Engasgado com farofa e carne seca

Euclides refletia sobre um de seus pensamentos acerca das guerras. Ele afirmava com absoluta certeza de que não eram as questões gananciosas e envoltas nos interesses egocêntricos que faziam os mísseis teleguiados serem disparados a distâncias intercontinentais para bombardear o território do inimigo. Tudo era uma questão de atribuição forçada de cultura, como ele preferia dizer a colegas com maior nível acadêmico.
Todos esses colegas, não amigos, mas companheiros de jantares filosóficos, o apoiavam e exaltavam as suas reflexões como se fosse um mentor socrático.
Seu pensamento era de que as nações conquistavam umas às outras para propagar a sua cultura, o seu modo de viver. E isso, em sua opinião, ocorria porque os membros de uma sociedade se sentem incomodados com um vazio quando estão rente a outra cultura. Os fatores econômicos que cobriam esses reais interesses eram usados apenas como forma de aproveitar e praticar o útil e agradável.
Os seus amigos o bajulavam em excesso e às vezes o elogiavam de modos falsos, mas ele adorava aquilo, compensava as falas pedantes. Fazia parte de sua carne. Um carinho no ego.
Naquela noite, porém, Euclides estava sozinho na mesa de um restaurante recém inaugurado.
Seus amigos não o atenderam ou inventaram desculpas para evitar o encontro.
Aquilo o incomodou e fez seus sentimentos recordar seu preconceito.
Sim, Euclides era preconceituoso. Não se considerava racista. Odiava ouvir a palavra racista para descrever o seu preconceito. Não odiava outras raças. Era sempre um ser humano que não pertencia ao seu meio.
Um ódio que conhecia bem começou a efervescer e para tentar se acalmar começou a comer depressa.
O prato que pedira era um arroz parboilizado com um feijão verde cozinhado junto com lentinha.
Também tinha mandioca requentada na manteiga e uma tigela com farofa e carne seca fora posta ao lado.
Em sua loucura de raiva comeu tudo e esqueceu a farofa com carne seca. Ficou mais irritado e começou a comê-la pura, pois também já havia bebido seu vinho tinto.
O que foi um erro. Devia ter pedido uma bebida, pois em movimentos rápidos e mal mastigando os pedaços da carne, sentiu algo entalar.
“Aargh”
Forçou para que voltasse à boca para mastigar melhor, mas o volume se recusava a se mover.
Passou uns quinze segundos e quando seu rosto já estava parecendo um pimentão se levantou brutalmente como se o ato pudesse solucionar por si só. Imaginou que a gravidade diferisse em uma casa decimal fosse lá por qual cálculo que sua mente desesperada especulou.
Olhou para os lados, viu um garçom que levava em refrigerante na bandeja.
O jovem garçom foi alertado por um casal que apontaram para Euclides que quase babava e estava desesperado.
O rapaz, muito prestativo, correu até ele, para ajudá-lo.
Mas Euclides estendeu um braço sinalizando para que o garçom não se aproximasse.
A razão disso? O jovem era negro.
Euclides não suportaria a idéia de ser ajudado por um negro.
E em meros dois segundos ele lembrou de outra coisa que não gostava sobre o preconceito.
Quando descreviam uma pessoa como sendo alguém de cor.
“Ora, tudo tem cor”. Ele considerava um absurdo as pessoas falarem aquilo.
Deu dois passos para trás. Deixou bem claro que não queria a ajuda dele.
Um senhor se levantou e fez menção de ajudá-lo, mas Euclides repetiu o ato.
Ele estendeu o braço e balançou a cabeça negativamente, indicando que não queria ajuda.
Desta vez, o motivo era que ele pensou que o senhor era chinês. E ele tinha um grande preconceito contra chineses. Sabia que o mundo seria devorado pelo gigante vermelho mezzo comunista mezzo capitalista.
Mas o senhor não era chinês. Era coreano. Se bem que, para Euclides, tudo era a mesma coisa.
Outro homem se levantou. Aparentava ser alguém “normal” aos olhos de Euclides.
“Ôche cabra, por que tanto alvoroço? Deixe-me ajudá-lo”
Euclides percebeu o sotaque de nordestino e afastou com violência. Ele estava roxo, mas não seria ajudado por alguém de uma classe que considerava inferior.
Ele olhou para todos no restaurante.
Percebeu que ninguém pertencia a sua classe.
Ninguém presente poderia ajudá-lo, do contrário, seria uma vergonha.
Em desespero, correu em direção à porta. Saiu do restaurante como se fosse fugir para não pagar a conta. Mas estava a procura de alguma ajuda aceitável.
Na calçada, para seu azar, não havia pessoa alguma. Ao menos, o tipo de pessoa que ele considerava. Um homem loiro, de olhos verdes passava do outro lado da rua. Mas, por incrível que pareça, ele não se enquadrou nos requisitos de Euclides naquele momento, o considerou como um branco caucasiano desfocado de sua classe por estar naquela rua, próximo de um lugar com “multivariados”.
Voltou os olhos esbugalhados para dentro do restaurante. Seria mais vergonhoso se voltasse.
E assim, seu fôlego se foi. Seus pulmões forçaram o volume de carne, mas ela, teimosa se recusou a se movimentar. Euclides desmaiou na calçada.
Sua arrogância e ignorância que sempre o manteve em um patamar dito elevado, não puderam aparecer e dar um ou talvez dois simples tapas em suas costas.

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