Homem de Aço. De aço?

Poderia criar uma categoria chamada Filosofia da Expectativa, sendo que a minha última publicação partiu de um trailer e aqui pretendo falar também sobre o recente trailer do novo Superman. Mas aí me tornaria um crítico de trailers, nunca ambicionei isso. Portanto essa publicação manter-se-á em Da Boca pra Fora.

O terceiro trailer oficial do novo Superman intitulado Homem de Aço (Man of Steel) deixou bambas as pernas de muitos fanboys e amantes dos quadrinhos.
Eis o trailer:

Aparentemente o reboot da franquia de filmes de um dos três personagens mais populares do mundo de super-heróis (Batman, Homem-Aranha e Super-Homem, em ordem alfabética para não me ferir em discussões sanguinárias de fandoms) traz alguns corretivos da versão de 2006, em que a personalidade do herói era um tanto Gandhi, pois não lembro de uma única porrada sequer por parte dele, mesmo levando um tiro no olho à queima roupa.

A versão a ser lançada em meados de junho é dirigida por Zack Snyder que ficou famoso por adaptar 300 e Watchmen às telonas.
Vemos que a história explicará melhor a origem do Kryptoniano exilado, oriundo de um planeta morto cuja primeira aparição se dá em 1938 pelas mãos de Jerry Siegel e Joe Shuster. Percebe-se que seremos inundados por aquele drama apelativo que não pode faltar e ainda assim vibrarmos com algumas cenas de ação sob a trilha sonora de Hans Zimmer.

Mas o melhor do trailer, que mostra a infância e parte da adolescência do Clark Kent que aos poucos descobre habilidades sobre-humanas numa cidade do interior conhecida como Smallville (Pequenópolis, para os leitores mais antigos dos quadrinhos) é a parte final, em que o já viajado pelo mundo em busca do eu e maduro herói com seu traje azul e vermelho (sem a sunga por cima da calça), aparece algemado e escoltado por soldados do exército, levado a uma sala e interrogado por uma mulher que indaga o “S” contido no brasão do peito.
Colaborativo e paciente, ele responde não se tratar de um “S”, e sim um símbolo que significa esperança no seu planeta natal.
A interrogadora insiste dizendo que aqui na Terra é um “S”, e tenciona sugerir um nome:
“Que tal Sup…”, mas é interrompida por um som, um chiado irritante, porém breve.
Não dá pra saber se foi a percepção do herói que possui audição apurada e captou algo muito além, ou se o mesmo a interrompeu propositalmente.
E é aí que eu começo. Pois a cena trouxe discussões de fãs que explicaram que se tratava de uma alusão à retenção do uso de direitos autorais do personagem pela família dos autores que desde 2006 não permitia o uso dos nomes ou símbolos ligados ao super-herói, situação essa privilegiada pela reformulação norte-americana dos Direitos Autorais que garante que após vinte anos os direitos sejam restituídos aos autores originais mesmo após concessões milionárias por estúdios cinematográficas ou indústrias do entretenimento afins.
Porém, aos meus olhos o que torna a cena antológica e um tanto ambígua é ideia do paradoxo do Superman. Algo já dito por Tarantino no filme Kill Bill vol. 2.
Na explicação pelo próprio Bill do título, faço um resumo básico do paradoxo:
“No mundo dos super-heróis, o comportamento de se fantasiar não serve somente como uma forma de proteção, mas também como o de fortalecer uma imagem. O que para o Superman é o contrário. Quando ele está disfarçado? Quando é Clark Kent. Um humano com óculos e que trabalha num jornal para pagar as contas. A máscara dele é fragilidade humana e quando se mostra como o salvador, basta tirar o óculos, o terno, a camisa e a gravata e levantar voo”
Posso ter acrescentado ou modificado o dialogo original, mas o conceito é esse. Que ainda pode ser estendido ainda mais quanto à denominação criada: Super-Homem.
Lembro da época do colégio, quando uma colega de classe comentou algo quando viu uma HQ que levei na mochila. Ela não deixou de reparar nos detalhes másculos avantajados do personagem ao vê-lo sem camisa. Falou sobre o romantismo da Lois Lane por ele e coisas do tipo. Causei um impacto nela ao dizer: “Mesmo ele sendo um ET?”
O choque dela pode ter sido natural. “ET” era pejorativo para alguém que salvava pessoas das garras de bandidos e vilões poderosos.
Mas, por que chamar um ser extraterreno de Super-Homem, sendo que ele não é homem e sim Kryptoniano? O poder da influência midiática que antigamente tinha que ser a primeira a dar a notícia? E após ver um ser vestido de azul e vermelho com a sunga por cima da calça suspendendo um carro (um fusca verde?), na famosa capa da Action Comics Nº 1, de 1938, o que um repórter ou testemunha diria? “Um homem forte”, um “Super-Homem”.
E não parou por aí. Seus outros codinomes já foram Superboy, Auto-Bala, Homem do Amanhã, Homem de Aço e outros mais específicos como “O último Filho de Krypton” e “Filho das Estrelas”, este último é o significado do nome real Kal-El.
Diante das publicações tais denominações são apelos atrativos e marqueteiros para alavancar vendas. Pois a atribuição do “aço” como um comparativo de sua força é mais próximo do conhecimento popular. Mais do que Tungstênio, elemento mais forte em relação ao calor e pressão. Mas soaria estranho nomeá-lo Tungsman…
No decorrer dos anos o personagem sofreu inúmeras revisões, desde sua personalidade, que no início era mais agressiva quando topava com um vilão da máfia. Hoje, o Superman possui um código de conduta que serve como base de sua moral, e o assassinato é considerado como um fator de fracasso incorrigível.
Quantas vezes ele salvou o mundo? Um cara simpático que trabalha como jornalista na cidade grande Metropolis, membro da Liga da Justiça e filiações diversas que visa a proteção da sociedade humana. Sociedade essa que o exalta e o idolatra como o Super-Homem, mesmo não sendo um homem.
Talvez seja por isso que alguns fãs vibram quando o herói leva um golpe, cai, sangra.
Sim, diversas vezes vi em fóruns de fandoms alguém dizendo que pagaria o quanto fosse pelos rascunhos de “A Morte do Superman”, edição essa que recebeu o foco da imprensa após anos de recepções frias.
Toda vez em que ele caía fraco e com convulsões quando exposto à um fragmento verde radioativo oriundo de seu planeta natal (a saber, Kryptonita), o pensamento que lateja em nossas mentes vaidosas é: “A fraqueza dele é extraterrena. Quando ele cai, não é o Super-Homem  e sim um mero Kryptoniano”. E então surge uma compaixão, condicionada pelo fato do quê? Do salvador ao chão, abalado por um pedaço de rocha que pode ser pego por um humano e atirado para longe, aliviando a dor do Kryptoniano e possibilitando a volta dos superpoderes.
A cena de Homem de Aço pode ser uma chamada de atenção. Após a interrupção, o herói que lança um olhar para espelho comum de salas de interrogatório, torna para a mulher e diz “Perdoe-me”, no mesmo tom em que poderia emendar: “Eu acabei de dizer que venho de outro mundo, esse símbolo não é apenas uma letra de seu alfabeto e você ainda insiste em me posicionar como um “super” de sua raça?”
Um lembrete que pode ser tão chocante quanto o “ET” que disse na época do colégio.

Superman A Revanche Parte Um

Superman A Revanche Parte Um

O Lado de Lá

Enfim, nos últimos dias foi lançado o trailer oficial e mais encorpado de Elysium, que até então vinha soltando pequenas exibições em eventos como a Comic Con.
Eis o trailer

O filme se passa no ano de 2154, quando a população pobre vive oprimida numa Terra dizimada, enquanto os ricos habitam a estação orbital Elysium. São poucas as pessoas com passe livre entre o planeta e a estrutura no espaço. Funcionário de uma fábrica de policiais androides no Condado de Los Angeles, o ex-condenado Max da Costa (Matt Damon) sofre um acidente químico que o deixa à beira da morte – e só em Elysium existe uma cura.
Ainda estão no elenco Wagner Moura, Alice Braga, Jodie Foster, William Fichtner, Diego Luna e Sharlto Copley, entre outros. Direção de Neill Blomkamp (Distrito 9)

Após a empolgação deixar de queimar a pele, veio-me a mente o conceito da história apresentada. Já vou adiantar que não vou dar uns pitacos como vários críticos fizeram com Avatar ao dizer que o filme era um Pocahontas moderno numa manobra clássica de tentar deslegitimar o argumento original e a qualidade do trabalho apresentado.
Poderia dizer que é o reaproveitamento do clássico Metropolis do diretor Fritz Lang lançado em 1927, mas como muitos, só o vi trailer de Elysium até agora…
Porém, acho que vale lembrar que essa história (a de uma camada privilegiada e menor que usufrui de regalias que por sua vez é sustentada por uma camada maior e que vive em condições de escravatura ) já foi contada, ou melhor, que se porventura a mesma seja familiar ou tenha um gancho muito grande com a realidade é que porque sim, estamos vivendo-a numa proporção um tanto menor e talvez um pouco dissolvida nesse cenário globalizado.

Para fugir da ficção e não me perder na origem do título do novo filme (tá bom, vou lançar: Elysium é uma referência aos Campos Elíseos, o paraíso referencial da mitologia grega, onde os homens virtuosos repousavam e gozavam de boa vida após a morte em campos verdejantes e fartas, dançando e cantando no perder da eternidade espiritual. Tal lugar possuía um muro que separava do Tártaro, o inferno. Essa ideia de divisa meio que lembra uma passagem bíblica em que existe um ponto do inferno da qual se pode enxergar o paraíso. Cheira como um reforço proposital para a eterna amargura daqueles que foram condenados. Pronto, agora lembre-se que está em um parênteses…) basta lembrar-se do documento elaborado pelo Citigroup sobre a situação econômica em meados de 2005 e 2006. No documentário Capitalismo – Uma história de Amor de Michael Moore o documento analisa o panorama da distribuição de renda dos norte-americanos, e diz não acreditar que os EUA são uma democracia, mas uma Plutonomia ( uma sociedade controlada exclusivamente por e para o benefício do 1% de renda mais alta da população que possuem mais riqueza financeira que os 95% restantes somados, ficou um gap de 4% aí que não entendi, mas…). Essa conclusão explicitamente nos três memorandos ainda não é tão chocante quanto a lamuriosa preocupação da análise: o fato de os ricos terem o mesmo direito dos outros no quesito eleitoral, ou seja, um homem um voto, o que leva à conclusão de que os 99% dos “camponeses” são mais fortes e poderiam exigir uma mudança na distribuição de renda de forma que fosse mais justa. E a cereja do bolo desses memorandos confidenciais que vazaram é o paliativo para os maiores investidores do grupo quando se perguntavam porque os 99% da população não se rebelavam.
A resposta?
Esperança.
Sim, as pessoas cultivam a esperança de que um dia possam alcançar esse estilo de vida e poder usufruir dos benefícios da casta superior. E os investidores contentes com o estudo do Citigroup se dizem tranquilos por muitas pessoas manterem aceso em seus corações o “Sonho Americano”.
De repente me lembrei da cena de Matrix em que Morpheus (Laurence Fishburne) explica ao Neo (Keanu Reevers) o que é a Matrix, quando estão andando em uma calçada povoada por pessoas de ternos e gravatas apressadas num cenário que parece ser Wall Street. Morpheus diz a Neo que a busca pela liberdade do sistema trazia a tona de que deveriam lutar contra os que encenavam a realidade imposta e que muitas delas lutariam a favor do próprio sistema que simulava uma vida cheia de distrações enquanto máquinas aproveitavam o calor emanado pelos humanos encasulados para gerar energia. O que torna a cena antológica é que Neo, durante a explicação de Morpheus, se distrai com uma loira tesuda denominada A Mulher de Vermelho.
Antes de baixar em mim a imagem de um comunista que está chamando “compañeros para la revolución” e pedir para nos ocultarmos em máscaras do personagem V e pagar royalties à Warner me apresso a dizer que não estou a levantar debates políticos. Queria apenas demonstrar o quão interessante possa ser o assunto abordado no filme.

Falei de porcentagens estudadas pelo Citigroup e sobre a possível ideia de rebelião, que também foram abordadas além de Matrix em Metropolis e Spartacus (dir. Stanley Kubrick, sobre escravidão imposta pelo império romano) e então não poderia deixar de comentar sobre um piloto de uma série brasileira, que não sei se vingou, mas que possui o conceito dessas camadas.
Estou falando da série 3%. Piloto parte 1:

Em 3% somos apresentados a um futuro especulativo em que existe o Lado de Cá, pobre e populoso e o Lado de Lá, rico e seleto a privilegiados. O piloto deixa claro que a abordagem é sobre um processo seletivo que ocorre a determinados períodos em que pessoas que vivem do Lado de Cá podem ir para o Lado de Lá, mas o número é restringido a 3%. Paira os confrontos e dilemas éticos sobre cooperação e sacrifício.

Acredito que daqui para frente, na verdade já o estão fazendo, as críticas sobre Elysium, cuja produção esteve cercada de segredos e confidencialidades por parte dos envolvidos, irá recair, pelo menos aqui no Brasil, sobre os atores Wagner Moura que faz sua estreia internacional e Alice Braga que já tinha no currículo participações em produções do quilate de Eu Sou a Lenda, Predadores e Os Coletores.
E seria uma pena também que ficassem peneirando as falácias ao sincronizar as peculiaridades desse filme com Distrito 9, trabalho anterior de Neill Blomkamp.
Me faz pensar (sem invocar aquela psicose de teórico da conspiração) que os detentores do status quo realizam o seu trabalho com grande proeza.
Afinal, diante da última década entre as novas frentes de esquerda crescendo na América do Sul, qual é a atual definição de classe média no Brasil? O que o coreano Psy criticava no clipe Gangnam Style? Qual a sua definição de prosperidade? E por último, e não menos importante, o que você estaria disposto a fazer para alcançar o Lado de Lá?

Enquanto essas perguntas latejarem até formalizarem respostas, só me resta aguardar a estreia de Elysium, prevista para 20 de setembro.

Apenas na Teoria

“Mas é apenas teoria”, disse um amigo a mim há muito tempo enquanto um pouco da espuma do chopp ficou em seu projeto de bigode.
Já eu estava com aquela barba volumosa, da qual sempre vinha um amigo que dizia em tom zombeteiro dando um tapinha nas costas: “Converteu-se ao islamismo? Lembre-se que sou amigo e não me exploda”
Sob os efeitos etílicos não captei o que ele quis dizer de imediato. Em poucos segundos um pensamento percorreu os campos de minha mente como uma lebre fugindo de cães como naquela disputa cigana do filme de Guy Ritchie.
Teoria é algo puramente especulativo se dito imediatamente. É a manifestação de uma ideia cuja natureza não precisa existir de fato.
E então imaginei se ele iria iniciar uma discussão sobre teoria da gravidade, da evolução ou da conspiração.
N.D.A.
Enquanto bebericava sua bebida ele complementou a sua frase que se iniciou com a preposição contraditória. Passou a falar de teoria literária, e não lembro como chegou àquele assunto.
Na época eu não havia publicado o meu primeiro livro. Tinha apenas engavetada a trilogia fantástica Mundo Irreal que recebeu trocentas recusas de editoras. E confesso que naqueles anos eu resumia as minhas leituras no panorama mainstream, e sim, ia de Dan Brown a dramas pós onze de setembro e um romance espírita (jovens adoram experimentações, não?).
“E aí, não acha?”, indagou para mim.
“Sei lá. Não entendi o que você quis dizer”, e as risadas dos presentes na mesa daquele bar indicaram que o meu tom foi de deboche.
“Pô cara, não é você o escritor entre nós?”
“Não me enche”
“Teoria literária. Não podemos fugir dos conceitos acadêmicos”
“Nunca disse o contrário”
“Tá bom…, por que você não faz Letras?”
“Não me interessa. Gosto mais da área de exatas”
“E quer ser escritor?”
Enquanto os outros presentes começaram a discutir sobre as leituras obrigatórias na época da escola criei uma bolha para refletir sobre o que ele disse.
Cogitei a ideia de seguir o caminho sugerido. Cursar Letras? Podia ser vantajoso em termos de agregar qualidade ao modo de escrita e até para abrir as portas de uma editora. Mas não podia excluir as perspectivas profissionais, eu precisava comer e sustentar a casa, a minha família não era rica e não tinha o privilégio de ficar me aventurando de curso em curso até me “encontrar” como diversos amigos fizeram.
Ou então Jornalismo. Foi um tipo de curso que me atraiu mais. Porém, não tive coragem de me adentrar nesse meio.
Os anos fluíram com uma pressa sem igual. E recentemente me deparei com um vídeo no Youtube de uma aula sobre Teoria Literária da Universidade de Yale. E então, assisti à introdução, filmada diretamente da sala de aula, com um professor de cabelos grisalhos.
Diante do conteúdo discorrido eu tive a sensação de que se tivesse assistido aquilo anos antes teria desistido nos primeiros minutos. Não sei a razão lógica de tal sentimento, talvez porque era sou ansioso. Mas tenho certeza de que teria abandonado o curso, se não no início imediato teria sido no segundo semestre.
Assisti aos vídeos e aprendi algumas coisas interessantes. Não posso? Quem há de dizer que um escritor não pode amadurecer?
Ninguém.
A publicação de meu primeiro livro foi uma experiência filha da ansiedade, do simples desejo de ser o autor com o autógrafo mais esgarranchado e a simples vaidade de ser reconhecido pela criatividade. Na época não me preocupava com técnicas de escrita, percepções literárias, consciência artística ou coisas do tipo.
Hoje não levo todos os ensinamentos ao pé da letra, de forma sistemática. Mas consigo filtrar o que pode tornar a forma narrativa melhor. Desde a sustentação de uma trama que intrigue ou das pilastras que sustentam a estrutura de motivação de um personagem.
Escrevia irresponsavelmente, negligenciando os diferentes tipos de leitores que poderiam absorver as histórias.
Ao publicar o meu segundo livro percebi o quanto amadureci. Acumulei um conhecimento maior sobre a área literária e o mercado editorial das terras tupiniquins. Soube dos formatos digitais e tive opiniões adaptadas a esse novo conceito.
Outro dia li um estudo de um estudante de Letras sobre a literatura contemporânea. E novamente tive a impressão de que se fosse o árabe de anos atrás não teria passado do prefácio.
Lembrando daquela noite no bar, tive aquela sensação de que se tivesse acatado à sugestão poderia ter aprendido muita coisa, mas que tudo seria despejado naquele espaço abandonado da mente, ficando apenas na teoria.

Monstro Invisível

Eu, Jennipher Diogenes Assumpção relato as sessões com o cliente mais inusitado e insólito de minha carreira, que apesar de curta, até o presente momento nunca tive contato semelhante e tenho fortes convicções de que em um futuro distante tal fato não ocorrerá novamente.
O início se faz presente numa terça-feira comum, com muita chuva pela manhã. Aquele congestionamento irritante na avenida do meu consultório e clientes atrasados quanto à hora marcada.
Minha atendente disse que alguém apareceria às três da tarde, mas que o mesmo não quis se identificar por motivos não declarados.
No horário marcado, a sala de espera parecia vazia. E enquanto eu procurava um documento em meu arquivo e tinha em mãos o celular para ligar para o advogado responsável pelo processo de divórcio eis que a porta se abre, mas sem a presença de alguém sequer. Poderia ser um tipo de vento forte, mas notei de que a mesma não estava encostada e que estranhamente a maçaneta se movimentou como se estivesse forçada por um peso fantasmagórico.
Deixei o celular cair quando vi que a poltrona à frente que deveria ser ocupada pelo cliente sofreu um recolhimento.
“Oi”, foi a voz que escutei à minha frente.
“Oii!?”
E então ele se apresentou, o cliente das três da tarde que não dissera seu nome.
“Estou aqui após muito tempo pensar e quando me enchi de coragem não tive dúvidas em marcar com você”, disse a voz que soava gutural.
“Pirei!”, foi o que pensei na hora.
“Não, você não pirou. Eu sou assim mesmo. Sou invisível”
Fiquei calada por uns dois minutos, petrificada, pasma, chocada como se tivesse sido abatida por uma esquizofrenia momentânea. Seria a pressão? A preocupação com o divórcio? Algum transtorno hormonal? Alguma crise específica de psicólogos. Minha cabeça viajava a mil.
“Imaginei que o começo não seria fácil, então não me irritarei caso hoje fiquemos apenas nas meras apresentações cordiais”
Permaneci na mesma posição por uns cinco minutos, incapaz de gritar pela minha atendente, para que a presença da mesma expulsasse o devaneio.
“Pois bem, vamos começar ou não?”
“Começar?”
“Sim, eu vim aqui como seu cliente. Eu marquei para esse horário. Vamos começar ou não?”
“Você é algum espírito?”, me limitei a essa pergunta quando minha mente já tinha forçado todas as respostas lógicas.
“Não, sou um ser vivo. Eu sou um monstro. Um monstro invisível”
“Você é o diabo?”, nesse momento todo o ceticismo caiu por terra.
“Não. Não pertenço às espécies denominadas como seres das trevas. Mas sou um monstro de qualquer forma, se me enquadrar na classe de demônios não vou me importar porque esse preconceito é universal”
Com a mão trêmula abri a gaveta de minha mesa e procurei sem tirar os olhos da poltrona uma das ampolas com fragrâncias virtuosas. A que peguei tinha no rótulo a inscrição “Lealdade” e quando li desisti de inalar o odor purificador. Percebi que toda aquela loucura tinha sim a ver com o divórcio. Lágrimas escorreram e eu desatei a chorar.
“Droga. Parece que você tá pior do que eu”, lamentou a voz. “Façamos o seguinte. Voltarei aqui na próxima semana, está bem?”
E assim enquanto eu chorava a poltrona restituiu os amassados, a porta abriu-se e fechou-se magicamente e me senti num ambiente solitário.
Depois de alguns minutos, quando enxuguei as lágrimas fui verificar com Ana sobre quem estava na sala de espera.
Vazia.
Ana estava a conversar com o namorado no comunicador instantâneo com fones de ouvido ouvindo alguma música da Lady Gaga. Percebendo a minha figura a espiar a sala da porta removeu os fones e me dirigiu a palavra:
“Não veio o senhor sem nome, né?”
Eu a olhei com os olhos limpos.
“A porta está aberta”, indiquei a entrada do consultório.
“Sim, você quer que eu feche? Eu abri depois que parou de chuviscar”
“Você não viu ninguém entrar aqui?”
“Não. Por quê?”
“Nada. Pensei ter ouvido alguém entrar”
“Ninguém entrou, senão eu teria visto. A não ser que fosse invisível”
A jovem Ana era uma menina que trabalhava bem, tinha um senso de humor agradável, mantinha um espirito juvenil como se não houvesse pressões da maturidade do mundo externo.
Uma semana depois Ana me informou sobre o paciente que não compareceu na terça passada.
“O senhor-sem-nome marcou para hoje. Fiquei de retornar para confirmar, às cinco é um bom horário?”
Engoli seco. Fiquei tensa novamente. Seria apenas uma coincidência? Ou seria contemplada com  a visita do ser invisível novamente?
“Tudo bem, pode ser às cinco”
E assim, no horário marcado a sala de espera se encontrava vazia novamente. Deixei a porta aberta, esperando enxergar a silhueta do meu cliente nada pontual.
Sete minutos e cinquenta segundos após o horário marcado a porta fechou-se sozinha. Meu coração disparou novamente.
Acomodou-se na poltrona e me cumprimentou.
“Boa tarde”, respondi categórica.
“Espero que hoje possamos iniciar as sessões de fato”
“Quem é você?”
“Essa é a pergunta que venho tentando responder a mim mesmo, sem sucesso até hoje. Por isso estou aqui. Preciso de sua ajuda”
“Minha ajuda?”
“Sim”
“Você não sabe quem você é?”
“Eu tenho uma ideia, mas foi imposta. Não sei de fato quem sou eu. Acredito que me entenda”
“Eu…, eu…”
“Passado o susto acho que hoje já podemos nos conhecer. Que tal fazer um breve resumo de seu currículo”
“Espere! Eu estou falando com um monstro que não existe. É isso mesmo?”
“Ah mas que droga. Você não vai chorar de novo, vai? Eu estou aqui justamente para encontrar respostas sobre minha existência e você diz que não existo somente porque não pode me ver. Isso é ético?”
“Me de-desculpe”, e então, não sei como se sucedeu, mas passei a aceitar a estranha ideia que tinha um monstro invisível como cliente.
“Está perdoada. Agora por favor, faça um breve resumo sobre a sua formação, apenas para creditarmos as cordialidades e eu inicio as explicações atentando-se à maiores detalhes”
Discorri sobre a minha formação acadêmica e sobre a experiência que havia acumulado após a conclusão do curso. Disse tudo em um tom baixo, temendo que Ana ouvisse e imaginasse que eu conversava sozinha.
O monstro invisível se apresentou falando o mínimo possível:
“Como disse antes, eu sou um monstro. Invisível, mas ainda sim real. Sofro com uma questão e gostaria que me ajudasse a encontrar a resposta”
“Entendi”, levantei-me da cadeira e andei atrás da mesa como se aquilo fosse me dar mais ar. “Você disse que não sabe quem é”
“Exato”
“Sofre de algum tipo de amnésia?”
“Não, me recordo de tudo desde que nasci”
“Certo. Então pode reformular a pergunta?”
“Não sei quem sou. Vocês humanos já pararam em algum momento da vida questionando tal coisa, não?”
“Sim”
“Então. Acredito que tenham criado correntes filosóficas que orientem a reposta”
Sentei na quina da mesa, ainda amedrontada e receosa para me aproximar. Naquele instante engoli a bizarrice vivida e o imaginei como um cliente comum.
“Qual o seu nome?”, indaguei.
“Não tenho um nome como vocês humanos. Mas me chamam de Monstro Invisível”
“Entendi senhor Monstro Invisível. Por que você acha que não sabe quem é?”
“Porque eu não sei”
“Você sempre não soube, ou passou a se questionar a partir de um período ou fase?”
“É…, na verdade, venho pensando nisso somente nos últimos dez anos”
“Qual a sua idade?”
“Comparados aos seus devo ter uns duzentos. Mas vim do Buraco Escuro há cinco mil anos”
“Buraco Escuro? Isso é algum…”
“É a dimensão onde nascemos. O monstros da minha raça”
“Como é esse lugar?”
“Escuro, bem escuro”
“Continue”
“É só escuro, não há mais nada. Nada cresce lá, não há chão, céu, gases. É apenas escuro”
“E você veio de lá pra cá…”
“Quando chega a hora. Do nada, apareci nessas terras”
Nesse ponto eu sentei novamente e comecei a digitar ligeira, tomando notas sobre o que ele relatava.
“Por favor, continue. Conte-me tudo que seja relevante para a sua questão”
“Antigamente eu me alimentava de pessoas…”
Congelei com a afirmação, um frio me subiu pelas pernas adentrando a minha saia e se concentrou em minha barriga. Meus dedos sobre as teclas ficaram paralisados aguardando alguma ordem.
“…mas faz tempo que deixei esse hábito quando descobri que frutas são mais deliciosas. Mas o último homem que peguei…, ah, deixe-me esclarecer, eu só me alimentava de homens maus, comprovados aos meus olhos. O último deles começou a gritar como uma menininha chorona quando o suspendi no alto enquanto abria a minha boca para engoli-lo. Gritava ‘O que é isso? O que é isso?’ repetidas vezes e quando se calou pelo ácido do meu estômago fiquei pensativo quanto ao assunto”O fato dele ter dito que o seu hábito alimentar era motivado por certa justiça própria me fez relevar a ideia psicótica. Ele já havia se declarado um monstro. Era um monstro que comia frutas, algo que devia ser contra a sua natureza ou uma peculiaridade incomum. Mas eu continuei a ouvi-lo.
“Sabe, ser invisível não é fácil. Aqueles ‘O que é isso?’ daquele assassino desgraçado me perturbaram por vários anos. Pois veja, ele não podia me ver. Morreu por algo invisível. Mas o que teria pensado? Foi o que tentava imaginar e para a minha desgraça não consigo formar uma ideia de mim mesmo.
Entendi que o problema dele era a famosa crise de identidade. Para um paciente comum, seria algo normal de se resolver. Mas como eu faria com um não-humano e ainda por cima invisível? Olhei para a prateleira. O que Freud diria sobre isso? O que Sartre pensaria sobre tal diálogo?
“Mas você me disse que existe fisicamente, já que não é um espírito”
“Sim, eu existo fisicamente”
“Pois então, você não possui cor, mas tem forma. Podemos começar por aí, não é verdade?”, disse isso com um tom animador e eu estava de fato animada.
“Não, não é verdade”
Meu rosto fechou uma expressão de dúvida, fiquei esperando que ele complementasse sua explicação.
“Eu não tenho uma forma única, posso me modificar a necessidades”
“Perdão, não entendi”
“Deixe-me explicar melhor. Eu poderia muito bem jogar um lençol sobre mim e ter a figura de um fantasma, mas o que ocorre é que tudo entra em contato com meu corpo torna-se também invisível, bom, nem todas. Ás vezes, objetos como essa poltrona permanecem visíveis, mas a maioria desaparece ao menor toque”
“Mas ainda assim você possui sensibilidade, não?”
“Sim. Mas no que isso me ajuda?”
“Você sente e sabe se tem duas pernas, dois braços, dois olhos, não?”
“Como disse, eu posso me adaptar a necessidades. Como agora por exemplo, eu encolhi dois metros para caber nessa sala. Tenho duas pernas, quatro mãos, olhos?… eu sinto os músculos e nervos de quatro, mas para  obter a visão de trezentos e sessenta graus poderia criar mais dez se necessário. Assim como meus braços podem se multiplicar em vinte ou trinta e tomarem formas distintas como tentáculos, pinças e ferrões”
Minha surpresa entrou em outro nível. Passei a buscar as respostas mais óbvias, porém, nada me veio à mente. Imaginei professores antigos ministrando aulas monótonas e vagas. Lembrei de inúmeros exercícios mentais que poderiam me ajudar naquela ocasião.
“Acho que você compreendeu o meu problema”
“Sim”
Fiquei digitando, mas em um ritmo mais lento de forma que ganhasse tempo. A percepção externa ajuda em muito para a formulação do eu interior. E no íntimo daquele ser não havia essa base para sustentar alguma ideia. Ele mencionou que a ideia de que tinha havia sido imposta, certamente pelos termos e denominações que os devorados devam ter gritado em desespero.
“Pois bem senhor…, pela sua voz você é um macho, certo?”
“Não temos distinção entre sexo. Nós não nos reproduzimos como vocês. O Buraco Escuro é o grande progenitor”
“Ok, vou chamá-lo de você para evitar variações e possíveis confusões”
“Tudo bem. Você conseguiu pensar em algo? Algo para começar?”
“Por enquanto não. Temos que prolongar as sessões. Eu gostei de conversar com você, adoraria que voltasse”, não consegui evitar a frase clichê.
“Tudo bem, pelo menos você não chorou hoje”
Ele retornou duas semanas depois.
“Bom dia, como se sente?”
“Com a mesma dúvida a latejar em minha cabeça”
“Como passou sua semana?”
“Fazendo as mesmas coisas de sempre. Visitando feiras, roubando frutas sem grandes dificuldades”
“O que você sente quando pensa sobre a sua identidade?”
“Um vazio”
Transcrevia tudo com a maior agilidade possível e sendo fiel a cada palavra dita.
“Você tem contato com os da sua espécie?”
“Não”
“Já teve?”
“Não”
“Como sabe que não é o único?”
“Não sou. É uma noção básica que temos. Sabemos que estamos espalhados pelo mundo. Cada um deixa o Buraco Negro sozinho, sem despedidas”
Tudo que pensava falia nos testes primários, todas as hipóteses que elaborava nos finais de semana não se encaixavam na situação do monstro.
Após a décima quarta consulta propus o seguinte:
“Por que você não pensa em uma cor que não existe?”
“Eu não entendi, isso é outro exercício?”
“Sim, tente. Você não conseguirá saber que tipo de cor seria essa, mas teria como base que pelo menos sabe que ela não é alguma das cores existentes”
“O que isso quer dizer?”
“Um modelo a seguir quando não sabemos quem somos é termos como base quem não somos”
“Você acha que isso funcionará?”, o monstro estava incrédulo quanto ao proposto.
“Acredito que sim. A definição do seu eu poderá emanar a partir daí”
Considerei ter sido a pior ideia. Poderia funcionar para um adolescente de classe média, mas não para ele. Nas sessões seguintes ele detinha inúmeras definições do que não era, e o montante acumulava cada vez mais, o que o incomodou muito.
“O vazio aumentou. Sei tudo o que não sou, mas não tenho a mínima ideia do que poderia ser”
Lamentei o erro, voltei a pesquisar mais, procurei estudos de grandes físicos, de filósofos que vagavam na antiga Grécia. Não conseguia absorver tudo no tempo certo. Tinha que dedicar meu tempo em casa como uma mãe. Não podia ignorar o meu filho de quatro anos.
“Mamãe sabe tudo”, disse ele outro dia se aproximando com os olhinhos brilhando. Costumava dizer isso para que eu o ajudasse com alguma coisa, fosse para ajudar a calçar a sandália ou encontrar um brinquedo. Aprendeu tal frase com a minha irmã há poucas semanas quando ela o alertou: “Ouça sempre sua mamãe. A mamãe sabe tudo”
E diante disso pensei no que poderia ser a solução. Na próxima sessão ofereci o que poderia ser a minha última solução:
“Bom dia, tudo bem?”
“Bom dia. Não muito. Já sei que não sou o Bicho-papão, o Pé Grande, o ET de Varginha, a Cuca, o Tinhoso, o Lobisomem, o Godzilla…”
Tive de interrompê-lo, estava ditando a infinidade propositalmente, queria me provocar.
“Hoje quero que você me relembre sobre a sua origem”
“O Buraco Negro?”
“Exato”
“O que deseja saber?”
“Lembro que disse sobre as suas noções básicas”
“Sim”
“Muitas respostas você sabe de modo natural, esse saber provém do Buraco Negro?”
“Sim”
“Você já perguntou algo ao Buraco Negro?”
“Não, por que deveria?”
“Nunca lhe ocorreu que pode ter a resposta de que tanto precisa?”
Ele permaneceu em silêncio por algum tempo.
“Tudo o que precisava saber o Buraco Negro já me deixou ciente”
“Mas restou uma pergunta, você nunca a conjurou?”
“Nunca”
“E então, não quer tentar?”
“Acha que vai dar certo?”
“O Buraco Negro seria incapaz de responder algo a você?”
“Isso seria impossível”
“Então tente. Inicie a introspecção clamando o grande progenitor”
“Por que você acha que isso vai dar certo? E se tornar outra frustração para mim?”
Senti toda a minha confiança sobre uma corda bamba.
“Pelo que você me disse o Buraco Escuro é o grande progenitor, a vontade de existir trouxe vocês ao mundo, mesmo em um lugar em que nada podia ser visto, ou que nada existisse além da escuridão. E de modo mágico, aqui está você. A sua origem como história pode não ser a essência do seu eu. Mas, a vontade…, a vontade existir está além de nomes, cor, cheiro, formas. Ela é o mínimo necessário para que mantenha a vida nesse mundo…, e até mesmo no Buraco Escuro. A partir dessa vontade, todo o resto torna-se possível, as definições são reais graças a essa vontade e não o contrário”
O silêncio reinou novamente. Eu pensei que ele tinha duvidado de cada palavra dita, eu mesma estava perdida na minha explicação, não conseguiria repeti-la caso ele pedisse.
“Interessante”, disse ele calmamente. Pensei que ele fosse satirizar assim como fizera com o exercício anterior.
“Você perguntou ao Buraco Negro?”
“Sim”
“E então…”, meu coração estava prestes a saltar pela boca de tanta ansiedade.
“Respondeu algo semelhante, em outras palavras”
Respirei aliviada, meus ombros relaxaram a tensão, me joguei em minha cadeira.
“Isso quer dizer que a minha pergunta não tem tanta importância?”
“Sim, pelo menos não há a necessidade de lhe trazer angústia. Ela é mera possibilidade diante da sua existência”
“Entendi. A resposta no fim não era um bicho de sete cabeças…
“Isso é recorrente na minha profissão”, um sorriso brotou no canto de minha boca.
“Enfim, acho que agora posso finalizar a terapia”
“Se assim você o diz”
“Nos despedimos aqui”, disse ele. Percebi que se levantou.
“Espere, tenho que lhe mandar a conta. E já vou avisando que não aceito o pagamento em frutas”, disse utilizando um tom cômico, não pude evitar a deixa.
“Que é isso? Bom, acho que a terapia vale pela experiência. Considere isso como uma possibilidade”, me respondeu com uma voz sorridente.
“Ok”, caímos na gargalhada.
Nos despedimos, ele me agradeceu novamente e partiu, abrindo a porta e tornando-se invisível como nunca me fora.

Trecho

“Percebi que Biel tinha uma carta escondida na manga.
Ele tinha dinheiro. Dinheiro suficiente para poder me embarcar em uma aventura filosófica de viver a vida a nosso bel-prazer, sem nenhuma preocupação.
E eu me perguntei, como é que ele tinha dinheiro se até pouco tempo estava num manicômio?
Biel não era ladrão.
Tudo bem, nosso passado não era nem um pouco limpo, mas, pelo tanto que o conhecia, sabia que ele não participaria de crime algum.
Ele tinha um estilo de pensar muito sólido para se tornar um criminoso.
E sabia que a gorjeta generosa não poderia ter sido uma manifestação de sua nova ideologia Viva La Vida se tivesse poucos recursos.”

Trecho de Simplesmente Complexo (Capítulo Dois: Capsaicina)

Leia trechos maiores e até capítulos inteiros pelo Google Play Books.

Disponível nas livrarias: CulturaSaraiva, Martins Fontes , Loyola, e muitas outras.

Resenha de Simplesmente Complexo no Homo Literatus

Foi publicada hoje de manhã a resenha do meu livro, Simplesmente Complexo, no site Homo Literatus.
Leiam a resenha na íntegra aqui.

 

Fome do Pai

Um estrondo ruidoso não se propagou no vácuo devido às leis básicas da física. Muito embora, pudessem chama-las de leis. Afinal, tudo era muito novo, tudo estava no princípio.
No futuro, em outros tempos, em outras ideologias ou mitologias dirão que no princípio era o verbo. O que sim, era verdade. Embora não apenas um, mas vários: espetar, lamber, abocanhar, mastigar, cercear, triturar, engolir, comer, banquetear, roncar, esfomear e por aí vai.
O estrondo nada mais era do que o ronco do estômago de Cronos, filho do Céu e da Terra, senhor do universo. Sempre faminto, deixando sua boca sedenta se perder no tempo, pois podia manipular as distorções do que poderiam chamar de leis da física e suportar a fome.
Em outros tempos, poderiam dizer que Cronos devorava os seus filhos. O que sim, era verdade. Mas estariam completamente errados quanto ao motivo, caso digam que a sua obsessão em devora-los era por certo terror ao que fizera ao seu pai, o Céu.
Não sentia terror de acontecer o mesmo, quando o próprio Céu o advertiu após ter o corpo rasgado por uma foice. Cronos não temia que um ou mais filhos desejassem destrona-lo.
Enquanto viajava pelo espaço, se deslocando entre ondas de tempo, o senhor do universo pensava nas suas responsabilidades como divindade suprema. Existia todo um legado a respeitar, e o seu sucessor, caso um dia necessitasse existir, mesmo que contra a sua vontade, deveria ser alguém superior a ele.
Nisso, costumava descer até a Terra após contar e dar nomes à estrelas longínquas que tardariam a serem descobertas, se estabelecia em domínios de seus filhos e os observava ocuparem o vazio do existir.
E então, se em sua análise algo fosse suspeito, contundente, aviltante ou que fosse indigno, o senhor do universo não hesitava em materializar um garfo e com grande efeito liberava a vontade de se saciar. O garfo era lançado contra o seu filho, trespassando o corpo místico, fixando a carne divina nas pontas. E em poucos segundos, que eram relativos ao grande ser supremo, sua boca se abria e fechava, juntando seus imensos e incontáveis dentes transformando o seu descendente em uma pasta deliciosa e engolindo até o estômago sedento o dissolver como se uma explosão de uma estrela gigante ali estivesse.
Dessa maneira, Cronos saciava a sua fome. Mas, antes que pudesse se vangloriar de seu feito, os roncos voltavam.
Cronos não escondia dos outros filhos o seu estranho passatempo.
E não tardou para que os que continuavam sobre a face da Terra começar a se consultarem com sua mãe, Cibele, a fim de compreenderem os motivos que levariam o senhor do universo a devorar os próprios filhos.
“Não há nada com o que se preocuparem, afinal, ele tem os seus motivos. Mesmo que isso seja inaceitável, o que poderiam fazer?”, embora seus prantos eram ouvidos sobre a face da Terra toda vez que um filho desaparecia no abismo de Cronos.
Zeus, já em sua adolescência florida coçava a sua barba rala quando ouvia os conselhos da mãe.
“Está angustiado meu irmão?”, indagou Poseidon ao notar o olhar vago de seu irmão mais velho.
“Não, um pouco preocupado com Cronos”
“Com nosso pai? O que te aflige?”
“Não quero estar no estômago dele amanhã”
“E o que te faz pensar que pode estar na pança dele amanhã?”
“Ando com teorias, e nenhuma delas são animadoras. Precisamos conversar em um lugar mais particular, de modo que ele não nos ouça”, pediu Zeus seriamente para Poseidon.
“Tudo bem. Podemos ir até Hades. Ele pode nos levar a uma gruta nas entranhas da Terra. Se não me falha a memória, ele conhece várias”
“Boa ideia, seria bom compartilhar com ele os meus planos”
“Planos? Que eu saiba, planos são mentalizados com o propósito de serem transformados em atitudes”
“Sim, esse é o propósito”
“Estou incerto de suas intenções. Quer tramar contra o nosso pai?”
Zeus levou o indicador à boca, em um gesto imediato por silêncio. Como se as palavras no tom calmo de Poseidon pudessem chegar aos céus.
“Está bem, espere eu terminar aqui”, disse Poseidon enquanto materializava pequenas ovas.
“O que é isso?”
“Será o meu mensageiro no futuro. Ele poderá se materializar em várias formas. Levará as minhas mensagens às terras mais longíquas”
E então Poseidon lançou as ovas no mar.
“Acho que nosso pai se orgulharia desse feito, não acha?”, indagou em um tom provocador.
“Hum, não creio. Héstia, nossa irmã mais velha considerou que a sua criação, uma morada confortável da qual batizou de ‘Lar’, encheria nosso pai de orgulho. O que sucedeu foi que ela foi para em uma morada nada hospitaleira, foi emborcada em um vulto só”
Poseidon engoliu a seco, o que nunca havia lhe ocorrido.
“Pois então vamos nos encontrar com Hades agora mesmo”
E assim eles rumaram ao encontro de Hades, que era mais velho, porém, muito imaturo. Hades era muito chato aos olhos dos dois irmãos. Sempre que iniciavam algum debate, Hades achava necessário ser o detentor da palavra final. Ele mesmo proclamava-se como criador do conceito do fim. E sempre que dizia ter vencido um debate, seus irmãos se entreolhavam como se trocassem mensagens telepáticas e num gesto afirmativo sabiam que deram a palavra final ao irmão meticuloso apenas para calar a boca.
“Olá irmão, como está?”, indagou Poseidon.
“O que vocês querem?”, Hades não escondia seu tom irritadiço.
“Viemos falar sobre algo muito importante”
“Vieram me desafiar para um debate?”
“Não, viemos falar de algo que interessa a todos. É sobre o quem vem acontecendo aos nossos irmãos e que certamente poderá ser o nosso destino também”
“Entendi. É sobre o nosso pai?”
Novamente Zeus advertiu com um gesto para que não comentasse a respeito. Poseidon confirmou e murmurou algo.
“Por que tanto silêncio oras?”
“Ele não pode nos ouvir”
“Por que não?”
“Por que entraria em ira se soubesse que estamos tramando contra ele e viria até aqui num piscar de olhos para nos devorar”
“Mas, quanta idiotice. Por que tramaríamos contra ele? Nossa mãe disse que estava tudo nos conformes”
“Você realmente está satisfeito e seguro com as recentes ocorrências?”, perguntou o petulante Zeus.
“Acredito que no fim eu estarei, não me preocupo com isso”
“Pois bem, então viemos até aqui à toa Poseidon”
“Espere Zeus. Hades, apenas me responda uma coisa, o que você fez de útil que poderia orgulhar o nosso pai, senhor do universo?”
Hades abriu a boca para responder de imediato, mas sua voz não saiu. Ele ficou boquiaberto como se tivesse sido petrificado. Tentava encontrar as palavras para convencer os irmãos.
“Vejo que no fim, não está tão certo assim”
“Está bem, vocês venceram. Não ando dormindo nas últimas noites por pensar nos fatos recentes, mas se vamos conspirar, temos que fazer em um local mais discreto”
“Concordamos, sugere algo?”
“Sim, nos subterrâneos, nas entranhas da Terra”
Os três irmãos então desceram os níveis da crosta terrestre, chegando a grutas aquecidas e empestadas pelo cheiro de enxofre.
“Que lugar é esse? Nós entramos por uma montanha, mas nunca imaginei estruturas desse tipo?”
“Eu costumo chamar de Tártaro, mas preciso cavar mais, pois ainda não cheguei ao fim”
Estando em um local escuro, Hades trouxe luz com um fogo flutuante.
“Aqui estamos, comeceis a falar”
“Diante do que nosso pai anda fazendo, acho que temos que enfrenta-lo”, disparou Zeus, com um tom baixo, ainda temendo que tais palavras pudessem ser transportadas além das milhões de toneladas da estrutura rochosa acima deles e chegasse aos ouvidos de Cronos.
“Teríamos que utilizar o elemento surpresa, não podemos invoca-lo e marcar um duelo, seria uma desvantagem para nós”, disse Poseidon.
“Então planeje o engodo”, Hades parecia não ter esperanças.
“Sim, tenho algo em mente. Todavia, tenho que lembra-los que a queda de nosso pai deixará o trono ausente, e o universo não pode ficar sem um comandante”
“Sim, bem lembrado, então temos que definir como será a sucessão”
“Sim Poseidon, eu já deixei a partilha nos seguintes termos: cada um de nós terá um domínio”
“Hum, gostei, mas você já decidiu por nós ou teremos como escolher os domínios?”
“Eu escolhi o que considerei o mais adequado para cada um de nós”
“Baseado em quais critérios?”
“Nas suas próprias vocações”
“Prossiga irmão, estou curioso”
“Você Poseidon, ficará com os mares, todos eles”
“Serei o senhor de todos os mares?”
“Sim, não é você que vive nele, sempre criando peixes e serpentes marinhas? Pois bem, o domínio dos mares será todo seu”
“Hum, minhas suspeitas se confirmam”
“E com o que é que eu fico?”
“Vocês têm que confessar que eu sou um visionário”
Poseidon e Hades entortaram o olhar desconfiados da vaidade do jovem irmão.
“Eu percebi que a demanda por vida humana irá aumentar, será uma coisa natural, eles vão se multiplicar a um número incontável como as estrelas dos céus. E consequentemente a morte os apanhará quando a hora definida pelo destino chegar. E para irá as almas desses mortais?”
Os dois não souberam responder.
“Para o seu domínio Hades”
“Meu domínio?”
“Sim. Será seu o reino dos mortos”
“O meu domínio será o reino dos mortos? E qual a lógica de que as minhas vocações me definem como senhor do reino dos mortos?”
“Ora meu irmão Hades, você não se diz como o definidor do fim? Pois então, é totalmente apropriada a ideia de tal posse, pois somente você poderia dominar o fim da vida dos mortais”
E então Hades pensou melhor, após a justificativa de Zeus a proposta soava melhor.
“Aceito”
“Então vamos aos planos…”
“Espere”, Hades fechou o olhar desconfiado.
“Sim irmão, algum problema?”
“E qual seria o seu domínio?”
“Ah, eu…, bom, eu não sei bem o que seria mais adequado para mim. Gosto de muitas coisas, não sei qual a minha vocação. Nisso, ficarei no trono como líder supremo, pois de lá poderei realizar várias tarefas distintas até encontrar o que seria a minha ocupação definitiva.
Hades e Poseidon se entreolharam, conheciam a prepotência do irmão mais novo, e sabiam que ele ambicionava um poder além do que lhes fora destinados. Mas diante das circunstâncias tiveram que aceitar, discutiriam a sucessão depois. Os domínios oferecidos já estavam de bom tamanho.
E então, os três filhos de Cronos, unidos com o propósito de derrubarem o próprio pai planejaram o grande golpe. Após muita discussão chegaram a uma boa estratégia para o engodo. Ao retornarem para a superfície eles partiram em direções opostas para dar início ao plano.
Cronos deslizava pelas nebulosas. Um ronco explodiu enquanto ele separava pequenos conjuntos de massas para formar satélites em um planeta.
Já não sendo de sua vontade permanecer ali decidiu voltar à Terra para saber do comportamento de algum filho seu.
Por coincidência, assim que pousou seu corpo gigante no solo, Zeus invocou sua presença. A cerimônia além de formal devia ter toda a subordinação explícita. Não podia invocar a presença do senhor do universo sem o devido respeito.
“Olá grande pai, senhor do universo”
“Olá filho, qual a razão de invocar a minha grandiosa presença em tal lugar?”, Cronos percebeu de que estavam em uma praia, próximo da divisão da areia com a maré.
“Eu gostaria de lhe mostrar algo que lhe trará orgulho de sua descendência”
“Hum, e o que seria?”
“Bom, antes de mostrar a você, eu gostaria que deixasse o seu garfo no chão, para que não haja infortúnios e que sua ira seja declarada”
Cronos ficou surpreso com o pedido, mas não desconfiou de nada. Sendo assim, largou o garfo que caiu pesadamente sobre a areia úmida. O garfo se posto de pé teria a altura de Zeus.
Cronos era dez vezes maior do que seus filhos, ele gostava daquela estatura, tinha a consciência de sua grandeza divina e sabia que ela devia ser proporcional materialmente.
“Pois bem, ande logo, mostre-me o que criaste”
“Sim”, Zeus estendeu as suas mãos. Nuvens brancas que estavam dispersas começaram a se acumular.
“Vai criar um dilúvio?”, Indagou Cronos debochadamente.
“Não, algo muito mais potente do que isso”
E então, quando o céu foi coberto por nuvens negras e o dia tornou-se escuro como noite um feixe de luz voou até as mãos de Zeus.
Com as mãos próximas ele conteve a energia e o calor emitido o fez pingar de suor.
“Hum, o que é isso? Um raio?”
“Sim”, Zeus respondeu com esforço, pois conter o raio consumia quase toda a sua energia.
“Essa é a sua grande invenção?”, Cronos não se mostrou perplexo.
“Sim, não gostou?”
“Eu vi bilhões de raios no céu, raios maiores do que a Terra e a luz destes cegariam todos que tivessem a capacidade de enxergá-los”
“Eu levei um bom tempo para fazer isso, pensei que fosse se orgulhar”
“Tempo não importa meu jovem”, o estômago do senhor do universo roncou como se pedisse para finalizar a conversa e que saciasse a grande fome.
“Você fez sozinho?”, indagou Cronos como se a resposta pudesse ser fatal.
“Bom, não, eu tive a ajuda dos Ciclopes”
“Dos gigntes babões de um olho só?”
“Sim, eles mesmos”
“Precisar da ajuda dos Ciclopes para construir algo tão patético. Isso lhe dá o direito de ser classificado como indigno”
“Mas, indigno? De lhe suceder?”
“Exato filho, não merece o trono”, e Cronos se surpreendeu por neste momento, ao invés de surgiu um olhar de terror, Zeus abriu um sorriso demasiado provocador.
“Pois bem. Então o que fará? Me devorar?”
“Garoto arrogante. Merece sim, ser mastigado lentamente até sua carne se desfazer em minha boca”, e então Cronos estendeu a mão para pegar o garfo que havia largado na areia, mas foi surpreendido ao ver que o objeto não se encontrava lá.
Ele voltou a sua atenção para Zeus que ainda concentrava esforço para conter o raio em suas mãos.
“O que está havendo aqui? Onde está o meu garfo?”
Zeus não respondeu. Quando Cronos pensou em partir para cima do jovem, sentiu algo ferir as suas costas. Um arpão atravessou seu corpo.
Ao se virar viu Hades que enlameado havia aparecido da terra.
“Foi você quem pegou meu garfo, jovem tolo?”
“Não, eu só o feri com meu arpão”, respondeu Hades sem demonstrar medo diante do olhar aterrador de seu pai.
E antes que Cronos desse conta, uma onda disparou formando um cone d’água, cuja ponta sobressaltou o seu garfo. O golpe foi tão veloz que o senhor do universo não pôde se defender.
O gigante corpo do supremo deus tinha duas armas fincadas.
Ele não estava acostumado com dores, então realmente ficou perturbado com a situação. Ele viu Poseidon surgir.
“Vocês se uniram para me enfrentar. Que coisa mais desagradável”
Ele cambaleou, caiu de joelhos de frente para Zeus.
“Golpe de misericórdia?”
“Mais ou menos”, e Zeus liberou a força do raio contra o abdome de Cronos.
A potência do golpe comprimiu os órgãos divinos de tal maneira que ele regurgitou todos os filhos devorados que foram restaurados à sua forma original como se nada tivesse acontecido.
Uma fraqueza incomum tornou tudo rodopiante e o senhor do universo caiu ao chão, sentiu frio.
“Vocês não deviam ter feito isso. Meus irmãos, os Titãs, irão me vingar”
“Não, não vão. Nós os derrotamos um a um e cuidamos para que fossem aprisionados”
“O que? Mas como?”
“Não importa como. O que importa é que não haverá uma guerra entre primeira e segunda geração de deuses, poupamos o mundo de algo tão destruidor”
Cronos viu todos os filhos que devorou na praia. Mesmo que conseguisse forças para se levantar não teria como lutar com todos ao mesmo tempo.
Hades retirou de seu corpo o arpão. Poseidon retirou o garfo.
“Vou ficar com isso. Nosso pai o energizou muito e também servirá de lembrança”
Zeus deu de ombros.
Cronos olhou para os três que exibiam sorrisos vitoriosos.
“Filhos de parricida, parricidas são”, apenas murmurou e seu estômago roncou.
O senhor do universo, caído, fraco, humilhado, não encontrou outras palavras e decidiu não lançar maldição sobre seus filhos como fizera o Céu, seu pai.
“Pois bem, qual será o meu fim?”, indagou.
“Isso é tarefa minha”, disse Hades que se aproximou do corpo caído do pai e tocando as suas feridas os dois se desfizeram em nuvens de enxofre desaparecendo dali.
Cronos foi para o Tártaro, juntamente com seus irmãos, os Titãs. E então os seus filhos tomaram posses das criações, cada um com o seu domínio.
No futuro, em outros tempos, em outras ideologias ou mitologias dirão muito sobre a loucura de Cronos. Dirão que os raios são uma lembrança do que houve no dia em que ele fora destronado. E que acordado pelos raios, os roncos de seu estômago explodirão em estrondo  indicando uma fome desejando ser saciada. E que ele estaria desejando o seu retorno ao trono enquanto sofre nas entranhas da Terra, pois o tempo não o incomoda. O que sim, é verdade.

Goya_saturno-devorando-seu-filho

Trecho

“— Por que está aqui?
— Eu vim com o meu amigo ali — apontei para Biel que abria a boca enquanto uma dançarina loira com os seios à mostra descia seus quadris em sua face.
— Ele está aproveitando o lugar.
— Sim, nós estamos aproveitando o lugar.
— Não sei, você não me parece muito feliz.
— E por que você acha isso?
— Você só está abrindo sorrisos para mim.
Engoli a seco.
Vi em seus olhos algo que só reparei naquele momento.
Foi no exato momento em que uma stripper entrou no palco cuspindo fogo. Um espetáculo de pirotecnia que deveria acender os corações de pervertidos e tarados e o propósito final era esvaziar seus bolsos tão rápido quanto o fogo se dissolvendo ao ar.
Percebi quando a luz da labareda de fogo lançou um brilho nos olhos de Suzana que havia duas pérolas negras no lugar de suas pupilas.”

Trecho de Simplesmente Complexo (Capítulo Quatro Aneurisma)

 

Disponível nas livrarias: Martins Fontes, Saraiva, Loyola, Cultura e muitas outras.

Trecho

“-Valeu por tê-lo distraído.-Biel apoiou sua mão em meu ombro.
A música da festa aumentava ao invés de diminuir o volume. Não respeitava os vizinhos que deviam estar acostumados com a balbúrdia que Tiago patrocinava.
-Distraído?
-É velho, valeu por ter me ajudado. Ele é um grude com a irmã.
-Biel, você e ela…, onde você estava?
-No banheiro.
-Com ela?
-Uhum.
-E você me apresentou a ele porque eu conheço mais sobre física do que outros e ele ia ficar distraído com a nossa conversa!?
-Uhum.-Biel bebia a cerveja e ria discretamente.
-Enquanto isso você estava transando com a irmã dele?”

Trecho de Simplesmente Complexo (Capítulo Cinco Ínsula)

 

Disponível nas livrarias: Martins Fontes, Saraiva, Loyola, Cultura e muitas outras.

Trecho

“Desejava que tudo parasse de alguma forma. E o que fiz foi inalar mais uma grama dividida em quatro grossas carreiras. Como não tinha alguma nota em minha carteira, inalei direto pela ponta do orificio nasal esquerdo.
Quando preparei mais quatro carreiras a minha tosse fez perder o equilibrio e deixei a carteira cair fazendo o pó se espalhar no chão.
Ao encontrar um caixa eletrônico dei dois socos na máquina. Uma atitude estúpida, mas eu estava delirando. Quando piscava sentia sombras de pessoas passando à minha frente, sendo que na verdade ninguém estava próximo.
O monitor do caixa eletrônico indicava que havia somente notas de cem.
Eu saquei quinhetos reais. Não tinha a pretensão de gastar aquela quantia, mas eu era rico e podia esbanjar como bem entendesse.”
-Trecho de Simplesmente Complexo (Capítulo Sete Cocaína)

Disponível nas livrarias: Martins Fontes, Saraiva, Loyola, Cultura e muitas outras.