Imagino que a recente experiência do escritor Stephen King deve ter sido fantástica.
Dispenso apresentações, acredito que pelo perfil de quem se arrisca a ler o que escrevo você já tenha ouvido falar em King, caso não, google him.
Ele foi convidado a escrever o primeiro episódio da segunda temporada de Under the Dome, série em que a cidade Chester Mill do estado do Maine inexplicável e repentinamente acaba isolada do resto do mundo por um campo de força invisível. Aviões colidem e caem do céu em chamas, a mão de um jardineiro é cortada na “cúpula”, as pessoas são separadas de suas famílias e os carros explodem com o impacto.
Ninguém pode imaginar o que essa barreira é, de onde veio, e quando — ou se — ela irá embora.
O mais interessante nesse convite é que King é autor da obra que inspirou a série televisiva.
Mesmo que vários de seus livros possuem um tomo considerável, uma adaptação desse naipe requer inúmeras revisões e edições que por vezes envergam a história original, para espezinhar os fãs ou por mera necessidade comercial.
Imagino que mesmo pela bio do mestre do horror e drama essa experiência tenha criado certo desafio.
Ele já escreveu e adaptou roteiros para filmes, mas no que diz respeito a séries é a primeira vez que aceita a tarefa. O fato de não ser o piloto também é importante, há toda a questão do legado da temporada anterior, do que foi modificado, da equipe de roteiristas de apoio, do que a produção projetou para longo-prazo, do comportamento da audiência até então, do que os executivos atendem e acatam e toda a responsabilidade de se manter fiel a si mesmo nesse desdobramento.
Sei que quando assistir o primeiro episódio da segunda temporada vou reconhecer certas peculiaridades.
Não estou acompanhando Under the Dome, tão longe está na minha lista de desejos, porém, King dificilmente me desapontou, e pela sua capacidade expandida em várias vertentes como escritor posso afirmar que o “garoto” do Maine é uma das minhas influências não somente pelos advérbios e alterações dos batimentos cardíacos, e sim por atitudes como essa.
E tenho fé de que ele tenha cumprido esse desafio com mérito.
Última informação, mas não menos importante: O primeiro episódio da segunda temporada de Under the Dome vai ao ar no dia 30 de junho nos EUA.
Para todo bom fã que curte a mistureba de ficção científica+fantasia+suspense-horror, filmes como Alien (#Rip H.R. Giger) e Godzilla não fogem do catálogo de prediletos.
E para a alegria desse pessoal, está a lançar amanhã (15 de maio) o remake desse ícone da cultura pop.
Abaixo, o trailer influenciável, que além da trilha com efeitos sonoros industriais que virou padrão nesses tipos de filmes, tem um diferencial que me lembrou György Ligeti, presença marcante no clássico 2001 Uma Odisseia no Espaço (2001 A Space Odissey)
Gareth Edwards, o diretor britânico da nova versão, em recente entrevista disse que o original (japonês, lançado em 1954) serviu como inspiração, não como modelo.
Sobre a clássica pergunta: “O Godzilla é bom ou mau?”, respondeu que “Godzilla é natureza”, e como exemplo, “não se questiona se um ciclone é bom ou mau, tem-se apenas a preocupação do que está em seu caminho”
Se no ano passado tivemos uma série de Kaijus em Círculo de Fogo (Pacific Rim) destruindo tudo pela frente seguindo a trama de “ameaça vinda de um universo paralelo”, a nova versão do Kaiju mais popular do mundo tem um foco que ainda celebra uma crítica ante os avanços nucleares.
Talvez, nessa versão, tudo o que foi censurado no original de 54 pelas feridas do pós-guerra que o Japão sofreu, e ainda mais tudo o que a versão de 1998 do diretor Roland Emmerich que jogou a culpa nos franceses por testes na Polinésia Francesa, será abordada de forma mais afinada, tanto que o suspense da fuga se dá pelo fator de atração dos pequeninos pela radiação, o que põe em cheque o grande trunfo dos avanços militares.
“Se perseguem por desejo o que seria o maior poderio de destruição em massa alcançado pelos seres humanos, qual seria a salvação?”
Nem preciso discorrer sobre essa humilde indagação, né?
Matthew Broderick até pode ser simpático, mas um filme desse quilate não era para um cara que queria curtir a vida adoidado. A escolha de Bryan Cranston, que foi fodástico como Walter White em Breaking Bad foi um dos pontos altos. Rola o boato que o ator havia recusado o papel a priori, mas depois aceitou protagonizar a superprodução após ler o roteiro e assistir ao filme anterior do jovem diretor: Monsters, de 2010.
SPOILERZÕES
Dizem as más línguas que o tamanho não só supera a versão de 1998, como também terá vantagem sobre o monstrinho de Cloverfield de 2008 (este por sua vez forçou o bombardeio total de Nova York).
Também rola a expectativa de um ou mais companheiros Big-Size, talvez disputando o banquete entre si.
Se sobrevivermos à passagem desse pequeno titã, nos vemos por aqui.
Não sou dado a superstições, seja em qual nível, do plano maior estrategicamente elaborado por algum núcleo consciente ou detalhes cabalísticos. Então pouparei aquela retrospectiva que pesa com um olhar distante os maus bocados que esse ano bizarro proporcionou como se fosse dono de um senso de humor corrosivo.
Não foi dos piores se levar em consideração o progresso que tive na última década, e que justamente dez anos atrás vivi a minha era das trevas (e não falo isso somente pelos inúmeros cortes de luz).
Porém, esse ano ainda foi muito treze, amargo quando imaginava degustar mel, doce demais quando necessitava de uma reclusão.
Gostaria de pregar alguma mensagem, como se pudesse tirar alguma lição nisso tudo, mas não vejo uma lógica sensata na ordem das ações. Tudo parece uma névoa destoante de um caos inocente. E muita coisa pode acontecer de hoje até as 23:59:59 de amanhã, excetuando teorias da conspiração e cenários apocalípticos, mas ainda assim a mesa pode virar nesse espaço de tempo.
No mínimo resta aguardar com muita esperança o próximo ano.
Dá pra imaginar que pelo título desse post há um daqueles caprichos de críticos que tentam mostrar os seus conhecimentos gerais sem medo de cometer gafes.
Não vou estender muito e não vou entrar no pavê da sensibilidade artística, apesar do título que usei.
Paguei um pau quando vi o trailer estendido, com pouco mais de cinco minutos de duração, de Gravidade, filme escrito e dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, que já havia nos presenteado com o sensacional E a sua Mãe Também (Y tu mamá también).
SPOILERS em órbita:
O filme já inicia no nível estratosférico, em que três astronautas realizam a instalação de um novo mecanismo de pesquisa avançada no telescópio Hubble, que já bisbilhotou muita coisa universo afora.
George Clooney é o astronauta veterano que auxilia o trabalho dos outros dois, treinados especificamente para a instalação. Em pouco tempo, entre historinhas que George Clooney conta e reconta ao longo de sua vida espacial (Houston sempre diz: “Já nos contou essa…”) fica evidente que Sandra Bullock é a protagonista da aventura a se iniciar.
Sem muitos detalhes a informação repassada ao grupo é de que os russos lançaram um míssil contra… adivinhem…
Não, não é o início da 3ª guerra mundial. Os russos atiram contra um de seus próprios satélites, aparentemente obsoleto e inútil. Mas o resultado não saiu como esperado e os estilhaços remanescentes da explosão iniciam uma reação em cadeia, destruindo outros satélites da órbita.
Antes de retornarem à capsula da nave os destroços acaba por eliminar um do grupo e dispersar o veterano, deixando a Sandra Bullock no vácuo (ba-dá-tssss)
O interessante, e é aqui que entra a questão do título, é que o filme tem o realismo científico e ainda assim o suspense faz qualquer um que sofra de vertigens ou labirintite ficar zonzo, e não é somente o jogo de câmeras, os rodopios e os POV’s sob o capacete esférico que enfatiza o drama da personagem, mas sim a boa e velha trilha sonora.
Essa sim, é a salvadora do filme. Compensa toda aquela frase “mas o som não se propaga no espaço” que se propagou em milhares de críticas quando Guerra nas Estrelas (Star Wars, toda a hexalogia) foi lançada.
Curiosamente, antes de ir ao cinema, um canal da tv paga estava exibindo Armagedom. Filme que teve cinco roteiristas, trilha sonora impactante e apelativa, takes ligeiros, piadas-vende-pipoca e a hegemonia da Nasa e núcleos tecnológicos americanos lustrados para receber visitas, ah…, e Steve Tyler cantando de fundo enquanto a sua filhinha elfa fica de namorico com o novo Batman.
Gravidade tem um enredo simples, poucos atores, muitos efeitos visuais caprichados e a atenção dos espectadores torcendo pela personagem que já está rendendo idolatrias tendendo ao reconhecimento da atriz.
Apesar do título bonito que usei vale lembrar que a arte, quando está sobre as leis da física, mesmo no caso desse filme que realizou a proeza do drible, ela ainda está a ser imperfeita como se comprova na cena em que a desesperada Sandra chora e as suas lágrimas pairam no ar naqueles momentos “Pega!” do mundo 3D.
Vale lembrar que recentemente, o canadense Chris Hadfield demonstrou ao mundo como seria chorar no espaço:
Pois é, as gotículas reluzentes são bonitas, mas para pessoas como eu, que vivem no mundo da Lua, tal erro subtrai um pouco do sentimento a ser passado.
Mas antes de os mais sensíveis pensarem em jogar tomates parisienses nesse árabe insensível, me apresso a dizer que a cena que mais gostei foi a que simulou um feto na segurança do útero materno, quando a querida Sandra acaba por despir o macacão espacial (infelizmente só o macacão) e relaxa por alguns segundos ao adentrar a Estação Espacial Internacional . A cena dispensa detalhes técnicos sobre as leis da física e denota a questão do quanto vale lutar pela vida.
Poderia criar uma categoria chamada Filosofia da Expectativa, sendo que a minha última publicação partiu de um trailer e aqui pretendo falar também sobre o recente trailer do novo Superman. Mas aí me tornaria um crítico de trailers, nunca ambicionei isso. Portanto essa publicação manter-se-á em Da Boca pra Fora.
O terceiro trailer oficial do novo Superman intitulado Homem de Aço (Man of Steel) deixou bambas as pernas de muitos fanboys e amantes dos quadrinhos.
Eis o trailer:
Aparentemente o reboot da franquia de filmes de um dos três personagens mais populares do mundo de super-heróis (Batman, Homem-Aranha e Super-Homem, em ordem alfabética para não me ferir em discussões sanguinárias de fandoms) traz alguns corretivos da versão de 2006, em que a personalidade do herói era um tanto Gandhi, pois não lembro de uma única porrada sequer por parte dele, mesmo levando um tiro no olho à queima roupa.
A versão a ser lançada em meados de junho é dirigida por Zack Snyder que ficou famoso por adaptar 300 e Watchmen às telonas.
Vemos que a história explicará melhor a origem do Kryptoniano exilado, oriundo de um planeta morto cuja primeira aparição se dá em 1938 pelas mãos de Jerry Siegel e Joe Shuster. Percebe-se que seremos inundados por aquele drama apelativo que não pode faltar e ainda assim vibrarmos com algumas cenas de ação sob a trilha sonora de Hans Zimmer.
Mas o melhor do trailer, que mostra a infância e parte da adolescência do Clark Kent que aos poucos descobre habilidades sobre-humanas numa cidade do interior conhecida como Smallville (Pequenópolis, para os leitores mais antigos dos quadrinhos) é a parte final, em que o já viajado pelo mundo em busca do eu e maduro herói com seu traje azul e vermelho (sem a sunga por cima da calça), aparece algemado e escoltado por soldados do exército, levado a uma sala e interrogado por uma mulher que indaga o “S” contido no brasão do peito.
Colaborativo e paciente, ele responde não se tratar de um “S”, e sim um símbolo que significa esperança no seu planeta natal.
A interrogadora insiste dizendo que aqui na Terra é um “S”, e tenciona sugerir um nome:
“Que tal Sup…”, mas é interrompida por um som, um chiado irritante, porém breve.
Não dá pra saber se foi a percepção do herói que possui audição apurada e captou algo muito além, ou se o mesmo a interrompeu propositalmente.
E é aí que eu começo. Pois a cena trouxe discussões de fãs que explicaram que se tratava de uma alusão à retenção do uso de direitos autorais do personagem pela família dos autores que desde 2006 não permitia o uso dos nomes ou símbolos ligados ao super-herói, situação essa privilegiada pela reformulação norte-americana dos Direitos Autorais que garante que após vinte anos os direitos sejam restituídos aos autores originais mesmo após concessões milionárias por estúdios cinematográficas ou indústrias do entretenimento afins.
Porém, aos meus olhos o que torna a cena antológica e um tanto ambígua é ideia do paradoxo do Superman. Algo já dito por Tarantino no filme Kill Bill vol. 2.
Na explicação pelo próprio Bill do título, faço um resumo básico do paradoxo:
“No mundo dos super-heróis, o comportamento de se fantasiar não serve somente como uma forma de proteção, mas também como o de fortalecer uma imagem. O que para o Superman é o contrário. Quando ele está disfarçado? Quando é Clark Kent. Um humano com óculos e que trabalha num jornal para pagar as contas. A máscara dele é fragilidade humana e quando se mostra como o salvador, basta tirar o óculos, o terno, a camisa e a gravata e levantar voo”
Posso ter acrescentado ou modificado o dialogo original, mas o conceito é esse. Que ainda pode ser estendido ainda mais quanto à denominação criada: Super-Homem.
Lembro da época do colégio, quando uma colega de classe comentou algo quando viu uma HQ que levei na mochila. Ela não deixou de reparar nos detalhes másculos avantajados do personagem ao vê-lo sem camisa. Falou sobre o romantismo da Lois Lane por ele e coisas do tipo. Causei um impacto nela ao dizer: “Mesmo ele sendo um ET?”
O choque dela pode ter sido natural. “ET” era pejorativo para alguém que salvava pessoas das garras de bandidos e vilões poderosos.
Mas, por que chamar um ser extraterreno de Super-Homem, sendo que ele não é homem e sim Kryptoniano? O poder da influência midiática que antigamente tinha que ser a primeira a dar a notícia? E após ver um ser vestido de azul e vermelho com a sunga por cima da calça suspendendo um carro (um fusca verde?), na famosa capa da Action Comics Nº 1, de 1938, o que um repórter ou testemunha diria? “Um homem forte”, um “Super-Homem”.
E não parou por aí. Seus outros codinomes já foram Superboy, Auto-Bala, Homem do Amanhã, Homem de Aço e outros mais específicos como “O último Filho de Krypton” e “Filho das Estrelas”, este último é o significado do nome real Kal-El.
Diante das publicações tais denominações são apelos atrativos e marqueteiros para alavancar vendas. Pois a atribuição do “aço” como um comparativo de sua força é mais próximo do conhecimento popular. Mais do que Tungstênio, elemento mais forte em relação ao calor e pressão. Mas soaria estranho nomeá-lo Tungsman…
No decorrer dos anos o personagem sofreu inúmeras revisões, desde sua personalidade, que no início era mais agressiva quando topava com um vilão da máfia. Hoje, o Superman possui um código de conduta que serve como base de sua moral, e o assassinato é considerado como um fator de fracasso incorrigível.
Quantas vezes ele salvou o mundo? Um cara simpático que trabalha como jornalista na cidade grande Metropolis, membro da Liga da Justiça e filiações diversas que visa a proteção da sociedade humana. Sociedade essa que o exalta e o idolatra como o Super-Homem, mesmo não sendo um homem.
Talvez seja por isso que alguns fãs vibram quando o herói leva um golpe, cai, sangra.
Sim, diversas vezes vi em fóruns de fandoms alguém dizendo que pagaria o quanto fosse pelos rascunhos de “A Morte do Superman”, edição essa que recebeu o foco da imprensa após anos de recepções frias.
Toda vez em que ele caía fraco e com convulsões quando exposto à um fragmento verde radioativo oriundo de seu planeta natal (a saber, Kryptonita), o pensamento que lateja em nossas mentes vaidosas é: “A fraqueza dele é extraterrena. Quando ele cai, não é o Super-Homem e sim um mero Kryptoniano”. E então surge uma compaixão, condicionada pelo fato do quê? Do salvador ao chão, abalado por um pedaço de rocha que pode ser pego por um humano e atirado para longe, aliviando a dor do Kryptoniano e possibilitando a volta dos superpoderes.
A cena de Homem de Aço pode ser uma chamada de atenção. Após a interrupção, o herói que lança um olhar para espelho comum de salas de interrogatório, torna para a mulher e diz “Perdoe-me”, no mesmo tom em que poderia emendar: “Eu acabei de dizer que venho de outro mundo, esse símbolo não é apenas uma letra de seu alfabeto e você ainda insiste em me posicionar como um “super” de sua raça?”
Um lembrete que pode ser tão chocante quanto o “ET” que disse na época do colégio.
Enfim, nos últimos dias foi lançado o trailer oficial e mais encorpado de Elysium, que até então vinha soltando pequenas exibições em eventos como a Comic Con.
Eis o trailer
O filme se passa no ano de 2154, quando a população pobre vive oprimida numa Terra dizimada, enquanto os ricos habitam a estação orbital Elysium. São poucas as pessoas com passe livre entre o planeta e a estrutura no espaço. Funcionário de uma fábrica de policiais androides no Condado de Los Angeles, o ex-condenado Max da Costa (Matt Damon) sofre um acidente químico que o deixa à beira da morte – e só em Elysium existe uma cura.
Ainda estão no elenco Wagner Moura, Alice Braga, Jodie Foster, William Fichtner, Diego Luna e Sharlto Copley, entre outros. Direção de Neill Blomkamp (Distrito 9)
Após a empolgação deixar de queimar a pele, veio-me a mente o conceito da história apresentada. Já vou adiantar que não vou dar uns pitacos como vários críticos fizeram com Avatar ao dizer que o filme era um Pocahontas moderno numa manobra clássica de tentar deslegitimar o argumento original e a qualidade do trabalho apresentado.
Poderia dizer que é o reaproveitamento do clássico Metropolis do diretor Fritz Lang lançado em 1927, mas como muitos, só o vi trailer de Elysium até agora…
Porém, acho que vale lembrar que essa história (a de uma camada privilegiada e menor que usufrui de regalias que por sua vez é sustentada por uma camada maior e que vive em condições de escravatura ) já foi contada, ou melhor, que se porventura a mesma seja familiar ou tenha um gancho muito grande com a realidade é que porque sim, estamos vivendo-a numa proporção um tanto menor e talvez um pouco dissolvida nesse cenário globalizado.
Para fugir da ficção e não me perder na origem do título do novo filme (tá bom, vou lançar: Elysium é uma referência aos Campos Elíseos, o paraíso referencial da mitologia grega, onde os homens virtuosos repousavam e gozavam de boa vida após a morte em campos verdejantes e fartas, dançando e cantando no perder da eternidade espiritual. Tal lugar possuía um muro que separava do Tártaro, o inferno. Essa ideia de divisa meio que lembra uma passagem bíblica em que existe um ponto do inferno da qual se pode enxergar o paraíso. Cheira como um reforço proposital para a eterna amargura daqueles que foram condenados. Pronto, agora lembre-se que está em um parênteses…) basta lembrar-se do documento elaborado pelo Citigroup sobre a situação econômica em meados de 2005 e 2006. No documentário Capitalismo – Uma história de Amor de Michael Moore o documento analisa o panorama da distribuição de renda dos norte-americanos, e diz não acreditar que os EUA são uma democracia, mas uma Plutonomia ( uma sociedade controlada exclusivamente por e para o benefício do 1% de renda mais alta da população que possuem mais riqueza financeira que os 95% restantes somados, ficou um gap de 4% aí que não entendi, mas…). Essa conclusão explicitamente nos três memorandos ainda não é tão chocante quanto a lamuriosa preocupação da análise: o fato de os ricos terem o mesmo direito dos outros no quesito eleitoral, ou seja, um homem um voto, o que leva à conclusão de que os 99% dos “camponeses” são mais fortes e poderiam exigir uma mudança na distribuição de renda de forma que fosse mais justa. E a cereja do bolo desses memorandos confidenciais que vazaram é o paliativo para os maiores investidores do grupo quando se perguntavam porque os 99% da população não se rebelavam.
A resposta?
Esperança.
Sim, as pessoas cultivam a esperança de que um dia possam alcançar esse estilo de vida e poder usufruir dos benefícios da casta superior. E os investidores contentes com o estudo do Citigroup se dizem tranquilos por muitas pessoas manterem aceso em seus corações o “Sonho Americano”.
De repente me lembrei da cena de Matrix em que Morpheus (Laurence Fishburne) explica ao Neo (Keanu Reevers) o que é a Matrix, quando estão andando em uma calçada povoada por pessoas de ternos e gravatas apressadas num cenário que parece ser Wall Street. Morpheus diz a Neo que a busca pela liberdade do sistema trazia a tona de que deveriam lutar contra os que encenavam a realidade imposta e que muitas delas lutariam a favor do próprio sistema que simulava uma vida cheia de distrações enquanto máquinas aproveitavam o calor emanado pelos humanos encasulados para gerar energia. O que torna a cena antológica é que Neo, durante a explicação de Morpheus, se distrai com uma loira tesuda denominada A Mulher de Vermelho.
Antes de baixar em mim a imagem de um comunista que está chamando “compañeros para la revolución” e pedir para nos ocultarmos em máscaras do personagem V e pagar royalties à Warner me apresso a dizer que não estou a levantar debates políticos. Queria apenas demonstrar o quão interessante possa ser o assunto abordado no filme.
Falei de porcentagens estudadas pelo Citigroup e sobre a possível ideia de rebelião, que também foram abordadas além de Matrix em Metropolis e Spartacus (dir. Stanley Kubrick, sobre escravidão imposta pelo império romano) e então não poderia deixar de comentar sobre um piloto de uma série brasileira, que não sei se vingou, mas que possui o conceito dessas camadas.
Estou falando da série 3%. Piloto parte 1:
Em 3% somos apresentados a um futuro especulativo em que existe o Lado de Cá, pobre e populoso e o Lado de Lá, rico e seleto a privilegiados. O piloto deixa claro que a abordagem é sobre um processo seletivo que ocorre a determinados períodos em que pessoas que vivem do Lado de Cá podem ir para o Lado de Lá, mas o número é restringido a 3%. Paira os confrontos e dilemas éticos sobre cooperação e sacrifício.
Acredito que daqui para frente, na verdade já o estão fazendo, as críticas sobre Elysium, cuja produção esteve cercada de segredos e confidencialidades por parte dos envolvidos, irá recair, pelo menos aqui no Brasil, sobre os atores Wagner Moura que faz sua estreia internacional e Alice Braga que já tinha no currículo participações em produções do quilate de Eu Sou a Lenda, Predadores e Os Coletores.
E seria uma pena também que ficassem peneirando as falácias ao sincronizar as peculiaridades desse filme com Distrito 9, trabalho anterior de Neill Blomkamp.
Me faz pensar (sem invocar aquela psicose de teórico da conspiração) que os detentores do status quo realizam o seu trabalho com grande proeza.
Afinal, diante da última década entre as novas frentes de esquerda crescendo na América do Sul, qual é a atual definição de classe média no Brasil? O que o coreano Psy criticava no clipe Gangnam Style? Qual a sua definição de prosperidade? E por último, e não menos importante, o que você estaria disposto a fazer para alcançar o Lado de Lá?
Enquanto essas perguntas latejarem até formalizarem respostas, só me resta aguardar a estreia de Elysium, prevista para 20 de setembro.