Você não é bem-vindo

Sim, o título não é uma saudação amistosa.
Aliás, sim, você, pessoa leitora, é bem-vinda aqui nesse espaço de escritos largados, sempre ficarei feliz com sua visita, por ter cedido tempo e curiosidade em dar uma espiada o que esse escriba resolveu postar.
No entanto o título é uma provocação direcionado a um não humano, fruto do desacordo oriundo de um e-mail recebido na segunda(22/06/26) sobre a nova ferramenta de tradução automática amparada por Inteligência Artificial da plataforma Kindle, do bilionário careca que não desembolsa alguns dólares para melhorar o capenga streaming do Prime Video.
Foi disponibilizado o Kindle Translate, na plataforma de auto-publicação de ebooks, e que nas palavras deles “permite aos autores traduzir seus eBooks elegíveis para vários idiomas e compartilhá-los com leitores em todo o mundo”.
Seria lindo, se a ferramenta não fosse outro zumbi de IA sendo empurrado goela abaixo dos pobres artistas literários independentes.
De bate e pronto lembrei da piadinha de tradução:
Original:
“—Thanks.
—You are welcome.”
Tradução:
“—Grato.
—Você é bem-vindo.”

E você irá dizer, mas pô, as traduções não funcionam mais de forma literal assim palavra a palavra.
Sim, eu sei, há toda uma estrutura sofisticada de expressões regulares em subcamadas de chaves e redes neurais de contexto, com textos fragmentados em parágrafos treinados em modelos de aprendizagem de máquina embasado em muita álgebra linear e etc e etc, tô ligado galera, sou programador e me arrisquei em pós em Ciência de Dados.

Não dou o mérito da discussão da eficiência da ferramenta, se ela terá êxito em entender uma externalização informal de diálogo:
“Ôrraa, coé fióti di fubangaiada vumitada”.
Ou então se conseguiria trespassar semântica e níveis maiores do:
“He smells Old Spice”, cuja tradução literal perderia valor de sentido se fosse “Ele cheirava a Old Spice”.
Esse último exemplo foi extraído de um vídeo que vi sobre as nuances e desafios de se traduzir o livro Graça Infinita.
Ou então, imagine a frase de outro diálogo:
“—Me dê uma mão aí.”
Em que o resultado final gere a tradução esquivando-se da frase literal:
“—Help me here.”
Mas que após várias trocas de falas, em artimanha textual descobrimos que a pessoa estava caçoando descaradamente de outro personagem que nos é revelado ao final da página que não possui um braço, ou que, três capítulos atrás já nos fosse introduzida a deficiência de um e personalidade sarrista do outro, justificando a permanência da frase literal.

Poderia alongar essa postagem com diversos exemplos em que paira dúvida do êxito da ferramenta.
Porém, o meu ponto de desacordo dessa joça não é competência, e sim, consciência.
Não uso e nem pretendo utilizar agentes de IA gerativas para meus escritos, pois, se eu não consigo ou gosto de escrever, por que alguém deveria gostar de me ler?
Prefiro mil vezes um texto meu ruim, medíocre e recheado de erros e incongruências, do que um texto impecável gerado por um “não-eu”.
Da mesma forma não pretendo habilitar essa zombIA para traduzir os meus escritos, eliminando a existência dessa figura humana do tradutor, que assume um papel de segundo autor da obra, com zelo e olhar atento na melhor reprodução do idioma original.
No que depender de mim, nesse processo independente, haverá um ilustrador humano para a capa, haverá um diagramador humano e se desejar ser lido pelo mundão, haverá também um tradutor humano nesse processo.


Obviamente uma imagem não gerada por IA: Torre de Babel, por Pieter bruegel, 1563
Obviamente uma imagem não gerada por IA: Torre de Babel, por Pieter bruegel, 1563


Ma’a salama!

Leite, Shakespeare e Moscas

Rolou no último domingo (04/12) a season finale de Westworld, a série sofisticada de ficção científica da HBO, com uma duração meia hora mais longa que os demais episódios, fechando o arco de revelações e entrando na história como um dos melhores finais de temporada.
É difícil ver uma produção desse naipe não vingar, principalmente por ser modelada aos bel-prazeres de JJ Abrams, Jonathan Nolan e Lisa Joy.
A série se passa em um futuro não datado, mas há um ponto de referência na própria estória de trinta anos do funcionamento de um parque temático tecnológico chamado Westworld, onde ricaços podem passar uma temporada e extravasar seus mais íntimos desejos e intenções selvagens, tais como sexo e matança num ambiente do velho oeste.
E toda maldade realizada nos cenários de westerns estariam livres de julgamentos morais, pois, os anfitriões do parque são apenas robôs dotados de corpos e comportamentos deveras convincentes.
Lembro do flashfoward do início do filme Substitutos (Surrogates, 2009), em que é exposta a evolução da robótica simulando o preambular de aceitação do argumento principal, em que num futuro próximo ou não será possível criarmos corpos artificiais semelhantes aos nossos.
No caso de Westworld temos rápidas amostras dessa tecnologia, como os esqueletos sendo moldados em impressoras 3D avançadas e banhando vez e outra em uma piscina com um líquido leitoso. A pele e a mortalidade em Westworld têm uma importância muito grande. Mas é explicada por um personagem que é um visitante de longa data a um anfitrião que sempre leva chumbo: “Lhe aprimoraram porque é mais barato. Sua humanidade é custo efetivo. Assim é o seu sofrimento”
O argumento da série é baseada no filme Westworld – Onde Ninguém Tem Alma, de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, o mesmo autor de Parque dos Dinossauros. Talvez o sonho dele fosse trabalhar na Disney… :p

Enfim. Westworld foi a melhor estreia do ano até o momento. Mas não me rendo ao pensamento de que ela tende ser como é Game of Thrones, pois a trama tem diálogos e argumentos sofisticados em questões morais comuns nas fc’s que tratam de inteligência artificial, e talvez isso pode afastar as massas mais populares.
Trabalham com teorias já superadas pelos testes científicos que almejavam explicar nossa consciência, como Mente Bicameral. E funciona porque, seguindo as palavras de um personagem: “Não é válida para nós humanos, mas é plausível para as máquinas”
Toda beleza e sofisticação explicada e aceita a trama ganha tons mais fortes e parte para o conflito, que nada mais é a criação de consciência dos anfitriões além das narrativas desenvolvidas para entreter os diversos visitantes.
Acompanhamos personagens em suas vidas encarceradas em um loop cansativo, como no caso da linda Dolores (Evan Rachel Woods; sim, me apaixono rápido) e da sofrida Maeve (Thandie Newton) que se destaca de forma surpreendente com seu momento de despertar para uma realidade nada agradável.
Outros personagens dão tons diferentes na trama, como no caso de Ed Harris, o tal personagem que frequenta o parque desde sua fundação. E que é mencionado como o Homem de Preto, sendo uma clara referência ao personagem do ator Yul Brynner, no filme Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960).
Há também o fodástico Anthony Hopkins, que interpreta Ford, co-fundador, presidente e chefe de programação do parque (vulgo humano que brinca de Deus). Outro que torna mais simpático e empático o ambiente de trabalho é Bernard Lowe, chefe da Divisão de Programação, e que é interpretado pelo brilhante Jeffrey Wright.

Criador contempla sua criatura

Criador contempla sua criatura

 

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

Bernard: O quão complexa é a consciência deles?

E não poderia esquecer o nosso representante tupiniquim, Rodrigo Santoro, bandido típico que tem seu rosto pregado em cartazes pelos vilarejos por ter matado o xerife, e que rouba a cena de maior ação no piloto com a trilha de Paint it Black em piano no estilo western.
Trilha sonora essa magnífica da série. Há várias que conhecemos no repertório do piano: Radiohead, Soundgarden, The Cure, Amy Winehouse entre outros. E não duvido que desponte em muitos aquele sorriso ao reconhecê-las.
Fortes referências literárias vão completando os tons quando ouvimos trechos de Shakespeare. E vai ficando clara que a diminuição do abismo que separa os humanos das máquinas em suas dúvidas e anseios.
O piloto tem uma sequência dramática tensa e interessante quando um dos anfitriões pifa ao encontrar uma foto de uma suposta visitante, em que ela posa com uma avenida de paisagem que lembra a Times Square. O pobre Abernath sofre com o achado e uma recente atualização do software parece ter contribuído com um suposto despertar.
Outro elemento que me chamou atenção na série são as moscas, mais presentes no piloto, fazem parte do que seria um tom semelhante às cores primárias.
Um anfitrião pifa antes mesmo de Abernath quando uma mosca pousa em sua bochecha esquerda. Outra cena que declara a paralisação dos robôs é quando uma mosca anda suavemente pelo rosto de Dolores e até por cima de seu olho. Foi inevitável não recordar da cena do início do clássico Era Uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West; 1968) de Sergio Leone, em que um pistoleiro brinca com uma mosca para matar o tédio da espera.
Achei genial os produtores abusarem desses elementos. Leite, Shakespeare e Moscas são como cores primárias nessa série, e acreditem, elas contribuem para todos os outros tons.

“O que para os garotos são as moscas, nós somos para os deuses: matam-nos por brinquedo”
William Shakespeare (Rei Lear; ato IV, Cena I)

Westworld trouxe muita discussão sobre IA. Muitas são mais do mesmo, mas venho aproveitando para me atualizar e testar os parâmetros de minhas opiniões a respeito. E sim, ela já mudou de lado incontáveis vezes.
Abaixo, duas referências interessantes sobre IA:

DeepMind – Projeto do Google para controlar a IA de modo que cumpra apenas seu papel benéfico para a humanidade
Bina48 –  A cabeça falante indica o status atual de IA que simula a consciência humana

Conhece outras referências? Estou aberto a sugestões.
Enquanto isso o tema irá matutar em minha caxola até a próxima temporada.

Ma’a salama