Ótimo nos Negócios

Encostada á porteira da fazenda de seu pai, uma moça de beleza notável encaracolava o cabelo com os dedos. Viu ao longe um homem vestindo roupas diferentes e levando consigo uma mala de médio porte.
Quando este homem se aproximou parou ao ver a moça bonita.
“Boa tarde moça”
“Boa tarde”, respondeu educadamente a bela moça.
“Eu não a conheço de algum lugar?”, perguntou o homem deixando a mala no chão e parando próximo á moça.
“Sou filha do Barão Plínio”, afirmou como se isso bastasse.
“Ah sim, eu bem que sabia que lembrava desse rosto maravilhoso”
“Lembrava?”, a moça se mostrou curiosa.
“Sim, eu a conheci na escola. Não se lembra de mim?”
A moça franziu a testa. Esforçou para se lembrar daquele rosto, mas talvez o bigode estivesse atrapalhando por fazê-lo parecer anos mais velho.
“Me desculpe, mas não me lembro não”
“Me chamo Ahmad”, disse o homem fazendo reverência á moça.
“Ah, agora sim, me recordo. Você é filho do turco, não é?”
“Sírio”
“Ah sim, me desculpe, mas você não tinha viajado para o estrangeiro?”
“Sim, viajei. Vou além dessas terras todos os anos”
“E você está indo viajar de novo?”, indagou a moça apontando com um olhar a mala de médio porte.
“Sim, sempre estou viajando”
“E o que você está fazendo da vida?”, a moça não pôde esconder a sua curiosidade.
“Eu sou um mascate”
“Ah…”, ela não conseguiu esconder a sua frustração. Do pouco que se lembrava dele era que era excepcional em matemática e ciências, e todos os professores indicavam que seu futuro era promissor, a maioria arriscava dizer que seria engenheiro ou médico.
“Não me pareceu muito impressionada.”, Ahmad exibiu um sorriso modesto.
“Não, é que não sei como consegue se sustentar com isso”
“Ora, sou ótimo nos negócios”
“Bom, me desculpe se fui rude com você”
“Não se preocupe, posso mostrar a você a vantagem de ser um mascate”
“Não precisa, se você diz que…”
“Permita-me bela moça.”, Ahmad abriu a sua mala e começou a tirar vários objetos de seu interior.
Ela não gostou do fato dele não dizer seu nome.
“Além de eu estar conhecendo o globo, viajar pelos sete mares, conhecer rostos diferentes, culturas diferentes, respirar outros ares e me apaixonar por mulheres com olhares distintos, eu também tenho contato com criações maravilhosas, como esta por exemplo”, ele mostrou uma pena.
“O que é isso?”, indagou a moça curiosa.
“Isso foi a caneta de um rei da Inglaterra”
“Jura?”
“Uhum. E tenho isto também”, ele guardou a pena e pegou um bumerangue.
“Que é…”
“Um bumerangue usado pelos aborígines da Austrália”
“Que interessante”
“Tenho também isto”, guardou o bumerangue e pegou um frasco violeta.
“É um perfume?”
“Sim, muito forte para fazer que alguém se renda aos seus encantos, mas acho que você não precisaria dele”
Ela abafou um riso e se sentiu um merecedora do elogio.
“Ahmad, você visitou a terra de origem dos seus pais?”
“Sim”
“Conheceu o deserto do Saara?”
“Minha família não é de lá, mas sim. Eu viajei pelas dunas do Saara com uma caravana de beduínos”
“E você encontrou alguma lâmpada mágica?”, ela se sentiu idiota ao ter perguntado aquilo.
“Bom, não uma lâmpada, mas tenho isso”, ele retirou um pequeno tambor, do tamanho da palma de sua mão.
“Mas tem um gênio mágico aí dentro?”, ela tentou se mostrar irônica ao formular a pergunta, mesmo na verdade querer acreditar naquela fantasia.
“Na verdade, tem um Djin. Sim, para que ele saia daqui eu dou três toques com o meu polegar”
“Jura?”
“E quanto é? Eu posso pedir para o meu pai comprar”
“Humm, pode ser seu se você quiser”
“Jura?”
“Sim, mas tem pagar mesmo assim”
“Hã? Não entendi”
“Um beijo”
“Ficou maluco? Eu não vou beijar você”
“Tudo bem, a escolha é sua”, Ahmad ia fechando a sua mala e fez menção de ir embora.
“Não, espere”, a moça olhou para trás, onde estava o casarão de sua família. Quis se certificar de que não havia curioso algum olhando para eles naquele momento.
“Um beijo?”
“Sim”
Ahmad abriu um sorriso vitorioso. Se aproximou da moça e eles se entregaram a um beijo quente.
Apesar dela sentir uma repulsa por se vender por algo que parecia ser um absurdo ela acabou gostando do ato.
“É todo seu”, disse ele entregando o pequeno tambor.
De imediato ela se apoderou do objeto e deu três toques com o polegar esperando que um gênio saísse de lá por uma fina fumaça e se materializasse, pronto a realizar os seus desejos. No entanto, nada aconteceu.
“Mentiroso!”
“Ora, ora. Por que ficou brava?”
“Você disse que ele saía daqui com três toques do polegar”
“Sim, esta é a forma que ele sai comigo. Você precisa descobrir como será com você. Do seu jeito”
“Sério?”, por um momento ela se sentiu idiota. Mas no fim, precisou acreditar.
“Sim. Preciso ir minha bela. O trem parte logo mais e é uma longa caminha daqui”
O mascate mandou um beijo no ar e começou a andar pela estrada.
“Espere”
“Sim”
“Você está usando aquele perfume?”
“Não. Eu não preciso”
“Quando você vai voltar?”
“Antes de você se casar”, respondeu com um sorriso malicioso.
“Então faz o favor de me trazer um presente”, disse ela se entregando ao momento.
“Pode deixar minha bela. Pode deixar”
E assim o mascate partiu, para seu destino. Deixando para trás mais uma vitória. Mais um coração esperançoso.

Coquetel Demático

“Tem que ser Dema”, dizia o gordo. Ele se referia ao nome do coquetel que estávamos prestes a inventar.
“Por que Dema? o que quer dizer?”, perguntou o mais inteligente.
“Dema de gema? Vai gema nisso?”, indagou o mais bobo, porém, mais fiel.
“Não saquei”, disse o cabeludo.
“Também não entendi”, esse sou eu compartilhando a dúvida de todos.
“Dema é a mulher do demônio. Nossa amante. Sacaram?”, justificou o gordo.
“Que lixo velho”, o mais inteligente arrumava as coisas para preparar a bebida.
“E aí, vai ser Dema mesmo?”, o mais bobo estava curioso.
“Por mim tudo bem, não tenho outro nome em mente”, na verdade eu não ligava muito.
Todos nós estávamos na casa dos catorze anos. Todos órfãos de pai.
Era uma época que transpirava rebeldia. Tudo era motivo de sermos rebeldes á maneira de garotos com catorze anos.
Começamos a fumar, saímos ás ruas praticando anarquias como dar voadoras nas lixeiras de ferro e deixa-las retorcidas, lançar nossos chinelos ou tênis contra os semáforos e trocar placas de “Aluga” e “Vende” das casas.
Muitas coisas que na época não nos fazia sentir envergonhados. Muito pelo contrário.
Toda vez que topávamos com outro grupo tínhamos que impor respeito.
Na maioria das vezes esse respeito custava um supercílio rasgado e muito sangue nas camisetas.
Naquele dia decidimos ficar na casa do cabeludo, já que sua mãe viajava.
E como o ócio parecia rir de nossas caras, resolvemos inovar.
E enquanto na televisão campeonatos de luta livre eram exibidos nós preparávamos o nosso coquetel.
“Dema, Dema, Dema”, o mais gordo tragava o seu cigarro e cuspia a fumaça como um mafioso exibindo sua superioridade aos capangas.
Ele jogou as cinzas na jarra de vidro.
“Vai ficar lindo isso”, o mais inteligente estava empolgado, parecia que usaríamos algum tipo de droga que nos faria ter alucinações e nos levasse a outros mundos.
“Joga isso também”, o cabeludo jogou um pouco de macarronada passada na jarra.
“De quando é isso?”, perguntei, incrédulo.
“Semana passada, antes de minha mãe viajar”
Jogamos as bitucas de cigarro também. Mostarda, maionese, refrigerante, um gafanhoto morto preso no véu da cortina da sala, pimenta, queijo gorgonzola, óleo de frigideira, dois ovos crus, uísque, vodka e um pouco de uma pinga de quinta categoria.
Tampando a jarra, agitamos o conteúdo mutante.
Foi uma época que queríamos explorar todo tipo de experiência politicamente incorreta.
Até hoje fico imaginando o que se passava na minha cabeça.
Anos mais tarde vi uma cena de um filme americano. Era sobre loucuras de uns jovens, na verdade eram adultos já. Eles faziam todo tipo de loucura possível e se colocavam como voluntários no que parecia ser um filme de dublês para cenas sem propósito.
O rapaz pegou um funil e uma mangueira, encaixou os dois e olhando para a câmera diz: “Me desculpe pai” e em seguida coloca a outra ponta na mangueira na bunda. Os amigos enchem o funil com cerveja para que ele bebesse pelo anus.
O engraçado disso foi a consciência dele pesar e já se desculpar ao pai.
Nós não tínhamos essa consciência.
Mas acho que cada um guardava uma paranóia para si.
Eu por exemplo, acreditava que os espíritos passados davam suas espiadas de vez em quando para ver como eu me comportava. Meu pai, avô, bisavô, tataravô e assim por diante. É lógico que eles sempre se decepcionavam e depois deviam procurar por um dos meus primos, que eram menos insanos.
Procurei razões que justificassem as nossas ações. Vazio de uma figura paterna?
Não sei. Acho que aquilo foi apenas uma desculpa para minimizar as nossas responsabilidades ao nos colocar como vítimas.
“Quem vomitar vai beber de volta”, disse o mais inteligente.
De todas as conclusões possíveis nenhuma satisfaz a minha dúvida.
Nossas mães diziam que era apenas uma fase. E de fato, estavam certas.
Mas vimos muitos se levarem nessa fase.
Queria realmente poder entender aquela coragem.
Coragem de beber um coquetel daquele e não sentir vontade de vomitar.
“Vamos, só falta você”, disse o mais bobo com os olhos marejados e com uma careta.
Eu segurava o copo e tinha o olhar perdido.
“O que foi?”, perguntaram.
Eu não ia desistir. Apenas realizava uma cerimônia.
E o coquetel desceu, um cheiro anormal e um ardido fizeram os meus olhos lacrimejarem. Exageramos na pimenta.
Ao terminar, apenas pensei: “Me desculpe pai, avô, bisavô, tataravô…”

Dois escritores

Dois escritores se conhecem numa viagem de avião. Um deles puxou conversa ao notar que o outro tinha um prospecto com informações de um evento.
Ambos iam a um evento literário.
Os dois descobriram sobre o que escreviam. Um escrevia ficção realista e o outro ficção fantástica.
-Eu vou até lá para receber um prêmio. -Disse o que escrevia ficção realista mantendo um tom arrogante, como se o outro não fosse receber um prêmio também.
Como o vôo demorava cerca de oito horas, nas primeiras quatro o que escrevia ficção realista gastou contando em detalhes o último romance que ele havia escrito. Falou sobre como retratava a classe média, sobre o drama de uma juventude moderna sufocada por um amor fraternal de recompensa de gerações, de como as atitudes dos personagens poderiam ser estudadas no futuro para justificar a diferença do comportamento da sociedade.
Durante todo esse tempo o que escrevia fantasia ficou ouvindo em absoluto silêncio, educada e pacientemente.
Quando acabou de contar-lhe o seu livro, o que escrevia ficção realista tornou a sua atenção para o companheiro de viagem e disse:
-Bem, agora é a sua vez de falar! O que você achou do meu romance?

Engasgado com farofa e carne seca

Euclides refletia sobre um de seus pensamentos acerca das guerras. Ele afirmava com absoluta certeza de que não eram as questões gananciosas e envoltas nos interesses egocêntricos que faziam os mísseis teleguiados serem disparados a distâncias intercontinentais para bombardear o território do inimigo. Tudo era uma questão de atribuição forçada de cultura, como ele preferia dizer a colegas com maior nível acadêmico.
Todos esses colegas, não amigos, mas companheiros de jantares filosóficos, o apoiavam e exaltavam as suas reflexões como se fosse um mentor socrático.
Seu pensamento era de que as nações conquistavam umas às outras para propagar a sua cultura, o seu modo de viver. E isso, em sua opinião, ocorria porque os membros de uma sociedade se sentem incomodados com um vazio quando estão rente a outra cultura. Os fatores econômicos que cobriam esses reais interesses eram usados apenas como forma de aproveitar e praticar o útil e agradável.
Os seus amigos o bajulavam em excesso e às vezes o elogiavam de modos falsos, mas ele adorava aquilo, compensava as falas pedantes. Fazia parte de sua carne. Um carinho no ego.
Naquela noite, porém, Euclides estava sozinho na mesa de um restaurante recém inaugurado.
Seus amigos não o atenderam ou inventaram desculpas para evitar o encontro.
Aquilo o incomodou e fez seus sentimentos recordar seu preconceito.
Sim, Euclides era preconceituoso. Não se considerava racista. Odiava ouvir a palavra racista para descrever o seu preconceito. Não odiava outras raças. Era sempre um ser humano que não pertencia ao seu meio.
Um ódio que conhecia bem começou a efervescer e para tentar se acalmar começou a comer depressa.
O prato que pedira era um arroz parboilizado com um feijão verde cozinhado junto com lentinha.
Também tinha mandioca requentada na manteiga e uma tigela com farofa e carne seca fora posta ao lado.
Em sua loucura de raiva comeu tudo e esqueceu a farofa com carne seca. Ficou mais irritado e começou a comê-la pura, pois também já havia bebido seu vinho tinto.
O que foi um erro. Devia ter pedido uma bebida, pois em movimentos rápidos e mal mastigando os pedaços da carne, sentiu algo entalar.
“Aargh”
Forçou para que voltasse à boca para mastigar melhor, mas o volume se recusava a se mover.
Passou uns quinze segundos e quando seu rosto já estava parecendo um pimentão se levantou brutalmente como se o ato pudesse solucionar por si só. Imaginou que a gravidade diferisse em uma casa decimal fosse lá por qual cálculo que sua mente desesperada especulou.
Olhou para os lados, viu um garçom que levava em refrigerante na bandeja.
O jovem garçom foi alertado por um casal que apontaram para Euclides que quase babava e estava desesperado.
O rapaz, muito prestativo, correu até ele, para ajudá-lo.
Mas Euclides estendeu um braço sinalizando para que o garçom não se aproximasse.
A razão disso? O jovem era negro.
Euclides não suportaria a idéia de ser ajudado por um negro.
E em meros dois segundos ele lembrou de outra coisa que não gostava sobre o preconceito.
Quando descreviam uma pessoa como sendo alguém de cor.
“Ora, tudo tem cor”. Ele considerava um absurdo as pessoas falarem aquilo.
Deu dois passos para trás. Deixou bem claro que não queria a ajuda dele.
Um senhor se levantou e fez menção de ajudá-lo, mas Euclides repetiu o ato.
Ele estendeu o braço e balançou a cabeça negativamente, indicando que não queria ajuda.
Desta vez, o motivo era que ele pensou que o senhor era chinês. E ele tinha um grande preconceito contra chineses. Sabia que o mundo seria devorado pelo gigante vermelho mezzo comunista mezzo capitalista.
Mas o senhor não era chinês. Era coreano. Se bem que, para Euclides, tudo era a mesma coisa.
Outro homem se levantou. Aparentava ser alguém “normal” aos olhos de Euclides.
“Ôche cabra, por que tanto alvoroço? Deixe-me ajudá-lo”
Euclides percebeu o sotaque de nordestino e afastou com violência. Ele estava roxo, mas não seria ajudado por alguém de uma classe que considerava inferior.
Ele olhou para todos no restaurante.
Percebeu que ninguém pertencia a sua classe.
Ninguém presente poderia ajudá-lo, do contrário, seria uma vergonha.
Em desespero, correu em direção à porta. Saiu do restaurante como se fosse fugir para não pagar a conta. Mas estava a procura de alguma ajuda aceitável.
Na calçada, para seu azar, não havia pessoa alguma. Ao menos, o tipo de pessoa que ele considerava. Um homem loiro, de olhos verdes passava do outro lado da rua. Mas, por incrível que pareça, ele não se enquadrou nos requisitos de Euclides naquele momento, o considerou como um branco caucasiano desfocado de sua classe por estar naquela rua, próximo de um lugar com “multivariados”.
Voltou os olhos esbugalhados para dentro do restaurante. Seria mais vergonhoso se voltasse.
E assim, seu fôlego se foi. Seus pulmões forçaram o volume de carne, mas ela, teimosa se recusou a se movimentar. Euclides desmaiou na calçada.
Sua arrogância e ignorância que sempre o manteve em um patamar dito elevado, não puderam aparecer e dar um ou talvez dois simples tapas em suas costas.

O Escritor Independente

O escritor independente chega eufórico na mesa do bar:
– Pessoal, nem acredito. Até que enfim, consegui ganhar dinheiro com um conto que escrevi!
– É mesmo? E quem pagou?-Pergunta um amigo surpreso.
– O correio. Perderam o envelope registrado. . .

Entre os Espelhos

Todos os garotos da faixa de oito a nove anos brincavam de esconde-esconde até o anoitecer e não se importavam com o dia de amanhã, exceto pelo receio de levar uma bronca da professora ao ver que não fizeram o dever de casa. Mas não haviam outras preocupações além dessa. Nada podia atrapalhar a brincadeira, mesmo que o clima resolvesse presenteá-los com um temporal incomum para a época ou que o Sol estivesse lançando seus raios como se estivesse prestes a explodir.
Miguel não corria para se esconder quando alguém batia cara. Saía calmamente atrás de um lugar em que não houvesse nenhum olhar curioso e que houvesse um espelho ou vidro que refletisse bem a sua imagem.
A rua em que morava era isolada do centro urbano. Não havia razões para que carros que não fossem dos moradores ou parentes passassem por ali. E havia muitos idosos que moravam naquela região justamente por ser pacata e tranqüila.
Então não era de se admirar que não houvesse muitos curiosos olhando as crianças brincarem.
Miguel viu um pedaço de espelho que estava encostado na beira do portão de uma casa de um casal de velhinhos que passavam a maior parte do dia na parte de trás do quintal. Aquele espelho estava ali para ser recolhido pelos garis, mas já fazia mais de três semanas que estava ali, sozinho. Ele olhou e reparou que todos os participantes já haviam se escondido em um lugar que julgavam ser estratégico ou que tivesse uma posição favorável.
Quem batia cara era Juquinha e ele, como sempre, não estava de bom-humor.
Miguel viu que Juquinha estava terminando a contagem e que estava prestes a começar a procurá-los:
“quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta e nove…”
Miguel encostou o dedo no espelho e tudo ao seu redor se modificou.
“…cinquenta! Lá vou eu, quem se escondeu se escondeuuu!”
Juquinha se virou e começou a andar á procura dos amigos. Passou em frente ao espelho e sentiu um vulto dentro dele, ele olhou, mas nada viu.
Do lado de dentro do espelho, Miguel sorriu ao fitar os olhos do amigo. Atrás de si, havia uma escuridão com poucos pontos de luz distantes, parecendo janelas translúcidas. Ele caminhou pela escuridão, como se estivesse num imenso corredor, procurando por uma porta.
Ao chegar em frente de um ponto de luz viu que o que havia do lado de fora era a parte interna da clinica veterinária que ficava do outro lado do quarteirão. O dono devia ter curado os canários que estavam num viveiro, pois ele se encontrava vazio. Nisso, Miguel continuou a andar pelo corredor escuro, a procura de algo que o distraísse.
Em outro ponto de luz viu o senhor Juscelino, avô da Priscila, que naquele momento ria alto enquanto assistia a um programa humorístico. Ás vezes, a dentadura do idoso se deslocava e tencionava a cair da boca e voar longe, mas o senhor era habilidoso e não a deixava cair.
Passou pelo espelho do quarto de sua mãe, onde via a cama de seus pais. Fora ali, há sete meses atrás, que ele descobrira que podia atravessar espelhos e entrar em um mundo diferente.
E tudo depois de assistir a um filme de super-herói do qual só entenderia o enredo nove anos depois. Ele via as cenas em que o personagem principal pulava com um impulso e seu corpo era arremessado por cima dos capangas do vilão principal. Mal o filme havia terminado e ele correu até o quarto dos pais, todo animado e ansioso se fantasiando como o super-herói e começou a pular em cima do enorme colchão. Isso, sem seus pais ficarem sabendo, era óbvio.
Ele se via no espelho, pulando com um sorriso de orelha a orelha e imaginou vários capangas o cercando. E tentando imitar a melhor cena, ele tentou dar uma cambalhota, mas seu pé entortou e acabou se desequilibrando, fazendo com que fosse arremessado contra o espelho de corpo inteiro que sua mãe adorava de se colocar a frente para admirar um novo vestido.
Ele fechou os seus olhos e esperou que seu rosto estourasse a superfície do vidro, não podia imaginar o estrago que traria á sua juvenil beleza, mas o que quer que tenha passado pela sua cabeça, não se concretizou.
Quando abriu os olhos viu que havia caído num chão, e tudo estava escuro. Quando olhou para trás viu uma borda e o quarto dos pais podia ser observado por um ângulo que nunca pensou em ver.
Certamente que no começo o pequeno Miguel ficou muito assustado e perplexo. Mas aquilo não o traumatizou e o impediu de explorar a experiência mais de uma vez.
E quando se deu conta, ele já se tornou tão habituado com o seu dom que se sentia o melhor na arte.
Miguel correu até um ponto que sabia ser o espelho do quarto da irmã do Marcelinho, ele tinha a esperança de um dia vê-la, pois a achava muito bonita e cada segundo de sua beleza valeria a pena. Porém, como tantos outros, aquele dia estava sem sorte de realizar tal sonho.
Quando ele viu por outras janelas do mundo exterior que os outros participantes já haviam sido pegos ou salvos ele procurou por Juquinha. E ao visualizar o amigo que se encontrava esquadrinhando um canto da esquina, com os olhos atentos ao menor movimento possível, correu até um ponto de luz.
Ele tocou e seu corpo foi transportado para fora e ele caiu meio metro atingindo o chão. Havia acabado de pular uma janela do consultório vazio da mãe da Milena, que ficava próximo á outra esquina, mais próxima ao ponto onde o amigo bateu cara.
Ele andou, a passos largos, mas calmo e sereno, com um sorriso que exaltava a própria vitória.
Juquinha que o viu da outra esquina, iniciou uma corrida que no fim se mostrou desnecessária, pois ele perdeu. Quando chegou, com a respiração forte, arfando e mal conseguindo falar, meneou a cabeça, indicando que Paulinha deveria bater cara.
Antes que a menina começasse a contagem Juquinha ficou ao lado de Miguel, o encarou seriamente e disse:
“Eu sei que você trapaceia. Não sei como, mas tudo o que você faz não vale. Eu vou descobrir”
Juquinha não ficou surpreso, sentiu um certo receio instigante e gostou daquela sensação.
“Tá bom. Me avisa quando descobrir”, respondeu com um sorriso cínico.
Juquinha contorceu seu rosto em uma careta e se afastou dele, pois sabia que Miguel não ousaria mostrar o seu truque com ele perto.
Por precaução, Miguel esperou todas as rodadas em que Juquinha estava livre e não atravessou os espelhos. Aguardou até que fosse a vez dele de bater cara. Enquanto isso ele ficava pensando sobre a acusação. Ele não considerava aquilo uma trapaça. Sabia que era um dom. Ele não saberia montar uma defesa e argumentar que se outros tivessem habilidades que os ajudassem a serem mais rápidos não deveriam se limitar, pois aquilo seria irracional. Mas mesmo sem poder gerar uma réplica ele tinha a noção de reivindicar o seu direito. Mesmo naquela idade.
Ao ver que nenhum olhar curioso os espreitavam, ele adentrou em seu mundo particular, atravessando a superfície fria do vidro.

Tem Preço

No início era sem forma e sem vida. A energia não seria transformada em mecânica, ficaria imutável, naquele estado mental. Não era apenas pensamento, estava no meio das frentes racionais e emocionais. Para nascer, aguardava seu criador entrar no estado de relaxamento profundo, em que nada pudesse atrapalhar sua noite de sono.
Geralmente, os pesadelos nascem rápidos, como tragédias na vida real. Mas aquele era diferente. Ele já compreendia que seu nascimento seria algo que tivesse que ter paciência para ter forma e vida.
Quando a noção do tempo surgiu, ele sabia. Havia nascido para cumprir com a sua sina.
O ambiente era formado por uma avenida, movimentada, com um trânsito caótico. Mas não havia som.
Ao longe, apareceu alguém numa moto. Ele parecia simples, mas se destacava de todo o resto.
O pesadelo sabia que ele era o seu deus. O único momento em que o seu criador se redimia. E esse tempo era a sua vida inteira.
A moto parou. O rapaz que a dirigia olhou aterrorizado diretamente para ele. Sabendo a que forma tomar ele avançou contra o rapaz, que por um instinto sub-consciente resolveu fugir passando por cima dos carros.
Sua moto subia nos automóveis de forma ilógica, mas isso não foi problema para o pesadelo. Ele recebia ordens de um vácuo, em seus poucos segundos de existência já sabia que era subordinado de vários pontos de luz que se chocavam vindos de uma massa cinzenta que repousava.
A forma que o pesadelo tomou era a de um caminhão que capotava com violência, indo de encontro à sua presa que fugia desenfreadamente. Os únicos sons agora eram dos obstáculos sendo esmagados nessa caçada.
O rapaz parou em frente á um ônibus. Olhando o mostrador soube que a gasolina acabou e que sua moto não poderia mais fugir. O caminhão se aproximava. Se pegasse o rapaz teria vencido, mas sua missão teria acabado, e sua existência se daria como encerrada. Nesse caso, o pesadelo pensou em dar um acréscimo ao rapaz, e a si mesmo.
Jogando a moto de lado e tirando o capacete, o rapaz sabia que seria o seu fim. Então começou a suar frio. E isso lhe deu uma saída. Seu suor formou uma poça e como se estivesse viva o envolveu fazendo-o afundar para um oceano aberrático.
O pesadelo sentiu que entrara em nova fase e mudou a sua forma. Seu corpo de metal amoleceu ao ponto de ganhar vida simbólica. Ele se tornou um predador marítimo que se prezasse. O rapaz viu sua roupa mudar para um branco sem sentido. E um estranho sangue se dissolvia na água salgada. Correndo seus olhos até seu braço viu que havia um risco, sendo este, o ponto de origem do sangue. Voltando seu olhar perplexo ao monstro marinho viu suas narinas sugarem o cheiro do seu sangue tipo B Positivo. O ser que parecia uma mistura de baleia, tubarão e lula gigante abriu uma boca que engoliria a lanchonete onde ele comia no horário de almoço de seu humilde emprego.
Mas o seu pavor passou, não sabia ao certo o porquê. Talvez fosse porque novamente o silêncio reinava no ambiente. Talvez fosse porque não sentia que estava sendo afogado. Mas na verdade seu medo desapareceu porque o fato de pensar na lanchonete cabendo na boca do predador fez um sanduíche aparecer na sua mão onde o sangue virou tempero.
E em seguida uma âncora vinda do Ao-Nada-Mais-Além parou ao seu lado com um solavanco, nela vinha algo inscrito. O rapaz fez força para ler. “Tem Preço”. Ele não se importou. Afinal, tudo tinha um preço naqueles tempos e a salvação não dava o direito de ser negociada. Ele agarrou a ela.
O mostro marinho o viu sendo puxado para fora da água sorrindo com o sanduíche na mão. Abrindo a sua boca e correndo atrás dele para abocanhá-lo sentiu sua percepção mudar. Ele passou a ver através dos olhos do rapaz. Os olhos do sonhador, ele era o rapaz que agora fugia numa âncora e via uma boca de um peixe grande aberta ao máximo, mostrando dentes afiados, uma língua sedenta por sangue, e no final quase escuro, algo brilhava levemente. Um zíper.
O rapaz riu ao emergir. O pesadelo sentiu algo diferente. Não era a sensação de mudar de forma, mas sim algo que o alertava. Não era para ser daquela forma. Um pesadelo ás vezes podia se dar ao luxo de ser sarcástico. Porém, teria que reagir com a violência quando fosse ameaçado de ser transformado num sonho bom. Nisso, o pesadelo compreendeu a necessidade de tomar a posição do olhar do sonhador. Deveria criticar suas próprias formas e atitudes e mudar a sua estratégia.
O rapaz sentiu o mundo a que fora trazido ser transformado. Tudo ao redor foi envolvido por uma luz forte, que o fez deitar, sentindo uma dor grande. E aos poucos ele entendeu a razão do branco de sua nova roupa. Ele estava numa maca, vários falsos médicos tentavam inutilmente reanimá-lo. As enfermeiras estagiárias pareciam estar zombando dele.
“Aplique mais anestesia nele”, disse um tirando as mãos ensangüentadas de sua caixa torácica.
A enfermeira disse que acabou. Havia aplicado tudo nos pais dele.
“Cadê o bisturi?”, perguntou outro médico que também deixou dentro do corpo dele duas seringas, cinco parafusos e o apagador da professora de matemática que ele roubou há muito tempo. Isso tudo provocou uma hemorragia e aumentou o sangramento de seu braço.
Um som contínuo o fez gelar. Sabia que algo estava errado.
“Posso ficar com isso?”, perguntou uma enfermeira, e recebendo uma confirmação de uma ex-namorada, o rapaz a viu arrancar uma coisa no meio de suas pernas.
O som contínuo se tornou uma música, tocada por um bicho usando capuz preto e que trocaria sua moto por um sanduíche caído no chão da sala cirúrgica.
“E então?”, um médico parecia confuso.
O rapaz sentia grande dor.
“Acho que morreu”, disse o outro que usava um óculos trincado e sujo.
Ele ainda sentia grande dor. Não podia estar morto.
“Bom, então, acho que é a hora do almoço. Eu pago hoje.”, disse um outro que surgiu do nada e tinha muito sangue nas suas luvas.
O pesadelo queria poder rir. Aquilo sim, era algo que merecia crédito. O sarcasmo sob seu controle. Tudo graças ao fato de estar observando através do olhar do rapaz. Mas a dor, também era sentida.
O rapaz ficou ali por muito tempo, até que a maca quebrou e deixou seu corpo deslizar, atravessando o chão por um buraco escuro e levá-lo por um túnel até parar num caixão.
A dor passou. A luz forte se transformou num véu fraco que ocultava os rostos dos que podiam ser seus conhecidos. Seu capacete estava sendo segurado por alguém, e o objeto sem vida murmurou algo:
“Tão jovem”
Um pouco de dor fez os lábios do rapaz realizarem o movimento para que as palavras “Estou vivo” saíssem, mas o som de um avião passou acima e ninguém o ouviu.
O pesadelo amadureceu, seus instintos primitivos se tornaram parâmetros de uma idéia. Ele seria sarcástico somente porque o rapaz riu momentos atrás.
Novamente o rapaz tentou alertar a sua condição. No entanto, uma explosão ao longe fez todos voltarem a atenção para outro lado. Ninguém o ouviu.
Uma dor maior o fez tentar novamente. Mas um satélite caiu na rua onde era realizado o seu velório. Todos foram ver.
“Como eu vou ver o final da minha novela”, berrou a sua bisavó que morreu há trinta e dois anos.
“Novela? E a final da Copa?”, berrou inconformado o dono do bar em que o rapaz tinha dívida pendente.
Ninguém voltou. Todos estavam surpresos demais com a queda do satélite que enviava sinais para sintonizar os principais canais de televisão.
O rapaz nem tentou gritar mais. Não sentia mais dor. Apenas uma tristeza da qual não conseguia escapar o dominava.
Seu caixão fora vedado. Enterraram-no numa vala comum. E conforme passou o tempo os vermes apareceram para fazer a famosa “companhia”.
“Tá faltando alguma coisa aqui”, disse um verme no meio de suas pernas. As dores voltaram, mas eram menores.
O pesadelo passou a sentir certo prazer. Sabia que essa era a melhor fase de sua existência. Permaneceria no olhar do sonhador.
Quando os vermes se saciaram foram embora sem agradecer ou dizer adeus. O rapaz sentia vontade de gritar, mas não tinha mais cordas vocais. O silêncio era agonizante.
O pesadelo se dividiu, sendo que, uma parte permaneceria no olhar e outra tomasse forma. Alguém arrombou o seu túmulo. Eram ladrões atrás de jóias.
“Esse merda não tem nada”, disse um que parecia seu irmão.
“Nada mesmo”, disse outro vendo que só havia ossos. Esse lembrava seu melhor amigo.
Os dois deixaram seu esqueleto cair no chão e sumiram na escuridão do cemitério.
O rapaz sentiu vontade de chorar quando uma sensação ruim lhe veio. Parecia que a lembrança de sua vida real estava viva, e ele se via como um inútil.
Ele se levantou sem saber como. O pesadelo gostava de tomar conta das atitudes de seu criador. Ficou andando na escuridão sem destino, até que alguém o abordou. Era um velho carrancudo com uma pá nas mãos.
Ele resmungava, mas nada era ouvido. O pesadelo manobrava o silêncio como o instrumento ideal da tortura.
O velho o agarrou e o arrastou.
“Se eu fosse deputado estaria dormindo agora e as minhas férias seriam maiores”, resmungou por fim o coveiro e jogou o que restou do rapaz numa fornalha.
O calor que sentia começou devagar e quando ele percebeu o fogo lambia seus ossos como se fosse a ração predileta de um cachorro faminto.
O rapaz flutuava. Seu corpo havia se transformado numa fumaça preta. Seu olhar ainda existia, mas nenhum outro sentido parecia viver.
O pesadelo o guiava em forma de vento para onde pudesse ver seus conhecidos.
O rapaz viu abaixo alguns amigos gritando algo com raiva para ele. Não fazia idéia do que diziam, mas pareciam estar xingando-o, e isso o aborreceu.
Seu patrão também estava embaixo e o demitia.
As mulheres que ele beijara antes também lá embaixo não notavam sua ausência. Isso o aborreceu.
Não encontrou mais conhecidos.
O pesadelo deixou de ser uma brisa e virou uma ventania que levou a fumaça para longe, foram sendo envolvidos por uma escuridão.
E de repente, o pesadelo percebeu que sua vida estava se prolongando demais.
Ao longe, na escuridão uma fenda de luz, bem fraca, foi aumentando lentamente, dissipando a escuridão.
Ele soube que era o seu fim. Sua missão fora completada. A escuridão que sumia era sugada por um vácuo que se juntava a uma corrente de luz. Ele foi chamado para essa corrente. Sabia que era o fim de sua existência. Agora, a sua energia original se tornaria apenas um conjunto de informações que seriam vivenciados brevemente no momento desperto do rapaz, sendo somente uma lembrança de um pesadelo estranho.
Mas antes de morrer o pesadelo tinha que ter um nome. E era ele quem escolhia. Tinha que ter um nome para atender ao chamado quando o rapaz quisesse se lembrar dele.
Numa confusão desesperada ele tentou buscar algo nos cenários criados. Não queria ter o nome como de um pesadelo antigo chamado Fogo Na Casa Toda.
Não. Ele queria ter um nome de peso. Peso! O pesadelo associou a palavra á âncora e lembrou da inscrição. Perfeito.
Seu nome seria Tem Preço. Era curto e emblemático.
A fenda aumentou tanto que a escuridão desapareceu por completo.
O rapaz via agora o seu quarto iluminado pela luz que vinha da janela aberta.
Estava quase na hora de acordar para ir para o trabalho, então decidiu se levantar da cama. Quando tentou se lembrar do sonho inteiro lhe veio à mente uma âncora que estava escrito algo. Ele riu, não se lembrou das dores ou da tristeza. Elas viriam depois em outro momento, quando sua vida se perdesse alguns sentidos.
“Ás vezes eu sonho coisas estranhas demais”, murmurou para si mesmo.

Próxima senha

  Com um pequeno esforço conseguiu arrancar a etiqueta colada na parte debaixo da caneca, só ficou incomodado depois com o pouco de papel fincado em sua unha.
Haviam deixado a etiqueta com o preço. Prova de que realmente não se importavam com ele. Mas não havia problema, Tiago também não possuía simpatia por eles.
Seu aniversário fora no dia anterior e o departamento comprara aquele presente como agrado, mas poucos foram os que foram parabenizá-lo.
“Vou sair, e acho que não volto hoje. Mantenha tudo funcionando”, dissera seu tutor.
Ele sentou e ligou o seu computador. Tiago era estagiário e seu tutor deixava toda a responsabilidade em suas mãos. Ele teria que manter o funcionamento dos servidores e administrar todas as bases de dados que a empresa tinha. Arriscado demais para uma única pessoa, mas confiavam nele e seu tutor não gostava de perder tempo e viver respirando ar condicionado nos últimos anos, então sempre saía para passear logo que ele chegava.
Ele trabalhava em uma grande empresa familiar que fabricava peças para tratores, mas ficava alocado no escritório, em São Paulo.
“Gostou do presente?”, perguntou seu tutor vestindo uma jaqueta e arrumando suas coisas para a fuga inevitável.
“Gostei, sempre quis ter uma caneca do MASP”, respondeu o jovem estagiário deixando uma ironia peculiar vazar entre duas palavras.
“Certo, então, até mais”
Logo que seu tutor sumiu ele voltou a atenção para a tela de seu computador. Vários gráficos de barras e modelos estatísticos indicavam o funcionamento de todos os servidores. Em sua caixa de entrada de mensagens eletrônicas não havia nenhum chamado para criar alguma consulta que retornasse a verdade sobre a crise financeira da empresa.
Uma tela explodiu no centro da tela, piscando em laranja e emitindo um som irritante. Era um lembrete.
“Prezados colaboradores, dentro de dois minutos o sistema entrará em manutenção e ficará indisponível por tempo indeterminado. Por gentileza, salvem suas alterações e se desconectem para que o processo seja mais ágil e efeciente. Grato, Equipe DBA”, escreveu no quadro que seria exibido para todos os funcionários.
E antes de completar um minuto ele derrubava todos que estivessem conectados. Precisava fazer aquilo, pois a ansiedade era grande.
Ao constatar que ninguém estava preso ás tabelas principais, acessou a única que importava: a de senhas.
Confiavam em Tiago, jamais suspeitariam que todo mês, um dia após o sistema solicitar a mudança de senhas para todos os funcionários, ele abria a tabela e olhava, uma a uma com imenso interesse.
Fazia isso já havia quase um ano, e tudo começou quando percebeu que não o efetivariam tão cedo e seria estagiário por muito tempo.
Naquela época o sistema requisitou a mudança de senha. Padrão de segurança que ele entendia perfeitamente. Ficou um bom tempo pensando em que senha os outros criariam, e em meio a pensamentos ridículos, vulgares e insanos teve uma idéia que parecia trazer um pouco de diversão em seu trabalho monótono, pelo menos, uma vez ao mês. Ele resolveu que tentaria descobrir a próxima senha dos funcionários.
Mas era óbvio que para realizar essa façanha ele teria que abrir a tabela de senhas e ver as senhas atuais para poder chegar a um padrão.
E foi o que fez. E onze meses depois ele tinha a décima primeira planilha com as senhas que supostamente seriam as próximas.
No início a requisição da mudança ocorria a cada três meses, mas quando ele descobriu que seria desagradável bancar o Sherlock Holmes a cada trimestre mudou um campo da tabela em que indicava a periodicidade da mudança. Uma vez ao menos era o mais indicado.
A secretária tinha a famosa senha com a data de nascimento de seu filho, como ele veio descobrir ao olhar no arquivo digital com as informações pessoais dela. Era uma senha composta com o nome e data de nascimento. E a cada mês ela alternava os nomes, um mês era a do pai, outro da mãe, do marido, da irmã, do irmão e assim por diante.
Em sua planilha, na aba do mês corrente, Tiago procurava o nome dela e ao olhar na tela a senha ficou com um sorriso de orelha a orelha. Ele havia escrito “rafael220874”, irmão dela.
A primeira vez que viu a senha da menina da contabilidade que todos os dias chegava atrasada ficou se segurando para não ter um ataque de risos. A frase “agoravoucolocaraminhasenha1” era totalmente inesperado. E o padrão era o mais simples possível, ela apenas alterava o último dígito seguindo uma ordem. Tiago não queria aquela facilidade, então criou uma rotina para identificar parte de senhas anteriores e que impedisse os usuários definirem com aquele mesmo trecho, a frase “agoravoucolocaraminhasenha” era a primeira da varredura.
Mas a menina que sempre chegava atrasada não quis pensar em algo diferente e resolveu manter o mesmo padrão ao definir como senha “digitarsenhaagora1”.
Tiago não resolveu perder tempo com impedimentos e ignorou o caso dela.
Joaquim definiu na primeira vez “santodomingo123”. “Dias da semana?”, arriscou Tiago, e colocou “tristesegunda123”. Mas errou, no segundo mês Joaquim que trabalhava na área comercial alterou a senha para “bancoc123”.
“Que merda é essa?”, Tiago teve que apelar para o famoso oráculo disponível na rede mundial de dados e descobriu que se tratava da capital da Tailândia.
“Capitais. Interessante, mas qual o padrão? Seria os cenários dos últimos filmes vistos ou a primeira que der na telha?”, se perguntava.
Em alguns casos ele investigava todos os detalhes possíveis, inclusive visitar a pessoa em questão em sua mesa. Com Joaquim não fora diferente.
“Bom dia Joaquim”, disse ao aparecer na baia do calvo e barrigudo que ganhava mais que todos no andar.
“Bom dia Tiago. Algum problema?”
“Não é bem um problema, mas preciso mexer em seu micro para atualizar uma configuração, posso fazer isso agora ou volto em outro momento?”
“Pode ser agora, por favor, sente-se”
E Tiago se sentou. Ele acessava um diretório restrito e com um duplo clique em um ícone iniciava um processo que exibia uma pequena tela preta que ficava piscando e listando vários números que não pareciam fazer sentido. O processo durava alguns segundos, mas não atualizava configuração alguma. Na verdade, tudo era apenas um álibi para poder estar próximo e fazer a investigação in loco.
Sentado na mesa ele se atentava a todos os detalhes. E reparou que em meio aos papéis desorganizados havia porta-retratos com fotos dele mesmo em lugares diferentes ao redor do mundo.
“Que lugar é esse?”, Tiago tinha que levantar todas as informações.
“Aí é Tóquio, estive lá há duas semanas atrás”, respondeu Joaquim. “Fechamos contrato com uma empresa e vamos iniciar as exportações logo”, havia um quê de orgulho muito explícito, certamente a comissão dele compensava todos os esforços.
“E você viaja muito?”, Tiago fingia interesse por um assunto que se estenderia em uma discussão sobre outras culturas.
“Sim, sim. No mês passado eu fui para a Tailândia”
“Legal”, era tudo que ele precisava. “Bom, aqui deu tudo certo. Qualquer problema é só abrir um chamado com o pessoal do suporte. Ok?”
“Certo, obrigado”
“Eu é que agradeço”, depois disso ele só precisava ficar atento com as ausências dele e levantar a informação sobre em qual parte do globo estaria.
Naquele mês acertou novamente. “lisboa123”.
Outra mudança que teve que incluir no início foi de remover a validação da senha. Ela exigia que o usuário a criasse com letras e números, mas conforme o tempo passara ele percebeu que o efeito foi uma queda na qualidade e voltou a validação, mesmo achando que os números no final eram uma poluição.
Cibele que trabalhava na área jurídica devia ler todos os dias no jornal o que os astros tinham a revelar sobre o seu destino. Suas senhas seguiam um padrão simples: ao do horóscopo.
Em sua planilha Tiago marcou “escorpiao1111”, e novamente acertou. O “1111”se repetia apenas para complementar a obrigatoriedade dos números.
Havia muitas pessoas que utilizavam datas, e por dedução, Tiago sabia que noventa por cento eram de nascimento e os outros dez deviam ser aniversário de namoro e/ou casamento.
Juliana do recursos humanos utilizava nomes de planetas e estrelas. Nada muito complexo, mas não seguia a ordem do alinhamento. Então era um tiro no escuro. Nos onze meses em que arriscou, Tiago acertou apenas duas. Naquele dia ele verificou novamente em sua planilha que errara. O dela indicava “mercurio123”, ele teve como palpite “saturno123”.
Natalie que se empenhava todos os dias em manter os clientes satisfeitos com seu atendimento usava um padrão sagrado:  “cobrirteacomassuaspenas914”. Na primeira lida rápida ele teve a impressão de que era algo erótico, mas ao analisar com mais cautela percebeu que devia se tratar de algum versículo da bíblia. Resolveu fazer uma pesquisa de campo e compareceu á mesa dela no dia seguinte com a mesma frase que dissera a Joaquim e ao sentar no lugar da menina que não largava o fone em que escutava um cliente confuso e reclamante, ele percebeu uma bíblia aberta ao lado do monitor.
Estava aberta no livro de Salmos e uma cor amarelo-verde marcava o título do salmo 91.
“Esse salmo é famoso”, disse Tiago ao ver que ela finalizou a ligação.
“Sim, é um dos mais fortes, ele o leio todos os dias antes de sair de casa”
“Todos os dias?”, tentou não transparecer sua ironia, queria ser o mais simpático possível. “Pois é, eu preciso voltar a fazer as pazes com o Criador. Obrigado pela dica, a partir de amanhã vou ler esse salmo e decorar todos os versículos”
Na verdade, assim que voltou á sua mesa ele acessou uma página que continha uma bíblia digital e verificou qual seria a seqüência do padrão utilizado por ela. Todos os meses seguintes era sempre a mesma coisa, o salmo 91 esteve presente como senha. Em sua planilha marcou outro acerto, apesar de estar um pouco diferente. No dela estava como “everasocastigodosimpuros”, no dele “everasocastigodosimpios”, mas ao seu critério isso podia ser considerado um acerto, afinal, ele era o dono do jogo.
Robson da engenharia marcava sempre com o modelo do novo motor em que trabalhava, “cpmo0245” era o atual e Tiago acertou outra vez.
E assim ele ficou todo o seu dia comparando os seus palpites com os que realmente fora alterados. No fim contabilizava os acertos e remanejava os palpites errados para uma investigação mais apurada.
Em todos esses meses ele podia constatar o absurdo de senhas como “senha123”, “123senha”, “novasenha1”, “abcd1234”, “1234abcd” e bizarrices como as doenças do senhor que trabalhava no almoxarifado e já se aposentara há três anos.
A única pessoa em que ele sabia que criava senhas no mínimo interessantes, pelo menos no seu ponto de vista, era um menino que trabalhava como boy interno. Suas senhas eram na maioria das vezes, mistura de letras e números que não faziam sentido a outros olhares.
Tiago se surpreendia quando via “fbgnuj12nhop783felv” e no mês seguinte “malr567juin032jkmf”. Ele havia estudado toda a estrutura daquela senha, separada vários trechos a fim de perceber alguma seqüência ou padrão, mas não obteve sucesso.
Uma vez foi até a mesa em que o menino ficava e descobriu que ele não possuía um computador.
“Como você acessa o sistema?”, indagou Tiago, curioso pelo fato dele possuir senha para acessar o sistema, mas não possuir meios para tal.
“Eu uso da minha chefe. Por que?”
“Por nada”
Tiago percebeu que a mesa dele era limpa. Não havia papéis, fotos, bonecos e coisa alguma que fosse uma dica.
Deveria haver sim alguma que fosse indecifrável, mas ele se surpreendeu por tal senha vir de alguém simples que mal acessava o sistema.
“Um dia eu descubro”, criava uma esperança. Só não esperava ter que fazer amizade com o menino, pois não queria aproximação.
Assim que viu sua conclusão apontava um número favorável fechou a tabela e liberou o acesso ao sistema para todos, que por sua vez fingiam estar indignados por não terem como trabalhar durante todo o dia.
Tiago, como todos, precisava também de uma senha. Só que a dele e de seu chefe possuíam níveis de permissões além dos usuários comuns, pois eles eram os administradores dos dados.
No entanto, ele não tinha a liberdade de escolher qual seria a sua. Um processo criava uma chave de modo randômico e um quadro exibia a sua seqüência, que lembrava ao do menino que não tinha computador. Tiago tinha no máximo três minutos para decorar a sua seqüência e com certa raiva ignorava o aviso no quadro que pedia para que ele não a escrevesse em algum papel ou mantivesse em alguma anotação a não ser que estivesse criptografada.
A sua próxima senha, ele não fazia questão de adivinhar.

PS: Mil Lances de Fogo Parte 2

Estava lendo um livro de Irvine Welsh e um trecho me chamou a atenção.  Falava sobre os livros prediletos de um personagem, e um deles é O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Um dos meus livros prediletos também.
O engraçado que uma relação entre dois personagens que é alimentado pela disputa profissional e valores comportamentais levou a um deles a amaldiçoar o outro. E essa maldição é semelhante a qual Dorian Gray comete, neste caso, ele se amaldiçoa em prol de sua vaidade.
Achei interessante o autor ter comentado o único romance do poeta sendo que um dos pontos mais atrativos da trama foi baseada na obra.
Não considero um demérito um autor referenciar em seus textos obras ou fatos que marcaram sua identidade como leitor e/ou escritor.
Tanto que, neste post irei revelar referênciasem Mil Lancesde Fogo.Não, não há mensagens subliminares.
Contém spoilers!
Uma delas é uma situação que ocorreu com Tolkien. No capítulo seis(Fã n°2), um dos integrantes do fã-clube de Júlio Monteiro explica a Ivan porque o maior sucesso do escritor nunca virou filme. Ele diz que o autor recebeu uma oferta para adaptar a obra de sete volumes sendo resumida em três longas, ele assistiu a um piloto de cinco minutos e teve um ataque de tosse quando viu que os efeitos eram de baixa qualidade, mudaram o final e que substituiriam a cena da praga de ratos por uma de pássaros por serem mais fáceis de adestrar.
Essa situação nada mais foi do que aconteceu com Tolkien: Quando ofertaram há muitos anos que O Senhor dos Anéis fosse para as telonas a produtora lançou um piloto e o escritor teve um ataque de tosse quando viu a péssima qualidade dos efeitos especiais e que os Orcs tinham bicos, pois segundo um produtor, economizava na maquiagem. Tolkien não assinou o contrato e infelizmente deixou o mundo antes de assistir á magnífica adaptação pelas mãos de Peter Jackson.
Essa referência cheira a uma homenagem, talvez sim…
Outra referência aparece no conto Pena da Esperança, lido por Ivan. Na verdade, nesse conto há duas referências.
A primeira é sobre uma das vidas passadas do papagaio Roque. Ele se lembra de que já fora um humano. E que também fora um cachorro por duas vezes. Na primeira das encarnações como um cachorro se recordou remotamente que fora uma cadela pastor-alemão que foi morta por seu próprio dono. Não ficou muito explícito, mas a cadela seria Blonde, o animal de estimação de Hitler(fique bem claro que por este não possuo simpatia alguma) que a envenenou antes de cometer suicídio.
Outra referência presente no conto é sobre o incêndio do circo. Em que um anão o incendiou para se vingar de sua demissão. Isso ocorreu de fato e infelizmente várias pessoas morreram.
As minhas referências indicam mais a invasão da ficção sobre a realidade. E acho que isso será um dos aspectos mais presentes na minha literatura.
Há outras, mas não revelarei tão cedo. Quem descobrir ou tiver uma suspeita, fico contente em discutir.
Ah, sobre as mensagens subliminares, elas não existem mesmo. Mas deixei algo oculto que quem descobrir ganhará um exemplar de meu próximo livro a ser publicado, seja ele qual for.

Ma’a salama!

PS: Mil Lances de Fogo Parte 1

No filme Rock Star o personagem de Mark Wahlberg exibe a capa de um vinil da banda da qual era fã e também fazia cover. Ele diz que é o primeiro trabalho do grupo e que o nome de um dos integrantes está escrito de forma errada. Mas ele não se mostra indignado, e sim o contrário, exibe um sorriso indicando a capa do vinil com o nome errado como se aquilo fosse um motivo de se orgulhar.
Muita gente que assistiu ao filme parece não entender essa cena. Não conseguem captar o porquê daquele sorriso orgulhoso. Não seria de se pensar que quem produziu a arte da capa menosprezou a banda em início de carreira por não se atentar em como era escrito o nome? Qual seria a razão de se orgulhar?
Para entender esse comportamento de forma simples imagine que quem quer que tenha ignorado um artista em início de carreira pressupondo de que o mesmo não faria sucesso possa conferir um dia de que estava errado. De que foi um absurdo não ter reparado que aquele solo de guitarra soava bem ou de que aqueles tons roxos tinham um sentido filosófico ou de que aquele sorriso meio torto era digno de um prêmio internacional. De que devia ter se atentado que o nome não era com I e sim com Y. De que sempre teria na memória que foi quem errou sobre o sucesso do artista e que agora eles estavam no topo. E que certamente deviam rir ao se lembrarem de que no primeiro trabalho imprimiram na capa o nome escrito de forma errada.
É uma maneira diferente de se orgulhar, mas ainda assim é bem comum.
Algo parecido aconteceu comigo quando publiquei o meu primeiro livro.
Não. Não escreveram o meu nome de forma errada, muito menos o nome do livro.
Na primeira semana em que o livro chegou ás livrarias eu fui correndo conferir o resultado da exposição. Por ter sido lançado em uma tiragem de mil e quinhentos exemplares, comum para autores iniciantes, eu já sabia que Mil Lances de Fogo não estaria nas ilhas de lançamentos. Então fui procurar nas prateleiras, os olhos atentos ao nome árabe ao lado do título que não dizia muita coisa.
Não tive sucesso. Olhei novamente, mais devagar, podia ter passado despercebido. Nada.
Sem sucesso tive que perguntar á uma funcionária se ela podia verificar no sistema se ele estava disponível, ou se ao menos estava cadastrado. A atendente verificou e indicou de que havia dois exemplares na loja e sendo muito prestativa me acompanhou até onde se encontrava.
Estava na prateleira de trás, na seção de Literatura Estrangeira. Ela retirou junto dos outros e me perguntou se era aquele. Respondi ainda meio surpreso que sim e também disse que estava errada aquela classificação. De que aqueles dois exemplares deviam estar na seção Literatura Nacional. Ela disfarçou um olhar sarcástico e inclinou a capa para que eu visse o nome do autor. Sendo educado agradeci a ajuda e fiquei ali, parado em frente aos livros dos gringos.
Como a organização dos livros era em ordem alfabética pelo sobrenome do autor, pude notar de que me encontrava ao lado de um clássico da literatura: A Revolução dos Bichos, do fabuloso George Orwell.
Sem que a atendente notasse retirei os dois e os coloquei na seção correta. E antes de ir embora fiquei imaginando o porquê daquilo. Afinal, Mil Lances de Fogo faz parte do selo Novos Talentos da Literatura Brasileira. Foi publicado por uma editora nacional, por um escritor que tem a cidadania brasileira.
Conferi com a editora e soube de que ela enviava para os distribuidores indicando a seção correta. Então o erro era da livraria? Quem recolhia os livros do estoque e os classificava não lia o documento enviado pela editora? Será que o responsável apenas lia o título e o nome do autor e depois encaminhava para as seções?
Se esse processo ocorria dessa forma posso imaginar o que pensaram ao ler o título e o meu nome: “Outro drama decorrente da guerra no Oriente Médio?”.
Mas, apesar desse detalhe, não fiquei irritado. Não recorri á administração da livraria para que corrigissem a exposição do livro.
E toda vez que conto este causo a alguém, imagino um futuro promissor e fico exibindo o mesmo sorriso do personagem de Mark Warlberg.