PS: Mil Lances de Fogo Parte 1

No filme Rock Star o personagem de Mark Wahlberg exibe a capa de um vinil da banda da qual era fã e também fazia cover. Ele diz que é o primeiro trabalho do grupo e que o nome de um dos integrantes está escrito de forma errada. Mas ele não se mostra indignado, e sim o contrário, exibe um sorriso indicando a capa do vinil com o nome errado como se aquilo fosse um motivo de se orgulhar.
Muita gente que assistiu ao filme parece não entender essa cena. Não conseguem captar o porquê daquele sorriso orgulhoso. Não seria de se pensar que quem produziu a arte da capa menosprezou a banda em início de carreira por não se atentar em como era escrito o nome? Qual seria a razão de se orgulhar?
Para entender esse comportamento de forma simples imagine que quem quer que tenha ignorado um artista em início de carreira pressupondo de que o mesmo não faria sucesso possa conferir um dia de que estava errado. De que foi um absurdo não ter reparado que aquele solo de guitarra soava bem ou de que aqueles tons roxos tinham um sentido filosófico ou de que aquele sorriso meio torto era digno de um prêmio internacional. De que devia ter se atentado que o nome não era com I e sim com Y. De que sempre teria na memória que foi quem errou sobre o sucesso do artista e que agora eles estavam no topo. E que certamente deviam rir ao se lembrarem de que no primeiro trabalho imprimiram na capa o nome escrito de forma errada.
É uma maneira diferente de se orgulhar, mas ainda assim é bem comum.
Algo parecido aconteceu comigo quando publiquei o meu primeiro livro.
Não. Não escreveram o meu nome de forma errada, muito menos o nome do livro.
Na primeira semana em que o livro chegou ás livrarias eu fui correndo conferir o resultado da exposição. Por ter sido lançado em uma tiragem de mil e quinhentos exemplares, comum para autores iniciantes, eu já sabia que Mil Lances de Fogo não estaria nas ilhas de lançamentos. Então fui procurar nas prateleiras, os olhos atentos ao nome árabe ao lado do título que não dizia muita coisa.
Não tive sucesso. Olhei novamente, mais devagar, podia ter passado despercebido. Nada.
Sem sucesso tive que perguntar á uma funcionária se ela podia verificar no sistema se ele estava disponível, ou se ao menos estava cadastrado. A atendente verificou e indicou de que havia dois exemplares na loja e sendo muito prestativa me acompanhou até onde se encontrava.
Estava na prateleira de trás, na seção de Literatura Estrangeira. Ela retirou junto dos outros e me perguntou se era aquele. Respondi ainda meio surpreso que sim e também disse que estava errada aquela classificação. De que aqueles dois exemplares deviam estar na seção Literatura Nacional. Ela disfarçou um olhar sarcástico e inclinou a capa para que eu visse o nome do autor. Sendo educado agradeci a ajuda e fiquei ali, parado em frente aos livros dos gringos.
Como a organização dos livros era em ordem alfabética pelo sobrenome do autor, pude notar de que me encontrava ao lado de um clássico da literatura: A Revolução dos Bichos, do fabuloso George Orwell.
Sem que a atendente notasse retirei os dois e os coloquei na seção correta. E antes de ir embora fiquei imaginando o porquê daquilo. Afinal, Mil Lances de Fogo faz parte do selo Novos Talentos da Literatura Brasileira. Foi publicado por uma editora nacional, por um escritor que tem a cidadania brasileira.
Conferi com a editora e soube de que ela enviava para os distribuidores indicando a seção correta. Então o erro era da livraria? Quem recolhia os livros do estoque e os classificava não lia o documento enviado pela editora? Será que o responsável apenas lia o título e o nome do autor e depois encaminhava para as seções?
Se esse processo ocorria dessa forma posso imaginar o que pensaram ao ler o título e o meu nome: “Outro drama decorrente da guerra no Oriente Médio?”.
Mas, apesar desse detalhe, não fiquei irritado. Não recorri á administração da livraria para que corrigissem a exposição do livro.
E toda vez que conto este causo a alguém, imagino um futuro promissor e fico exibindo o mesmo sorriso do personagem de Mark Warlberg.

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