Our Boys – Parte 1

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, anunciou, de forma idiota como sempre, que a série Our Boys, transmitida pela HBO, falada em hebraico e árabe é antissemita.

Assisti ao piloto da série, que me cativou mais do que também a israelense Fauda (disponível na Netflix).

Antes de prosseguir, preciso deixar claro aos que não me conhecem que não nutro simpatia por nenhum tipo de extremismo.
E até mesmo no caso da causa palestina tenho meus ideais mais focados em empatia pelos lados envolvidos e com apelo ao conceito de diplomacia que todo nobre ser humano deveria se esforçar em partilhar antes de atirar a primeira pedra.
Não cresci com uma foto do Arafat na sala, tudo sobre a minha terrinha foi aprendido mais no pós 11 de setembro por vontade própria (meu pai voltou para nosso país natal um ano antes do fatídico dia e antes disso nunca me ensinou ou doutrinou sobre a tal causa) e sobrevivendo ao conteúdo absorvido na adolescência enquanto tentava me encaixar em alguma legitimidade de identidade.
Não sou nenhum Gandhi da vida, mas estou longe de evocar fogo e sangue, e consigo analisar os fatos com um olhar mais frio e “científico” do panorama todo.
Dito isso, espero que leiam, sem comichão de comentar prós ou contras ignóbeis, esse conteúdo sobre a série que irei postando conforme for assistindo aos episódios.

Os eventos da série são sobre o verão de 2014, em junho/julho, em que três garotos judeus são sequestrados na Cisjordânia e posteriormente encontrados mortos.
Tal episódio comoveu Israel, com grandes campanhas pelas buscas, criando levantes do exército sobre os territórios ocupados em semanas de aflição.
Na época, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que tal sequestro foi obra do grupo terrorista Hamas, algo que a organização negou veemente, e isso já seria ponta de desconforto político, pois todo grupo extremista não perderia tempo de assumir seus atos pelo simples conceito de espalhar o terror.
Assim que os corpos dos três garotos foram encontrados houve grandes levantes populares em diversas regiões, e em uma dessas aglomerações um jovem palestino foi sequestrado e queimado vivo por extremistas judeus.
Na sequência, manifestações no lado palestino eclodiram por todos os territórios e o Hamas, para ganhar protagonismo iniciou ataques de foguetes contra os territórios israelenses, que forçou ao exército ao contra-ataque deflagrando a batalha que foi batizada de Operação Margem Protetora.

O piloto mostra apenas o início de tudo, começando com uma ligação de um dos sequestrados e percorrendo os personagens dos envolvidos na investigação e do outro lado mostrando a outra vítima, o jovem palestino morto após a descoberta das mortes dos três jovens judeus.

Our Boys

Our Boys

O mais interessante no que diz respeito a produção da série é divisão de direção.
Enquanto que Joseph Cedar dirige sobre os eventos do lado israelense, Tawfik Abu Wael, de origem árabe, dirige o desenrolar no lado palestino.
O próprio título nos créditos iniciais aparecem em hebraico e árabe saudando a coprodução e participação conjunta.
Fauda tinha um pouco disso também, embora ficasse mais nos atores árabes a participação, sem abertura para produção.

Our Boys tem tudo para ser a série que eu queria ver sobre o conflito que ocorreu em 2014.
Critica os lados políticos sem se agarrar a outro lado político, focando, sem ser piegas, em um alicerce mais puro: as jovens vítimas que toda guerra santa maldita abocanha.

Ma’a salama!

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Fé nos Heróis

Comecei a assistir a série The Boys, da Amazon.
Ela é baseada na ótima HQ dos criadores Garth Ennis e Darick Robertson.
Ótima no sentido de doentia, perversa e sem pudores, vale a pena ressaltar.
No universo apresentado, os heróis nascem aos montes pelo mundo, nem todos excepcionais, mas há um número considerado de super-humanos.
Não quero entregar muita coisa, e gostaria de evitar spoilers desnecessários, então para evitar é só desconsiderar os textos em itálico e sublinhado.

O impacto maior no piloto é em duas cenas que afetam diretamente mulheres, como a desintegração por impacto de uma garota, namorada de um dos personagens principais, por um dos heróis mais famosos do mundo.
E quando uma heroína jovem, cristã e que combatia os malfeitores no interior com o codinome Starlight é selecionada para ser integrante da nata conhecida como Os Sete.
No primeiro dia de ofício a pobre garota em sua inocência e ingenuidade heroica acaba por sofrer um abuso doentio pelos maiores heróis desse universo especulativo.

Os efeitos são bons, a produção não deixa a desejar em questão de cenários mistos com fictícios e reais
E o fato de estar assistindo essa série é que me lembrou as razões de ter um roteiro de HQ que flerta muito com esse estilo de descontrução de heróis.
ALÔ EDITORAS! INTERESSADOS INBOX ME!”
Porém, acho válido deixar claro que o meu projeto é menos doentio que o The Boys.
Ele é ambientado num Brasil futurístico, em que tomamos as rédeas do domínio global.
E os heróis aqui se mantém em sua simbologia pura. A desconstrução viria em outros conflitos.
A noção inicial provavelmente veio de Watchmen, quando li a excelente e mais fodásticas HQ’s, escrita pelo lendário Alan Moore e com uma arte groudbreaker de Dave Gibbons.
O filme lançado dois anos depois de eu ter lido essa HQ, pelas mãos de Zach Snyder, fincou ainda mais esse conceito da perda de fé nos heróis.
Agora, esse conceito voltou a ser explorado pelos grandes estúdios.
Não somente The Boys está no páreo pela Amazon, como a série Watchmen virá pela HBO mostrando os acontecimentos após a HQ original.
Recentemente, para quem acompanha mais as HQ’s também se deparou com a virada em 180º do Capitão América, em que se revelou como um grande agente infiltrado da Hydra.

Mas além de todos esses exemplos a minha série de HQ preferida é Imperdoável (Irredeemable) escrita por Mark Waid.
Ao que parece ela veio para o Brasil pela editora Devir.
A história de Imperdoável se resume de forma mais simples como um Super-Homem que pirou e se tornou vilão. No caso desse universo, ele é conhecido como Plutoniano.
E há grandes referências dos mais populares heróis dos maiores selos da Marvel e DC, além de outras da cultura pop (o personagem Qubit me pareceu uma homenagem ao Doctor Who).

Imperdoável
Imperdoável

O nosso interesse por heróis que mudam de lado, que nos fazem perder a fé em sua simbologia não é atual.

Esse espasmo iconoclasta vem das odes de deuses gregos, que ora transitavam entre os meros mortais.
Não raro eles eram retratados com seus sensos de justiça de forma egocêntrica, extrapolando um dualismo mais pertinente aos humanos.
Nos tempos atuais perdemos a ingenuidade nos políticos, em seus discursos, quando sabemos que há muita coisa por trás.
Não falo de maniqueísmos de sociedades secretas, mas sim da consciência das propagandas para manter aquela antiga imagem.
Pior do que essa falta de imagem vem o mote do “Ele fala o que pensa”, e as imagens da simbologia centrada se perde para populismos.

Trabalhar com esse conceito no fim das contas é complicado.
Se eu analisar o meu projeto engavetado vejo que o que prevaleceu foi um equilíbrio entre iconoclastia e a antiga fé nos valores heroicos.


Ma’a salama!

O Melhor de 2018

Embora o ano de 2018 ter sido marcado por embates ideológicos e com a tristeza de não termos sido hexacampeão no campo, só vi vantagem nesses rápidos 12 meses que se passaram.
E o motivo para tal saldo positivo foi o fato de meu próximo romance, A Melhor Parte da Mentira, ter sido escolhido para publicação pela editora Nocaute.
Nem precisava dizer mais nada, acabar minha retro na modéstia de ter sido selecionado em mais de cem originais enviados para submissão e ter a noção de que minha carreira de escritor tem lá seu espaço nesse mundo canibalesco.
Mas como é tradição (firmada por mim mesmo) vou lançar aqui o que melhor vivenciei em 2018.
Lembrando que esse site é reservado para detalhes vinculados à arte, então não esperem ver detalhes pessoais como mudança de emprego e amores mil.
O livro que mais me cativou foi um nacional: O Filho Mais Velho de Deus e/ou o Livro IV, do autor Lourenço Mutarelli, que deu uma entrevista para a Folha que me perturbou, pois mostra que mesmo o cara que deu certo como escritor, não consegue estufar o peito e dizer que consegue viver apenas de literatura, justo no fim do ano, em que as maiores redes de livrarias declararam monstruosos problemas financeiros.
Porém, a obra de Mutarelli é muito interessante. Faz parte do projeto Amores Expressos da Companhia das Letras, em que há alguns anos vem despachando escritores para uma cidade ao redor do mundo com as despesas pagas para vivenciar algo e escrever uma obra que seja ambientada em tal cidade e que obrigatoriamente deva ter uma história de amor que se desenrole lá.
Em o Filho Mais Velho acompanhamos a história de Albert Artur Jones, nome esse criado para proteger a identidade verdadeira da pessoa que entrou numa espécie de proteção à testemunha de um perigo que ele mesmo desconhece de fato, pois não foi testemunha primária de algo, mas que tem a ver com reptilianos mencionados no bilhete suicida de um amigo. E o vemos desembarcar em Nova York. A escrita de Mutarelli é muito engraçada e de fácil degustação. Enquanto o narrador faz um paralelo com os nomes dos personagens e seus homônimos assassinos seriais ao longo da história há também toda a paranoia envolvendo um cidadão mediano que se vê diante da grande oportunidade que é a de reavaliar e mudar sua vida.
Embora eu tenha adorado a prosa, pode ser que muita gente não goste, pois como disse o próprio Mutarelli em entrevista recente: “Faço uma literatura agradável mas na qual você precisa tapar o nariz para encarar”.

Musicalmente foi um ano repleto de enfrentamentos, desde a “This is America” de Childish Gambino (o Donald Glover), como “Boca de Lobo”, do nosso Criolo, cujo clipe bem produzido toca na ferida da situação sócio-política do país.
Teve também o lançamento do albúm No Tourists, da banda do coração The Prodigy.
Mas o lançamento mais marcante foi o do Artic Monkeys, o trabalho Tranquility Base Hotel + Casino, que é bem diferente do AM de 2013 (que tem as minhas preferidas R U Mine? e Arabella).
É um trabalho mais maduro, odeio dizer isso de uma banda, ainda mais dessa banda, por ser de rock, por ser mais do lado indie, mas é a real no caso deles. E ficou um trabalho sensacional.


Conforme os anos vão passando cada vez mais se torna difícil acompanhar séries. Seja pela correria do dia a dia, seja pela variedade estupenda com que elas são descarregadas para nós.
E embora tenha tido picos como o fim de House of Cards, a bem acertada segunda temporada de Westworld e a estreia da surpreendente The Haunting Hill House , o que pegou de jeito foram as mini-séries.
Talvez, o bom trabalho do primeiro ao último episódio e a sensação de que não vão estragar no ano seguinte ajudaram no meu julgamento.
Eis as três que ocuparam o pódio:
-Maniac

Maniac: Bora lá ser aceitável pela sociedade
Maniac: Bora lá ser aceitável pela sociedade

-Patrick Melrose, série britânica dramática com Benedict Cumberbatch
-Objetos Cortantes (Sharp Objects)
Confesso que Objetos Cortantes conseguiu se mostrar como a melhor, pois a Amy Adams está brilhante na atuação e seu nome também figura como produtora.

Que maquete mais linda.. EPA PERA!
Que maquete mais linda.. EPA PERA!


Menção honrosa para séries que descobri: Peaky Blinders (4 temps) e The Handmaid’s Tale (2 temps) que tem a Elisabeth Moss que eu já adorava de Mad Men.

O melhor documentário foi sem dúvida a produção Serei Amado Quando Morrer (They’ll love me when I’m dead) que fala sobre a conturbada produção de Orson Welles no filme The Other Side of the Wind, dissecando diversos problemas enfrentados por um artista.

Não consegui comprar muitos quadrinhos, mas ao menos matei a vontade ler Império, do Mark Waid, em que a história se desenrola após o vilão Golgoth ter dominado o mundo e instaurado o Império, e o fim não acaba após essa vitória, pois após a conquista total, vem a luta de manter tudo que conquistou.

Dos nacionais tem o Silas, uma aventura Steampunk num universo especulativo bem interessante com arte e roteiro do Rapha Pinheiro.
Não tenho o que comentar sobre o herói nacional O Doutrinador, não li nada. Não critico o que não consumo.

Vamos aos filmes.
Quase ignorei Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here) com Joaquim Phoenix e Ekaterina Samsonov.
Por sorte dei chance e me surpreendi com o ótimo trabalho da diretora Lynne Ramsay, que mostra cada vez mais que será um grande nome nas telonas.
Sem entrar em muitos detalhes, basta imaginar o doido do Joaquim Phoenix (que será o novo Coringa, vale ressaltar) num papel de um veterano perturbado que ajuda a polícia a encontrar mulheres presas em cativeiros como escravas sexuais.


E outra pérola que quase passou desapercebida foi A Morte de Stalin (The Death of Stalin).
Em que com um bem pontuado humor negro mostra a morte do Stalin e o momento de disputa de seus prováveis sucessores.
E não se deixe enganar pelo trailer, não é uma comédia europeia para quarentões. Há uma porrada de momentos de tensão com guinadas para momentos de refúgio cômico.

Skavurska!
Skavurska!

Menções honrosas:
Pantera Negra (Black Panther), Três Anúncios para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing Missouri), O Artista do Desastre (The Disaster Artist), Unsane e Aniquilação (Annihilation) que tal a minha eterna crush e conterrânea Natalie Portman.

Fecho com uma das melhores fotos, premiada no National Geographic Photo Contest, em que Alison Langevad capturou dois rinocerontes-brancos que saíram para beber água no meio da noite na Reserva Zimanga Game na África do Sul.

A apreciação é o que resta, já que nesse ano morreu o último rinoceronte branco do norte. Enquanto existem os do sul, o reflexo me fez lembrar daquilo que sempre venho ditando nas retrospectivas mesmo mencionando apenas coisas boas: esperança.
E que venha 2019!

Ma’a salama!




Serei Amado Quando Morrer (They’ll Love Me When I’m Dead)

Comecei a assistir o filme O Outro Lado do Vento (The Other Side of the Wind) lançado na Netflix como um tributo ou espécie de resgate das gravações do filme inacabado de Orson Welles.
Quase meia hora de filme e ainda estava perdido, não conseguia entender a premissa e trama do enredo. Desisti porque a internet é limitada e cara demais para gastar com algo que não tem sentido.
Até que me explicaram que para entender melhor O Outro Lado do Vento o apropriado seria assistir ao documentário Serei Amado Quando Morrer (They’ll Love Me When I’m Dead), onde é detalhado os últimos quinze anos do diretor que teve a carreira prejudicada por ter tido um magnífico início: Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941).
A fase-título do documentário teria sido dito por ele, quando passou a ser rejeitado por Hollywood, e em muitos filmes o outrora gênio (ele dirigiu e produziu Cidadão Kane com 26 anos) teve que improvisar os términos de filmes em países europeus.
O Outro Lado do Vento seria uma espécie de tentativa de reconquistar Hollywood,tão áspera nos anos seguintes com o cineasta, tanto que outra fala teria sido dita por ele: “Los Angeles é o único lugar em que todas as ruas levam ao aeroporto.Hollywood quer sempre que você vá embora”.
E conforme é dissecado todos os pormenores da produção do que seria conhecido como um dos maiores filmes jamais finalizados, são exibidos problemas de todo tipo, desde divergências com atuação, até o fator financeiro em que apelou por financiamento vindo do bolso do Xá do Irã,  verba minguada quando houve a revolução islâmica por lá em 1979.
E diante de todos esses impasse vemos que a frase-título não é um choro clamando por mais quinze minutos de fama. Um dos entrevistados comenta que a atribuição é injusta, pois o próprio Orson Welles teria desmentido.
O documentário elucida bem a história por trás de O Outro Lado do Vento e até mesmo sobre os últimos anos de vida do cineasta, mas além de todo aspecto biográfico a frase-título deixa à flor da pele o que todo e qualquer artista, seja no início, seja na retomada de certo sucesso espontâneo, acaba por carregar sobre os ombros.
O reconhecimento em vida é a imortalização alcançada e almejada por todos.
Hoje, qualquer um pode ser lançar artisticamente mundo afora, seja como músico, pintor, ator e até mesmo como contador de histórias, que é o meu caso.
Porém, os problemas ainda são os mesmos de décadas atrás, a concorrência é gigante e os recursos vão se estreitando conforme alguma conquista é alcançada.
Outro dia vi o trailer do filme At Eternity’s Gate, cuja história é sobre o pintor Van Gogh, sendo estrelado por Willem Dafoe no papel de um dos artistas mais subestimados de sua época.
Ao que parece em vida o pintor vendeu apenas um quadro, e sua criação acumula mais de dois mil trabalhos.
Vi muitos artistas que só levam porradas e acabam por abraçar uma espécie de síndrome de Van Gogh: “Ao morrer, vão descobrir minha arte”.
Queria poder jogar palavras sábias e motivadoras de minha autoria aqui, mas não consegui elaborar nada.
Então, para não ficar como um post pessimista lembrei de um discurso de um dos autores mais influentes nos dias de hoje: Neil Gaiman.
O resumo e ponto alto do discurso é quando ele diz que a vida é dura às vezes, que as coisas dão errado, seja no amor, nos negócios, nas amizades e na saúde.
E que “quando as coisas ficam difíceis, é isso o que vocês devem fazer: Façam boa arte
“… e enquanto estiverem nisso, façam a sua arte. Façam as coisas que só vocês podem fazer.”
E ainda pouco antes do fim, continua com um dos pontos mais importantes sobre um conselho recebido por Stephen King no auge do sucesso com Sandman e do romance Belas Maldições (Good Omens):
“Isso é realmente ótimo. Você deveria apreciar isso”, teria dito o rei.
“Essa foi a lição mais difícil pra mim, eu acho: relaxar e curtir a caminhada, porque a jornada o leva a alguns lugares memoráveis e inesperados”
Ao ponto que eu aproveitei cada dica apresentada no discurso de Gaiman, essa parte sobre curtir a jornada é uma das mais importantes para os artistas.
Buscar reconhecimento é o natural de todo artista, mas se você não se satisfaz com sua criação, se a tarde perdida criando uma música na solidão de seu estúdio improvisado, do conto que provavelmente ninguém vai ler, do quadro com traços que parecem desafiar o olhar do espectador, se o momento de criação não seja um dos fatores que define sua felicidade, bom, então você precisa revisar seus conceitos.
Essa foto ilustrando o post é uma resposta para quem disse que quase não há fotos minha aqui no site.
E como selfie hoje é um dos maiores símbolos de amor próprio, peguei a que menos gostei, e a que melhor veio a calhar com a frase-título.

Serei Amado Quando Morrer
Serei Amado Quando Morrer

Mas não se enganem. Embora eu não seja um escritor conhecido pelos quatros cantos das terras tupiniquins, sigo na luta curtindo cada letra jorrada nas páginas em branco.
E espero que todo(a) artista assim se mantenha na luta.

Ma’a salama!

House of Cards – O Fim

Com o intuito de anuviar o resultado ainda polarizado pós-eleições decidi me afundar na última temporada da série original da Netflix House of Cards, adaptação americana da homônima mini-série britânica.
E como bem lembro, quando vazaram áudios comprometedores ao presidente Temer a conta do Twitter da série havia postado:
“Tá difícil competir” 
Pois bem, a série consegue nos distrair, meros mortais, cidadãos das terras tupiniquins, do nosso peculiar cenário político.
Suas nuances ainda se mantém como nas temporadas anteriores.
E o que mais chama a atenção nessa temporada, além é logico, de sua conclusão, é a curiosidade de como a produção trabalhou para se manter diante da saída de Kevin Spacey, ator principal que dava vida ao personagem Francis Underwood.
Para os desavisados vale lembrar que Kevin foi demitido após surgirem acusações de agressão sexual contra dois atores menores de idade entre outras de má conduta nos sets dessa fabulosa série.
O efeito prejudicou enormemente a carreira do ator, que, não podemos negar o seu talento (vide filmes como Seven, Os Suspeitos (Usual Suspects) e Beleza Americana (American Beauty)), mas que foi compreendido a refilmagem quase que completa do filme Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World) em que seu papel foi reencenado pelo veterano Christopher Plummer.
Além do escândalo ter surgido no apogeu do movimento Me Too, em que várias atrizes se pronunciaram sobre agressões sexuais em Hollywood, um dos motivos que tornaram Kevin Spacey um merecedor de certo excomungação foi o fato de no momento de sua defesa ter dado uma “carteirada gay”, como se justificasse suas agressões ao jovens.

Amigos e amigas, daqui pra frente terá uma penca de spoilers, então, se quiser evitá-los, esse é o momento, mas ficaria grato se retornar a esse post após ter assistido.

POTUS

POTUS



E é com todo esse clima de empoderamento feminino que a derradeira temporada se inicia, e não por mero oportunismo do momento.
É claro o acerto e sorte que a temporada anterior terminou com o afastamento de Francis Underwood da presidência, facilitando e muito o trabalho dos roteiristas de justificar o desaparecimento do rosto até então principal dessa série, que usa muito o artifício da quebra da quarta parede (quando o ator fala diretamente ao espectador).
Quando a atriz Robin Wright liberta um passarinho, declarando que “dor é dor” e desfazendo uma das primeiras grandes frases ditas nos primeiros minutos da série, lá nos idos anos de 2013, sabemos que sua personagem terá não somente uma voz própria, mas com a força necessária que o feminismo vem alcançando atualmente, pois, vale lembrar, estamos falando do mais importante cargo do planeta, quando um POTUS será uma mulher?

O mais surpreendente é que mesmo com as menções a Francis Underwood não senti falta de Kevin Spacey.
As cenas em que indicam o seu funeral ou tudo o que permeia sobre ele na mídia, nada disso deixa escapar única imagem sequer do rosto de Kevin Spacey, e isso é bom, notório de um ótimo trabalho de roteiro, que mostra a todo momento que os preconceitos ao fato de uma mulher ocupar o cargo de Chefe de Estado da nação mais poderosa do mundo está, nas entrelinhas ou diálogos diretos, como na cena em que Claire Underwood está cumprimentando soldados que irão para uma missão na Síria e uma soldada a confronta questionando sobre se ela tinha um plano sobre poupar as vidas das forças que estariam em campo, ao que a resposta da presidente é: “Você me perguntaria isso se eu fosse um homem?”, deixando a militar sem réplica.

Há também outras nuances que conseguem se reconectar com o público atento ao assunto feminista, e sim, vai de abortos escondidos por ela para não impactar a carreira política do casal, até a gravidez (It’s a girl!) que surge de forma quase que como um baque (a personagem e atriz aparentam ter mais de 50 anos), além de certos abusos que ela comete ao apropriar da imagem de mulher frágil num cargo que vem traições de todos os lados possíveis, e sua aula de como uma imagem sua chorando foi concebida, indicando que a encenação não é tão simples como parece.

Fragilidade? Não se deixe enganar

Fragilidade? Não se deixe enganar



Há um ponto marcante e mais digno de atenção, que é o do momento em que ela demite todo o seu gabinete e o renova inteiramente com mulheres, com a pretensão de mostrar ao mundo sua visão, sua ideia de criar um legado e uma nova era na política que mexe com o globo inteiro.
Outro, muito marcante, é quando ela toca na ferida no episódio final, dirigido pela própria Robin Wright (mas ela já dirigiu outros nas temporadas anteriores, não foi mero apelo ideológico), em que questiona  aos presentes na “war room” sobre uma decisão sua de grande impacto mundial que envolve os russos e o grupo terrorista OCI (alusão ao ISIS), se alguém que conhece a palavra misoginia saberia dizer qual é a palavra designada por odiar homens. No silêncio dos presentes ela diz: “Misandria. Eu tive que procurar”, e completa indicando que sua ideia é que “todos, independente de gênero, deveriam reavaliar as noções preconcebidas sobre quem pode ou não atuar como chefe de Estado”.

Além de todo esse deslocamento que o escândalo de Kevin Spacey permitiu, a série prolongou o momento mais fantasioso acerca das conspirações envolvendo governo e mega-corporações familiares, em dá outro espaço a uma atriz antagônica que tem ligação direta no passado de Claire Underwood, sendo uma amiga de infância, e eis que temos vários takes de flashbacks com cenas da infância e adolescência da atriz principal, algo até então inédito na série, pois todo o passado de Francis Underwood era ditado somente em comentários.

House of Cards foi uma série que me cativou nesses últimos cinco anos (Caraca! Como o tempo voa). Sua trama não tão complexa, mas permeada de trajetórias com reviravoltas nem tão previsíveis, escancarando um mundo tão distante da realidade do povo (da minha, pelo menos) em que há uma concepção milenar e maduro da democracia, que se sustenta, ainda, apesar de todos os seus defeitos, como o melhor modelo que a sociedade humana deve seguir, mesmo que envolta em mecanismos de interesses ocultos e nada igualitários perante ao resto dos cidadãos.

Fiquei feliz com o resultado final, com as emoções sobre os fins nada dignos de personagens que lutavam de fato pelo bem da democracia, e aceitando o daqueles que fizeram parte das arapucas engendradas desde o início da malandragem de Francis Underwood e que coube à Claire se desfazer para se distanciar de tudo que pudesse comprometer a ela e sua permanência no cargo, e ainda, até a surpreendente cena final, com a ameaça de que tudo pode ruir e dar errado para ela, nos lembrando a todo momento que esse mundo de poder não passa de um mero e delicado castelo de cartas.

Ma’a salama!

 

 

 

O Melhor de 2017

Dizia em algum fórum de teóricos da conspiração que 2017 seria o terceiro centenário da franco-maçonaria, e que em tal aniversário os donos do mundo queriam colorir os céus com fogos nucleares para celebrar o seu domínio universal.
Apesar de o Doomsday Watch ter avançado alguns minutos para a meia-noite com os dois doidos de pedras com poder a trocarem insultos e ameaças, a saber Trump e Kim Jong-Um, tudo correu bem. Com a exceção de uma bomba-mãe lançada no Afeganistão pelos EUA, nenhuma ogiva nuclear voou pelos céus.
De foguetes, espero somente os da SpaceX e agências espaciais afins a caminharem rumo ao progresso humano, e não à destruição.

A gafe de início de ano foi na cerimônia do Oscar, em que erraram a nomeação do prêmio principal da noite, o de melhor filme, fazendo todos os produtores e atores de La La Land subirem ao palco receber a estatueta até perceberem que não eram os reais vencedores. Moonlight venceu, rendendo até música de Jay-Z sobre a sua nova exteriorização de músicas sobre o racismo contemporâneo.

Jordan Horowit exibe o real vencedor da noite: Moonlight

Jordan Horowit exibe o real vencedor da noite: Moonlight

Embora até esse minuto eu esteja no Hype do episódio 8 de Star Wars, o filme do ano foi com certeza Dunkirk de Christopher Nolan, sobre a batalha perdida na praia de Dunquerque, em que a sobrevivência se transforma na maior vitória em cenas de desespero acompanhadas pela rima de tensão de uma narrativa não linear entre diferentes pontos de vista dos acontecimentos e da trilha sonora do compositor Hans Zimmer em que abusou da Escada de Shepard.

Dunkirk: Sobrevivência é a maior vitória

Dunkirk: Sobrevivência é a maior vitória

Outra pérola foi Blade Runner 2049, um filme com excelente produção de arte, acertou em não realizarem um remake, a opção da continuação deu folego ao clássico, cuja missão não seria de superar o original de 1982. Embora o filme tenha sido um dos melhores do ano, não é para qualquer espectador, a duração de pouco mais de duas horas e quarenta minutos para uma narrativa sem muita ação num futuro cyberpunk pode ter feito alguns desavisados saírem reclamando do filme. Azar o deles…

Na telona brasileira o filme do ano foi Bingo: O Rei das Manhãs, do direto Daniel Rezende, que foi indicado ao Oscar de melhor montagem por Cidade de Deus em 2004.
O filme mostra a vida de um ator de pornochanchadas tentando subir na carreira, até que se arrisca num teste de audição para o papel de um apresentador de um programa infantil vestido de palhaço que fazia sucesso nas tevês americanas, mas que por aqui o padrão do roteiro não estava vingando, até que o ator decide improvisar e tomar aulas com um palhaço de circo de verdade, interpretado pelo falecido Domingos Montagner. Vladimir Brichta tem uma ótima atuação nessa história em que um palhaço doido num programa infantil nos anos oitenta acaba em drama.

Bingo: típico programa infantil dos anos 80

Bingo: típico programa infantil dos anos 80

Logan foi uma grande surpresa, estava com o pé atrás pelos trailers que havia visto, o resultado foi magnifico na despedida do papel de Hugh Jackman como o mutante machão que levou muito chumbo na vida. Além do pesar dos personagens, as cenas de ação ficaram sublimes por sua simplicidade. O que ocorreu no cassino, sem muito CGI me deixou extasiado.
Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes) foi outro ponto alto do ano. Com coragem de fecharem a trilogia sem deixa para continuação, o filme foi perfeito em mesclar elementos de outros gêneros, além do clima do clássico Apocalipse Now havia cenas em que senti requintes de um faroeste.
Menções honrosas: Corra! (Get Out!), Trainspotting 2,  Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), Fragmentado (Split) na brilhante volta de M. Night Shyamalan, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of Thousand Planets) e Sully – O Heroi do Rio Hudson (Sully).

No mundo das séries, Game of Thrones atingiu o seu apogeu em audiência e popularidade, mas senti que essa temporada foi menos conclusiva que a anterior, os Caminhantes Brancos pareciam o povo hebreu da época do êxodo vagando no deserto, demoram muito para chegar até Westeros e a desculpa de que precisavam do dragão não cola, visto que teriam todo o processo adiantado se tivessem beirado a muralha.
A estreia mais aguardada teria sido Deuses Americanos (American Gods), baseada no livro de Neil Gaiman, sobre uma guerra entre os antigos e novos deuses. Apesar dos episódios terem se estendido de forma redonda com a primeira parte do livro e o final ter ficado modesto, há dúvidas se a série continuará, pois o diretor e produtor Brian Fuller já sinalizou problemas de divergência criativa com os estúdios. Seria outra furada do diretor que já nos deixou órfãos de Hannibal?
Pude cumprir com a minha meta de matar as séries Californication e Mad Men.
Californication possui episódios de curta duração, menos de 30 minutos, enredo simples, muitos dos quais com finais previsíveis, mas me cativou quando mais moleque (entenda-se algo entre 21 anos), talvez pelo fato de ser na Califórnia. Ou então, se for mais verdadeiro comigo mesmo, pelo fato do personagem principal Hank Moody (David Duchovny) ser um escritor boêmio que pegava muita mulher top e eu deve ter pensado que ser escritor seria isso…
Já Mad Men, que série engenhosa! Acho que ficaria no meu Top 5 de séries. Em muitos momentos parava e pensava que não passava de novela, mas como me desgrudar desses episódios? Muitos personagens bem trabalhados nas tramas, o roteiro de acordo com a época, muitos detalhes históricos entremeados (década de 1960) com tudo que podia se afetar, fosse na área da publicidade e propaganda, fosse no cotidiano.
Mas a série que me cativou de maneira incompreensível foi a temporada de Twin Peaks desse ano, continuação da primeira temporada de 90-91, isso mesmo, essa série veio ser continuada após todo esse tempo, com apenas um filme prequel lançado em 92 intitulado Twin Peaks – Fire Walk with Me.
Em vários episódios (se não em todos) me perguntava: “Por que estou assistindo isso?”, pois além de não ter assistido à temporada original, mea culpa eu sei, a história tem um pontos de liberdade criativa excessiva, pois o diretor nada mais é que David Lynch, que já o conhecia por filmes como Duna (Dune) e Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive).
Twin Peaks pode ser comparado a um Arquivo X, porém, com requintes de filme arte feitos com baixo orçamento, há efeitos especiais mais simples dos encontrados em episódios antigos de Power Rangers, no entanto, as cenas, diálogos, personagens excêntricos e fotografias dedicadas te prende, e por mais que você não saiba a razão de assistir aquilo verá até o último episódio e ficará torcendo para que a próxima temporada não demore outros 25 anos.

Twin Peaks O Retorno: se não entender 90% dessa série e ainda assim adorar, bem-vindo a bordo

Twin Peaks O Retorno: se não entender 90% dessa série e ainda assim adorar, bem-vindo a bordo

De HQ’s achei um ano fraco, não foi muita coisa que me atraiu atenção, apesar de diversos títulos terem sido lançados. A exceção foi a nacional Rio 2031, de Giuseppe Andreozzi e Gabriel Picolo, em que num futuro não muito distante o mundo se vê em uma nova guerra fria, divida entre as potências TheNation e NewState, criadas por conglomerados de multinacionais. Em cada uma dessas novas superpotências existem os TIMED’s, meta humanos cujo poder tem limite que culmina junto com sua vida, por isso o nome de Timed.
No primeiro volume, vemos que o Rio de Janeiro ainda não se uniu a uma dessas potências, se transformando num palco de disputa entre milícias, mutantes e políticos.

Rio 2031

Rio 2031

No ano em que dominou Despacito e Shape of You o que me deixou naquele replay infinito foram as faixas do novo álbum de Gary Numan: Savage (Songs from a Broken World) e além delas, a intimista Bed of Thorns, faixa inspirada e incorporada à trilha sonora do filme Ghost in the Shell.
Além disso, Macaco Bong lançou um albúm estonteante, em que com o seu estilo fizeram uma releitura do clássico Nevermind, transformando-se no Deixa Quieto. O trabalho é de pirar.
Outro lançamento primordial para os meus tímpanos foi o álbum Death Song, da banda The Black Angels. Sim, o rock ainda vive, e melhor, respira sem aparelhos quando toca ao estilo psicodélico como na lúdica faixa Life Song. Viagem Pura.

Em um ano que foi se concluindo com muito stress uma leitura salvou minhas noites: John McLoving e a Busca do Mijo da Vida, do autor Mickael Menegheti.
Se o “Mijo” no título não passou despercebido pode ter certeza de que o livro também não foi apenas um nesse ano, dos nacionais foi o meu predileto, por ser de faroeste e ser recheado de comicidade em aventuras numa história alternativa em que o Brasil foi colonizado pelos ingleses, e ao invés de um Cristo Redentor há um enorme Big Ben no Corcovado. Mcloving é rápido no gatilho e danado a encontrar o que busca, mesmo que seja o mijo da vida, lenda indígena que o carrega numa jornada tresloucada entre vários tiroteios e bolas de feno rolando.

John McLoving: Faroeste num Brasil diferente

John McLoving: Faroeste num Brasil diferente

Dos internacionais foi Enclausurado, do inglês Ian McEwan que me deixou fascinado. Dando pinceladas de nostalgia literária ao me lembrar de Memórias Póstumas de Brás Cubas, pois o narrador da história nada mais é do que um feto, enclausurado no ventre da mãe, em diversas reflexões sobre o mundo que o aguarda, enquanto é testemunha do adultério da mãe com o tio e dos planos do dois para assassinarem o pai para ficarem com uma casa antiga como herança.

Enclausurado: um feto reflexivo e ansioso

Enclausurado: um feto reflexivo e ansioso

Sou do tipo que luta contra quando alguém diz que uma história “passou uma mensagem”, e não vou me contradizer aqui. Enclausurado reafirmou (e não mais do que isso) em mim a minha natureza míope: sou um otimista incorrigível.
E é com essa afirmação que encerro com a foto que mais me tocou nesse ano em que o holocausto nuclear não ocorreu como alguns teóricos da conspiração desejaram.
Nela, o morador Mohammed Mohiedin Anis de 70 anos fuma cachimbo e escuta música no quarto de sua antiga casa destruída em Aleppo, na Síria.
Apesar dos apesares, tamos aí! A vida tem muita arte e beleza para nos agraciar.

Mohammed Mohiedin Anis: apesar dos apesares, tamos aí!

Mohammed Mohiedin Anis: apesar dos apesares, tamos aí!

Ma’a salama 2017!

Genocídio em Pauta – Parte Dois

Esse post é a continuação da Parte Um.
Decidi dividir em dois para dar a devida atenção em cada filme em separado.
Neste, falarei sobre o recém-lançado First They Killed My Father (Primeiro Mataram meu Pai, em tradução livre) dirigido por Angelina Jolie e baseado no livro homônimo de memórias da autora e ativista cambojana Loung Ung.
A estética desse filme é fiel ao estilo de um livro de memórias, Angelina soube trazer essa sensação ao centralizar todo o enredo na protagonista não somente nos takes, mas também com POV’s que deixam suaves algumas cenas quando sabemos que o olhar é de uma criança na casa dos cinco anos.
O enredo se passa quando o Khmer Vermelho, o partido comunista liderado por Pol Pot tomou conta do país após os EUA tirarem o dedo intervencionista. Durante a guerra do Vietnã o Tio Sam bombardeou o Camboja, considerado neutro no conflito e isso gerou indignação ao povo. O filme é iniciado com um discurso de Nixon sobre a retirada do país ao som de Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones.
A escalada vertiginosa de vitória do partido comunista estaria ligada a essa retirada, dizem muitos historiadores.
Fato curioso quanto ao posicionamento de Angelina Jolie a tal assunto é o fato de um de seus filhos adotivos, Maddox, ser de origem cambojana. Curiosidade do filme é de Maddox ter sido um dos produtores executivos, e detalhe, ele tem por volta de 16 anos.
Angelina já se engajou em causas sobre refugiados antes como em produções como Amor Sem Fronteiras (Beyond Borders) e no documentário Human Flow, além de ter visitado diversos campos desde que se tornou embaixadora da Boa Vontade da ONU em 2001.

A ambientação da fotografia do país tropical traz a dor do que os personagens sentiram, vemos fartura nas vilas e cidades entre as florestas, um povo modesto e simples que sentiram um regime autoritário dominar tudo em poucos anos com punho de ferro, implementando uma política cuja ambição era transformar todos em indivíduos trabalhadores do sistema denominado Angkar, que inclinava a nação inteira em se transformar em uma supridora agrícola para os camaradas que estariam lutando a guerra contra os capitalistas opressores.

Enquanto há cenas de horror direto, como as crianças que são separadas dos pais porque os mesmos estariam “poluídos” pela ideologia incorreta, há aquelas que chocam de maneira mais discreta, como a lavagem cerebral que os pequenos sofriam nas salas de aula em acampamentos simples, vestindo a mesma indumentária preta e boina. Além daquelas em que ouvimos de um megafone frases que se repetiam durante o dia como “O Angkar é o verdadeiro pai”, “O Angkar é o grande líder”, a semelhança de uma distopia ou ficção cientifica é assustadora, tanto mais ao saber que aconteceu de verdade.

A pequena Loung Ung tentando entender o que está acontecendo

Esse filme bate na tecla não somente no fato de mostrar o que aconteceu e fixar tal ocorrência em um mural no Never Forget, mas também soa como uma crítica quanto às nossas preocupações ao que realmente está acontecendo. Explico: os mesmos hippies que protestaram quanto a retirada das tropas americanas não se importaram com os efeitos que possibilitaram o genocídio no Camboja.
Fato semelhante seria a retirada dos americanos no Iraque que possibilitou o ISIS ou Daesh se preferir, a matar milhares e milhares de pessoas que não fossem islamitas extremistas.

Genocídios partem sobre qualquer etnia e grupo. E surgem de qualquer etnia e grupo que se possa imaginar também.
Fato mais recente (AGORA MESMO) é a perseguição que os Rohingya, minoria muçulmana , vêm sofrendo em Mianmar, país de maioria budista. Yep! Isso mesmo, aqui vemos um quadro em que budistas estão cometendo um genocídio contra muçulmanos.

Mas talvez podemos nos emocionar e pensar no quão insensato foi tal acontecimento daqui dez ou quinze anos quando transformarem o massacre num filme.
Não que devêssemos abandonar o #NeverForget, mas acho que devíamos nos concentrar mais no #NotNow.

PS: Há uma campanha no Avaaz: Parem de apoiar os matadores de Mianmar
Ela já acumula mais de um milhão e duzentas mil assinaturas.

Ma’a salama