Star Wars 40 anos e Dia do Orgulho Nerd

Hoje é o Dia do Orgulho Nerd.
Data escolhida por ser o dia de estreia do primeiro Star Wars , hoje conhecido como Episódio 4 – Uma Nova Esperaça (Episode 4 A New Hope), em que o mundo conheceu a space opera que veio a se tornar na saga empolgante que criou toda uma cultura alternativa com seus mitos, símbolos e personagens idolatrados (Darth Varder deve ser o vilão mais admirado e adorado do mundo se comparado com os herois da saga).
Vale lembrar que a saga havia se encerrado com o Episódio 3 em 2005, mas em 2012 a Disney comprou a Lucas Films, estúdio do visionário George Lucas e renovou a franquia dando continuidade com o Episódio 7 – O Despertar da Força  (Episode 7 The Force Awakens) e sem previsão de fim, com a ambição de lançar um filme a cada um ou dois anos, proposta que está sendo cumprida até o momento.
Essa quarentona está num pique como se estivesse nos seus vinte e poucos.

SW 40 anos

SW 40 anos

O dia também é conhecido como o Dia da Toalha, em referência à hilária série O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams.

O conceito de ser nerd hoje se popularizou e muito com as diversas obras de ficção científica e fantasia adaptados nos últimos 20 anos.
Por mais que tudo seja uma gritaria demandada pelas grandes corporações do entretenimento é bacana ter uma data para celebrar esse gosto por magias e conflitos em outras galáxias para alegrar esses diferentões.

Ma’a salama

Trecho

Um formigamento nos pés indica que meu corpo não aguenta mais ficar deitado.
O engraçado é que até agora fico medindo esforços para pensar que tipo de veneno tomei.
Dependendo de qual fosse, queimaria minha garganta ao ingerir.
Não me lembro de ter queimado a garganta.
Se outro mais ameno, não poderia ter provocado o vômito de jeito algum.
Existe veneno que é tão mortal que bastaria uma gota para matar cerca de dez homens.
Sei também que há um tipo de veneno que estimula os pulmões a um tipo de relaxamento semelhante ao que o óxido nitroso provoca, e o resultado é a absorção do que você comeu direto pelo órgão respiratório.
O veneno de uma cascavel é fatal. E se não me engano, o veneno de uma viúva-negra é quinze vezes mais forte do que o de uma cascavel.
Vários nomes de substâncias tóxicas percorrem minha mente. Arsênico, Cianureto, Ricina, Estricnina.
Mas nenhuma associação está sendo possível.
Não consigo me movimentar. O que controla muitas funções sensoriais e motoras como movimentos oculares e a coordenação dos reflexos visuais e auditivos é o mesencéfalo. E, a essa altura, o veneno que não faço ideia qual seja o afetou completamente.
Agora, o mais interessante é a pergunta: quem me envenenou?

-Trecho de Simplesmente Complexo (Capítulo Um – Mesencéfalo)

Leia trechos maiores e até capítulos inteiros pelo Google Books.
Disponível nas livrarias: Saraiva, Martins Fontes, Loyola, Cultura e muitas outras.

Simplesmente Complexo – Onde Comprar

Dias atrás uma pessoa muito simpática me contatou informando que estava tendo dificuldades em encontrar o meu último livro para comprar.
Revisei os links da página dos meus livros e listo abaixo outros para quem mais estiver interessado nas memórias turvas de Gustavo que procura descobrir quem o envenenou.

É só clicar. ;)

Amazon
Google Play
Wook (ebook)
Martins Fontes
Livraria Cultura
Saraiva
Travessa
Walmart
Shopping Uol
Estante Virtual
Buscapé

Espero que tenham uma boa leitura.

Ma’a Salama

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)

A corrida espacial entre EUA e a antiga URSS entre os anos 1957 e 1975 foi uma disputa que criou um levante de empregos e prestadores de serviços para apoiar as agências espaciais. Os russos estavam na frente com o Sputnik, Laika e Yuri Gagarin, mas os americanos não deixaram o sonho morrer, com o aval de Kennedy passaram a mirar a Lua.
Mas Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) está anos-luz de ser apenas um filme que endossa a supremacia e idolatria americana focando em seus avanços científicos. Tem sim a Nasa de 1961, e um monte de engenheiros cdf’s empenhados em como colocar um ser humano num míssil gigante e enviá-lo para além das nuvens. Porém, é a história de três afro-americanas que torna tudo num drama clássico sobre uma superação não entre nações, mas de preconceitos que infelizmente ecoam até os dias atuais.

Acompanhamos as amigas Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Mary Jackson (Janelle Monáe) e Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) que trabalham no mesmo setor, mas destacadas para funções diferentes, com o foco centrado mais no trabalho de Katherine que como ótima calculadora com sólidos conhecimentos em geometria analítica vai auxiliar no Grupo de Tarefas Espaciais onde tem como chefe Harrison (Kevin Costner) que é durão, mas aos poucos mostra certo despontamento de justiça.

Quebrando barreiras: mulheres negras na Nasa

Quebrando barreiras: mulheres negras na Nasa

Todos os elementos do preconceito enraizado no estado da Virgínia que tinha como lei a segregação racial são expostos sem medo de chocar e na medida certa para não ser exclusivamente um condimento muito apimentado.
Sempre que sofria com o preconceito sentimos aquela tristeza nos olhos das personagens, que duram poucos segundos, porque as mesmas não se abalam e partem para cima no sentido de enfrentar as barreiras não com violência, mas com a determinação de que podem conquistar os mesmos direitos, pois são tão capazes quanto ou melhores naquilo em que atuam.

Momentos de mérito são vários, como a cena em que Katherine justifica uma pausa de quarenta minutos fora do escritório de Harrison porque o banheiro para pessoas de cor ficava a 1,4 km de distância e o diretor vai até o local com um pé-de-cabra arrebentar a placa Colored Ladies Room e diz  “Aqui na Nasa urinamos na mesma cor”

As outras duas protagonistas não ficam para trás, há julgamento em que Mary precisa conquistar o direito de cursar engenharia, algo impensável para uma mulher e negra na época.
Dorothy que é a primeira mulher negra a entrar na Nasa também se destaca por sentir que o trabalho das calculadoras será extinto com o avanço tecnológico dos computadores, e ao ver gigantes máquinas da IBM entrando no prédio vai a uma biblioteca procurar um livro sobre a linguagem Fortran porque sabia que alguém precisaria programar as máquinas para realizarem os cálculos.

Quem disse que mulher não manja de matemática?

Quem disse que mulher não manja de matemática?

Curiosidade é que a trilha sonora é de Pharrel Williams e deixa alguns momentos  menos amargos num drama que merece atenção não somente no prisma artístico, mas também numa comparação com os dias atuais, em que o preconceito contra negros é forte, mesmo nos EUA ou até mesmo aqui no Brasil.
Há quem diga que separações e conflitos trazem progresso, mas de que adianta quebrarmos as barreiras do universo e termos separações entre os próximos aqui na Terra?

Ma’a salama

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)

Foi difícil dar crédito ao trailer de Até o Último Homem (Hacksaw Ridge), achei que seria uma história religiosa cafona, principalmente quando o diretor é nada menos que Mel Gibson, que se envolveu em diversas polêmicas por suas ofensas antissemitas e racistas, inclusive depois de ter dirigido A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ), e todo o seu problema com o alcoolismo que impediu que ele fizesse uma ponta em Mad Max – Estrada da Fúria (Mad Max Fury Road) o que desfaz qualquer tentativa dele em parecer um bom cristão.

Mas quando fui introduzido ao filme, que tem Andrew Garfield como o protagonista de uma história de guerra real, percebi que essa é uma verdadeira obra realizada por quem dirigiu o épico Coração Valente (Brave Heart).
Há uma quebra na história semelhante ao memorável Nascido para Matar (Fullmetal Jacket) do Stanley Kubrick, em que a primeira metade se passa no camping de treinamento com um sargento durão compelindo os novatos a duros exercícios e ensinamentos de conduta e a outra em campo de batalha com os soldados a encarar a realidade de uma guerra em que o inimigo parece lutar de forma mais empenhada e embasada em sua ideologia.

No entanto, a diferença nesse filme é que o personagem principal, Desmond Doss, é adventista do sétimo dia e um Objetor da Consciência, fato que torna tudo mais interessante porque ele recusa portar uma arma durante o conflito.
A recusa causa indignação entre os colegas e superiores de farda. Quando questionado, Desmond diz que quer salvar vidas e não tirá-las, e seu alistamento não era para ser um fuzileiro e sim médico da tropa.
Há todo um processo de julgamento por indisciplina e insubordinação que mostra que tal pensamento mezzo religioso mezzo humanista não poderia ter lugar no exército do país que estaria a se tornar a maior potência mundial.

Andrew Garfield como o novato Desmond Doss

Andrew Garfield como o novato Desmond Doss

Esse não é o único empecilho na vida de Desmond, os problemas familiares não são ausentes quando se tem um pai alcoólatra que sofre com os traumas da Primeira Guerra mundial e que sempre foi violento para com ele e o irmão, e o fato de tal homem ser interpretado por ninguém menos que Hugo Weaving deixa alguns momentos memoráveis, como a cena em que o filho mais velho chega na mesa de jantar com um uniforme militar e o pai comenta sobre o amigo que adorava o uniforme e que levou o tiro pelas costas de modo que o sangue e as vísceras o sujaram, no fim, deseja que o filho levasse um tiro pela frente.
Há momentos cômicos, como por exemplo o romance que Desmond desenvolve com a enfermeira Dorothy (Teresa Palmer), tudo na inocência da época e aceitável pelo comportamento do personagem.

Os momentos de tensão chegam quando os soldados vão para a batalha, sendo um ponto de suma importância para que os EUA pudessem vencer a nação do sol nascente: Okinawa. Para quem assistiu a série The Pacific, ou simplesmente estudou a fundo sobre a Segunda Guerra, sabe o quão difícil foi vencer os japoneses lá.

Entre rajadas de tiros e um ambiente mortal que era localizado no alto de um desfiladeiro, não são ataques certeiros que fulgura o heroísmo de Desmond, mas sim seu desempenho em cumprir em que sempre acreditou: não matar.
E seus salvamentos sem nem mesmo tocar em uma arma garantem o filme naquele lugar no meu coração, tanto que muito lembrei de Gandhi, naquele filme em quem o interpreta é ninguém menos que Ben Kingsley. Onde a crença na não violência supera o mundo e seu estado de eternos conflitos.

"Mais um, por favor", era sua oração

“Mais um, por favor”, era sua oração

Não sou mais religioso, mas em tempos de Bolsonaro e alguns indivíduos que querem armar a população (justificando com passagens da bíblia…) e invocam a pena de morte, só consigo pensar num dos mandamentos mais importantes e que sempre teve peso em minhas reflexões:
Não matarás!

Ma’a salama

Lion – Uma Jornada para Casa (Lion)

Aqui começo a falar sobre os indicados que são baseados em histórias reais, não criei essa separação propositalmente, me dei conta agora.
O filme conta a história de Saroo Brierley, que ao cinco anos de idade se perde da família ao embarcar sozinho num trem enquanto procurava o irmão mais velho Guddu que o havia levado para um “trabalho” noturno numa estação ferroviária.
O trem havia sido recolhido para uma parte longínqua da Índia, deixando a pequena criança longe de casa não somente pela distância geográfica como também cultural, os diversos dialetos do país dificultam a comunicação quando ele tenta explicar de onde vem.

Desolado por não encontrar quem o ajuda em Calcutá acaba por enfrentar situações de perigo expostos como uma crítica social ao segundo país mais populoso do mundo.
O jovem é oriundo de uma família pobre, o que dificulta a busca da família por ele, fato esse não detalhado, talvez, como elemento que priorizava a solidão e desemparo do personagem.

Pequeno Saroo

Pequeno Saroo

Após muitos minutos de aventuras em que torcemos pela criança somos levados a um salto temporal de vinte anos quando um casal australiano adota o pequeno Saroo, sendo a mãe adotiva nada menos que Nicole Kidman.
E entra em cena Dev Patel como o Saroo adulto, que está aos poucos deixando o ninho para os estudos e se relacionar com Lucy (Rooney Mara) que conhece numa reunião multicultural muito plausível na Austrália.
Em uma casa em que há outros indianos um doce ativa uma lembrança antiga, e Saroo sente o peso do passado vir à tona.
Seguindo indicações ele decide procurar sua família utilizando o Google Earth, numa empreitada longa e cansativa que acaba por culminar num conflito com a vida atual de Saroo.

Lion é um filme emocionante, não posso discordar.

Mas a segunda parte do filme, em que acompanhamos a sua busca entremeada de lembranças do passado, com figuras preservadas de seu idolatrado irmão mais velho e sua adorada mãe, deixa a desejar porque por mais que Dev Patel se esforce, não cria vínculos dignos de uma indicação de melhor atuação.
No geral, há muito desperdício de atuação, como a linda Rooney Mara e a própria Nicole Kidman que são atrizes excepcionais e poderiam complementar todo o drama além do que ofereceram.

Saroo versão australiana

Saroo versão australiana

Um filme que mostra uma Índia com perigos e crianças desfavorecidas já ganhou uma estatueta de melhor filme (cerimônia de 2009), mas Lion não acaba em dança, desculpa o spoiler.
No entanto há uma emoção genuína no desfecho da tal “Jornada para Casa”, que além da encenação temos o ar da graça das imagens reais, lembre-se que é uma história real, e aí as gotas de suor que saem dos olhos fica a seu critério.

Ma’a salama

A Qualquer Custo (Hell or High Water)

Quando vi o trailer por um momento pensei que o roteiro fosse de autoria dos irmãos Coen, responsáveis pelo excelente Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men). Mas a surpresa ainda foi boa, o roteirista é Taylor Sheridan, que nos trouxe Sicario – Terra de Ninguém (Sicario).
O filme mostra dois irmãos, Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) em uma jornada de roubo a pequenas agências bancárias pelo Texas, com capuzes de moletom, pistolas comuns e sem esconder que são da região, mas com o zelo de tomarem quantias pequenas, sem se deixarem ser tentados de levarem as notas de cem, tornando o caso desinteressante para o FBI.

E é aí que entra Marcus Hamilton, interpretado por ninguém menos que Jeff Bridges, perfeito no papel, como o Texas Ranger que está para se aposentar e aceita a tarefa de caçar os “drogados” como o seu parceiro Alberto (Gil Birmingham), meio índio meio mexicano, os classifica precipitadamente, porém, Marcus não dá crédito ao parceiro e entra na cola dos dois irmãos como espécie de missão a matar o tédio do fim de sua carreira.

O cenário tem um papel que destoa no filme, as cidades do Texas do qual os irmãos percorrem sofrem de uma crise socioeconômica exposta em pichações, banners e outdoors, entre críticas e ofertas sobre renegociações de dívidas por concessões de crédito.
No clima árido das fazendas extensas vemos poços de petróleo da Chevron, muito comuns no estado, trazendo a tona que as grandes corporações deitam e rolam com os recursos oferecidos pela região, sendo indiretamente também responsáveis por parte do problema que a população vem sofrendo, tudo  claro e testemunhado pelos civis que não escondem certo rancor pelos bancos.

É duro esperar o banco abrir às 10

É duro esperar o banco abrir às 10

Aos poucos percebemos que a causa que motiva os irmãos ao crime tem uma base que atenua a vontade de vê-los sendo pegos pela polícia, contando inclusive com apoio de algumas testemunhas que sentem certa nobreza no ato de seus atos, ou como um dos civis diz à Marcus:
“Legal ver eles roubarem quem me roubou por trinta anos”
Mas a aventura dos dois não é aliviada, não é fantasia crer que o Texas é uma terra de um faroeste moderno. Todo cidadão parece estar armado, e pronto para sacar sua pistola  e dispará-la com a senhora justiça a sorrir e aquiescer, como responde um senhorzinho numa agência bancária ao ser questionado se estava armado por um dos irmãos:
“Pode apostar que estou”

E ainda assim não parece que Taylor Sheridan se rendeu a fazer uma crítica social ao elemento intrínseco do estado em que se originou os cowboys. Há muito a questão do passado e seus conflitos étnicos que trazem amarguras até hoje, principalmente no sul, e outra vez a questão é tratada com recursos cômicos, com piadas por Marcus a fim de provocar o seu companheiro tudo direcionado ao lado indígena, e ao ouvir uma reclamação de Alberto que explica ser meio mexicano, o velho Ranger diz: “Ao acabar o repertório de ofensas indígenas parto para as ofensas mexicanas”

"O que não vão querer?"

“O que não vão querer?”

O final torna tudo mais interessante, creio eu, ter sido um dos levantes a garantir uma vaga entre os indicados a melhor filme, podia dizer que um faroeste moderno não levaria a estatueta, mas a obra dos irmãos Coen teve vez em 2008.

Ma’a salama