Abutres do Momento

Inevitável alguma resenha não tecer comparações entre o filme O Abutre (Nightcrawler) com A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole). Interessante é o abismo entre os dois, 2014 e 1951 respectivamente.
O Abutre foi lançado no final do ano passado, com Jake Gyllenhaal interpretando um desempregado que rouba cobre e diversos metais cortando cercas de propriedade privadas e revende para o chefe de um ferro-velho que nunca irá contratá-lo. A oportunidade bate à porta quando na madrugada se depara com um acidente, e um cameraman chega às pressas e registra o ocorrido e em poucos segundos já está negociando o preço do vídeo com algum canal interessado.
O ramo de jornalismo criminal independente o fisga e autodidata como é aprende tudo que pode pela internet, pesquisando muito e entrando de gaiato como vários outros que viram noites ouvindo a rádio da polícia a fim de chegar primeiro para registrar a desgraça alheia.
Em A Montanha dos Sete Abutres o personagem de Kirk Douglas se aproveita de um desastre de uma mina, em que um trabalhador fica preso, a fim de ganhar notoriedade explora a situação, monopoliza a cobertura e estende o resgate o máximo que pode, até o fim trágico…
Em O Abutre, vemos essa história exponencialmente explorada pelo personagem numa Los Angeles noturna, e toda a ambição do novato tange à ganância deliberada que exala nos poros do capitalismo moderno.
A ascensão de Louis Bloom é entremeada com jargões do mundo corporativo, assim como o seu discurso e engajamento com o crescimento de sua futura empresa farejadora de sangue.
A manipulação do que a lente irá captar é deslavada, em uma cena rasteja um corpo de um acidente que acabara de acontecer para obter um bom ângulo, registra a eliminação do concorrente, ou então retém informação de quem são os assassinos de um crime que cobriu para depois entregá-los aos tiras enquanto os vilões comem numa lanchonete com civis em mesas próximas.
Jake Gyllenhaal é um bom ator, desde Donnie Darko o cara arrasta fãs pela sua atuação e ganha meu respeito por participar em filmes como esse, em épocas que blockbusters ajudam na venda de pipoca.
Se o slogan “se você está me vendo está tendo o pior dia de sua vida” não o enojar pela essência desse filme, com certeza a atuação dele o fará, e não digo somente pelos olhos arregalados de um sociopata que descobre a sua vocação.

 

Ma’a salama!

Pátria Armada

Nada melhor do que ler uma HQ nacional numa daquelas folgas para compensar banco de horas.
Ok. Existem sim coisas melhores.
Mas no meu caso, a data de hoje foi preenchida com um amontado de afazeres pendentes estressantes, e a recompensa veio em uma HQ nacional independente que recebeu financiamento coletivo pelo Catarse.

Pátria Armada utiliza história alternativa como tema principal e se passa em 1994 num Brasil imerso em guerra civil iniciada no conhecido ano de 1964.
A nossa amada pátria fica dividida então entre os Federalistas governando suas tropas de Brasília e os Legalistas tendo como sede de governo o Palácio dos Bandeirantes em São Paulo. O Rio de Janeiro foi o único estado que ficou neutro na guerra e é governado por D. Pedro V.
Não bastando a curiosidade dessa possibilidade histórica que proporciona cenas de combate com tanques e helicópteros na Avenida Paulista, há também personagens meta-humanos e mistérios envolvendo uma explosão de uma tal de Bomba Química em 08/03/1972 em São Paulo e outra revidada em Salvador.
A arte não deixa a desejar e não perde em nada para as HQs de fora.
Compensou cada centavo e trouxe paz no que poderia ser um dia perdido.

Pátria Armada

Pátria Armada

Demais detalhes
Roteiro e Arte: Klebs Junior
Publicação: Instituto dos Quadrinhos
Onde comprar: A minha peguei na Geek.etc
Site: www.patriaarmada.com.br
Ma’a salama!

A Inesperada Virtude da Ignorância

É hoje.
Na gloriosa noite rolará em terras nortenhas no teatro Kodak a 87ª cerimônia do Oscar.
Como previsto pelos meus poderes maometanos não consegui assistir a todos em tempo.
Ficou de fora Boyhood, O Grande Hotel Budapeste e A Teoria de Tudo.
Mas os dois últimos, Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorânica (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance) e Whiplash Em Busca da Perfeição foram fodásticos.
Em Whiplash, com um roteiro simples e poucos atores famosos, acompanhamos a história de um baterista buscando o reconhecimento profissional frente a um maestro que é um Steve Jobs do mundo da música.
Não é preciso ser músico, na verdade, a sugestão da busca pela qualidade e fama em um trabalho expresso no longa poderia ser aplicado em qualquer área, mas é lógico, o lado ruim da moeda é o que mais fica exposto e rimos e sentimos a dor do pobre baterista.

Já Birdman foi o típico filme que mesmo diante de tanto blá-blá-blá, arrisquei ver sem ler a sinopse, surpreendente é o roteiro encharcado de meta-ficção, com os paralelos da vida real de Michael Keaton e seu antigo papel como o homem-morcego nas mãos do Tim Burton. Nada muito direto, mas não é difícil ligar os pontos.
Como sou chato receptivo para filmes-arte a história foi o melhor para se assistir no carnaval, mas acredito que se alguém tentar a sorte para assisti-lo do mesmo modo que eu pode odiar se estiver na expectativa de um filme de super-herói com muita aventura e explosões.
O filme é na verdade uma crítica à avalanche industrial de filmes-pipoca que o cinema vem produzindo, mesmo que as cifras representem a alegria dos grandes executivos de Hollywood.
Até o estilo das filmagens pode torcer os beiços daqueles acostumados com vários cortes e repasse de imagens. A maioria das sequências são contínuas, tal como fosse uma peça teatral e essa referência é mais intricada quando o que assistimos são ensaios para uma peça que rolará na Broadway e que fala de amor e traição.
Se alguém espera um filme no naipe de Os Vingadores (The Avengers) e for ao cinema e ainda assim adorar a crítica filosófica que o próprio personagem fantasiado e imaginário que perturba Michael Keaton diz olhando direto para nós:
“Eles amam sangue, amam ação. Nada dessa conversa depressiva e filosófica”

Birdman

Birdman

Aí sim, o subtítulo faria jus ao que o diretor mexicano Alejandro Iñárritu quis mostrar.
Birdman e Boyhood são os preferidos de uma par de gente.
Dos que consegui ver Birdman e Whiplash são os melhores, faz da telona mais do que um meio de vender pipoca a preço alto.

Ma’a salama!

Sniper Americano

Assim como em Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima), também do diretor Clint Eastwood, Sniper Americano (American sniper) tem um ex-atleta olímpico no lado inimigo, no caso do primeiro filme, o ponto de vista da batalha é o dos japoneses, caso muito diferente do filme lançado recentemente que retrata a autobiografia de Chris Kyle, considerado o mais letal matador da história do exército americano, que enfrenta o sniper inimigo que também possui suas lendas e fama de forma a endossar um duelo equivalente nas terras áridas lembrando remotamente os filmes que Eastwood atuava (Faroeste folks!).
A coincidência entre Cartas de Iwo Jima e Sniper Americano sobre os ex-atletas olímpicos é somente o que acabei de citar no início desse parágrafo e o é esse elemento e toda e qualquer outra comparação entre os dois filmes do mesmo diretor. O que na minha humilde opinião, o primeiro é mil vezes melhor do que este que mal chegou.
Sniper Americano não é filme para questionar os motivos que levou o exército até o Iraque.
O enredo é fiel à adaptação da biografia de Kyle, aquele americano comum, que tentava a vida como caubói no Texas.
Vemos em sua infância um pai que o levava para caçar, inevitável não lembrar de Círculo de Fogo (Enemy at Gates). Somos introduzidos na lição paternal, ditada na mesa de jantar quando Kyle e o irmão mais novo ouvem o sermão após terem se metido numa briga escolar. “Existem três tipos de pessoas no mundo: Os lobos, os cordeiros e os cães pastores”, formando a base ideológica e moral de um homem que almejou tornar-se um cão pastor.
Sendo difícil a vida adulta, não conseguiu se manter nos rodeios texanos, quebrar recordes de segundos montando touros raivosos não deve ser fácil. Uma noite, após uma reflexão sobre a vida sonhada vem a ideia de se alistar no maior exército do mundo motivado pela notícia das explosões das embaixadas americanas na Tanzânia e no Quênia. Aqui, deixa claro que o alistamento antes do fatídico 11 de setembro o coloca num patamar mais digno de patriotismo.
Treinamento puxado, conhece a mulher dos sonhos, embucha a que vai sofrer os próximos anos, e bum!
Iraq here we go, I don’t know why, but this is my job.
A justificativa de suas atitudes é rígida tal como uma escolha profissional, afinal, o alistamento não é obrigatório, e guerra na maioria das vezes significa uma ou mais mortes. E antes o inimigo do que eu.
Não é um filme em que há terreno para arrependimento, pois o serviço era proteger os seus, e Bradley Cooper atinge o pico de sua atuação quando hesita em atirar em crianças, mas se ela estiver segurando uma granada e põe em risco a sua tropa aperta o gatilho e volta a se lamentar.
Entre um emaranhado de clichês vamos percebendo que o intuito do filme é retratar os efeitos da guerra, a destruição da sanidade mental de um soldado e a persistência de querer continuar contribuindo com o seu heroísmo escolhido.
Apesar dos esforços do ator para o papel, como o ganho de massa muscular para se equiparar ao personagem, as aulas com armas para se habituar e todos os momentos chorosos, muitos têm questionado o seu desempenho para um papel que já é emblemático pelo número de mortes que Kyle conseguiu com sua habilidade.
Algo que correu a rede com deliberado e desenfreado sarcasmo a fim de minar as chances de Cooper ganhar a estatueta foi a boneca utilizada numa cena em que se desenrola um diálogo com sua esposa sobre a ausência na família:

Cena filmada no Projac?

Cena filmada no Projac?

Não critico esse deslize, pode ser um erro de edição, um artifício para dizer que há algo mais importante a prestar atenção ou uma garfada nos estúdios pelo orçamento limitado (parece que Spielberg abandonou a produção por esse fato).
Clint consegue que Cooper interprete a vítima do estresse pós-traumático herdado da guerra, mas não chega perto do que Kathryn Bigelow conseguiu explorar em Guerra ao Terror (The Hurt Locker), e não consegue enveredar por um caminho mais profundo em uma questão que perturba o governo Obama quando 22 veteranos cometem suicídio por dia.
Tema não somente de um passado polêmico, mas presente e mais ameaçador quando o ISIS cresce intimidando e fincando os dentes lupinos nos cordeiros que eles tiveram como missão trazer a liberdade e democracia (trabalho mal feito como podemos notar).
Obama está a solicitar aprovação do Congresso para uma incursão militar com maior contingente e com prazo indeterminado, justo ele, cujo mote nas primeiras campanhas era trazer os soldados de volta.
O desfecho de Sniper é mais cruel daquele de Guerra ao Terror, só nos mostra que os cães pastores não conseguem descansar quando só ouvem os prantos dos cordeiros, não importa quantos lobos têm de derrubar.

Torço muito para que Clint Eastwood mantenha-se vivo para fazer um filme melhor, seria lamentável ter esse como gran finale em sua carreira como diretor.
Ma’a salama!

O Jogo da Imitação

Pensei em fazer uma resenha para cada filme que está concorrendo ao Oscar deste ano, tecer comentários críticos denotando os meus sólidos conhecimentos do simbolismo da sétima arte. Mas então percebi que listas desse tipo não dão certo comigo, pois sempre me atropelo com pendências deveras antigas e quando vejo, estou falando de um longa de dois anos atrás, então, aqui vem uma série descompromissada sobre os filmes que vi antes da 87ª cerimônia do Oscar.
Tão descompromissada que posso não resenhar um ou cinco deles, e não por vontade de influenciar ou esbaldar a minha preferência, é desleixo mesmo, do tipo que nunca permitirá ser um crítico respeitável, tudo bem, não era o queria quando pequeno…

Falei em Enigma Pessoal um pouco do que o trailer de O Joga da Imitação (The Imitation) prometia, já previa que a concepção de uma prévia de uma drama de guerra deixasse a questão do drama pessoal de Alan Turing (pai da computação) interpretado por Benedict Cumberbach (ícone nerd contemporâneo) de fora, mas o filme não esconde em nenhum momento a injustiça que o povo da terra do chá das 5 cometeram.
As atuações são muito boas, até mesmo o Mark Strong que parece ter caído na maldição do “se não é vilão é só um tipo de personagem”, no caso, o de agente secreto, basta assistir Rede de Mentiras (Body of Lies) e O Homem que Sabia Demais (Tinker Taylor Soldier Spy). Aqui ele é do MI6, e tem papel fundamental na organização/segurança/respaldo/manipulação do grupo de criptógrafos tentando quebrar o código da Enigma, máquina usada pelos nazistas em suas comunicações enquanto devastavam a Europa livre.
Benedict Cumberbach é perfeito não somente por possuir uma beleza estranha, ele é um ator com umas feições que fazem muitos arquearem as sobrancelhas, mas a simpatia em suas atuações conquistou milhões de admiradores, em Sherlock, vemos um personagem com uma genialidade que o torna antipático e mesquinho, e esse padrão é o mesmo ao interpretar Alan Turing, porém, o drama é mais notável.
Ele não se ajusta à sociedade por ser lógico demais, não decodifica piadas e entrelinhas, em muitos momentos são engraçados os diálogos, mas vemos um homem complexado desde a infância (no refeitório da escola separava as ervilhas das cenouras), e o buylling sofrido pelos maiores só piorava as coisas.
O tempo é crucial na trama, era guerra lutada pelos gênios em suas áreas. O desafio era tão grande que é explicado no início: As comunicações nazistas de cada ataque surpresa por caças ou submarinos flutuavam pelo ar e podiam ser interceptadas por qualquer estudante com um rádio AM. O problema era que eram criptografadas. E existiam 159 milhões de milhões de milhões de configurações possíveis. E se dispusessem de 10 homens testando uma configuração por minuto, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, poderiam desvendar uma mensagem para evitar um ataque em 20 milhões de anos, e precisavam fazer isso em vinte minutos.
Entra em cena então o plano de Turing, que era o de construir uma máquina que pudesse competir de igual a igual com Enigma, que nada mais era do que outra máquina. Porém, naquela época, entre as circunstâncias da guerra e a patética tradicionalidade, o pensamento dos altos níveis hierárquicos não eram compatíveis com as genialidades de seu tempo…, epa, pera, acho que não mudou muito.
Enfim, o drama não fica estendido na ponta dos pés apenas da questão homossexual de Turing, o papel da linda Keira Knightley pende para a mosca na sopa do orgulho machista da época, com suas dificuldades de entrar para a equipe do projeto secreto cujo método classificatório mostrou que ela era mais ninja nos números que o próprio Turing. O casamento entre os dois gera um diálogo convincente sobre relacionamentos, sobre o que seria uma vida feliz a dois.
Há outros pontos interessantes na trama como a caça a agentes duplos e o porquê de certas permissões. A questão ética muito discutida após a história da investigação criptográfica vir à tona também está lá, quando o primeiro computador desvenda um código, mas precisam se conter em não revelar às autoridades para não evitarem um ataque, pois senão os alemães saberiam que seu enigma foi desvendado e mudariam a configuração da máquina dificultando e atrasando novamente o trabalho dos gênios.
Tal como em Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind) o insight principal surge em um bar e o grande gênio deixa o local às pressas para testar o resultado. Não sei qual a aproximação com a realidade e os fatos históricos, mas aos matemáticos de plantão fica a dica: bebam algumas para relaxar que isso pode lhe garantir prestígio e imortalidade.

O final há os números estimados do que o trabalho da equipe de Turing poupou: 2 anos adiantados para a vitória e cerca de 28 milhões de vidas.
Mesmo com o fato histórico, a opção sexual do matemático de origem polonesa lhe rendeu a condenação por indecência.
Após ter sua saúde física e mental abaladas pela castração química (escolhida por ele ao invés de ir para uma cela e que é justificado por sua vontade de continuar com as pesquisas computacionais) o suicídio por uma maçã envenenada foi uma trágica solução para seus problemas.

Não é à toa que está concorrendo a uma série de estatuetas, o drama é denso, e não precisa ser um gênio matemático para se sensibilizar.

O Joga da Imitação

O Jogo da Imitação

Talvez, o próximo post seja sobre um tal de Sniper Americano…

Ma’a salama!

Projeto Akira

Projeto Akira – Homenagem e Filantropia

Projeto Akira - Homenagem e Filantropia

Projeto Akira – Homenagem e Filantropia

“Que tipo de homens serão essas crianças que assistem essas porcarias violentas” – Algum imbecil ao ver um grupo de crianças tentando soltar um Leigan para explodir a cabeça de um Toguro imaginário no nível 110%.

Não vou filosofar sobre a máxima acima, nem tentar criar justificativas sobre a cultura violenta que muitos consumiram nos anos 1990 e os efeitos na maturidade.
O intuito deste post é apresentar o Projeto Akira, cuja pretensão é criar um catálogo com ilustrações do anime Akira, clássico de Katsuhiro Otomo lançado em 1988. Veja detalhes do projeto clicando aqui.
Com um enredo pós-apocalíptico numa Tóquio que se recupera da devastação pela 3ª Guerra Mundial,  com gangues de motoqueiros e rebeldia pulsando a cada frame, o anime gerou certa polêmica por ser violento e nada apropriado a menores (embora não tenha os elementos promíscuos de um hentai)

O que mais chama a atenção nesse projeto é a questão social. Pois será doado TODO o recurso excedente (descontando impressão e custos de envios) para o Lar de Maria, instituto de caridade que cuida de crianças com câncer em Teresina – PI
O gancho filantrópico é justificado pelos idealizadores com a seguinte ideia: “Akira é, de alguma forma, uma história sobre infância”

Não poderia ser mais verdadeiro. Conquistaram meu apoio.
E espero que o seu também.
Faça parte dessa homenagem ao clássico japonês e ainda ajude quem precisa.
Participe também do Projeto Akira.
No facebook há um álbum dedicado: Trabalhos

Ma’a salama!

O Melhor de 2014

Acho que uma retrospectiva que dê maior ânimo aos próximos meses é aquela em que, como o título entrega, reserva o olhar saudosista somente aos melhores momentos. Minha sincera opinião e parcialidade pode deixar alguns de beiço torcido, mas, que seja…
Como este espaço é voltado para minha carreira literária e tudo o que a permeia, espeta e incha, deixarei de fora situações como mudança de emprego, relações pessoais e aquelas “horas felizes” que renderam toneladas de risadas ignóbeis. Não se ofenda se não for mencionado aqui, por favor.
Então, bora lá:

Como releituras não vale, serei obrigado a excluir Quatro Estações do mestre Stephen King, que li pela primeira vez há uma década e que me deletei novamente com uma versão de bolso.

O que ocupa o pódio é uma FC brazuca. A ótima coletânea Campo Total e outros contos de ficção científica, do Carlos Orsi. Os contos Um Bom Emprego e Nativos são os melhores.

De fantasia ganha Crônicas de Atlântida, do Antônio Luiz M C Costa, em que o mito de Platão é expandido num universo significativo e explorado em uma narrativa recheada de detalhes pra nenhum órfão de Tolkien botar defeito.

Os marvetes molharam as calcinhas com X-Men Dias de um futuro esquecido (X-Men Days Of A Future Past) e Guardiões da Galáxia (Guardians of Galaxy). Mas em minha opinião o melhor dessa safra foi Capitão América 2 O soldado Invernal (Captain America The Winter Soldier), que superou exponencialmente o primeiro.

Muito embora, o top do ano passado foi Nebraska, comédia e drama familiar em preto e branco com ótimas atuações em um roteiro simples.

Fui convencido e assisti aos dois primeiros Jogos Vorazes (The Hunger Games), não virei fã, mas confesso que gostei, até porque a Jennifer Lawrence é o novo sonho de consumo da molecada.

No último volume Lazaretto, de Jack White, que foi o vinil (sim, vinil) mais vendido do ano,  superando até mesmo o Vitalogy (1994) do Pearl Jam, me convenceu de que o branquelo realmente tem o mojo criativo.

Do rock nacional além do Ratos de Porão com o seu Século Sinistro que está mais entendível, salva o bem trabalhado Nheengatu do Titãs que também é lá heavy, ao estilo deles.

A vida não é só entretimento caseiro. Fui à duas exposições sensacionais, no começo do ano no MIS fiquei de olhos vidrados na herança de Stanley Kubrick. A fila quilométrica e o risco de ter a porta fechada na cara foram compensadas pelos sets dedicados a cada filme de um dos maiores diretores que a sétima arte pôde ter.

Korova Milk Bar

Korova Milk Bar

 

Fidelio

Fidelio

No fim do ano conferi a Natureza da Invenção de Leonardo Da Vinci, que está rolando na Galeria de Arte Sesi São Paulo até o dia 10 de maio desse ano (2015)
A maioria das maquetes representavam projetos inviáveis para a época, o que comprova que o artista estava de fato além do seu tempo. Fiquei imaginando se algum romancista tivesse se inspirado em seus trabalhos, com certeza esse seria o precursor do gênero steampunk, para tal, basta ver uma roupa de mergulho elaborada pelo gênio:

Roupa_Mergulho

Roupa_mergulho

 

E por último, mas não menos importante: a Copa do Mundo em terras tupiniquins.
Se o maior espetáculo da Terra não rendeu o hexa ao nosso Brasil varonil e mesmo que o fracasso do jogo contra a Alemanha ecoará por alguns anos, tenho uma conquista importante a celebrar.
Completei pela primeira vez um álbum de figurinhas, no caso, a edição comemorativa da Panini. Um sentimento infantil aflorou nesse dia, e com muito orgulho depositei o álbum sobre os outros que mesmo incompletos eram mantidos no acervo.

Mabruk para mim mesmo.

Ma’a salama 2014!

Trecho

Cocaína

“-O que você espera do mundo?-Perguntou Biel, mas foi para Bochecha.
-Sei lá. Uma revelação.-Respondi. A pergunta não foi para mim. Mas tive a necessidade de responder.
-Uma revelação divina?
-Pode ser.
-Você quer que Deus apareça para você e diga o que você tem que fazer?
-Não sei. Na verdade não precisa ser Deus. Queria ter a revelação suprema. Da verdade absoluta.
-E o que seria a verdade absoluta?
-Espero essa revelação.
-Vamos mudar de assunto.-Bochecha se mostrou mais incomodado com a conversa.
-E como você vai saber que é a verdade absoluta quando tiver essa revelação?
-Eu vou saber. De certa forma.
-E se ela vier em um sonho e quando você acordar esquecer o que foi dito?
-Eu acho que a verdade absoluta é tão chocante que não é impossível esquecê-la.
-Você queria que ela aparecesse em sonho?
-Não.
-Vamos mudar de assunto. Isso é besteira.
-E como você gostaria que ela aparecesse?-Biel ignorava Bochecha. Ele queria sentir o efeito da cocaína sem ser incomodado por pessimistas decadentes.”

Trecho de Simplesmente Complexo (Capítulo Sete: Cocaína)

Leia trechos maiores e até capítulos inteiros pelo Google Play Books.

Disponível nas livrarias: CulturaSaraiva, Martins Fontes , Loyola, e muitas outras.

E Além do Infinito

Vai saber o porquê, mas quando vi a atuação de Matthew McConaughey em True Detective, imaginei que o cara seria perfeito caso vingasse um remake de 2001 Uma Odisséia no Espaço, simplesmente pela fisionomia a ser aproveitada nas contorções faciais na viagem além Júpiter.

Coincidentemente o ator foi escolhido para protagonizar Interstellar, o novo filme de Christopher Nolan.
Nas últimas semanas fomos recebidos com grandes notícias sobre a “caminhada” espacial. Os lamentáveis fracassos como da nave Antares e da SpaceShipTwo, a primeira, felizmente não era tripulada, mas a outra, da Virgin Galactic, culminou na morte do piloto.
Hoje, esse afloramento da conquista do espaço está fluindo para as empresas privadas. Delegando desafios que antes eram assumidos por grandes potências, basta lembrar a corrida espacial dos anos 60, entre EUA e URSS.
2001 foi lançado em 1968, o homem deu o primeiro passo na Lua em 1969.
Não espero alguém pisar em solo marciano ainda no próximo ano, após Interstellar ser exibido para milhões de pessoas.
Mas seria interessante que o cinema pudesse despertar essa vontade em pequenos corações e ajudar a alavancarmos de vez o desbravamento além Lua, ao ponto de conquistarmos grandes planetas.
Pelo trailer, Interstellar foca na busca por um novo lar, visto que a Terra enfrenta uma aparente escassez irreversível.

Enigma Pessoal

Benedict Cumberbatch goza da ascensão artística, o ator vem acumulando sucessos encarnando grandes personagens, seja vilão como Khan do novo Star Trek, seja herói como o Sherlock Holmes, seja coadjuvante como o fazendeiro com tendências abolicionistas. No entanto, acho que o maior desafio do ator foi o papel de The Imitation Game, ainda sem data de estreia prevista, mas que deixa a expectativa à flor da pele só de assistir o trailer:

O filme parece focar no drama de Alan Turing, o matemático britânico considerado o pai da ciência da computação (existe uma premiação com seu nome, dado àqueles que contribuem com o avanço ou inovação na área computacional, uma espécie de Nobel), em seu empenho em quebrar a criptografia alemã denominada Enigma, que possibilitava comunicações indecifráveis por parte dos aliados. Além da pressão pelo prazo e do que estava em jogo, Turing parecia ser mergulhado em certa dificuldade de se socializar, além de sua opção sexual, que até onde a versão do trailer acima pode demonstrar, não deve ser abordada. O que seria uma pena. Pois o trágico fim de Alan Turing, apesar de seu legado, foi o suicídio por uma maçã envenenada. As eventualidades que o impulsionaram a tal feito? A condenação por ser homossexual. Na Inglaterra dos anos 1950, o comportamento era considerado crime, e então, um dos grandes heróis da Segunda Guerra Mundial foi humilhado em público, negado o direito de acompanhar os avanços e estudos computacionais, tendo restado a escolha (ou ilusão de escolha, se preferir): prisão ou tratamento químico. A segunda opção foi a escolhida, porém, os efeitos colaterais pelo uso de hormônios femininos da castração química lhe rendeu o crescimento dos seios. Não seria desmerecedor se o filme retratar somente o momento da contribuição da criação do primeiro computador para ajudar a salvar o mundo do nazismo. Mesmo que no fim do filme a morte seja abordada na conclusão com um fundo negro, com a frase final parecida com isto: “Em 24 de dezembro de 2013, Alan Turing recebeu o perdão real da rainha Elisabete II, da condenação por homossexualidade” O que para todos os efeitos traria aquele gelo, sobre como enigmas pessoais e preconceitos irracionais que nos rodeiam poderiam ser evitados, como se decifrados de um código matematicamente implícito. A responsabilidade é grande, mas tenho a impressão que ao término de The Imitation Game , Benedict Cumberbatch terá um marco em sua carreira, talvez mais profundo do que o detetive “sociopata altamente funcional” residente na Baker Street number 221B.