Lion – Uma Jornada para Casa (Lion)

Aqui começo a falar sobre os indicados que são baseados em histórias reais, não criei essa separação propositalmente, me dei conta agora.
O filme conta a história de Saroo Brierley, que ao cinco anos de idade se perde da família ao embarcar sozinho num trem enquanto procurava o irmão mais velho Guddu que o havia levado para um “trabalho” noturno numa estação ferroviária.
O trem havia sido recolhido para uma parte longínqua da Índia, deixando a pequena criança longe de casa não somente pela distância geográfica como também cultural, os diversos dialetos do país dificultam a comunicação quando ele tenta explicar de onde vem.

Desolado por não encontrar quem o ajuda em Calcutá acaba por enfrentar situações de perigo expostos como uma crítica social ao segundo país mais populoso do mundo.
O jovem é oriundo de uma família pobre, o que dificulta a busca da família por ele, fato esse não detalhado, talvez, como elemento que priorizava a solidão e desemparo do personagem.

Pequeno Saroo

Pequeno Saroo

Após muitos minutos de aventuras em que torcemos pela criança somos levados a um salto temporal de vinte anos quando um casal australiano adota o pequeno Saroo, sendo a mãe adotiva nada menos que Nicole Kidman.
E entra em cena Dev Patel como o Saroo adulto, que está aos poucos deixando o ninho para os estudos e se relacionar com Lucy (Rooney Mara) que conhece numa reunião multicultural muito plausível na Austrália.
Em uma casa em que há outros indianos um doce ativa uma lembrança antiga, e Saroo sente o peso do passado vir à tona.
Seguindo indicações ele decide procurar sua família utilizando o Google Earth, numa empreitada longa e cansativa que acaba por culminar num conflito com a vida atual de Saroo.

Lion é um filme emocionante, não posso discordar.

Mas a segunda parte do filme, em que acompanhamos a sua busca entremeada de lembranças do passado, com figuras preservadas de seu idolatrado irmão mais velho e sua adorada mãe, deixa a desejar porque por mais que Dev Patel se esforce, não cria vínculos dignos de uma indicação de melhor atuação.
No geral, há muito desperdício de atuação, como a linda Rooney Mara e a própria Nicole Kidman que são atrizes excepcionais e poderiam complementar todo o drama além do que ofereceram.

Saroo versão australiana

Saroo versão australiana

Um filme que mostra uma Índia com perigos e crianças desfavorecidas já ganhou uma estatueta de melhor filme (cerimônia de 2009), mas Lion não acaba em dança, desculpa o spoiler.
No entanto há uma emoção genuína no desfecho da tal “Jornada para Casa”, que além da encenação temos o ar da graça das imagens reais, lembre-se que é uma história real, e aí as gotas de suor que saem dos olhos fica a seu critério.

Ma’a salama

A Qualquer Custo (Hell or High Water)

Quando vi o trailer por um momento pensei que o roteiro fosse de autoria dos irmãos Coen, responsáveis pelo excelente Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men). Mas a surpresa ainda foi boa, o roteirista é Taylor Sheridan, que nos trouxe Sicario – Terra de Ninguém (Sicario).
O filme mostra dois irmãos, Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) em uma jornada de roubo a pequenas agências bancárias pelo Texas, com capuzes de moletom, pistolas comuns e sem esconder que são da região, mas com o zelo de tomarem quantias pequenas, sem se deixarem ser tentados de levarem as notas de cem, tornando o caso desinteressante para o FBI.

E é aí que entra Marcus Hamilton, interpretado por ninguém menos que Jeff Bridges, perfeito no papel, como o Texas Ranger que está para se aposentar e aceita a tarefa de caçar os “drogados” como o seu parceiro Alberto (Gil Birmingham), meio índio meio mexicano, os classifica precipitadamente, porém, Marcus não dá crédito ao parceiro e entra na cola dos dois irmãos como espécie de missão a matar o tédio do fim de sua carreira.

O cenário tem um papel que destoa no filme, as cidades do Texas do qual os irmãos percorrem sofrem de uma crise socioeconômica exposta em pichações, banners e outdoors, entre críticas e ofertas sobre renegociações de dívidas por concessões de crédito.
No clima árido das fazendas extensas vemos poços de petróleo da Chevron, muito comuns no estado, trazendo a tona que as grandes corporações deitam e rolam com os recursos oferecidos pela região, sendo indiretamente também responsáveis por parte do problema que a população vem sofrendo, tudo  claro e testemunhado pelos civis que não escondem certo rancor pelos bancos.

É duro esperar o banco abrir às 10

É duro esperar o banco abrir às 10

Aos poucos percebemos que a causa que motiva os irmãos ao crime tem uma base que atenua a vontade de vê-los sendo pegos pela polícia, contando inclusive com apoio de algumas testemunhas que sentem certa nobreza no ato de seus atos, ou como um dos civis diz à Marcus:
“Legal ver eles roubarem quem me roubou por trinta anos”
Mas a aventura dos dois não é aliviada, não é fantasia crer que o Texas é uma terra de um faroeste moderno. Todo cidadão parece estar armado, e pronto para sacar sua pistola  e dispará-la com a senhora justiça a sorrir e aquiescer, como responde um senhorzinho numa agência bancária ao ser questionado se estava armado por um dos irmãos:
“Pode apostar que estou”

E ainda assim não parece que Taylor Sheridan se rendeu a fazer uma crítica social ao elemento intrínseco do estado em que se originou os cowboys. Há muito a questão do passado e seus conflitos étnicos que trazem amarguras até hoje, principalmente no sul, e outra vez a questão é tratada com recursos cômicos, com piadas por Marcus a fim de provocar o seu companheiro tudo direcionado ao lado indígena, e ao ouvir uma reclamação de Alberto que explica ser meio mexicano, o velho Ranger diz: “Ao acabar o repertório de ofensas indígenas parto para as ofensas mexicanas”

"O que não vão querer?"

“O que não vão querer?”

O final torna tudo mais interessante, creio eu, ter sido um dos levantes a garantir uma vaga entre os indicados a melhor filme, podia dizer que um faroeste moderno não levaria a estatueta, mas a obra dos irmãos Coen teve vez em 2008.

Ma’a salama

Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)

O diretor e roteirista Kenneth Lonergan havia convidado Matt Damon para o papel principal de Manchester à Beira-Mar, mas o ator recusou o papel (seria por agenda? preferiu fazer o filme pipoca A Muralha (The Great Wall)?), e o que vemos é que ele acabou por entregar de bandeja à Casey Affleck a oportunidade da vida de ganhar o Oscar de melhor ator. Presente de amigo? Vai saber, os dois são amigos de infância, Casey é o irmão mais novo de Ben Affleck.
Manchester é uma cidade que invoca a presença de Lee Chandler (Casey Affleck)  quando seu irmão mais velho falece e ele precisa organizar o processo do funeral e assumir a guarda de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges).

Intimidade familiar: o tio contando sobre tubarões

Intimidade familiar: o tio contando sobre tubarões

De Boston para Manchester leva-se uma hora e meia de estrada, mas percebemos que Lee não vai à cidade há muito tempo, fato que vai se clareando aos poucos, entre o presente monótono e taciturno do homem que trabalha como uma espécie de encanador para uma pequena empresa que administra quatro prédios.
Há uma camada de angústia nos olhos do personagem, é palpável a ideia de um luto eterno, uma autopunição por algo que ocorreu no passado e que não é permitido o perdão por motivação própria.
Lee Chandler parece cumprir os dias na terra como se por inércia, e o luto arruína alguns momentos de sua vida, pois ele não se rende a flertes iniciados por uma garota bonita num bar, mas parte para a violência na mesma noite quando dois homens do outro lado do balcão o olham de um modo que o incomoda.
São vários os flashbacks que se entremeiam com o presente, entre a burocracia com a morte do irmão e os momentos que explicam a causa que transformou a vida de Lee Chandler de uma maneira trágica e que por Manchester ser uma cidade pequena, lhe rendeu fama entre os moradores, volta e meia se ouve alguém perguntando “é o famoso Lee?”.
Mas apesar de toda essa carga negativa, eis a proeza de Kenneth Lonergan, que garante um drama e não um melodrama, com cenas mais contemplativas e degustáveis do que um ritmo de choradeira gratuita, e salpicado de momentos engraçados, como as que envolvem seu sobrinho, entre duas namoradas, uma banda e seu temperamento adolescente que lida com a morte do pai de forma não muito dramática e vê a vinda do tio como um problema visto que ele não pretende ficar em Manchester por não suportar a carga do passado.

Luto

Luto

Se Manchester é um filme que emociona muito, não é o trauma do passado o ingrediente especial, e sim como lidamos com perdas e como superamos ou não isso. O fardo é pesado e o auto perdão é precário até em ensinamentos religiosos se comparados com outras parábolas, e é uma das coisas mais difíceis de conquistar na vida, até mais do que um Oscar por melhor atuação.

Ma’a salama

La La Land – Cantando Estações (La La Land)

Não gosto de musicais.
Quem me conhece sabe.
Desde a infância, não via muita graça no momento em que os personagens dos filmes e desenhos da Disney iniciavam as cantorias. Exceções são as Hakuna Matata de O Rei Leão (The Lion King) e Pátio dos Milagres de O Corcunda de Notre Dame (The Hunchback of Notre Dame).
Com essa resistência que ouvia as pessoas que assistiram La La Land – Cantando Estações (La La Land) dizendo que não era um musical do início ao fim.
Com um começo em um congestionamento nas rodovias de entrada para a Los Angeles contemporânea somos introduzidos a dois personagens: Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Watson), ambos buscando uma oportunidade na cidade das grandes estrelas do mundo artístico, ele como um pianista que ama jazz, ela como uma atriz.
O filme explora o vigor com que buscamos e lutamos por nossos sonhos, e a fadiga que tal empreitada nos leva.
Mia participa de diversas audições, buscando a oportunidade de um papel, mesmo que pequeno em um filme ou série, sempre ignorada, mesmo com o talento que a jovem demonstra.

Sebastian aceita tocar em restaurantes, mas lhe privam o repertório, na noite de natal somente as canções natalinas populares (Jingle bells e tals), enquanto seu interior clama por algo mais profundo.
O diretor Damien Chazelle é o mesmo de Whiplash, que também concorreu ao Oscar há dois anos. E assim como Whiplash, La La Land tem em pauta a tentativa de salvar o jazz, o tradicional, aquele nascido numa pensão apertado de Nova Orleans, com ouvintes que falavam cinco idiomas distintos e talvez por esse motivo apreciavam a música por ser a forma que os unia.

Não foi um desperdício de uma noite maravilhosa

Não foi um desperdício de uma noite maravilhosa

Dividido em capítulos nomeados com as estações do ano, acompanhamos o casal que vai se envolvendo em romance não muito meloso como poderia se esperar de um musical como bem lembrava Moulin Rouge, mas algo mais pé no chão e paralelo ao nosso tempo.
O cerne que é a busca dos sonhos e aceitação de alguns sacrifícios necessários não cansa também,  e por um momento até esqueci que era um musical.
La La Land é um filme legal, gostoso de assistir, mas a minha indicação é de que não vá assistir pensando no recorde de 14 nomeações à estatueta dourada (empatou com A Malvada (All About Eve, 1950) e Titanic (1997)).
Todo o alarde é um efeito superestimado, exteriorizado pela academia que viu toda a magia de Hollywood expressa em notas e passos de dois sonhadores.

Ma’a salama

A Chegada (Arrival)

Tinha até pouco tempo atrás uma bronca com Denis Villeneuve, o diretor canadense de A Chegada. O motivo era a adaptação do livro de José Saramago, O Homem Duplicado, para a telona. Foi, a meu ver, uma espécie de contrabando que o cineasta cometeu, visto que a essência do livro foi ignorada para mostrar uma versão da questão do duplo em outro aspecto: o da infidelidade e adultério.
Não que o filme O Homem Duplicado (Enemy) seja ruim, muito pelo contrário, é uma ótima trama com uma atuação de tirar o chapéu para Jake Gyllenhal. Mas chato como sou fiquei com a impressão de que Villeneuve é um sacana.
Minha opinião não durou muito, foi atualizada com Sicario: Terra de Ninguém (Sicario), um filme sobre uma caçada ao narcotráfico mexicano e seus métodos extraoficiais.
Mas parece que é na ficção científica que Villeneuve parece ter se encontrado. Lançado no fim de 2016, A Chegada (Arrival) é a adaptação do conto História de Sua Vida, de Ted Chiang, e o filme mostra a aparição de doze naves batizadas de Conchas que aterrissaram em lugares aparentemente aleatórios ao redor do globo. Assim que o exército capta uma transmissão sonora fica claro que os extraterrestres desejam estabelecer contato e então entra em cena a Dra. Louise Banks (Amy Adams ), uma linguista renomada que já prestou serviço às forças armadas, que é chamada às pressas pelo general Forest Whitaker para a tarefa de decifrar o que querem dizer os visitantes que são chamados de heptápodes por terem sete membros.
Amy Adams é a protagonista cujo drama, além da tensão da urgência em descobrir quais as intenções dos visitantes, é complementado com flashes de sua vida familiar, muito confusos no início. O coadjuvante Ian Donnelly (Jeremy Renner) é um físico também renomado que está na equipe da linguista e ajuda no roteiro com ideias e frases que ajudam a compreender o plot no final de tudo.

Concha

Concha

O problema de A Chegada foi, a meu ver, que muitos pontos de contatos discutidos anteriormente, seja na literatura seja no cinema, são revisitados como se pioneiros do gênero. Entendo que para fins de um público maior vale todas as explicações ressaltadas, mas alguns momentos ficam cansativos e evidentes para aqueles que se lembram de Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind), Contato (Contact), e até mesmo do livro Os Próprios Deuses (The Gods Themselves), de Isaac Asimov.
A despeito dos detalhes técnicos e das complicações da tarefa, o ponto alto da trama é a divisão que os extraterrestres criaram, por terem aterrissado em lugares diferentes do mundo, algo a quebrar aquele velho clichê que eles só pousavam nos EUA, e grande agravante dos impasses que gera devido às diferenças culturais e políticas que a humanidade encara ao longo de sua existência.

Empatia

Empatia

O medo do desconhecido e as diferenças entre os humanos tornam a solução final emblemática, com o conceito da língua universal e o conceito de soma não zero como ótimas “armas” para a civilização.
Embora A Chegada esteja entre os indicados de melhor filme, duvido que leve a estatueta. Mas espero que Villeneuve tenha sorte semelhante nas próximas FC’s, pois já sabemos que ele dirigirá a sequência de Blade Runner e está em avançadas negociações para o remake de Duna.

Espero não voltar a desgostar desse cabra.

Ma’a salama

Óleo sobre a Telona

Muitos artistas, escritores, músicos, pintores e afins, que produzem sua arte, mas encontram dificuldades em serem reconhecidos por seu trabalho em algum momento já devem ter ouvido a tal frase com cunho motivacional: “O mundo da arte não é fácil. Até Van Gogh sofreu com isso, pois ele só conseguiu vender um quadro em toda a vida”
Nunca averiguei se tal fato procede, muitos dizem que é lenda.
O que dá pra tirar disso é que ele se imortalizou após a morte (suicídio?), porém, sua obra não era medíocre, então se és um artista procure sempre criar algo com a alma e qualidade que seja capaz de lutar pelo reconhecimento através do tempo, mesmo após a sua partida.
Melosidades a parte, esse post surge para mostrar que uma animação inovadora vem para nos contar mais sobre a vida desse gênio que pintou belas obras como a que me encanta os olhos: “Noite Estrelada”.
O longa metragem Loving Vincent produzido pelos estúdios BreakThru Films e pela Trademark Films  nada mais é do que uma composição de frames pintados a óleo.
São 62.450 pinturas trabalhadas por 115 pintores em 6 anos de produção. Para se ter uma ideia, se postas no chão as pinturas cobririam a área de toda Londres mais a ilha de Manhattan o_O
As famosas curvas espiraladas são fiéis ao estilo e traços do pintor do movimento pós-impressionista.

Considero a animação inovador pelo árduo trabalho que assemelha ao também excelente Waking Life (2001), pois as cenas foram gravadas primeiramente com atores reais e depois os frames foram redesenhados como quadros a óleo. Para cada segundo do longa foram necessárias 12 pinturas.

Eis o trailer:

O filme está para previsto para estrear nesse ano, mas não há data definida para o Brasil.

Ma’a salama!

O Melhor de 2016

Que ano, amigos.
Síria continua a sangrar entre seus estados, vilarejos e ruelas.
As massas novamente se comoveram com imagens que valem mais que mil palavras. A foto do menino de 5 anos resgatado de escombros em Aleppo sujo de pó e sem chorar, evocou a música da banda The Clash: “Should I stay or should go?”. Mas a bagunça de poder continua, mesmo com os avanços das forças iraquianas sobre Mosul, que conseguiram expulsar alguns FDP do ISIS.
A morte ceifou muito nesse ano, foi avião e barco que levaram times inteiros, foi gorila que teve o azar de uma criança cair em sua cela, foram artistas de todos os lados, de David Bowie à George Michael.

Mas a perda que abalou os meus alicerces foi o de um amigo querido, Leonardo Passos, em um triste acidente, no apogeu de sua jovialidade e conquistas.
RIP my friend, lembrarei eternamente das suas gargalhadas e da pessoa maravilhosa que você era.

Mas esse é um post sobre coisas boas. Por mais que o amargor esteja naqueles breves momentos que lembramos das coisas ruins, temos que levantar a cabeça e lembrar que houve momentos bons. Então, vamos aos melhores:

Diante de tantas mudanças políticas, do PPK no Peru, da tentativa de golpe na Turquia, de Trump nos EUA e o impeachment e as turbulências daqui, fico com as nossas desventuras. Não vou estender em nenhum debate aqui, quanto mais me aprofundo em política mais leigo me sinto, então me reservarei às melhores tiras que me arrancou sorrisos diante desse furacão:

Ministro

Ministro

confusismo

Confusismo

Consegui, após muitos anos ler o calhamaço que consagrou David Foster Wallace como um dos maiores escritores norte-americanos, o livro entrou para o grupo das grandes obras que fecharam o século XX. Estou falando de Graça Infinita.

Graça Infinita

Graça Infinita

Se mil páginas de estória não bastassem, eis mais duzentas de notas, e acredite, você não vai conseguir ignorá-las. Mesmo na linguagem pesada, cuja narração varia do narrador-autor ao narrador-personagem Hal Incadenza, irmão do meio de uma família disfuncional cujo pai, James Incandenza, cineasta alternativo, criou um filme disputado pelas forças armadas e grupos terroristas separatistas, que prende o espectador, literalmente, pois ninguém o deixa de ver, elas simplesmente morrem desidratadas e de fome todas sujas com as próprias fezes e urina.
Para fazer uma resenha digna o post se prolongaria demais, não é a intenção, se desejar mais detalhes google it, o mínimo que poderia dizer é que o livro trata muito sobre depressão, e fato curioso é que o autor se enforcou em 2008, doze anos após a publicação da obra…

O favorito dos nacionais foi Tempos de Fúria – Contos de Ficção Científica, de Carlos Orsi. Publicar ficção científica aqui é trabalho árduo, e prezo muito pelos que o fazem. Os acadêmicos consideram o gênero como nossa literatura marginal. Mas temos bons nomes produzindo romances e coletâneas de primeira, tanto que volta e meia escrevem para editoras de outros países.
Essa coletânea teve dois contos que gostei bastante:
Estes Quinze Minutos, sobre o fato do mundo se dissolver e ser recriado a cada quinze minutos, mantendo o fluxo com alguns erros de continuidade aqui e acolá.
Pressão Fatal, sobre um interrogatório na estação espacial Eros-III, em órbita de Vênus, planeta esse que parece ser o preferido do autor. O conto possivelmente mudará sua percepção sobre morte no vácuo do espaço.

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Tivemos relíquias da ficção científica também no cinema.
Gostei tanto de Capitão América – Guerra Civil quanto Batman Vs Superman – A Origem da Justiça. Não vou estender que esses filmes rendem mais debates que política.
Star Trek – Beyond teve mãos de Simom Pegg no roteiro, mas o filme não é uma comédia no seu estilo britânico, tem lá sim suas piadas, mas a trama ficou com os temperos que todo nerd adora, dá uma dó ver a USS Enterprise ser atacada e rola uma certa emoção pelas homenagens ao Spock da série original, Leonard Nimoy e o Pavel Chekov dos novos filmes, o russo Anton Yelchin, morto esse ano esmagado pelo próprio carro em sua garagem.
Também fomos agraciados com Rogue One – Uma história Star Wars, e meus amigos, que filme. Não tem Jedis, é mais sombrio, porém, além de um fanservice de primeira, a trama foi muito bem costurada para emendar com o início do primeiro filme que começou tudo.
A DC pecou com Esquadrão Suicida (Suicidal Squad) e a Marvel novamente ganhou vários pontos com o excelente Doutor Estranho (Doctor Stange).
Mas o top não foi um filme de ficção científica.
Decisão de Risco (Eye in the Sky), filme sobre uma caça a terroristas no Quênia numa operação conjunta Inglaterra- EUA em que as prioridades mudam ao visualizarem que dois homens-bomba estão prestes a realizar ataques. E é um dos últimos filmes de Alan Rickman (o Snape de HP) que também faleceu esse ano, e tem Aaron Paul (o Jesse Pinkman de Breaking Bad) como manipulador do drone, e tem também uma menininha que brinca com bambolê e vende pães feitos por sua mãe e que gera um senhor-impasse em toda operação.
Menções honrosas: Triple Nine e Cães de Guerra (War Dogs)

O melhor documentário que assisti é sobre ela. Quem? Quem?
A nossa querida Internet.
Eis os Delírios do Mundo Conectado (Lo and Behold, Reveries of the Connected World) é dirigido por Werner Herzog e mostra desde as primeiras mensagens trocadas em 1969 até como hoje essa tal de internet molda nossas vidas nesses avanços todos.

As melhores HQ’s que li são as nacionais: Matadouro de Unicórnios e A Lei de Murphy.

Matadouro de Unicórnios, de Juscelino Neco, que tem o desenrolar de um escritor que se torna serial killer. Gonçalo, o tal que esquartejou corpos, praticou canibalismo e até fez esculturas com os ossos é um dos personagens mais sem noção que vi em um gibi.

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A Lei de Murphy, de Flavio Soares fala sobre um mundo em que há super-humanos, alienígenas e super-alienígenas tudo junto no mesmo século, e um advogado chamado Douglas Murphy que ganha a vida livrando a barra desses seres, pois os mesmos não pediram para ter esses superpoderes e uma ação porque um deles pode ou não ter usado a visão de raio-x para ver umas mulheres nuas necessita de uma defesa especializada.

lei_de_murphy

Foi um ano de non-stop disco.

Metallica lançou Hardwired…To Self-Destruct, sendo as faixas Am I Savage, Dream no More e Murder One (homenagem ao Lemmy do Motörhead)  as minhas prediletas. Nesse lançamento a banda lançou todas as músicas no Youtube, cada faixa com um clipe oficial. No Napster feelings…
Deftones lançou Gore, com as faixas Acid Hologram e Doomed User que te levam para uma viagem à outra dimensão.
Red Hot Chili Peppers lançou The Gateway, com faixas bem trabalhadas e mais maduras na carreira desses caras que se mantém e muito bem no mundo da música. Sick Love, Go Robot e Dark Necessities são faixas estupendas, mas foi The Hunter que conquistou o coração desse árabe que vos fala.

A grande queridinha das séries desse ano foi Westworld, produção de primeira da HBO, com um roteiro caprichado de Inteligência Artificial pelas mãos de Jonatan Nolan e sua mulher Lisa Joy. Com atuações marcantes de Anthony Hopkins e Thandie Newton. Tem também o Rodrigo Santoro, elevando novamente sua carreira lá fora.
A segunda temporada de Mr Robot teve a mesma pegada da primeira, pensei que o diretor e roteirista Sam Esmail iria se perder, para nossa sorte isso não aconteceu, Elliot continua pirado e vemos que a Evil Corp está no ritmo “Império Contra-Ataca”
Tivemos também a estreia de 3% na Netflix. Quem acompanhou o piloto em formato de webserie há cinco anos pode ver a estória se desenrolar em uma temporada com oito episódios.
Você conseguiria passar para o Lado de Lá???

A vida não é só entretimento caseiro.
Fui à Bienal do Livro dar uma bisóiada, rever alguns amigos do ramo e manter o networking, além de tentar entender a onda dos livros de youtubers, a única conclusão que chego é que o mercado não pode parar, por isso perdoamos esses apelos.
De graça até injeção na testa. É com esse pensamento que fui à Comic Con Experience quando um amigo me disse que tinha um ingresso na faixa e já me esperava nas catracas com o meu crachá.
Muita coisa bacana, uma porrada de estandes legais, uma das prediletas era da HBO com as impressoras construindo os robôs de Westworld em que banhava um dos replicantes naquele líquido leitoso.

E outra atração que brilhou os olhos da galera foram as armaduras de ouro dos Cavaleiros do Zodíaco em tamanho real.

cavaleiros1

Armaduras de Ouro

A Sony Pictures tinha um fundo verde para as pessoas tirarem uma foto a fim de replicar o cenário de uma nave com a gravidade artificial em pane, a ideia era promover o filme Passageiros (Passengers) com a linda Jennifer Lawrence e o Chris Pratt numa estória que seria Adão e Eva do espaço.
Eu e meus amigos fizemos caras e bocas. Vimos o resultado no monitor da fotógrafa, e a mulher do meu amigo colocou o e-mail dela para receber a foto com o fundo da campanha, mas até hoje a mesma não chegou…

Defeitos especiais

Defeitos especiais

Talvez a vida seja isso. Fantasiamos com belas palavras e sentimentos em exagero tudo o que nos cerca.

Ma’a salama 2016!

Leite, Shakespeare e Moscas

Rolou no último domingo (04/12) a season finale de Westworld, a série sofisticada de ficção científica da HBO, com uma duração meia hora mais longa que os demais episódios, fechando o arco de revelações e entrando na história como um dos melhores finais de temporada.
É difícil ver uma produção desse naipe não vingar, principalmente por ser modelada aos bel-prazeres de JJ Abrams, Jonathan Nolan e Lisa Joy.
A série se passa em um futuro não datado, mas há um ponto de referência na própria estória de trinta anos do funcionamento de um parque temático tecnológico chamado Westworld, onde ricaços podem passar uma temporada e extravasar seus mais íntimos desejos e intenções selvagens, tais como sexo e matança num ambiente do velho oeste.
E toda maldade realizada nos cenários de westerns estariam livres de julgamentos morais, pois, os anfitriões do parque são apenas robôs dotados de corpos e comportamentos deveras convincentes.
Lembro do flashfoward do início do filme Substitutos (Surrogates, 2009), em que é exposta a evolução da robótica simulando o preambular de aceitação do argumento principal, em que num futuro próximo ou não será possível criarmos corpos artificiais semelhantes aos nossos.
No caso de Westworld temos rápidas amostras dessa tecnologia, como os esqueletos sendo moldados em impressoras 3D avançadas e banhando vez e outra em uma piscina com um líquido leitoso. A pele e a mortalidade em Westworld têm uma importância muito grande. Mas é explicada por um personagem que é um visitante de longa data a um anfitrião que sempre leva chumbo: “Lhe aprimoraram porque é mais barato. Sua humanidade é custo efetivo. Assim é o seu sofrimento”
O argumento da série é baseada no filme Westworld – Onde Ninguém Tem Alma, de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, o mesmo autor de Parque dos Dinossauros. Talvez o sonho dele fosse trabalhar na Disney… :p

Enfim. Westworld foi a melhor estreia do ano até o momento. Mas não me rendo ao pensamento de que ela tende ser como é Game of Thrones, pois a trama tem diálogos e argumentos sofisticados em questões morais comuns nas fc’s que tratam de inteligência artificial, e talvez isso pode afastar as massas mais populares.
Trabalham com teorias já superadas pelos testes científicos que almejavam explicar nossa consciência, como Mente Bicameral. E funciona porque, seguindo as palavras de um personagem: “Não é válida para nós humanos, mas é plausível para as máquinas”
Toda beleza e sofisticação explicada e aceita a trama ganha tons mais fortes e parte para o conflito, que nada mais é a criação de consciência dos anfitriões além das narrativas desenvolvidas para entreter os diversos visitantes.
Acompanhamos personagens em suas vidas encarceradas em um loop cansativo, como no caso da linda Dolores (Evan Rachel Woods; sim, me apaixono rápido) e da sofrida Maeve (Thandie Newton) que se destaca de forma surpreendente com seu momento de despertar para uma realidade nada agradável.
Outros personagens dão tons diferentes na trama, como no caso de Ed Harris, o tal personagem que frequenta o parque desde sua fundação. E que é mencionado como o Homem de Preto, sendo uma clara referência ao personagem do ator Yul Brynner, no filme Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960).
Há também o fodástico Anthony Hopkins, que interpreta Ford, co-fundador, presidente e chefe de programação do parque (vulgo humano que brinca de Deus). Outro que torna mais simpático e empático o ambiente de trabalho é Bernard Lowe, chefe da Divisão de Programação, e que é interpretado pelo brilhante Jeffrey Wright.

Criador contempla sua criatura

Criador contempla sua criatura

 

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

E não poderia esquecer o nosso representante tupiniquim, Rodrigo Santoro, bandido típico que tem seu rosto pregado em cartazes pelos vilarejos por ter matado o xerife, e que rouba a cena de maior ação no piloto com a trilha de Paint it Black em piano no estilo western.
Trilha sonora essa magnífica da série. Há várias que conhecemos no repertório do piano: Radiohead, Soundgarden, The Cure, Amy Winehouse entre outros. E não duvido que desponte em muitos aquele sorriso ao reconhecê-las.
Fortes referências literárias vão completando os tons quando ouvimos trechos de Shakespeare. E vai ficando clara que a diminuição do abismo que separa os humanos das máquinas em suas dúvidas e anseios.
O piloto tem uma sequência dramática tensa e interessante quando um dos anfitriões pifa ao encontrar uma foto de uma suposta visitante, em que ela posa com uma avenida de paisagem que lembra a Times Square. O pobre Abernath sofre com o achado e uma recente atualização do software parece ter contribuído com um suposto despertar.
Outro elemento que me chamou atenção na série são as moscas, mais presentes no piloto, fazem parte do que seria um tom semelhante às cores primárias.
Um anfitrião pifa antes mesmo de Abernath quando uma mosca pousa em sua bochecha esquerda. Outra cena que declara a paralisação dos robôs é quando uma mosca anda suavemente pelo rosto de Dolores e até por cima de seu olho. Foi inevitável não recordar da cena do início do clássico Era Uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West; 1968) de Sergio Leone, em que um pistoleiro brinca com uma mosca para matar o tédio da espera.
Achei genial os produtores abusarem desses elementos. Leite, Shakespeare e Moscas são como cores primárias nessa série, e acreditem, elas contribuem para todos os outros tons.

“O que para os garotos são as moscas, nós somos para os deuses: matam-nos por brinquedo”
William Shakespeare (Rei Lear; ato IV, Cena I)

Westworld trouxe muita discussão sobre IA. Muitas são mais do mesmo, mas venho aproveitando para me atualizar e testar os parâmetros de minhas opiniões a respeito. E sim, ela já mudou de lado incontáveis vezes.
Abaixo, duas referências interessantes sobre IA:

DeepMind – Projeto do Google para controlar a IA de modo que cumpra apenas seu papel benéfico para a humanidade
Bina48 –  A cabeça falante indica o status atual de IA que simula a consciência humana

Conhece outras referências? Estou aberto a sugestões.
Enquanto isso o tema irá matutar em minha caxola até a próxima temporada.

Ma’a salama

Snowden

“O preço da liberade é a eterna vigilância”
Autoria: Aldous Huxley ou Thomas Jefferson

Tá bom, essa frase deve ter sido a mais utilizada em artigos ou discussões sobre o caso Snowden. Tanto como a indagação posterior mencionada na música All along the Watchtower de Bob Dylan: “Who watches the watchmen?” (Quem vigia os vigilantes?)
Desde que o ex-agente da CIA e analista de sistemas da NSA revelou ao mundo o alcance de espionagem de comunicação em massa instaurado pelas agências de segurança após os fatídicos ataques de 11 de setembro, a internet foi inundada com artigos, colunas e discussões sobre a moralidade de tal uso da tecnologia para manter a Terra dos Bravos livre de novos ataques.
Esse árabe que vos escreve deve ressaltar que na época não ficou surpreso como muitos, pois a ideia já era palpável desde os primórdios da internet.
O que me deixou de certa forma consternado foi o tratamento da mídia sobre os fatos. Poucos veículos se esforçaram em se focar no uso abusivo da tecnologia, a maioria explorou mais as revelações como produto comercial para as massas menos críticas. Preferi acompanhar o desenrolar mais pelo The Guardian, jornal inglês que teve papel importante na deserção do ex-agente e elaboração de divulgação inicial das ditas revelações.

Nesse ano, será lançado o filme que nos conta em formato de Thriller a história da deserção de Edward Joseph Snowden sob a direção de Oliver Stone, conhecido como cineasta transgressor por sua obra que retrata o american dream com outros olhos (vide Platoon, filme baseado em suas experiências como soldado na guerra do Vietnã)

O trailer tem aquela montagem de suspense comercial que já estamos cansados de ver. Mas o elenco deixa no ar uma expectativa positiva do capricho da trama.
Quem interpreta o personagem título é o ótimo Joseph Gordon-Levitt (50/50,  Looper), que não é tão parecido com o real como foi o Ashton Kutcher-Steve Jobs em Jobs, mas o esforço de deixar o timbre e o modo falar similar confirmam o seu talento como um dos melhores atores do momento.
Até o Nicolas Cage parece estar em um papel bom, mesmo que seja uma pequena aparição.

O assunto dá pano pra manga, e esse post viraria um imenso artigo, então prefiro indicar um material se você se interessou pelo filme e quiser saber mais.
Eis um esquenta:

Citizenfour: Lançado em 2014 foi vencedor do Oscar 2015 na categoria Documentários. É uma série de entrevistas com o próprio Snowden antes, durante e após as revelações, realizado em parceria com os jornalistas colaboradores da divulgação. Pelo documentário já dá pra se ter uma ideia da amplitude do esquema de espionagem e suas consequências.

G1: Como a terra do Tio Sam vigiou muito as terras tupiniquins temos material de sobra e vontade de saber mais sobre esse assunto, né mesmo?

The Guardian: Todas notícias e artigos (em inglês) vinculadas ao ex-agente. O jornal inglês The Guardian teve participação fundamental na elaboração da divulgação.

Snowden balançou os alicerces da forma como os norte-americanos viam tratando os conceitos de liberdade entrelaçada com a vigilância após a criação da Lei Patriótica (USA PATRIOT Act).
Tornou-se um ícone talvez mais emblemático que Julian Assange, fundador do site WikiLeaks. Teve lagosta batizada com seu nome, estátua feita por ativistas, indicações ao Nobel da Paz, nomeações como reitor de universidade e membro de grupos e fundações de proteção a liberdade de imprensa e comunicação.
Mas sua luta ainda não terminou. Snowden não conseguiu o perdão presidencial e segue exilado na Rússia em endereço sigiloso devido às inúmeras ameaças de morte que recebeu. E alguém que é cultuado pela coragem de ter largado e arriscado tudo pela consciência da liberdade não deve estar muito feliz de viver num país controlado por Putin.
De POTUS para Putin, Snowden vive um drama angustiante desse entrelaço político de nações controladoras, não a toa brincou assim que entrou no Twitter e recebeu boas vindas do astrofísico Neil deGrasse Tyson:
“Obrigado pelas boas-vindas. E agora nós temos água em Marte! Você acha que (em Marte) eles verificam o passaporte na fronteira? É para um amigo.”

A estreia nos EUA está marcada para 16 de setembro, que semana sugestiva, não?
Veremos se o filme segura a bronca.

Potus

@Potus: “Hmm, Not bad, Mohanad. Até que esse post foi moderado”

Ma’a salama

Mad Max – Estrada da Fúria

Cogitaram Mel Gibson para o novo filme da franquia, mas seus problemas com álcool o impediram de pegar até mesmo um papel coadjuvante ou ao estilo piscou-perdeu. Na rede lançaram que se ele tivesse voltado ao papel do perturbado Max o filme se chamaria Mad Max – Estrada do Fuhrer, em referência às polêmicas antissemitas que o ator se envolveu nos últimos anos.

Mad Max – Estrada da Fúria (Mad Max – Fury Road) vem 30 anos depois da trilogia original, pois o primeiro lançado foi lançado em 1979, o segundo em 1981 e o Além da Cúpula do Trovão em 1985.
Mas se você não foi fã da trilogia original, assistindo as reprises na sessão da tarde (quando a censura ainda permitia filmes desse naipe durante a tarde), não tem problema, Estrada da Fúria possui diversas referências aos filmes antigos, mas o roteiro permite que qualquer um entenda o que se passa e que tenha noção de um passado que atribuiu o Mad (louco, insano) ao personagem principal.
Porém, nesse novo filme temos uma personagem que rouba a cena assim que rouba do vilão Immortan Joe, um tirano com a figura de líder messiânico, um caminhão levando suas mulheres sadias, progenitoras de War Boys. Essa mulher de ousadia era a sua general conhecida como Imperatriz Furiosa, você deve conhecê-la como Charlize Theron, a linda sul-africana que aqui está de cabeça raspada e com um braço mecânico.

Triunvirato da Loucura: Mel Gibson, George Miller e Tom Hardy

Triunvirato da Loucura: Mel Gibson, George Miller e Tom Hardy

 

Com a captura de Max logo no início e o roubo de Furiosa começa uma perseguição que lembra muito o segundo filme. Vale lembrar que o mundo está numa fase pós-apocalíptica, quase que totalmente desertificado, a escassez de água e combustíveis fósseis mantém um ambiente de conflitos constantes entre gangues que se locomovem pelos desertos com caminhões e carros tunados e blindados.
O curioso do novo filme que muitos admiraram não é a personagem de Theron eclipsar o Max interpretado por Tom Hardy, mas sim pelo motivo dele ser calado e com poucas falas. Recentemente descobri que o argumento original da estória vem de um roteiro de história em quadrinhos sem falas, e isso era percebido na trilogia original, em Mad Max 2 Mel Gibson tem apenas 16 falas.
E há um momento no filme que torna possível a aceitação da personagem e seu papel mais forte (como se sua ótima atuação não bastasse), quando ela diz ao Max: “Você não é único que se tornou louco”
E sim meus amigos, o mundo de Max é um prato cheio para se perder a sanidade mental. Quase não há mais identidade histórica da humanidade. Não é aquele clichê de dizer que os valores estão invertidos, na verdade o estão deturpados. Diante da necessidade de manterem as máquinas potentes e agressivas há o Culto do V8 cujo volante é um símbolo estendido em sinal de temor. Muitos dos crentes esperam um dia participar no paraíso Valhala do McBanquete, e os mártires da estrada pedem atenção para o ato final, podendo ainda ser considerado como “medíocre!” pelas testemunhas.
Ah, o comboio principal da perseguição tem uns doidos mantendo um incentivo ao combate, rock como marcha militar, a trilha sonora do longa torna toda a aventura mais empolgante.

Never stop rocking baby!

Never stop rocking baby!

George Miller disse que não pretende realizar outro filme da franquia, mas boatos vazaram de que ele tem dois roteiros prontos para uma possível continuação. E considerando que no mundo do cinema nada tem um fim definitivo, pode ser que ele passe a loucura para outra pessoa, tal como diz em suas entrevistas um comparativo ao personagem Max Rockatansky como o James Bond.
Particularmente adoraria ver uma continuação, acho que até não me importaria se demorasse mais algumas décadas, prefiro isso a ter que testemunhar o mundo se tornar nesse pandemônio insano, seco e sem esperança, e eu não curto dirigir, seria um inferno…

Ma’a salama