Homem de Aço. De aço?

Poderia criar uma categoria chamada Filosofia da Expectativa, sendo que a minha última publicação partiu de um trailer e aqui pretendo falar também sobre o recente trailer do novo Superman. Mas aí me tornaria um crítico de trailers, nunca ambicionei isso. Portanto essa publicação manter-se-á em Da Boca pra Fora.

O terceiro trailer oficial do novo Superman intitulado Homem de Aço (Man of Steel) deixou bambas as pernas de muitos fanboys e amantes dos quadrinhos.
Eis o trailer:

Aparentemente o reboot da franquia de filmes de um dos três personagens mais populares do mundo de super-heróis (Batman, Homem-Aranha e Super-Homem, em ordem alfabética para não me ferir em discussões sanguinárias de fandoms) traz alguns corretivos da versão de 2006, em que a personalidade do herói era um tanto Gandhi, pois não lembro de uma única porrada sequer por parte dele, mesmo levando um tiro no olho à queima roupa.

A versão a ser lançada em meados de junho é dirigida por Zack Snyder que ficou famoso por adaptar 300 e Watchmen às telonas.
Vemos que a história explicará melhor a origem do Kryptoniano exilado, oriundo de um planeta morto cuja primeira aparição se dá em 1938 pelas mãos de Jerry Siegel e Joe Shuster. Percebe-se que seremos inundados por aquele drama apelativo que não pode faltar e ainda assim vibrarmos com algumas cenas de ação sob a trilha sonora de Hans Zimmer.

Mas o melhor do trailer, que mostra a infância e parte da adolescência do Clark Kent que aos poucos descobre habilidades sobre-humanas numa cidade do interior conhecida como Smallville (Pequenópolis, para os leitores mais antigos dos quadrinhos) é a parte final, em que o já viajado pelo mundo em busca do eu e maduro herói com seu traje azul e vermelho (sem a sunga por cima da calça), aparece algemado e escoltado por soldados do exército, levado a uma sala e interrogado por uma mulher que indaga o “S” contido no brasão do peito.
Colaborativo e paciente, ele responde não se tratar de um “S”, e sim um símbolo que significa esperança no seu planeta natal.
A interrogadora insiste dizendo que aqui na Terra é um “S”, e tenciona sugerir um nome:
“Que tal Sup…”, mas é interrompida por um som, um chiado irritante, porém breve.
Não dá pra saber se foi a percepção do herói que possui audição apurada e captou algo muito além, ou se o mesmo a interrompeu propositalmente.
E é aí que eu começo. Pois a cena trouxe discussões de fãs que explicaram que se tratava de uma alusão à retenção do uso de direitos autorais do personagem pela família dos autores que desde 2006 não permitia o uso dos nomes ou símbolos ligados ao super-herói, situação essa privilegiada pela reformulação norte-americana dos Direitos Autorais que garante que após vinte anos os direitos sejam restituídos aos autores originais mesmo após concessões milionárias por estúdios cinematográficas ou indústrias do entretenimento afins.
Porém, aos meus olhos o que torna a cena antológica e um tanto ambígua é ideia do paradoxo do Superman. Algo já dito por Tarantino no filme Kill Bill vol. 2.
Na explicação pelo próprio Bill do título, faço um resumo básico do paradoxo:
“No mundo dos super-heróis, o comportamento de se fantasiar não serve somente como uma forma de proteção, mas também como o de fortalecer uma imagem. O que para o Superman é o contrário. Quando ele está disfarçado? Quando é Clark Kent. Um humano com óculos e que trabalha num jornal para pagar as contas. A máscara dele é fragilidade humana e quando se mostra como o salvador, basta tirar o óculos, o terno, a camisa e a gravata e levantar voo”
Posso ter acrescentado ou modificado o dialogo original, mas o conceito é esse. Que ainda pode ser estendido ainda mais quanto à denominação criada: Super-Homem.
Lembro da época do colégio, quando uma colega de classe comentou algo quando viu uma HQ que levei na mochila. Ela não deixou de reparar nos detalhes másculos avantajados do personagem ao vê-lo sem camisa. Falou sobre o romantismo da Lois Lane por ele e coisas do tipo. Causei um impacto nela ao dizer: “Mesmo ele sendo um ET?”
O choque dela pode ter sido natural. “ET” era pejorativo para alguém que salvava pessoas das garras de bandidos e vilões poderosos.
Mas, por que chamar um ser extraterreno de Super-Homem, sendo que ele não é homem e sim Kryptoniano? O poder da influência midiática que antigamente tinha que ser a primeira a dar a notícia? E após ver um ser vestido de azul e vermelho com a sunga por cima da calça suspendendo um carro (um fusca verde?), na famosa capa da Action Comics Nº 1, de 1938, o que um repórter ou testemunha diria? “Um homem forte”, um “Super-Homem”.
E não parou por aí. Seus outros codinomes já foram Superboy, Auto-Bala, Homem do Amanhã, Homem de Aço e outros mais específicos como “O último Filho de Krypton” e “Filho das Estrelas”, este último é o significado do nome real Kal-El.
Diante das publicações tais denominações são apelos atrativos e marqueteiros para alavancar vendas. Pois a atribuição do “aço” como um comparativo de sua força é mais próximo do conhecimento popular. Mais do que Tungstênio, elemento mais forte em relação ao calor e pressão. Mas soaria estranho nomeá-lo Tungsman…
No decorrer dos anos o personagem sofreu inúmeras revisões, desde sua personalidade, que no início era mais agressiva quando topava com um vilão da máfia. Hoje, o Superman possui um código de conduta que serve como base de sua moral, e o assassinato é considerado como um fator de fracasso incorrigível.
Quantas vezes ele salvou o mundo? Um cara simpático que trabalha como jornalista na cidade grande Metropolis, membro da Liga da Justiça e filiações diversas que visa a proteção da sociedade humana. Sociedade essa que o exalta e o idolatra como o Super-Homem, mesmo não sendo um homem.
Talvez seja por isso que alguns fãs vibram quando o herói leva um golpe, cai, sangra.
Sim, diversas vezes vi em fóruns de fandoms alguém dizendo que pagaria o quanto fosse pelos rascunhos de “A Morte do Superman”, edição essa que recebeu o foco da imprensa após anos de recepções frias.
Toda vez em que ele caía fraco e com convulsões quando exposto à um fragmento verde radioativo oriundo de seu planeta natal (a saber, Kryptonita), o pensamento que lateja em nossas mentes vaidosas é: “A fraqueza dele é extraterrena. Quando ele cai, não é o Super-Homem  e sim um mero Kryptoniano”. E então surge uma compaixão, condicionada pelo fato do quê? Do salvador ao chão, abalado por um pedaço de rocha que pode ser pego por um humano e atirado para longe, aliviando a dor do Kryptoniano e possibilitando a volta dos superpoderes.
A cena de Homem de Aço pode ser uma chamada de atenção. Após a interrupção, o herói que lança um olhar para espelho comum de salas de interrogatório, torna para a mulher e diz “Perdoe-me”, no mesmo tom em que poderia emendar: “Eu acabei de dizer que venho de outro mundo, esse símbolo não é apenas uma letra de seu alfabeto e você ainda insiste em me posicionar como um “super” de sua raça?”
Um lembrete que pode ser tão chocante quanto o “ET” que disse na época do colégio.

Superman A Revanche Parte Um

Superman A Revanche Parte Um

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