Projetos Secretos

Pavor.
O homem de mente simples estava apavorado. Seus companheiros estavam ao seu lado, ajoelhados como ele. Um pouco à frente um soldado tinha um telefone por satélite na altura do rosto, aguardando o momento oportuno para responder.
“São oito”, disse.
A recomendação veio quase instantaneamente:
“Leve-os daí, não deixe que vejam coisa alguma”, a voz andrógina se acentuava num tom mais sombrio com a interferência do sinal.
“Sim-senhor”
Isso bastava para justificar o pavor que o homem de mente simples sentia. Mas outros elementos não podiam passar batidos.
Ele e seus companheiros trabalhavam na condição de escravos para uma quadrilha que abria caminho na mata virgem para que outros viessem depois e construíssem pistas para pousos clandestinos. Eram colaboradores das rotas do narcotráfico.
Como um modo de garantir uma refeição e um lugar para dormir, eles aproveitavam as valiosas madeiras das árvores derrubadas e entregavam ao “bom coronel”.
Não sabiam ler nem escrever. Foram privados de uma educação digna. Alguns se gabavam porque sabiam ler as pesagens. Vestiam-se com farrapos que duravam por anos. Assolados por doenças, costumavam morrer cedo, em angústia. Mas rapidamente eram substituídos por outros mais novos. No geral, eram homens de mentes simples e uma vida nada digna.
No entanto, apesar de não serem capazes de realizar cálculos matemáticos básicos, eles sabiam que os soldados que os interceptaram na área recém desmatada era um exagero para aquele tipo de operação.
Além dos soldados, que estavam com um armamento pesado, havia dezenas de helicópteros que sobrevoavam onde se encontravam, desaparecendo de vista, seguindo para o que eles consideravam como o “território da morte”. Pois não só se tratava de uma mata mais densa e fechada como havia crateras e fendas que engoliriam sem remorso quem quer que fosse para as trevas.
Evitavam explorar aquela área em diante. Era o mínimo de raciocínio lógico que podiam ter, mas que se originou pelo medo.
O homem de mente simples nunca viu um helicóptero além da televisão.
Abriam a mata e eram alertados a não se aproximarem de uma pista de pouso quando a mesma fosse usada por uma quadrilha, a desobediência seria retribuída com a morte.
Espiavam intimados pela fustigante curiosidade os aviões pousarem desajeitadamente nas pistas abertas por eles.
Vários soldados estavam seguindo o caminho dos helicópteros. Adentravam o território da morte sem receio algum. Ou será que o homem de mente simples não conseguiu captar o medo que sentiam por esconderem seus rostos com máscaras pretas?
Ajoelhados e com as mãos atadas por um “enforca-gato”, não era inteligente tentar fugir deles.
Um estrondo ruidoso. Um trovão monumental fez o pavor se acentuar enquanto a espinha gelava.
O homem de mente simples não fazia ideia do que acontecia, mas aos poucos, uma certeza foi florescendo. Gradualmente ele pôde chegar à conclusão de que os soldados não estavam ali por causa deles. Em paralelo, na mesma proporção do pavor, uma esperança ilógica foi crescendo.
O soldado com o telefone por satélite reapareceu a frente deles.
“Senhor! Detonaram a bomba”, disse para o telefone.  A resposta foi inaudível.
Poucos segundos após a explosão um zumbido exótico intensificado por um chiado agudo fez todos sentirem calafrios.
Todos olharam para a mata que avançavam. Já não havia mais o tráfego contínuo de helicópteros.
No entanto, uma nuvem no céu limpo daquela tarde surgiu como uma mancha pincelada por um pintor gigante. Escura como carvão, parecia ter vida própria, com a textura felpuda e seus movimentos expansionistas como um animal que se esforçava a se rastejar.
“Contato visual!”, gritou para o telefone, e na voz o pavor que qualquer homem poderia se dar o luxo de ter.
A voz andrógina ordenou algo, mas novamente não conseguiriam ouvir.
“Sim-senhor!”
Outros soldados trouxeram capuzes e um a um cobriram os rostos dos homens ajoelhados.  O homem de mente simples mal conseguia imaginar o que estava ocorrendo. Seu pavor e esperança se mesclaram criando uma sensação inédita.
O soldado que tinha o telefone por satélite encarou os outros soldados, como se todos pensassem a mesma coisa.
“Me perdoem”, disse o soldado e encostou o cano de sua arma na nuca do homem de mente simples. “Mas vocês são testemunhas de um projeto secreto”
Sentença proferida. Nos primeiros segundos não entendeu o que ele quis dizer, mas aos poucos, um julgamento das palavras daquele que o mataria em pouco tempo ganhou forma, tal como a imagem da nuvem negra no céu acima deles, figura essa que ainda estava gravada em sua cabeça.
“E não são todos os pensamentos fragmentos de projetos secretos?”, indagou, incrédulo quanto a eloquência e autoconfiança que escapou por sua boca abafada pelo capuz.
O soldado não compreendeu. Apertou o gatilho e desfez a esperança e pavor que percorriam a carne do homem de mente simples, oferecendo-o para a escuridão.
Seus companheiros fizeram o mesmo, todos os homens ajoelhados tombaram no chão sem vida.
Sua missão continuava, aqueles homens foram um inconveniente. A nuvem negra sumiu, ele não reparou para onde se foi. Mas as horas seguintes foram cruciais para que sua consciência fosse douta do que a sua vítima quis dizer.
Todos os helicópteros foram inábeis, nenhum deles cortava o céu acima dos soldados ou dava o ar de sua presença acima da mata.
Em sua maioria, os homens que avançaram sumiram, provavelmente pelas fendas e buracos de erosões suspeitas para a tipografia daquele ambiente.
Dos que retornaram metade estavam em estado catatônico.
Um amigo de longa data do soldado que mantinha o telefone na cintura e vislumbrava toda a situação da missão com espanto surgiu de folhagens. Ele fitou seu companheiro e um sorriso indevido para a ocasião aflorou em seu rosto marcado por arranhões de galhos e gravetos. Sacou a arma do coldre e atirou mirando sua têmpora.
A missão já se declarava malsucedida. Indagou para o supervisor de operações pelo telefone qual seria o próximo passo. Pois não teria como capturar a…, o…, o quê mesmo?
“Seu nível não garante permissão de saber o que é o alvo, soldado. Entenda, esse projeto é muito secreto”
Um calafrio percorreu sua carne quando ouviu um zumbido exótico.
Mas por que estava se entregando ao pavor? Tinha ciência dos riscos, não resguardava remorso em remover os empecilhos da missão.
Olhou para o alto e a nuvem estava no céu novamente.
Sabia que não tinha pavor daquilo. Então, concluiu que fosse qual fosse a razão de seus temores, tudo, seus pensamentos ou emoções, não passavam de fragmentos de um projeto secreto de algo muito maior.

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