Próxima senha

  Com um pequeno esforço conseguiu arrancar a etiqueta colada na parte debaixo da caneca, só ficou incomodado depois com o pouco de papel fincado em sua unha.
Haviam deixado a etiqueta com o preço. Prova de que realmente não se importavam com ele. Mas não havia problema, Tiago também não possuía simpatia por eles.
Seu aniversário fora no dia anterior e o departamento comprara aquele presente como agrado, mas poucos foram os que foram parabenizá-lo.
“Vou sair, e acho que não volto hoje. Mantenha tudo funcionando”, dissera seu tutor.
Ele sentou e ligou o seu computador. Tiago era estagiário e seu tutor deixava toda a responsabilidade em suas mãos. Ele teria que manter o funcionamento dos servidores e administrar todas as bases de dados que a empresa tinha. Arriscado demais para uma única pessoa, mas confiavam nele e seu tutor não gostava de perder tempo e viver respirando ar condicionado nos últimos anos, então sempre saía para passear logo que ele chegava.
Ele trabalhava em uma grande empresa familiar que fabricava peças para tratores, mas ficava alocado no escritório, em São Paulo.
“Gostou do presente?”, perguntou seu tutor vestindo uma jaqueta e arrumando suas coisas para a fuga inevitável.
“Gostei, sempre quis ter uma caneca do MASP”, respondeu o jovem estagiário deixando uma ironia peculiar vazar entre duas palavras.
“Certo, então, até mais”
Logo que seu tutor sumiu ele voltou a atenção para a tela de seu computador. Vários gráficos de barras e modelos estatísticos indicavam o funcionamento de todos os servidores. Em sua caixa de entrada de mensagens eletrônicas não havia nenhum chamado para criar alguma consulta que retornasse a verdade sobre a crise financeira da empresa.
Uma tela explodiu no centro da tela, piscando em laranja e emitindo um som irritante. Era um lembrete.
“Prezados colaboradores, dentro de dois minutos o sistema entrará em manutenção e ficará indisponível por tempo indeterminado. Por gentileza, salvem suas alterações e se desconectem para que o processo seja mais ágil e efeciente. Grato, Equipe DBA”, escreveu no quadro que seria exibido para todos os funcionários.
E antes de completar um minuto ele derrubava todos que estivessem conectados. Precisava fazer aquilo, pois a ansiedade era grande.
Ao constatar que ninguém estava preso ás tabelas principais, acessou a única que importava: a de senhas.
Confiavam em Tiago, jamais suspeitariam que todo mês, um dia após o sistema solicitar a mudança de senhas para todos os funcionários, ele abria a tabela e olhava, uma a uma com imenso interesse.
Fazia isso já havia quase um ano, e tudo começou quando percebeu que não o efetivariam tão cedo e seria estagiário por muito tempo.
Naquela época o sistema requisitou a mudança de senha. Padrão de segurança que ele entendia perfeitamente. Ficou um bom tempo pensando em que senha os outros criariam, e em meio a pensamentos ridículos, vulgares e insanos teve uma idéia que parecia trazer um pouco de diversão em seu trabalho monótono, pelo menos, uma vez ao mês. Ele resolveu que tentaria descobrir a próxima senha dos funcionários.
Mas era óbvio que para realizar essa façanha ele teria que abrir a tabela de senhas e ver as senhas atuais para poder chegar a um padrão.
E foi o que fez. E onze meses depois ele tinha a décima primeira planilha com as senhas que supostamente seriam as próximas.
No início a requisição da mudança ocorria a cada três meses, mas quando ele descobriu que seria desagradável bancar o Sherlock Holmes a cada trimestre mudou um campo da tabela em que indicava a periodicidade da mudança. Uma vez ao menos era o mais indicado.
A secretária tinha a famosa senha com a data de nascimento de seu filho, como ele veio descobrir ao olhar no arquivo digital com as informações pessoais dela. Era uma senha composta com o nome e data de nascimento. E a cada mês ela alternava os nomes, um mês era a do pai, outro da mãe, do marido, da irmã, do irmão e assim por diante.
Em sua planilha, na aba do mês corrente, Tiago procurava o nome dela e ao olhar na tela a senha ficou com um sorriso de orelha a orelha. Ele havia escrito “rafael220874”, irmão dela.
A primeira vez que viu a senha da menina da contabilidade que todos os dias chegava atrasada ficou se segurando para não ter um ataque de risos. A frase “agoravoucolocaraminhasenha1” era totalmente inesperado. E o padrão era o mais simples possível, ela apenas alterava o último dígito seguindo uma ordem. Tiago não queria aquela facilidade, então criou uma rotina para identificar parte de senhas anteriores e que impedisse os usuários definirem com aquele mesmo trecho, a frase “agoravoucolocaraminhasenha” era a primeira da varredura.
Mas a menina que sempre chegava atrasada não quis pensar em algo diferente e resolveu manter o mesmo padrão ao definir como senha “digitarsenhaagora1”.
Tiago não resolveu perder tempo com impedimentos e ignorou o caso dela.
Joaquim definiu na primeira vez “santodomingo123”. “Dias da semana?”, arriscou Tiago, e colocou “tristesegunda123”. Mas errou, no segundo mês Joaquim que trabalhava na área comercial alterou a senha para “bancoc123”.
“Que merda é essa?”, Tiago teve que apelar para o famoso oráculo disponível na rede mundial de dados e descobriu que se tratava da capital da Tailândia.
“Capitais. Interessante, mas qual o padrão? Seria os cenários dos últimos filmes vistos ou a primeira que der na telha?”, se perguntava.
Em alguns casos ele investigava todos os detalhes possíveis, inclusive visitar a pessoa em questão em sua mesa. Com Joaquim não fora diferente.
“Bom dia Joaquim”, disse ao aparecer na baia do calvo e barrigudo que ganhava mais que todos no andar.
“Bom dia Tiago. Algum problema?”
“Não é bem um problema, mas preciso mexer em seu micro para atualizar uma configuração, posso fazer isso agora ou volto em outro momento?”
“Pode ser agora, por favor, sente-se”
E Tiago se sentou. Ele acessava um diretório restrito e com um duplo clique em um ícone iniciava um processo que exibia uma pequena tela preta que ficava piscando e listando vários números que não pareciam fazer sentido. O processo durava alguns segundos, mas não atualizava configuração alguma. Na verdade, tudo era apenas um álibi para poder estar próximo e fazer a investigação in loco.
Sentado na mesa ele se atentava a todos os detalhes. E reparou que em meio aos papéis desorganizados havia porta-retratos com fotos dele mesmo em lugares diferentes ao redor do mundo.
“Que lugar é esse?”, Tiago tinha que levantar todas as informações.
“Aí é Tóquio, estive lá há duas semanas atrás”, respondeu Joaquim. “Fechamos contrato com uma empresa e vamos iniciar as exportações logo”, havia um quê de orgulho muito explícito, certamente a comissão dele compensava todos os esforços.
“E você viaja muito?”, Tiago fingia interesse por um assunto que se estenderia em uma discussão sobre outras culturas.
“Sim, sim. No mês passado eu fui para a Tailândia”
“Legal”, era tudo que ele precisava. “Bom, aqui deu tudo certo. Qualquer problema é só abrir um chamado com o pessoal do suporte. Ok?”
“Certo, obrigado”
“Eu é que agradeço”, depois disso ele só precisava ficar atento com as ausências dele e levantar a informação sobre em qual parte do globo estaria.
Naquele mês acertou novamente. “lisboa123”.
Outra mudança que teve que incluir no início foi de remover a validação da senha. Ela exigia que o usuário a criasse com letras e números, mas conforme o tempo passara ele percebeu que o efeito foi uma queda na qualidade e voltou a validação, mesmo achando que os números no final eram uma poluição.
Cibele que trabalhava na área jurídica devia ler todos os dias no jornal o que os astros tinham a revelar sobre o seu destino. Suas senhas seguiam um padrão simples: ao do horóscopo.
Em sua planilha Tiago marcou “escorpiao1111”, e novamente acertou. O “1111”se repetia apenas para complementar a obrigatoriedade dos números.
Havia muitas pessoas que utilizavam datas, e por dedução, Tiago sabia que noventa por cento eram de nascimento e os outros dez deviam ser aniversário de namoro e/ou casamento.
Juliana do recursos humanos utilizava nomes de planetas e estrelas. Nada muito complexo, mas não seguia a ordem do alinhamento. Então era um tiro no escuro. Nos onze meses em que arriscou, Tiago acertou apenas duas. Naquele dia ele verificou novamente em sua planilha que errara. O dela indicava “mercurio123”, ele teve como palpite “saturno123”.
Natalie que se empenhava todos os dias em manter os clientes satisfeitos com seu atendimento usava um padrão sagrado:  “cobrirteacomassuaspenas914”. Na primeira lida rápida ele teve a impressão de que era algo erótico, mas ao analisar com mais cautela percebeu que devia se tratar de algum versículo da bíblia. Resolveu fazer uma pesquisa de campo e compareceu á mesa dela no dia seguinte com a mesma frase que dissera a Joaquim e ao sentar no lugar da menina que não largava o fone em que escutava um cliente confuso e reclamante, ele percebeu uma bíblia aberta ao lado do monitor.
Estava aberta no livro de Salmos e uma cor amarelo-verde marcava o título do salmo 91.
“Esse salmo é famoso”, disse Tiago ao ver que ela finalizou a ligação.
“Sim, é um dos mais fortes, ele o leio todos os dias antes de sair de casa”
“Todos os dias?”, tentou não transparecer sua ironia, queria ser o mais simpático possível. “Pois é, eu preciso voltar a fazer as pazes com o Criador. Obrigado pela dica, a partir de amanhã vou ler esse salmo e decorar todos os versículos”
Na verdade, assim que voltou á sua mesa ele acessou uma página que continha uma bíblia digital e verificou qual seria a seqüência do padrão utilizado por ela. Todos os meses seguintes era sempre a mesma coisa, o salmo 91 esteve presente como senha. Em sua planilha marcou outro acerto, apesar de estar um pouco diferente. No dela estava como “everasocastigodosimpuros”, no dele “everasocastigodosimpios”, mas ao seu critério isso podia ser considerado um acerto, afinal, ele era o dono do jogo.
Robson da engenharia marcava sempre com o modelo do novo motor em que trabalhava, “cpmo0245” era o atual e Tiago acertou outra vez.
E assim ele ficou todo o seu dia comparando os seus palpites com os que realmente fora alterados. No fim contabilizava os acertos e remanejava os palpites errados para uma investigação mais apurada.
Em todos esses meses ele podia constatar o absurdo de senhas como “senha123”, “123senha”, “novasenha1”, “abcd1234”, “1234abcd” e bizarrices como as doenças do senhor que trabalhava no almoxarifado e já se aposentara há três anos.
A única pessoa em que ele sabia que criava senhas no mínimo interessantes, pelo menos no seu ponto de vista, era um menino que trabalhava como boy interno. Suas senhas eram na maioria das vezes, mistura de letras e números que não faziam sentido a outros olhares.
Tiago se surpreendia quando via “fbgnuj12nhop783felv” e no mês seguinte “malr567juin032jkmf”. Ele havia estudado toda a estrutura daquela senha, separada vários trechos a fim de perceber alguma seqüência ou padrão, mas não obteve sucesso.
Uma vez foi até a mesa em que o menino ficava e descobriu que ele não possuía um computador.
“Como você acessa o sistema?”, indagou Tiago, curioso pelo fato dele possuir senha para acessar o sistema, mas não possuir meios para tal.
“Eu uso da minha chefe. Por que?”
“Por nada”
Tiago percebeu que a mesa dele era limpa. Não havia papéis, fotos, bonecos e coisa alguma que fosse uma dica.
Deveria haver sim alguma que fosse indecifrável, mas ele se surpreendeu por tal senha vir de alguém simples que mal acessava o sistema.
“Um dia eu descubro”, criava uma esperança. Só não esperava ter que fazer amizade com o menino, pois não queria aproximação.
Assim que viu sua conclusão apontava um número favorável fechou a tabela e liberou o acesso ao sistema para todos, que por sua vez fingiam estar indignados por não terem como trabalhar durante todo o dia.
Tiago, como todos, precisava também de uma senha. Só que a dele e de seu chefe possuíam níveis de permissões além dos usuários comuns, pois eles eram os administradores dos dados.
No entanto, ele não tinha a liberdade de escolher qual seria a sua. Um processo criava uma chave de modo randômico e um quadro exibia a sua seqüência, que lembrava ao do menino que não tinha computador. Tiago tinha no máximo três minutos para decorar a sua seqüência e com certa raiva ignorava o aviso no quadro que pedia para que ele não a escrevesse em algum papel ou mantivesse em alguma anotação a não ser que estivesse criptografada.
A sua próxima senha, ele não fazia questão de adivinhar.

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