Apenas na Teoria

“Mas é apenas teoria”, disse um amigo a mim há muito tempo enquanto um pouco da espuma do chopp ficou em seu projeto de bigode.
Já eu estava com aquela barba volumosa, da qual sempre vinha um amigo que dizia em tom zombeteiro dando um tapinha nas costas: “Converteu-se ao islamismo? Lembre-se que sou amigo e não me exploda”
Sob os efeitos etílicos não captei o que ele quis dizer de imediato. Em poucos segundos um pensamento percorreu os campos de minha mente como uma lebre fugindo de cães como naquela disputa cigana do filme de Guy Ritchie.
Teoria é algo puramente especulativo se dito imediatamente. É a manifestação de uma ideia cuja natureza não precisa existir de fato.
E então imaginei se ele iria iniciar uma discussão sobre teoria da gravidade, da evolução ou da conspiração.
N.D.A.
Enquanto bebericava sua bebida ele complementou a sua frase que se iniciou com a preposição contraditória. Passou a falar de teoria literária, e não lembro como chegou àquele assunto.
Na época eu não havia publicado o meu primeiro livro. Tinha apenas engavetada a trilogia fantástica Mundo Irreal que recebeu trocentas recusas de editoras. E confesso que naqueles anos eu resumia as minhas leituras no panorama mainstream, e sim, ia de Dan Brown a dramas pós onze de setembro e um romance espírita (jovens adoram experimentações, não?).
“E aí, não acha?”, indagou para mim.
“Sei lá. Não entendi o que você quis dizer”, e as risadas dos presentes na mesa daquele bar indicaram que o meu tom foi de deboche.
“Pô cara, não é você o escritor entre nós?”
“Não me enche”
“Teoria literária. Não podemos fugir dos conceitos acadêmicos”
“Nunca disse o contrário”
“Tá bom…, por que você não faz Letras?”
“Não me interessa. Gosto mais da área de exatas”
“E quer ser escritor?”
Enquanto os outros presentes começaram a discutir sobre as leituras obrigatórias na época da escola criei uma bolha para refletir sobre o que ele disse.
Cogitei a ideia de seguir o caminho sugerido. Cursar Letras? Podia ser vantajoso em termos de agregar qualidade ao modo de escrita e até para abrir as portas de uma editora. Mas não podia excluir as perspectivas profissionais, eu precisava comer e sustentar a casa, a minha família não era rica e não tinha o privilégio de ficar me aventurando de curso em curso até me “encontrar” como diversos amigos fizeram.
Ou então Jornalismo. Foi um tipo de curso que me atraiu mais. Porém, não tive coragem de me adentrar nesse meio.
Os anos fluíram com uma pressa sem igual. E recentemente me deparei com um vídeo no Youtube de uma aula sobre Teoria Literária da Universidade de Yale. E então, assisti à introdução, filmada diretamente da sala de aula, com um professor de cabelos grisalhos.
Diante do conteúdo discorrido eu tive a sensação de que se tivesse assistido aquilo anos antes teria desistido nos primeiros minutos. Não sei a razão lógica de tal sentimento, talvez porque era sou ansioso. Mas tenho certeza de que teria abandonado o curso, se não no início imediato teria sido no segundo semestre.
Assisti aos vídeos e aprendi algumas coisas interessantes. Não posso? Quem há de dizer que um escritor não pode amadurecer?
Ninguém.
A publicação de meu primeiro livro foi uma experiência filha da ansiedade, do simples desejo de ser o autor com o autógrafo mais esgarranchado e a simples vaidade de ser reconhecido pela criatividade. Na época não me preocupava com técnicas de escrita, percepções literárias, consciência artística ou coisas do tipo.
Hoje não levo todos os ensinamentos ao pé da letra, de forma sistemática. Mas consigo filtrar o que pode tornar a forma narrativa melhor. Desde a sustentação de uma trama que intrigue ou das pilastras que sustentam a estrutura de motivação de um personagem.
Escrevia irresponsavelmente, negligenciando os diferentes tipos de leitores que poderiam absorver as histórias.
Ao publicar o meu segundo livro percebi o quanto amadureci. Acumulei um conhecimento maior sobre a área literária e o mercado editorial das terras tupiniquins. Soube dos formatos digitais e tive opiniões adaptadas a esse novo conceito.
Outro dia li um estudo de um estudante de Letras sobre a literatura contemporânea. E novamente tive a impressão de que se fosse o árabe de anos atrás não teria passado do prefácio.
Lembrando daquela noite no bar, tive aquela sensação de que se tivesse acatado à sugestão poderia ter aprendido muita coisa, mas que tudo seria despejado naquele espaço abandonado da mente, ficando apenas na teoria.

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