! E justo quando eu estava tentando captar a pegada do álbum, enquanto buscava outras faixas, me deparei com a capa:

Be Good

Be Good

A imagem, claramente uma foto amadora, mostra mulheres em trajes aparentemente menonitas, a curtir uma tarde na praia tendo ao fundo uma torre de refrigeração de uma usina nuclear dando um aspecto um tanto bizarro.
Para fins marqueteiros o ambiente ainda parece ter peso afinal…

Ma’a salama!

Our Boys – Parte 1

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, anunciou, de forma idiota como sempre, que a série Our Boys, transmitida pela HBO, falada em hebraico e árabe é antissemita.

Assisti ao piloto da série, que me cativou mais do que também a israelense Fauda (disponível na Netflix).

Antes de prosseguir, preciso deixar claro aos que não me conhecem que não nutro simpatia por nenhum tipo de extremismo.
E até mesmo no caso da causa palestina tenho meus ideais mais focados em empatia pelos lados envolvidos e com apelo ao conceito de diplomacia que todo nobre ser humano deveria se esforçar em partilhar antes de atirar a primeira pedra.
Não cresci com uma foto do Arafat na sala, tudo sobre a minha terrinha foi aprendido mais no pós 11 de setembro por vontade própria (meu pai voltou para nosso país natal um ano antes do fatídico dia e antes disso nunca me ensinou ou doutrinou sobre a tal causa) e sobrevivendo ao conteúdo absorvido na adolescência enquanto tentava me encaixar em alguma legitimidade de identidade.
Não sou nenhum Gandhi da vida, mas estou longe de evocar fogo e sangue, e consigo analisar os fatos com um olhar mais frio e “científico” do panorama todo.
Dito isso, espero que leiam, sem comichão de comentar prós ou contras ignóbeis, esse conteúdo sobre a série que irei postando conforme for assistindo aos episódios.

Os eventos da série são sobre o verão de 2014, em junho/julho, em que três garotos judeus são sequestrados na Cisjordânia e posteriormente encontrados mortos.
Tal episódio comoveu Israel, com grandes campanhas pelas buscas, criando levantes do exército sobre os territórios ocupados em semanas de aflição.
Na época, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que tal sequestro foi obra do grupo terrorista Hamas, algo que a organização negou veemente, e isso já seria ponta de desconforto político, pois todo grupo extremista não perderia tempo de assumir seus atos pelo simples conceito de espalhar o terror.
Assim que os corpos dos três garotos foram encontrados houve grandes levantes populares em diversas regiões, e em uma dessas aglomerações um jovem palestino foi sequestrado e queimado vivo por extremistas judeus.
Na sequência, manifestações no lado palestino eclodiram por todos os territórios e o Hamas, para ganhar protagonismo iniciou ataques de foguetes contra os territórios israelenses, que forçou ao exército ao contra-ataque deflagrando a batalha que foi batizada de Operação Margem Protetora.

O piloto mostra apenas o início de tudo, começando com uma ligação de um dos sequestrados e percorrendo os personagens dos envolvidos na investigação e do outro lado mostrando a outra vítima, o jovem palestino morto após a descoberta das mortes dos três jovens judeus.

Our Boys

Our Boys

O mais interessante no que diz respeito a produção da série é divisão de direção.
Enquanto que Joseph Cedar dirige sobre os eventos do lado israelense, Tawfik Abu Wael, de origem árabe, dirige o desenrolar no lado palestino.
O próprio título nos créditos iniciais aparecem em hebraico e árabe saudando a coprodução e participação conjunta.
Fauda tinha um pouco disso também, embora ficasse mais nos atores árabes a participação, sem abertura para produção.

Our Boys tem tudo para ser a série que eu queria ver sobre o conflito que ocorreu em 2014.
Critica os lados políticos sem se agarrar a outro lado político, focando, sem ser piegas, em um alicerce mais puro: as jovens vítimas que toda guerra santa maldita abocanha.

Ma’a salama!

Fé nos Heróis

Comecei a assistir a série The Boys, da Amazon.
Ela é baseada na ótima HQ dos criadores Garth Ennis e Darick Robertson.
Ótima no sentido de doentia, perversa e sem pudores, vale a pena ressaltar.
No universo apresentado, os heróis nascem aos montes pelo mundo, nem todos excepcionais, mas há um número considerado de super-humanos.
Não quero entregar muita coisa, e gostaria de evitar spoilers desnecessários, então para evitar é só desconsiderar os textos em itálico e sublinhado.

O impacto maior no piloto é em duas cenas que afetam diretamente mulheres, como a desintegração por impacto de uma garota, namorada de um dos personagens principais, por um dos heróis mais famosos do mundo.
E quando uma heroína jovem, cristã e que combatia os malfeitores no interior com o codinome Starlight é selecionada para ser integrante da nata conhecida como Os Sete.
No primeiro dia de ofício a pobre garota em sua inocência e ingenuidade heroica acaba por sofrer um abuso doentio pelos maiores heróis desse universo especulativo.

Os efeitos são bons, a produção não deixa a desejar em questão de cenários mistos com fictícios e reais
E o fato de estar assistindo essa série é que me lembrou as razões de ter um roteiro de HQ que flerta muito com esse estilo de descontrução de heróis.
ALÔ EDITORAS! INTERESSADOS INBOX ME!”
Porém, acho válido deixar claro que o meu projeto é menos doentio que o The Boys.
Ele é ambientado num Brasil futurístico, em que tomamos as rédeas do domínio global.
E os heróis aqui se mantém em sua simbologia pura. A desconstrução viria em outros conflitos.
A noção inicial provavelmente veio de Watchmen, quando li a excelente e mais fodásticas HQ’s, escrita pelo lendário Alan Moore e com uma arte groudbreaker de Dave Gibbons.
O filme lançado dois anos depois de eu ter lido essa HQ, pelas mãos de Zach Snyder, fincou ainda mais esse conceito da perda de fé nos heróis.
Agora, esse conceito voltou a ser explorado pelos grandes estúdios.
Não somente The Boys está no páreo pela Amazon, como a série Watchmen virá pela HBO mostrando os acontecimentos após a HQ original.
Recentemente, para quem acompanha mais as HQ’s também se deparou com a virada em 180º do Capitão América, em que se revelou como um grande agente infiltrado da Hydra.

Mas além de todos esses exemplos a minha série de HQ preferida é Imperdoável (Irredeemable) escrita por Mark Waid.
Ao que parece ela veio para o Brasil pela editora Devir.
A história de Imperdoável se resume de forma mais simples como um Super-Homem que pirou e se tornou vilão. No caso desse universo, ele é conhecido como Plutoniano.
E há grandes referências dos mais populares heróis dos maiores selos da Marvel e DC, além de outras da cultura pop (o personagem Qubit me pareceu uma homenagem ao Doctor Who).

Imperdoável
Imperdoável

O nosso interesse por heróis que mudam de lado, que nos fazem perder a fé em sua simbologia não é atual.

Esse espasmo iconoclasta vem das odes de deuses gregos, que ora transitavam entre os meros mortais.
Não raro eles eram retratados com seus sensos de justiça de forma egocêntrica, extrapolando um dualismo mais pertinente aos humanos.
Nos tempos atuais perdemos a ingenuidade nos políticos, em seus discursos, quando sabemos que há muita coisa por trás.
Não falo de maniqueísmos de sociedades secretas, mas sim da consciência das propagandas para manter aquela antiga imagem.
Pior do que essa falta de imagem vem o mote do “Ele fala o que pensa”, e as imagens da simbologia centrada se perde para populismos.

Trabalhar com esse conceito no fim das contas é complicado.
Se eu analisar o meu projeto engavetado vejo que o que prevaleceu foi um equilíbrio entre iconoclastia e a antiga fé nos valores heroicos.


Ma’a salama!

Termos buscados

Não é a primeira vez que posto aqui algo que ativa a minha curiosidade quando o assunto é search terms (termos de busca).
Demonstrei de forma nada modesta alguns termos que levavam desconhecidos até esse site, cujo domínio é o meu simples nome (a saber: Mohanad Odeh)
Pois bem, mais uma vez venho aqui prestar esse serviço de autopromoção do meu trabalho criativo.
Então, esteja avisado de que daqui pra frente o assunto pode ser interessante somente se você acompanha o que é postado nesse site.

A plataforma web que utilizo para administrar o site é gratuita e possui ferramentas úteis que permitem uma visão gerencial que atende as minhas necessidades.
Um dashboard indica visualizações do site além das páginas acessadas, separando por períodos, visitantes e até países.

E além disso, há uma seção que indica as visualizações recentes e outra com termos recentes pesquisado em buscadores, seja Google, Bing, Baidu, Qwant, Yandex (sim, o Google não é o único deus) e etc.
Muitos termos que aparecem lá já me arracaram risadas, pois é retrato do que acabam buscando nesses motores que conectam a vasta rede global compartilhada.
E muitos que aparecem por lá, acabam por atiçar a curiosidade e saber qual página do meu site a pessoa acabou por visualizar.
Além do meu próprio site, também fico curioso quanto a essa investigação.

Dias desses, um amigo comentou que queria matar algumas dúvidas sobre a 2ª Guerra Mundial e ao digitar o nome do bigodinho que causou o que causou apareceram sugestões do auto-complete, sendo uma delas a que faz o queixo cair: “Hitler era baiano“.
Em sua grande maioria, os mecanismos de auto-complete ignoram pontuação como interrogações, mas associa internamente com ramificações que indicam dúvida e não somente afirmação.
Dessa forma, encontrei uma postagem no twitter em que alguém dizia que o bigodinho era baiano porque a tradução para “mein fuhrer” é “meu rei”.
Saciou a minha curiosidade e, pelo menos para mim, é o que mais fez sentido ao termo buscado, mesmo que seja uma manifestação cômica no melhor estilo “Hue hue hue br br br”.

Voltando ao meu site, já senti uma ponta de felicidade quando vi “Aparelho que os jedi usam pra respirar debaixo d’água” levando a uma página daqui.
A sensação de ter contribuído com a comunidade nerd foi momentânea, pois a página acessada (Jedi usa relógio?) não responde a questão levantada, e cuja resposta tive que buscar para sanar outra inquietude que esses termos incitam.
A99 Aquata Breather é o nome do dispositivo que os Jedi utilizam para respirar embaixo d’água.

Tenho um texto cujo título é “Engasgado com Farofa e Carne Seca”, aliás, devo aproveitar e dizer que aqui há vários textos
de minha autoria disponibilizados gratuitamente para apreciação, e que, embora raramente, rendem retornos positivos e negativos.
Não darei abertura para reclamações quando meus textos estiverem em plataformas pagas (o que pode ser real num futuro próximo), pois pretendo deixar muita coisa aberta por aqui.
Enfim, há esse texto intitulado “Engasgado com Farofa e Carne Seca“.
Ele é simples, escrito como uma forma de exercício em que um amigo que trabalhava comigo num dia de ócio levantou o desafio através de uma postagem do Buzz (serviço extinto do Google que ambicionava ser um Twitter) em que eu deveria escrever um conto rápido que envolvesse preconceito, comida e morte.
Como disse anteriormente, o ambiente gerencial do site indicou uma visualização desse texto, no mesmo dia em que surgiu o termo buscado que o levou até ele:
Morri engasgado com farofa
O verbo no pretérito perfeito faz parecer que a frase foi escrita por um Brás Cubas (por favor entendam a referência de nossa literatura clássica) e novamente a curiosidade veio.
Para esse mortal que vos escreve o mais comum seria algo como “o que fazer ao engasgar com farofa” ou afins.
O que para efeitos práticos, meu texto não teria utilidade alguma.
A curiosidade aumentou quando surgiu uma mensagem no mesmo no site: “Isso ai aconteceu de verdade???”

Morreu engasgado
Mensagem do além


A pessoa não postou nos comentários do texto, enviou como mensagem privada, e não detalha a dúvida dela, mas considerando os rastros desse dia, creio que seja a mesma que chegou ao texto pelo termo buscado.
Bom, meu caro leitor eventual, conforme respondi também no particular: não.
Os contos publicados na categoria “Textos” do site são ficções, mesmo que realistas, fantásticos, com pé na científica, ou tramas policiais.
Eventos reais são mencionados em outras categorias, como por exemplo “Da Boca pra Fora“, em que costumo resenhar filmes, músicas, quadrinhos, livros e afins.
Ainda não sei se a minha resposta ajudou a visita inesperada em seu momento pós-vida, mas espero que mesmo no além, tenha se interessado por meu trabalho, afinal,
um dos maiores propósitos do site é o de divulgar esse ofício incompreendido que se apoderou de minha alma.

Talvez, nessa ânsia de que mais pessoas cheguem a esse pequeno espaço na grande rede mundial compartilhada, acabo por me deparar com situações dessas.
É o preço por ter optado em escrever assuntos variados.
E olha que sou negligente e procrastinador, posso ter evitado uma penca de “quedas” aqui, por pessoas que estejam buscando algo mais útil que meus contos e pertubações.

Ma’a salama!