Mariposa Morta

“Por que você matou a burbroleta?”, perguntou sua filha inconformada. Seus pequenos olhos lacrimejaram e criaram um brilho angelical.
“Porque sim!”, Paulo respondeu do modo mais grosso possível, não somente para demonstrar sua autoridade sobre sua filha de quatro anos, mas para deixar claro de que não iria discutir com ela.
Sua filha agachou para olhar a borboleta pisoteada. Seu corpo não fora totalmente esmagado, somente parte da asa.
“Agora já pra cama!”, ordenou seu pai.
Ela se dirigiu ao seu quarto com a garganta doendo, segurando um choro.
Paulo olhou para a mariposa que invadiu a sala. Ela havia entrado pela janela, ligeira, como se conhecesse o local e estivesse apenas fazendo uma visita.
Paulo se levantou do sofá, pegou seu chinelo e rebateu a mariposa indefesa fazendo-a ficar abobada e cair próximo ao rodapé do canto da sala. Sem titubear, pisou nela, com a intenção de matá-la. Sua filha que testemunhou a cena, ficou assustada, mas quando reparou que a forma lembrava a uma borboleta abriu um sorriso que durou três segundos.
Paulo ficou pensando se o que fez foi algo desnecessário. Não havia necessidade de matar a mariposa. Ela devia estar perdida, ou então a procura de comida para alimentar sua família. O nível de ameaça que representava era praticamente zero.
“Por que diabos fui matar essa coisa feia?”, se perguntou. Aproveitando de que sua filha foi dormir ele voltou a assistir o mesmo programa fútil de todas as noites de domingo. Mas por mais que se esforçasse não conseguia tirar a imagem da mariposa morta de sua mente. Algo o perturbava. Não conseguia ao menos retirar o corpo dela da sala. Deixaria essa tarefa para sua mulher assim que ela voltasse da igreja.
Quando se deu conta, Paulo estava alternando os canais para ver se encontrava alguma atração que fosse mais interessante e ocupasse seus pensamentos.
“… a religião Jainista prega a abnegação e a não-violência, seus monges usam bocais para evitar que algum inseto entre e seja morto…”, o único documentário que era exibido naquele horário e ele pegou justamente um trecho que fez com que a mariposa revivesse. Em fúria, ele desligou a televisão ao ver a imagem de monges vestidos de branco e usando bocais. Como não havia jantado resolveu preparar uma refeição.
Ao olhar o refrigerador se deparou com várias bandejas de carnes, algumas, com etiquetas contendo descritivos sobre a qualidade e até mesmo com as imagens dos animais abatidos. Ao pegar uma bandeja de contra-filé e observar a imagem de um boi com olhar fotogênico veio do modo mais natural possível a cena daquele animal perdendo sua vida no abatedouro. Por mais que seu apetite fosse o de comer um boi inteiro, ele preparou uma salada e fritou um omelete.
Sua mulher voltara, toda cheia de esperança de que a vida melhoraria nos próximos dias, pois o sermão havia sido inspirador e motivador. Mas seu sorriso se perdeu ao notar a mariposa morta próxima ao rodapé.
“O que é isso?”, indagou.
“Uma mariposa”
“Por que você matou ela?”
“Ah, você também. Eu vou dormir, não quero papo. Joga essa coisa feia no lixo”
Aquela noite foi longa. Sua mulher não comentou sobre a morte da mariposa, mas Paulo sabia que ela compartilhava da piedade e indignação da filha. O sono tardou a dominá-lo. Enquanto isso, procurava alguma posição confortável para adormecer. E mesmo depois do que parecia ser horas, seu estado de sonolência foi um dos piores de sua vida.
Seus sonhos foram dominados pelo espírito vingativo da mariposa morta. A cena do que ocorreu na sala era repetida centenas de vezes, sempre com algum detalhe do cenário sendo modificado. Em um momento sua filha chorava esperneando e pulando no chão, em outro, ela apenas balançava a cabeça negativamente, deixando transparecer toda a sua decepção com ele. Várias vezes, a mesma cena, sempre com algum detalhe diferente, como estivesse tentando corrigir seu erro. Mas toda vez seu chinelo pesado comprimia o frágil corpo da criatura contra o chão, despedaçando parte de suas asas e mantendo o resto intacto.
“O que aquilo queria dizer?”, refletia.
No dia seguinte, segunda-feira chuvosa, seu trabalho não rendia como esperado. Era um funcionário exemplar, mas seu cansaço estava afetando seu desempenho. Um motorista de uma empresa especializada em entregas devia estar totalmente recomposto.
Atrasou dois compromissos e aquilo repercutiu de forma desagradável. No final da tarde foi chamado à sala de seu chefe.
Ao entrar foi agraciado com temperatura controlada do cômodo e vários prêmios importantes do meio logístico numa estante de vidro, e ainda, de quebra, reparou que seu chefe exibia um sorriso amigável.
“Me desculpe, eu não tive uma noite muito boa e…”, Paulo decidiu declarar a sua culpa e já pedir perdão.
“Espera Paulão, fica calmo!”, seu chefe riu. “Eu não vou te dar bronca. O que ocorreu hoje não foi bom, mas não vou te queimar. Você é um dos meus melhores e como nunca deu mancada te dou toda a oportunidade de se explicar. Eu só queria saber se está tudo bem, se precisa de algo. Se quiser conversar ou pedir algo, agora é a hora”
Em outro momento aquela situação cairia como uma luva. Era a oportunidade exata para pedir uma aumento salarial, mas ao invés disso, Paulo sentiu a necessidade de desabafar.
“Sabe aquela sensação de você estar se sentindo mal? Mas mal no sentido de malvado, sabe? Mau!”
Seu chefe contorceu seu beiço como se concordasse com ele. Expressão essa muito usada por ele. Na verdade, todos os seus funcionários já sabiam de que era um mero sinal de que a conversa seria iludida por sua compreensão.
“Sei sim. O que aconteceu?”
“Eu notei hoje de manhã numa esquina, um padeiro correndo com uma vassoura atrás de um rato. Ele queria matar o rato. Eu sei que era por questão de higiene, mas fiquei pensando em como nós somos, como posso dizer…, como nós somos maiores em relação aos outros animais”
“Superiores?”
“Isso, superiores. Quer dizer, hoje nós dominamos todo o resto, né?”
“Sim, até onde eu sei, dominamos tudo”
“E eu estava pensando, há necessidade de certas coisas?”
“Olha Paulão, eu entendi o que está pensando. Você está se sentindo culpado por uma dádiva. Nós somos os dominadores do mundo, mas já fomos presa fácil quando pulávamos de galho em galho. Conquistamos nosso espaço. Não somos ameaçados por nada. Tudo bem que não podemos jogar uma pedra em um leão faminto, mas hoje nós podemos aprisionar qualquer animal que desejamos. Nós temos o poder de predadores, mas isso faz parte de um papel desempenhado não somente por sermos humanos, mas seria a atitude de qual raça que fosse que estivesse no topo, entende?” seu chefe inclinou um pouco para trás em sua cadeira confortável e se orgulhou de sua explicação, mas voltou seu olhar para Paulo e continuou: “Mas ainda não entendo como isso te abalou. Você viu o padeiro matar o rato e isso o distraiu o dia inteiro?”
“Não, eu não me preocupei com o rato, porque ele era muito rápido e fugiu para um bueiro antes que o padeiro conseguisse pensar em acertá-lo”
“Mas por que me contou isso?”
“É que na verdade aconteceu ontem o lance”
“O que aconteceu ontem?” Paulo contou o ocorrido. Pensou que após toda aquela história sobre raça dominante o seu chefe torceria o beiço e o chamasse de idiota por se sensibilizar com aquilo. Mas a reação foi a de que seu chefe ficou tentando buscar alguma explicação.
“Mas por que você matou ela?”, perguntou. “Não bastava tê-la espantado para fora?” Paulo sentiu o fantasma da mariposa estar sobrevoando a sala.
Se até mesmo seu chefe que era orgulhoso de estar no topo da pirâmide da cadeia alimentar não amenizou a sua confusão, então estaria ele perdido?
“Tire o dia pra descansar Paulão”, ordenou seu chefe com um sorriso forçado.
Ao chegar em casa ele foi até a lixeira procurar pelos restos mortais da mariposa. Não estava lá. Desta forma, chegou a conclusão de que o lixo fora retirado e naquela altura seu corpo estaria todo esmagado com resíduos diversos.
Mas por que ele queria vê-la? Não tinha como desfazer seu ato. Como sua mulher e filha não estavam em casa, decidiu deitar para relaxar e compensar o sono atrasado. Acordou no meio da madrugada, sua mulher deitada ao seu lado e toda a casa escura. Foi até a cozinha pegar algo para comer, apenas para tapear o estômago.
Ao acender a luz viu sobre a pia uma formiga carregando um grão de arroz cozido, que devia ter caído da panela. Quase sem pensar seu dedo indicador foi levado para esmagá-la, quando que, por poucos milímetros parou e viu a mariposa viva em sua mente.
Um espírito vingador. Vingador?
Afastou o dedo titânico e observou a formiga, notável trabalhadora, sumir.
Por um momento, pensou ter visto a mariposa passar pela cozinha e desaparecer pela janela. Sentiu-se aliviado.
Como pode um animal tão indefeso afetar um ser superior?

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