Leite, Shakespeare e Moscas

Rolou no último domingo (04/12) a season finale de Westworld, a série sofisticada de ficção científica da HBO, com uma duração meia hora mais longa que os demais episódios, fechando o arco de revelações e entrando na história como um dos melhores finais de temporada.
É difícil ver uma produção desse naipe não vingar, principalmente por ser modelada aos bel-prazeres de JJ Abrams, Jonathan Nolan e Lisa Joy.
A série se passa em um futuro não datado, mas há um ponto de referência na própria estória de trinta anos do funcionamento de um parque temático tecnológico chamado Westworld, onde ricaços podem passar uma temporada e extravasar seus mais íntimos desejos e intenções selvagens, tais como sexo e matança num ambiente do velho oeste.
E toda maldade realizada nos cenários de westerns estariam livres de julgamentos morais, pois, os anfitriões do parque são apenas robôs dotados de corpos e comportamentos deveras convincentes.
Lembro do flashfoward do início do filme Substitutos (Surrogates, 2009), em que é exposta a evolução da robótica simulando o preambular de aceitação do argumento principal, em que num futuro próximo ou não será possível criarmos corpos artificiais semelhantes aos nossos.
No caso de Westworld temos rápidas amostras dessa tecnologia, como os esqueletos sendo moldados em impressoras 3D avançadas e banhando vez e outra em uma piscina com um líquido leitoso. A pele e a mortalidade em Westworld têm uma importância muito grande. Mas é explicada por um personagem que é um visitante de longa data a um anfitrião que sempre leva chumbo: “Lhe aprimoraram porque é mais barato. Sua humanidade é custo efetivo. Assim é o seu sofrimento”
O argumento da série é baseada no filme Westworld – Onde Ninguém Tem Alma, de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, o mesmo autor de Parque dos Dinossauros. Talvez o sonho dele fosse trabalhar na Disney… :p

Enfim. Westworld foi a melhor estreia do ano até o momento. Mas não me rendo ao pensamento de que ela tende ser como é Game of Thrones, pois a trama tem diálogos e argumentos sofisticados em questões morais comuns nas fc’s que tratam de inteligência artificial, e talvez isso pode afastar as massas mais populares.
Trabalham com teorias já superadas pelos testes científicos que almejavam explicar nossa consciência, como Mente Bicameral. E funciona porque, seguindo as palavras de um personagem: “Não é válida para nós humanos, mas é plausível para as máquinas”
Toda beleza e sofisticação explicada e aceita a trama ganha tons mais fortes e parte para o conflito, que nada mais é a criação de consciência dos anfitriões além das narrativas desenvolvidas para entreter os diversos visitantes.
Acompanhamos personagens em suas vidas encarceradas em um loop cansativo, como no caso da linda Dolores (Evan Rachel Woods; sim, me apaixono rápido) e da sofrida Maeve (Thandie Newton) que se destaca de forma surpreendente com seu momento de despertar para uma realidade nada agradável.
Outros personagens dão tons diferentes na trama, como no caso de Ed Harris, o tal personagem que frequenta o parque desde sua fundação. E que é mencionado como o Homem de Preto, sendo uma clara referência ao personagem do ator Yul Brynner, no filme Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960).
Há também o fodástico Anthony Hopkins, que interpreta Ford, co-fundador, presidente e chefe de programação do parque (vulgo humano que brinca de Deus). Outro que torna mais simpático e empático o ambiente de trabalho é Bernard Lowe, chefe da Divisão de Programação, e que é interpretado pelo brilhante Jeffrey Wright.

Criador contempla sua criatura

Criador contempla sua criatura

 

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

E não poderia esquecer o nosso representante tupiniquim, Rodrigo Santoro, bandido típico que tem seu rosto pregado em cartazes pelos vilarejos por ter matado o xerife, e que rouba a cena de maior ação no piloto com a trilha de Paint it Black em piano no estilo western.
Trilha sonora essa magnífica da série. Há várias que conhecemos no repertório do piano: Radiohead, Soundgarden, The Cure, Amy Winehouse entre outros. E não duvido que desponte em muitos aquele sorriso ao reconhecê-las.
Fortes referências literárias vão completando os tons quando ouvimos trechos de Shakespeare. E vai ficando clara que a diminuição do abismo que separa os humanos das máquinas em suas dúvidas e anseios.
O piloto tem uma sequência dramática tensa e interessante quando um dos anfitriões pifa ao encontrar uma foto de uma suposta visitante, em que ela posa com uma avenida de paisagem que lembra a Times Square. O pobre Abernath sofre com o achado e uma recente atualização do software parece ter contribuído com um suposto despertar.
Outro elemento que me chamou atenção na série são as moscas, mais presentes no piloto, fazem parte do que seria um tom semelhante às cores primárias.
Um anfitrião pifa antes mesmo de Abernath quando uma mosca pousa em sua bochecha esquerda. Outra cena que declara a paralisação dos robôs é quando uma mosca anda suavemente pelo rosto de Dolores e até por cima de seu olho. Foi inevitável não recordar da cena do início do clássico Era Uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West; 1968) de Sergio Leone, em que um pistoleiro brinca com uma mosca para matar o tédio da espera.
Achei genial os produtores abusarem desses elementos. Leite, Shakespeare e Moscas são como cores primárias nessa série, e acreditem, elas contribuem para todos os outros tons.

“O que para os garotos são as moscas, nós somos para os deuses: matam-nos por brinquedo”
William Shakespeare (Rei Lear; ato IV, Cena I)

Westworld trouxe muita discussão sobre IA. Muitas são mais do mesmo, mas venho aproveitando para me atualizar e testar os parâmetros de minhas opiniões a respeito. E sim, ela já mudou de lado incontáveis vezes.
Abaixo, duas referências interessantes sobre IA:

DeepMind – Projeto do Google para controlar a IA de modo que cumpra apenas seu papel benéfico para a humanidade
Bina48 –  A cabeça falante indica o status atual de IA que simula a consciência humana

Conhece outras referências? Estou aberto a sugestões.
Enquanto isso o tema irá matutar em minha caxola até a próxima temporada.

Ma’a salama

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