Entre os Espelhos

Todos os garotos da faixa de oito a nove anos brincavam de esconde-esconde até o anoitecer e não se importavam com o dia de amanhã, exceto pelo receio de levar uma bronca da professora ao ver que não fizeram o dever de casa. Mas não haviam outras preocupações além dessa. Nada podia atrapalhar a brincadeira, mesmo que o clima resolvesse presenteá-los com um temporal incomum para a época ou que o Sol estivesse lançando seus raios como se estivesse prestes a explodir.
Miguel não corria para se esconder quando alguém batia cara. Saía calmamente atrás de um lugar em que não houvesse nenhum olhar curioso e que houvesse um espelho ou vidro que refletisse bem a sua imagem.
A rua em que morava era isolada do centro urbano. Não havia razões para que carros que não fossem dos moradores ou parentes passassem por ali. E havia muitos idosos que moravam naquela região justamente por ser pacata e tranqüila.
Então não era de se admirar que não houvesse muitos curiosos olhando as crianças brincarem.
Miguel viu um pedaço de espelho que estava encostado na beira do portão de uma casa de um casal de velhinhos que passavam a maior parte do dia na parte de trás do quintal. Aquele espelho estava ali para ser recolhido pelos garis, mas já fazia mais de três semanas que estava ali, sozinho. Ele olhou e reparou que todos os participantes já haviam se escondido em um lugar que julgavam ser estratégico ou que tivesse uma posição favorável.
Quem batia cara era Juquinha e ele, como sempre, não estava de bom-humor.
Miguel viu que Juquinha estava terminando a contagem e que estava prestes a começar a procurá-los:
“quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta e nove…”
Miguel encostou o dedo no espelho e tudo ao seu redor se modificou.
“…cinquenta! Lá vou eu, quem se escondeu se escondeuuu!”
Juquinha se virou e começou a andar á procura dos amigos. Passou em frente ao espelho e sentiu um vulto dentro dele, ele olhou, mas nada viu.
Do lado de dentro do espelho, Miguel sorriu ao fitar os olhos do amigo. Atrás de si, havia uma escuridão com poucos pontos de luz distantes, parecendo janelas translúcidas. Ele caminhou pela escuridão, como se estivesse num imenso corredor, procurando por uma porta.
Ao chegar em frente de um ponto de luz viu que o que havia do lado de fora era a parte interna da clinica veterinária que ficava do outro lado do quarteirão. O dono devia ter curado os canários que estavam num viveiro, pois ele se encontrava vazio. Nisso, Miguel continuou a andar pelo corredor escuro, a procura de algo que o distraísse.
Em outro ponto de luz viu o senhor Juscelino, avô da Priscila, que naquele momento ria alto enquanto assistia a um programa humorístico. Ás vezes, a dentadura do idoso se deslocava e tencionava a cair da boca e voar longe, mas o senhor era habilidoso e não a deixava cair.
Passou pelo espelho do quarto de sua mãe, onde via a cama de seus pais. Fora ali, há sete meses atrás, que ele descobrira que podia atravessar espelhos e entrar em um mundo diferente.
E tudo depois de assistir a um filme de super-herói do qual só entenderia o enredo nove anos depois. Ele via as cenas em que o personagem principal pulava com um impulso e seu corpo era arremessado por cima dos capangas do vilão principal. Mal o filme havia terminado e ele correu até o quarto dos pais, todo animado e ansioso se fantasiando como o super-herói e começou a pular em cima do enorme colchão. Isso, sem seus pais ficarem sabendo, era óbvio.
Ele se via no espelho, pulando com um sorriso de orelha a orelha e imaginou vários capangas o cercando. E tentando imitar a melhor cena, ele tentou dar uma cambalhota, mas seu pé entortou e acabou se desequilibrando, fazendo com que fosse arremessado contra o espelho de corpo inteiro que sua mãe adorava de se colocar a frente para admirar um novo vestido.
Ele fechou os seus olhos e esperou que seu rosto estourasse a superfície do vidro, não podia imaginar o estrago que traria á sua juvenil beleza, mas o que quer que tenha passado pela sua cabeça, não se concretizou.
Quando abriu os olhos viu que havia caído num chão, e tudo estava escuro. Quando olhou para trás viu uma borda e o quarto dos pais podia ser observado por um ângulo que nunca pensou em ver.
Certamente que no começo o pequeno Miguel ficou muito assustado e perplexo. Mas aquilo não o traumatizou e o impediu de explorar a experiência mais de uma vez.
E quando se deu conta, ele já se tornou tão habituado com o seu dom que se sentia o melhor na arte.
Miguel correu até um ponto que sabia ser o espelho do quarto da irmã do Marcelinho, ele tinha a esperança de um dia vê-la, pois a achava muito bonita e cada segundo de sua beleza valeria a pena. Porém, como tantos outros, aquele dia estava sem sorte de realizar tal sonho.
Quando ele viu por outras janelas do mundo exterior que os outros participantes já haviam sido pegos ou salvos ele procurou por Juquinha. E ao visualizar o amigo que se encontrava esquadrinhando um canto da esquina, com os olhos atentos ao menor movimento possível, correu até um ponto de luz.
Ele tocou e seu corpo foi transportado para fora e ele caiu meio metro atingindo o chão. Havia acabado de pular uma janela do consultório vazio da mãe da Milena, que ficava próximo á outra esquina, mais próxima ao ponto onde o amigo bateu cara.
Ele andou, a passos largos, mas calmo e sereno, com um sorriso que exaltava a própria vitória.
Juquinha que o viu da outra esquina, iniciou uma corrida que no fim se mostrou desnecessária, pois ele perdeu. Quando chegou, com a respiração forte, arfando e mal conseguindo falar, meneou a cabeça, indicando que Paulinha deveria bater cara.
Antes que a menina começasse a contagem Juquinha ficou ao lado de Miguel, o encarou seriamente e disse:
“Eu sei que você trapaceia. Não sei como, mas tudo o que você faz não vale. Eu vou descobrir”
Juquinha não ficou surpreso, sentiu um certo receio instigante e gostou daquela sensação.
“Tá bom. Me avisa quando descobrir”, respondeu com um sorriso cínico.
Juquinha contorceu seu rosto em uma careta e se afastou dele, pois sabia que Miguel não ousaria mostrar o seu truque com ele perto.
Por precaução, Miguel esperou todas as rodadas em que Juquinha estava livre e não atravessou os espelhos. Aguardou até que fosse a vez dele de bater cara. Enquanto isso ele ficava pensando sobre a acusação. Ele não considerava aquilo uma trapaça. Sabia que era um dom. Ele não saberia montar uma defesa e argumentar que se outros tivessem habilidades que os ajudassem a serem mais rápidos não deveriam se limitar, pois aquilo seria irracional. Mas mesmo sem poder gerar uma réplica ele tinha a noção de reivindicar o seu direito. Mesmo naquela idade.
Ao ver que nenhum olhar curioso os espreitavam, ele adentrou em seu mundo particular, atravessando a superfície fria do vidro.

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