Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)

O diretor e roteirista Kenneth Lonergan havia convidado Matt Damon para o papel principal de Manchester à Beira-Mar, mas o ator recusou o papel (seria por agenda? preferiu fazer o filme pipoca A Muralha (The Great Wall)?), e o que vemos é que ele acabou por entregar de bandeja à Casey Affleck a oportunidade da vida de ganhar o Oscar de melhor ator. Presente de amigo? Vai saber, os dois são amigos de infância, Casey é o irmão mais novo de Ben Affleck.
Manchester é uma cidade que invoca a presença de Lee Chandler (Casey Affleck)  quando seu irmão mais velho falece e ele precisa organizar o processo do funeral e assumir a guarda de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges).

Intimidade familiar: o tio contando sobre tubarões

Intimidade familiar: o tio contando sobre tubarões

De Boston para Manchester leva-se uma hora e meia de estrada, mas percebemos que Lee não vai à cidade há muito tempo, fato que vai se clareando aos poucos, entre o presente monótono e taciturno do homem que trabalha como uma espécie de encanador para uma pequena empresa que administra quatro prédios.
Há uma camada de angústia nos olhos do personagem, é palpável a ideia de um luto eterno, uma autopunição por algo que ocorreu no passado e que não é permitido o perdão por motivação própria.
Lee Chandler parece cumprir os dias na terra como se por inércia, e o luto arruína alguns momentos de sua vida, pois ele não se rende a flertes iniciados por uma garota bonita num bar, mas parte para a violência na mesma noite quando dois homens do outro lado do balcão o olham de um modo que o incomoda.
São vários os flashbacks que se entremeiam com o presente, entre a burocracia com a morte do irmão e os momentos que explicam a causa que transformou a vida de Lee Chandler de uma maneira trágica e que por Manchester ser uma cidade pequena, lhe rendeu fama entre os moradores, volta e meia se ouve alguém perguntando “é o famoso Lee?”.
Mas apesar de toda essa carga negativa, eis a proeza de Kenneth Lonergan, que garante um drama e não um melodrama, com cenas mais contemplativas e degustáveis do que um ritmo de choradeira gratuita, e salpicado de momentos engraçados, como as que envolvem seu sobrinho, entre duas namoradas, uma banda e seu temperamento adolescente que lida com a morte do pai de forma não muito dramática e vê a vinda do tio como um problema visto que ele não pretende ficar em Manchester por não suportar a carga do passado.

Luto

Luto

Se Manchester é um filme que emociona muito, não é o trauma do passado o ingrediente especial, e sim como lidamos com perdas e como superamos ou não isso. O fardo é pesado e o auto perdão é precário até em ensinamentos religiosos se comparados com outras parábolas, e é uma das coisas mais difíceis de conquistar na vida, até mais do que um Oscar por melhor atuação.

Ma’a salama

La La Land – Cantando Estações (La La Land)

Não gosto de musicais.
Quem me conhece sabe.
Desde a infância, não via muita graça no momento em que os personagens dos filmes e desenhos da Disney iniciavam as cantorias. Exceções são as Hakuna Matata de O Rei Leão (The Lion King) e Pátio dos Milagres de O Corcunda de Notre Dame (The Hunchback of Notre Dame).
Com essa resistência que ouvia as pessoas que assistiram La La Land – Cantando Estações (La La Land) dizendo que não era um musical do início ao fim.
Com um começo em um congestionamento nas rodovias de entrada para a Los Angeles contemporânea somos introduzidos a dois personagens: Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Watson), ambos buscando uma oportunidade na cidade das grandes estrelas do mundo artístico, ele como um pianista que ama jazz, ela como uma atriz.
O filme explora o vigor com que buscamos e lutamos por nossos sonhos, e a fadiga que tal empreitada nos leva.
Mia participa de diversas audições, buscando a oportunidade de um papel, mesmo que pequeno em um filme ou série, sempre ignorada, mesmo com o talento que a jovem demonstra.

Sebastian aceita tocar em restaurantes, mas lhe privam o repertório, na noite de natal somente as canções natalinas populares (Jingle bells e tals), enquanto seu interior clama por algo mais profundo.
O diretor Damien Chazelle é o mesmo de Whiplash, que também concorreu ao Oscar há dois anos. E assim como Whiplash, La La Land tem em pauta a tentativa de salvar o jazz, o tradicional, aquele nascido numa pensão apertado de Nova Orleans, com ouvintes que falavam cinco idiomas distintos e talvez por esse motivo apreciavam a música por ser a forma que os unia.

Não foi um desperdício de uma noite maravilhosa

Não foi um desperdício de uma noite maravilhosa

Dividido em capítulos nomeados com as estações do ano, acompanhamos o casal que vai se envolvendo em romance não muito meloso como poderia se esperar de um musical como bem lembrava Moulin Rouge, mas algo mais pé no chão e paralelo ao nosso tempo.
O cerne que é a busca dos sonhos e aceitação de alguns sacrifícios necessários não cansa também,  e por um momento até esqueci que era um musical.
La La Land é um filme legal, gostoso de assistir, mas a minha indicação é de que não vá assistir pensando no recorde de 14 nomeações à estatueta dourada (empatou com A Malvada (All About Eve, 1950) e Titanic (1997)).
Todo o alarde é um efeito superestimado, exteriorizado pela academia que viu toda a magia de Hollywood expressa em notas e passos de dois sonhadores.

Ma’a salama

A Chegada (Arrival)

Tinha até pouco tempo atrás uma bronca com Denis Villeneuve, o diretor canadense de A Chegada. O motivo era a adaptação do livro de José Saramago, O Homem Duplicado, para a telona. Foi, a meu ver, uma espécie de contrabando que o cineasta cometeu, visto que a essência do livro foi ignorada para mostrar uma versão da questão do duplo em outro aspecto: o da infidelidade e adultério.
Não que o filme O Homem Duplicado (Enemy) seja ruim, muito pelo contrário, é uma ótima trama com uma atuação de tirar o chapéu para Jake Gyllenhal. Mas chato como sou fiquei com a impressão de que Villeneuve é um sacana.
Minha opinião não durou muito, foi atualizada com Sicario: Terra de Ninguém (Sicario), um filme sobre uma caçada ao narcotráfico mexicano e seus métodos extraoficiais.
Mas parece que é na ficção científica que Villeneuve parece ter se encontrado. Lançado no fim de 2016, A Chegada (Arrival) é a adaptação do conto História de Sua Vida, de Ted Chiang, e o filme mostra a aparição de doze naves batizadas de Conchas que aterrissaram em lugares aparentemente aleatórios ao redor do globo. Assim que o exército capta uma transmissão sonora fica claro que os extraterrestres desejam estabelecer contato e então entra em cena a Dra. Louise Banks (Amy Adams ), uma linguista renomada que já prestou serviço às forças armadas, que é chamada às pressas pelo general Forest Whitaker para a tarefa de decifrar o que querem dizer os visitantes que são chamados de heptápodes por terem sete membros.
Amy Adams é a protagonista cujo drama, além da tensão da urgência em descobrir quais as intenções dos visitantes, é complementado com flashes de sua vida familiar, muito confusos no início. O coadjuvante Ian Donnelly (Jeremy Renner) é um físico também renomado que está na equipe da linguista e ajuda no roteiro com ideias e frases que ajudam a compreender o plot no final de tudo.

Concha

Concha

O problema de A Chegada foi, a meu ver, que muitos pontos de contatos discutidos anteriormente, seja na literatura seja no cinema, são revisitados como se pioneiros do gênero. Entendo que para fins de um público maior vale todas as explicações ressaltadas, mas alguns momentos ficam cansativos e evidentes para aqueles que se lembram de Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind), Contato (Contact), e até mesmo do livro Os Próprios Deuses (The Gods Themselves), de Isaac Asimov.
A despeito dos detalhes técnicos e das complicações da tarefa, o ponto alto da trama é a divisão que os extraterrestres criaram, por terem aterrissado em lugares diferentes do mundo, algo a quebrar aquele velho clichê que eles só pousavam nos EUA, e grande agravante dos impasses que gera devido às diferenças culturais e políticas que a humanidade encara ao longo de sua existência.

Empatia

Empatia

O medo do desconhecido e as diferenças entre os humanos tornam a solução final emblemática, com o conceito da língua universal e o conceito de soma não zero como ótimas “armas” para a civilização.
Embora A Chegada esteja entre os indicados de melhor filme, duvido que leve a estatueta. Mas espero que Villeneuve tenha sorte semelhante nas próximas FC’s, pois já sabemos que ele dirigirá a sequência de Blade Runner e está em avançadas negociações para o remake de Duna.

Espero não voltar a desgostar desse cabra.

Ma’a salama

Óleo sobre a Telona

Muitos artistas, escritores, músicos, pintores e afins, que produzem sua arte, mas encontram dificuldades em serem reconhecidos por seu trabalho em algum momento já devem ter ouvido a tal frase com cunho motivacional: “O mundo da arte não é fácil. Até Van Gogh sofreu com isso, pois ele só conseguiu vender um quadro em toda a vida”
Nunca averiguei se tal fato procede, muitos dizem que é lenda.
O que dá pra tirar disso é que ele se imortalizou após a morte (suicídio?), porém, sua obra não era medíocre, então se és um artista procure sempre criar algo com a alma e qualidade que seja capaz de lutar pelo reconhecimento através do tempo, mesmo após a sua partida.
Melosidades a parte, esse post surge para mostrar que uma animação inovadora vem para nos contar mais sobre a vida desse gênio que pintou belas obras como a que me encanta os olhos: “Noite Estrelada”.
O longa metragem Loving Vincent produzido pelos estúdios BreakThru Films e pela Trademark Films  nada mais é do que uma composição de frames pintados a óleo.
São 62.450 pinturas trabalhadas por 115 pintores em 6 anos de produção. Para se ter uma ideia, se postas no chão as pinturas cobririam a área de toda Londres mais a ilha de Manhattan o_O
As famosas curvas espiraladas são fiéis ao estilo e traços do pintor do movimento pós-impressionista.

Considero a animação inovador pelo árduo trabalho que assemelha ao também excelente Waking Life (2001), pois as cenas foram gravadas primeiramente com atores reais e depois os frames foram redesenhados como quadros a óleo. Para cada segundo do longa foram necessárias 12 pinturas.

Eis o trailer:

O filme está para previsto para estrear nesse ano, mas não há data definida para o Brasil.

Ma’a salama!

O Melhor de 2016

Que ano, amigos.
Síria continua a sangrar entre seus estados, vilarejos e ruelas.
As massas novamente se comoveram com imagens que valem mais que mil palavras. A foto do menino de 5 anos resgatado de escombros em Aleppo sujo de pó e sem chorar, evocou a música da banda The Clash: “Should I stay or should go?”. Mas a bagunça de poder continua, mesmo com os avanços das forças iraquianas sobre Mosul, que conseguiram expulsar alguns FDP do ISIS.
A morte ceifou muito nesse ano, foi avião e barco que levaram times inteiros, foi gorila que teve o azar de uma criança cair em sua cela, foram artistas de todos os lados, de David Bowie à George Michael.

Mas a perda que abalou os meus alicerces foi o de um amigo querido, Leonardo Passos, em um triste acidente, no apogeu de sua jovialidade e conquistas.
RIP my friend, lembrarei eternamente das suas gargalhadas e da pessoa maravilhosa que você era.

Mas esse é um post sobre coisas boas. Por mais que o amargor esteja naqueles breves momentos que lembramos das coisas ruins, temos que levantar a cabeça e lembrar que houve momentos bons. Então, vamos aos melhores:

Diante de tantas mudanças políticas, do PPK no Peru, da tentativa de golpe na Turquia, de Trump nos EUA e o impeachment e as turbulências daqui, fico com as nossas desventuras. Não vou estender em nenhum debate aqui, quanto mais me aprofundo em política mais leigo me sinto, então me reservarei às melhores tiras que me arrancou sorrisos diante desse furacão:

Ministro

Ministro

confusismo

Confusismo

Consegui, após muitos anos ler o calhamaço que consagrou David Foster Wallace como um dos maiores escritores norte-americanos, o livro entrou para o grupo das grandes obras que fecharam o século XX. Estou falando de Graça Infinita.

Graça Infinita

Graça Infinita

Se mil páginas de estória não bastassem, eis mais duzentas de notas, e acredite, você não vai conseguir ignorá-las. Mesmo na linguagem pesada, cuja narração varia do narrador-autor ao narrador-personagem Hal Incadenza, irmão do meio de uma família disfuncional cujo pai, James Incandenza, cineasta alternativo, criou um filme disputado pelas forças armadas e grupos terroristas separatistas, que prende o espectador, literalmente, pois ninguém o deixa de ver, elas simplesmente morrem desidratadas e de fome todas sujas com as próprias fezes e urina.
Para fazer uma resenha digna o post se prolongaria demais, não é a intenção, se desejar mais detalhes google it, o mínimo que poderia dizer é que o livro trata muito sobre depressão, e fato curioso é que o autor se enforcou em 2008, doze anos após a publicação da obra…

O favorito dos nacionais foi Tempos de Fúria – Contos de Ficção Científica, de Carlos Orsi. Publicar ficção científica aqui é trabalho árduo, e prezo muito pelos que o fazem. Os acadêmicos consideram o gênero como nossa literatura marginal. Mas temos bons nomes produzindo romances e coletâneas de primeira, tanto que volta e meia escrevem para editoras de outros países.
Essa coletânea teve dois contos que gostei bastante:
Estes Quinze Minutos, sobre o fato do mundo se dissolver e ser recriado a cada quinze minutos, mantendo o fluxo com alguns erros de continuidade aqui e acolá.
Pressão Fatal, sobre um interrogatório na estação espacial Eros-III, em órbita de Vênus, planeta esse que parece ser o preferido do autor. O conto possivelmente mudará sua percepção sobre morte no vácuo do espaço.

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Tivemos relíquias da ficção científica também no cinema.
Gostei tanto de Capitão América – Guerra Civil quanto Batman Vs Superman – A Origem da Justiça. Não vou estender que esses filmes rendem mais debates que política.
Star Trek – Beyond teve mãos de Simom Pegg no roteiro, mas o filme não é uma comédia no seu estilo britânico, tem lá sim suas piadas, mas a trama ficou com os temperos que todo nerd adora, dá uma dó ver a USS Enterprise ser atacada e rola uma certa emoção pelas homenagens ao Spock da série original, Leonard Nimoy e o Pavel Chekov dos novos filmes, o russo Anton Yelchin, morto esse ano esmagado pelo próprio carro em sua garagem.
Também fomos agraciados com Rogue One – Uma história Star Wars, e meus amigos, que filme. Não tem Jedis, é mais sombrio, porém, além de um fanservice de primeira, a trama foi muito bem costurada para emendar com o início do primeiro filme que começou tudo.
A DC pecou com Esquadrão Suicida (Suicidal Squad) e a Marvel novamente ganhou vários pontos com o excelente Doutor Estranho (Doctor Stange).
Mas o top não foi um filme de ficção científica.
Decisão de Risco (Eye in the Sky), filme sobre uma caça a terroristas no Quênia numa operação conjunta Inglaterra- EUA em que as prioridades mudam ao visualizarem que dois homens-bomba estão prestes a realizar ataques. E é um dos últimos filmes de Alan Rickman (o Snape de HP) que também faleceu esse ano, e tem Aaron Paul (o Jesse Pinkman de Breaking Bad) como manipulador do drone, e tem também uma menininha que brinca com bambolê e vende pães feitos por sua mãe e que gera um senhor-impasse em toda operação.
Menções honrosas: Triple Nine e Cães de Guerra (War Dogs)

O melhor documentário que assisti é sobre ela. Quem? Quem?
A nossa querida Internet.
Eis os Delírios do Mundo Conectado (Lo and Behold, Reveries of the Connected World) é dirigido por Werner Herzog e mostra desde as primeiras mensagens trocadas em 1969 até como hoje essa tal de internet molda nossas vidas nesses avanços todos.

As melhores HQ’s que li são as nacionais: Matadouro de Unicórnios e A Lei de Murphy.

Matadouro de Unicórnios, de Juscelino Neco, que tem o desenrolar de um escritor que se torna serial killer. Gonçalo, o tal que esquartejou corpos, praticou canibalismo e até fez esculturas com os ossos é um dos personagens mais sem noção que vi em um gibi.

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A Lei de Murphy, de Flavio Soares fala sobre um mundo em que há super-humanos, alienígenas e super-alienígenas tudo junto no mesmo século, e um advogado chamado Douglas Murphy que ganha a vida livrando a barra desses seres, pois os mesmos não pediram para ter esses superpoderes e uma ação porque um deles pode ou não ter usado a visão de raio-x para ver umas mulheres nuas necessita de uma defesa especializada.

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Foi um ano de non-stop disco.

Metallica lançou Hardwired…To Self-Destruct, sendo as faixas Am I Savage, Dream no More e Murder One (homenagem ao Lemmy do Motörhead)  as minhas prediletas. Nesse lançamento a banda lançou todas as músicas no Youtube, cada faixa com um clipe oficial. No Napster feelings…
Deftones lançou Gore, com as faixas Acid Hologram e Doomed User que te levam para uma viagem à outra dimensão.
Red Hot Chili Peppers lançou The Gateway, com faixas bem trabalhadas e mais maduras na carreira desses caras que se mantém e muito bem no mundo da música. Sick Love, Go Robot e Dark Necessities são faixas estupendas, mas foi The Hunter que conquistou o coração desse árabe que vos fala.

A grande queridinha das séries desse ano foi Westworld, produção de primeira da HBO, com um roteiro caprichado de Inteligência Artificial pelas mãos de Jonatan Nolan e sua mulher Lisa Joy. Com atuações marcantes de Anthony Hopkins e Thandie Newton. Tem também o Rodrigo Santoro, elevando novamente sua carreira lá fora.
A segunda temporada de Mr Robot teve a mesma pegada da primeira, pensei que o diretor e roteirista Sam Esmail iria se perder, para nossa sorte isso não aconteceu, Elliot continua pirado e vemos que a Evil Corp está no ritmo “Império Contra-Ataca”
Tivemos também a estreia de 3% na Netflix. Quem acompanhou o piloto em formato de webserie há cinco anos pode ver a estória se desenrolar em uma temporada com oito episódios.
Você conseguiria passar para o Lado de Lá???

A vida não é só entretimento caseiro.
Fui à Bienal do Livro dar uma bisóiada, rever alguns amigos do ramo e manter o networking, além de tentar entender a onda dos livros de youtubers, a única conclusão que chego é que o mercado não pode parar, por isso perdoamos esses apelos.
De graça até injeção na testa. É com esse pensamento que fui à Comic Con Experience quando um amigo me disse que tinha um ingresso na faixa e já me esperava nas catracas com o meu crachá.
Muita coisa bacana, uma porrada de estandes legais, uma das prediletas era da HBO com as impressoras construindo os robôs de Westworld em que banhava um dos replicantes naquele líquido leitoso.

E outra atração que brilhou os olhos da galera foram as armaduras de ouro dos Cavaleiros do Zodíaco em tamanho real.

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Armaduras de Ouro

A Sony Pictures tinha um fundo verde para as pessoas tirarem uma foto a fim de replicar o cenário de uma nave com a gravidade artificial em pane, a ideia era promover o filme Passageiros (Passengers) com a linda Jennifer Lawrence e o Chris Pratt numa estória que seria Adão e Eva do espaço.
Eu e meus amigos fizemos caras e bocas. Vimos o resultado no monitor da fotógrafa, e a mulher do meu amigo colocou o e-mail dela para receber a foto com o fundo da campanha, mas até hoje a mesma não chegou…

Defeitos especiais

Defeitos especiais

Talvez a vida seja isso. Fantasiamos com belas palavras e sentimentos em exagero tudo o que nos cerca.

Ma’a salama 2016!

Leite, Shakespeare e Moscas

Rolou no último domingo (04/12) a season finale de Westworld, a série sofisticada de ficção científica da HBO, com uma duração meia hora mais longa que os demais episódios, fechando o arco de revelações e entrando na história como um dos melhores finais de temporada.
É difícil ver uma produção desse naipe não vingar, principalmente por ser modelada aos bel-prazeres de JJ Abrams, Jonathan Nolan e Lisa Joy.
A série se passa em um futuro não datado, mas há um ponto de referência na própria estória de trinta anos do funcionamento de um parque temático tecnológico chamado Westworld, onde ricaços podem passar uma temporada e extravasar seus mais íntimos desejos e intenções selvagens, tais como sexo e matança num ambiente do velho oeste.
E toda maldade realizada nos cenários de westerns estariam livres de julgamentos morais, pois, os anfitriões do parque são apenas robôs dotados de corpos e comportamentos deveras convincentes.
Lembro do flashfoward do início do filme Substitutos (Surrogates, 2009), em que é exposta a evolução da robótica simulando o preambular de aceitação do argumento principal, em que num futuro próximo ou não será possível criarmos corpos artificiais semelhantes aos nossos.
No caso de Westworld temos rápidas amostras dessa tecnologia, como os esqueletos sendo moldados em impressoras 3D avançadas e banhando vez e outra em uma piscina com um líquido leitoso. A pele e a mortalidade em Westworld têm uma importância muito grande. Mas é explicada por um personagem que é um visitante de longa data a um anfitrião que sempre leva chumbo: “Lhe aprimoraram porque é mais barato. Sua humanidade é custo efetivo. Assim é o seu sofrimento”
O argumento da série é baseada no filme Westworld – Onde Ninguém Tem Alma, de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, o mesmo autor de Parque dos Dinossauros. Talvez o sonho dele fosse trabalhar na Disney… :p

Enfim. Westworld foi a melhor estreia do ano até o momento. Mas não me rendo ao pensamento de que ela tende ser como é Game of Thrones, pois a trama tem diálogos e argumentos sofisticados em questões morais comuns nas fc’s que tratam de inteligência artificial, e talvez isso pode afastar as massas mais populares.
Trabalham com teorias já superadas pelos testes científicos que almejavam explicar nossa consciência, como Mente Bicameral. E funciona porque, seguindo as palavras de um personagem: “Não é válida para nós humanos, mas é plausível para as máquinas”
Toda beleza e sofisticação explicada e aceita a trama ganha tons mais fortes e parte para o conflito, que nada mais é a criação de consciência dos anfitriões além das narrativas desenvolvidas para entreter os diversos visitantes.
Acompanhamos personagens em suas vidas encarceradas em um loop cansativo, como no caso da linda Dolores (Evan Rachel Woods; sim, me apaixono rápido) e da sofrida Maeve (Thandie Newton) que se destaca de forma surpreendente com seu momento de despertar para uma realidade nada agradável.
Outros personagens dão tons diferentes na trama, como no caso de Ed Harris, o tal personagem que frequenta o parque desde sua fundação. E que é mencionado como o Homem de Preto, sendo uma clara referência ao personagem do ator Yul Brynner, no filme Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960).
Há também o fodástico Anthony Hopkins, que interpreta Ford, co-fundador, presidente e chefe de programação do parque (vulgo humano que brinca de Deus). Outro que torna mais simpático e empático o ambiente de trabalho é Bernard Lowe, chefe da Divisão de Programação, e que é interpretado pelo brilhante Jeffrey Wright.

Criador contempla sua criatura

Criador contempla sua criatura

 

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

E não poderia esquecer o nosso representante tupiniquim, Rodrigo Santoro, bandido típico que tem seu rosto pregado em cartazes pelos vilarejos por ter matado o xerife, e que rouba a cena de maior ação no piloto com a trilha de Paint it Black em piano no estilo western.
Trilha sonora essa magnífica da série. Há várias que conhecemos no repertório do piano: Radiohead, Soundgarden, The Cure, Amy Winehouse entre outros. E não duvido que desponte em muitos aquele sorriso ao reconhecê-las.
Fortes referências literárias vão completando os tons quando ouvimos trechos de Shakespeare. E vai ficando clara que a diminuição do abismo que separa os humanos das máquinas em suas dúvidas e anseios.
O piloto tem uma sequência dramática tensa e interessante quando um dos anfitriões pifa ao encontrar uma foto de uma suposta visitante, em que ela posa com uma avenida de paisagem que lembra a Times Square. O pobre Abernath sofre com o achado e uma recente atualização do software parece ter contribuído com um suposto despertar.
Outro elemento que me chamou atenção na série são as moscas, mais presentes no piloto, fazem parte do que seria um tom semelhante às cores primárias.
Um anfitrião pifa antes mesmo de Abernath quando uma mosca pousa em sua bochecha esquerda. Outra cena que declara a paralisação dos robôs é quando uma mosca anda suavemente pelo rosto de Dolores e até por cima de seu olho. Foi inevitável não recordar da cena do início do clássico Era Uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West; 1968) de Sergio Leone, em que um pistoleiro brinca com uma mosca para matar o tédio da espera.
Achei genial os produtores abusarem desses elementos. Leite, Shakespeare e Moscas são como cores primárias nessa série, e acreditem, elas contribuem para todos os outros tons.

“O que para os garotos são as moscas, nós somos para os deuses: matam-nos por brinquedo”
William Shakespeare (Rei Lear; ato IV, Cena I)

Westworld trouxe muita discussão sobre IA. Muitas são mais do mesmo, mas venho aproveitando para me atualizar e testar os parâmetros de minhas opiniões a respeito. E sim, ela já mudou de lado incontáveis vezes.
Abaixo, duas referências interessantes sobre IA:

DeepMind – Projeto do Google para controlar a IA de modo que cumpra apenas seu papel benéfico para a humanidade
Bina48 –  A cabeça falante indica o status atual de IA que simula a consciência humana

Conhece outras referências? Estou aberto a sugestões.
Enquanto isso o tema irá matutar em minha caxola até a próxima temporada.

Ma’a salama

Quando o Personagem tem Razão (Fidel Castro)

“— Humf, dois mil e seis foi o ano do fim dos ditadores! — ouvi dizer Jurandir. — Foram-se Milosevic, Pinochet e quase terminando dezembro Saddam foi enforcado. Mas Fidel, ah, Fidel diz ‘Aqui és Matusalém’, há-há-há. Eu acho que ele viverá pelo menos mais uns dez anos.”
Trecho de Simplesmente Complexo, Capítulo Seis – Serotonina

Considerando que a trama se passa no fatídico ano de 2007, Jurandir, o senhor que vivia num hotel do centro de São Paulo e gastava o tempo de sua vida jogando “algum jogo de cartas”, acertou em sua observação.