House of Cards – O Fim

Com o intuito de anuviar o resultado ainda polarizado pós-eleições decidi me afundar na última temporada da série original da Netflix House of Cards, adaptação americana da homônima mini-série britânica.
E como bem lembro, quando vazaram áudios comprometedores ao presidente Temer a conta do Twitter da série havia postado:
“Tá difícil competir” 
Pois bem, a série consegue nos distrair, meros mortais, cidadãos das terras tupiniquins, do nosso peculiar cenário político.
Suas nuances ainda se mantém como nas temporadas anteriores.
E o que mais chama a atenção nessa temporada, além é logico, de sua conclusão, é a curiosidade de como a produção trabalhou para se manter diante da saída de Kevin Spacey, ator principal que dava vida ao personagem Francis Underwood.
Para os desavisados vale lembrar que Kevin foi demitido após surgirem acusações de agressão sexual contra dois atores menores de idade entre outras de má conduta nos sets dessa fabulosa série.
O efeito prejudicou enormemente a carreira do ator, que, não podemos negar o seu talento (vide filmes como Seven, Os Suspeitos (Usual Suspects) e Beleza Americana (American Beauty)), mas que foi compreendido a refilmagem quase que completa do filme Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World) em que seu papel foi reencenado pelo veterano Christopher Plummer.
Além do escândalo ter surgido no apogeu do movimento Me Too, em que várias atrizes se pronunciaram sobre agressões sexuais em Hollywood, um dos motivos que tornaram Kevin Spacey um merecedor de certo excomungação foi o fato de no momento de sua defesa ter dado uma “carteirada gay”, como se justificasse suas agressões ao jovens.

Amigos e amigas, daqui pra frente terá uma penca de spoilers, então, se quiser evitá-los, esse é o momento, mas ficaria grato se retornar a esse post após ter assistido.

POTUS

POTUS



E é com todo esse clima de empoderamento feminino que a derradeira temporada se inicia, e não por mero oportunismo do momento.
É claro o acerto e sorte que a temporada anterior terminou com o afastamento de Francis Underwood da presidência, facilitando e muito o trabalho dos roteiristas de justificar o desaparecimento do rosto até então principal dessa série, que usa muito o artifício da quebra da quarta parede (quando o ator fala diretamente ao espectador).
Quando a atriz Robin Wright liberta um passarinho, declarando que “dor é dor” e desfazendo uma das primeiras grandes frases ditas nos primeiros minutos da série, lá nos idos anos de 2013, sabemos que sua personagem terá não somente uma voz própria, mas com a força necessária que o feminismo vem alcançando atualmente, pois, vale lembrar, estamos falando do mais importante cargo do planeta, quando um POTUS será uma mulher?

O mais surpreendente é que mesmo com as menções a Francis Underwood não senti falta de Kevin Spacey.
As cenas em que indicam o seu funeral ou tudo o que permeia sobre ele na mídia, nada disso deixa escapar única imagem sequer do rosto de Kevin Spacey, e isso é bom, notório de um ótimo trabalho de roteiro, que mostra a todo momento que os preconceitos ao fato de uma mulher ocupar o cargo de Chefe de Estado da nação mais poderosa do mundo está, nas entrelinhas ou diálogos diretos, como na cena em que Claire Underwood está cumprimentando soldados que irão para uma missão na Síria e uma soldada a confronta questionando sobre se ela tinha um plano sobre poupar as vidas das forças que estariam em campo, ao que a resposta da presidente é: “Você me perguntaria isso se eu fosse um homem?”, deixando a militar sem réplica.

Há também outras nuances que conseguem se reconectar com o público atento ao assunto feminista, e sim, vai de abortos escondidos por ela para não impactar a carreira política do casal, até a gravidez (It’s a girl!) que surge de forma quase que como um baque (a personagem e atriz aparentam ter mais de 50 anos), além de certos abusos que ela comete ao apropriar da imagem de mulher frágil num cargo que vem traições de todos os lados possíveis, e sua aula de como uma imagem sua chorando foi concebida, indicando que a encenação não é tão simples como parece.

Fragilidade? Não se deixe enganar

Fragilidade? Não se deixe enganar



Há um ponto marcante e mais digno de atenção, que é o do momento em que ela demite todo o seu gabinete e o renova inteiramente com mulheres, com a pretensão de mostrar ao mundo sua visão, sua ideia de criar um legado e uma nova era na política que mexe com o globo inteiro.
Outro, muito marcante, é quando ela toca na ferida no episódio final, dirigido pela própria Robin Wright (mas ela já dirigiu outros nas temporadas anteriores, não foi mero apelo ideológico), em que questiona  aos presentes na “war room” sobre uma decisão sua de grande impacto mundial que envolve os russos e o grupo terrorista OCI (alusão ao ISIS), se alguém que conhece a palavra misoginia saberia dizer qual é a palavra designada por odiar homens. No silêncio dos presentes ela diz: “Misandria. Eu tive que procurar”, e completa indicando que sua ideia é que “todos, independente de gênero, deveriam reavaliar as noções preconcebidas sobre quem pode ou não atuar como chefe de Estado”.

Além de todo esse deslocamento que o escândalo de Kevin Spacey permitiu, a série prolongou o momento mais fantasioso acerca das conspirações envolvendo governo e mega-corporações familiares, em dá outro espaço a uma atriz antagônica que tem ligação direta no passado de Claire Underwood, sendo uma amiga de infância, e eis que temos vários takes de flashbacks com cenas da infância e adolescência da atriz principal, algo até então inédito na série, pois todo o passado de Francis Underwood era ditado somente em comentários.

House of Cards foi uma série que me cativou nesses últimos cinco anos (Caraca! Como o tempo voa). Sua trama não tão complexa, mas permeada de trajetórias com reviravoltas nem tão previsíveis, escancarando um mundo tão distante da realidade do povo (da minha, pelo menos) em que há uma concepção milenar e maduro da democracia, que se sustenta, ainda, apesar de todos os seus defeitos, como o melhor modelo que a sociedade humana deve seguir, mesmo que envolta em mecanismos de interesses ocultos e nada igualitários perante ao resto dos cidadãos.

Fiquei feliz com o resultado final, com as emoções sobre os fins nada dignos de personagens que lutavam de fato pelo bem da democracia, e aceitando o daqueles que fizeram parte das arapucas engendradas desde o início da malandragem de Francis Underwood e que coube à Claire se desfazer para se distanciar de tudo que pudesse comprometer a ela e sua permanência no cargo, e ainda, até a surpreendente cena final, com a ameaça de que tudo pode ruir e dar errado para ela, nos lembrando a todo momento que esse mundo de poder não passa de um mero e delicado castelo de cartas.

Ma’a salama!

 

 

 

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Trecho

Um formigamento nos pés indica que meu corpo não aguenta mais ficar deitado.
O engraçado é que até agora fico medindo esforços para pensar que tipo de veneno tomei.
Dependendo de qual fosse, queimaria minha garganta ao ingerir.
Não me lembro de ter queimado a garganta.
Se outro mais ameno, não poderia ter provocado o vômito de jeito algum.
Existe veneno que é tão mortal que bastaria uma gota para matar cerca de dez homens.
Sei também que há um tipo de veneno que estimula os pulmões a um tipo de relaxamento semelhante ao que o óxido nitroso provoca, e o resultado é a absorção do que você comeu direto pelo órgão respiratório.
O veneno de uma cascavel é fatal. E se não me engano, o veneno de uma viúva-negra é quinze vezes mais forte do que o de uma cascavel.
Vários nomes de substâncias tóxicas percorrem minha mente. Arsênico, Cianureto, Ricina, Estricnina.
Mas nenhuma associação está sendo possível.
Não consigo me movimentar. O que controla muitas funções sensoriais e motoras como movimentos oculares e a coordenação dos reflexos visuais e auditivos é o mesencéfalo. E, a essa altura, o veneno que não faço ideia qual seja o afetou completamente.
Agora, o mais interessante é a pergunta: quem me envenenou?

-Trecho de Simplesmente Complexo (Capítulo Um – Mesencéfalo)

Leia trechos maiores e até capítulos inteiros pelo Google Books.
Disponível nas livrarias: Saraiva, Martins Fontes, Loyola, Cultura e muitas outras.

25 de julho – Dia do Escritor

Quando descobrem que você é escritor:
“Você é escritor?”
“Sou”
“Nossa que legal! Tem livros publicados e tudo mais?”
“Sim”
E quando a empolgação aquece o peito no aguardo de perguntas sobre o gênero,  trama, estilo, inspirações e afins, vem o desânimo:
“E quantos livros você vendeu?”

Depois não entendem porque escritores perdem a sanidade.

Jack, personagem de O Iluminado, cansado dessa pergunta

Jack, personagem de O Iluminado, cansado dessa pergunta

 

Meu próximo livro será publicado :)

É com imenso prazer e grande alegria no coração que lhes informo que meu próximo livro será publicado.
A 2ª fase de seleção da editora Nocaute terminou depois de um longo mês, a ansiedade transformou fevereiro em dois agostos.
Não ganhei na votação online, mas agradeço a todos que acreditaram e votaram em mim.
Fui escolhido pelos editores na proposta definida por eles assim que divulgaram a 2ª Fase de seleção.
Os detalhes da escolha pode ser conferido clicando aqui.
Concorri contra outros quatro na etapa da votação online, e contra os outros três que não venceram nessa primeira.
A qualidade de cada obra não deve deixar dúvidas, afinal, nós cinco fomos selecionados em mais de cem originais enviados para a Nocaute no ano passado. Então, tenho certeza de que meus oponentes eram nada modestos Toguros (o musculoso da imagem abaixo; vilão do anime Yuyu Hakusho)

A Luta não foi fácil

A Luta não foi fácil

Mas, cá estou anunciando que terei mais um livro a ganhar prateleiras e catálogos de livrarias Brasil afora.
A Melhor Parte da Mentira será publicado pela editora Nocaute, muito provavelmente, nesse ano.
Não temos a data ainda, haverá todo um processo de edição e inúmeras revisões, mas entrará no cronograma de publicações desse ano.

Agora, estou a sentir esse êxtase e felicidade, é uma sensação indescritível.
Mais uma vez agradeço a todos que votaram em mim, espero que gostem do livro.
Essa vitória é dedicada a cada um que acreditou nessa “mentira”.

 

Vitória!

Vitória!

Shukran (obrigado)!
Ma’a salama!

Meu Próximo Livro

Então.
Sabe você que vivia me perguntando se eu estava escrevendo o meu próximo livro e sempre respondia que não, que a vida está corrida e nenhum tempo de sobra possibilitava essa arte estranha que é escrever?
Eu menti pra você.
Pois é, descaradamente mentia. Sem pudor.
Mas como o meu próximo livro tem como tema principal a mentira, então sou absolvido de certa culpa. Assim o penso, como um ator que comete atrocidades em nome da vivência do personagem.

Fui selecionado em mais de 100 originais, sou um dos 5 finalistas da nova fase de publicação da editora Nocaute.
Mas a luta não terminou ainda.
A editora abriu uma votação popular, em que você, poderá me ajudar votando no título do meu próximo romance.
Para tal, basta acessar essa página e me escolher: 2ª fase de seleção editora Nocaute
É simples e rápido, requer somente nome, cpf e e-mail.
Ah, e é lógico, me escolher, o título do meu original é A Melhor Parte da Mentira.
Tem a sinopse lá.

 

Próximo livro

Próximo livro

Grato desde já.

Ma’a salama!

O Melhor de 2017

Dizia em algum fórum de teóricos da conspiração que 2017 seria o terceiro centenário da franco-maçonaria, e que em tal aniversário os donos do mundo queriam colorir os céus com fogos nucleares para celebrar o seu domínio universal.
Apesar de o Doomsday Watch ter avançado alguns minutos para a meia-noite com os dois doidos de pedras com poder a trocarem insultos e ameaças, a saber Trump e Kim Jong-Um, tudo correu bem. Com a exceção de uma bomba-mãe lançada no Afeganistão pelos EUA, nenhuma ogiva nuclear voou pelos céus.
De foguetes, espero somente os da SpaceX e agências espaciais afins a caminharem rumo ao progresso humano, e não à destruição.

A gafe de início de ano foi na cerimônia do Oscar, em que erraram a nomeação do prêmio principal da noite, o de melhor filme, fazendo todos os produtores e atores de La La Land subirem ao palco receber a estatueta até perceberem que não eram os reais vencedores. Moonlight venceu, rendendo até música de Jay-Z sobre a sua nova exteriorização de músicas sobre o racismo contemporâneo.

Jordan Horowit exibe o real vencedor da noite: Moonlight

Jordan Horowit exibe o real vencedor da noite: Moonlight

Embora até esse minuto eu esteja no Hype do episódio 8 de Star Wars, o filme do ano foi com certeza Dunkirk de Christopher Nolan, sobre a batalha perdida na praia de Dunquerque, em que a sobrevivência se transforma na maior vitória em cenas de desespero acompanhadas pela rima de tensão de uma narrativa não linear entre diferentes pontos de vista dos acontecimentos e da trilha sonora do compositor Hans Zimmer em que abusou da Escada de Shepard.

Dunkirk: Sobrevivência é a maior vitória

Dunkirk: Sobrevivência é a maior vitória

Outra pérola foi Blade Runner 2049, um filme com excelente produção de arte, acertou em não realizarem um remake, a opção da continuação deu folego ao clássico, cuja missão não seria de superar o original de 1982. Embora o filme tenha sido um dos melhores do ano, não é para qualquer espectador, a duração de pouco mais de duas horas e quarenta minutos para uma narrativa sem muita ação num futuro cyberpunk pode ter feito alguns desavisados saírem reclamando do filme. Azar o deles…

Na telona brasileira o filme do ano foi Bingo: O Rei das Manhãs, do direto Daniel Rezende, que foi indicado ao Oscar de melhor montagem por Cidade de Deus em 2004.
O filme mostra a vida de um ator de pornochanchadas tentando subir na carreira, até que se arrisca num teste de audição para o papel de um apresentador de um programa infantil vestido de palhaço que fazia sucesso nas tevês americanas, mas que por aqui o padrão do roteiro não estava vingando, até que o ator decide improvisar e tomar aulas com um palhaço de circo de verdade, interpretado pelo falecido Domingos Montagner. Vladimir Brichta tem uma ótima atuação nessa história em que um palhaço doido num programa infantil nos anos oitenta acaba em drama.

Bingo: típico programa infantil dos anos 80

Bingo: típico programa infantil dos anos 80

Logan foi uma grande surpresa, estava com o pé atrás pelos trailers que havia visto, o resultado foi magnifico na despedida do papel de Hugh Jackman como o mutante machão que levou muito chumbo na vida. Além do pesar dos personagens, as cenas de ação ficaram sublimes por sua simplicidade. O que ocorreu no cassino, sem muito CGI me deixou extasiado.
Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes) foi outro ponto alto do ano. Com coragem de fecharem a trilogia sem deixa para continuação, o filme foi perfeito em mesclar elementos de outros gêneros, além do clima do clássico Apocalipse Now havia cenas em que senti requintes de um faroeste.
Menções honrosas: Corra! (Get Out!), Trainspotting 2,  Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), Fragmentado (Split) na brilhante volta de M. Night Shyamalan, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of Thousand Planets) e Sully – O Heroi do Rio Hudson (Sully).

No mundo das séries, Game of Thrones atingiu o seu apogeu em audiência e popularidade, mas senti que essa temporada foi menos conclusiva que a anterior, os Caminhantes Brancos pareciam o povo hebreu da época do êxodo vagando no deserto, demoram muito para chegar até Westeros e a desculpa de que precisavam do dragão não cola, visto que teriam todo o processo adiantado se tivessem beirado a muralha.
A estreia mais aguardada teria sido Deuses Americanos (American Gods), baseada no livro de Neil Gaiman, sobre uma guerra entre os antigos e novos deuses. Apesar dos episódios terem se estendido de forma redonda com a primeira parte do livro e o final ter ficado modesto, há dúvidas se a série continuará, pois o diretor e produtor Brian Fuller já sinalizou problemas de divergência criativa com os estúdios. Seria outra furada do diretor que já nos deixou órfãos de Hannibal?
Pude cumprir com a minha meta de matar as séries Californication e Mad Men.
Californication possui episódios de curta duração, menos de 30 minutos, enredo simples, muitos dos quais com finais previsíveis, mas me cativou quando mais moleque (entenda-se algo entre 21 anos), talvez pelo fato de ser na Califórnia. Ou então, se for mais verdadeiro comigo mesmo, pelo fato do personagem principal Hank Moody (David Duchovny) ser um escritor boêmio que pegava muita mulher top e eu deve ter pensado que ser escritor seria isso…
Já Mad Men, que série engenhosa! Acho que ficaria no meu Top 5 de séries. Em muitos momentos parava e pensava que não passava de novela, mas como me desgrudar desses episódios? Muitos personagens bem trabalhados nas tramas, o roteiro de acordo com a época, muitos detalhes históricos entremeados (década de 1960) com tudo que podia se afetar, fosse na área da publicidade e propaganda, fosse no cotidiano.
Mas a série que me cativou de maneira incompreensível foi a temporada de Twin Peaks desse ano, continuação da primeira temporada de 90-91, isso mesmo, essa série veio ser continuada após todo esse tempo, com apenas um filme prequel lançado em 92 intitulado Twin Peaks – Fire Walk with Me.
Em vários episódios (se não em todos) me perguntava: “Por que estou assistindo isso?”, pois além de não ter assistido à temporada original, mea culpa eu sei, a história tem um pontos de liberdade criativa excessiva, pois o diretor nada mais é que David Lynch, que já o conhecia por filmes como Duna (Dune) e Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive).
Twin Peaks pode ser comparado a um Arquivo X, porém, com requintes de filme arte feitos com baixo orçamento, há efeitos especiais mais simples dos encontrados em episódios antigos de Power Rangers, no entanto, as cenas, diálogos, personagens excêntricos e fotografias dedicadas te prende, e por mais que você não saiba a razão de assistir aquilo verá até o último episódio e ficará torcendo para que a próxima temporada não demore outros 25 anos.

Twin Peaks O Retorno: se não entender 90% dessa série e ainda assim adorar, bem-vindo a bordo

Twin Peaks O Retorno: se não entender 90% dessa série e ainda assim adorar, bem-vindo a bordo

De HQ’s achei um ano fraco, não foi muita coisa que me atraiu atenção, apesar de diversos títulos terem sido lançados. A exceção foi a nacional Rio 2031, de Giuseppe Andreozzi e Gabriel Picolo, em que num futuro não muito distante o mundo se vê em uma nova guerra fria, divida entre as potências TheNation e NewState, criadas por conglomerados de multinacionais. Em cada uma dessas novas superpotências existem os TIMED’s, meta humanos cujo poder tem limite que culmina junto com sua vida, por isso o nome de Timed.
No primeiro volume, vemos que o Rio de Janeiro ainda não se uniu a uma dessas potências, se transformando num palco de disputa entre milícias, mutantes e políticos.

Rio 2031

Rio 2031

No ano em que dominou Despacito e Shape of You o que me deixou naquele replay infinito foram as faixas do novo álbum de Gary Numan: Savage (Songs from a Broken World) e além delas, a intimista Bed of Thorns, faixa inspirada e incorporada à trilha sonora do filme Ghost in the Shell.
Além disso, Macaco Bong lançou um albúm estonteante, em que com o seu estilo fizeram uma releitura do clássico Nevermind, transformando-se no Deixa Quieto. O trabalho é de pirar.
Outro lançamento primordial para os meus tímpanos foi o álbum Death Song, da banda The Black Angels. Sim, o rock ainda vive, e melhor, respira sem aparelhos quando toca ao estilo psicodélico como na lúdica faixa Life Song. Viagem Pura.

Em um ano que foi se concluindo com muito stress uma leitura salvou minhas noites: John McLoving e a Busca do Mijo da Vida, do autor Mickael Menegheti.
Se o “Mijo” no título não passou despercebido pode ter certeza de que o livro também não foi apenas um nesse ano, dos nacionais foi o meu predileto, por ser de faroeste e ser recheado de comicidade em aventuras numa história alternativa em que o Brasil foi colonizado pelos ingleses, e ao invés de um Cristo Redentor há um enorme Big Ben no Corcovado. Mcloving é rápido no gatilho e danado a encontrar o que busca, mesmo que seja o mijo da vida, lenda indígena que o carrega numa jornada tresloucada entre vários tiroteios e bolas de feno rolando.

John McLoving: Faroeste num Brasil diferente

John McLoving: Faroeste num Brasil diferente

Dos internacionais foi Enclausurado, do inglês Ian McEwan que me deixou fascinado. Dando pinceladas de nostalgia literária ao me lembrar de Memórias Póstumas de Brás Cubas, pois o narrador da história nada mais é do que um feto, enclausurado no ventre da mãe, em diversas reflexões sobre o mundo que o aguarda, enquanto é testemunha do adultério da mãe com o tio e dos planos do dois para assassinarem o pai para ficarem com uma casa antiga como herança.

Enclausurado: um feto reflexivo e ansioso

Enclausurado: um feto reflexivo e ansioso

Sou do tipo que luta contra quando alguém diz que uma história “passou uma mensagem”, e não vou me contradizer aqui. Enclausurado reafirmou (e não mais do que isso) em mim a minha natureza míope: sou um otimista incorrigível.
E é com essa afirmação que encerro com a foto que mais me tocou nesse ano em que o holocausto nuclear não ocorreu como alguns teóricos da conspiração desejaram.
Nela, o morador Mohammed Mohiedin Anis de 70 anos fuma cachimbo e escuta música no quarto de sua antiga casa destruída em Aleppo, na Síria.
Apesar dos apesares, tamos aí! A vida tem muita arte e beleza para nos agraciar.

Mohammed Mohiedin Anis: apesar dos apesares, tamos aí!

Mohammed Mohiedin Anis: apesar dos apesares, tamos aí!

Ma’a salama 2017!