Sim, o título não é uma saudação amistosa. Aliás, sim, você, pessoa leitora, é bem-vinda aqui nesse espaço de escritos largados, sempre ficarei feliz com sua visita, por ter cedido tempo e curiosidade em dar uma espiada o que esse escriba resolveu postar. No entanto o título é uma provocação direcionado a um não humano, fruto do desacordo oriundo de um e-mail recebido na segunda(22/06/26) sobre a nova ferramenta de tradução automática amparada por Inteligência Artificial da plataforma Kindle, do bilionário careca que não desembolsa alguns dólares para melhorar o capenga streaming do Prime Video. Foi disponibilizado o Kindle Translate, na plataforma de auto-publicação de ebooks, e que nas palavras deles “permite aos autores traduzir seus eBooks elegíveis para vários idiomas e compartilhá-los com leitores em todo o mundo”. Seria lindo, se a ferramenta não fosse outro zumbi de IA sendo empurrado goela abaixo dos pobres artistas literários independentes. De bate e pronto lembrei da piadinha de tradução: Original: “—Thanks. —You are welcome.” Tradução: “—Grato. —Você é bem-vindo.”
E você irá dizer, mas pô, as traduções não funcionam mais de forma literal assim palavra a palavra. Sim, eu sei, há toda uma estrutura sofisticada de expressões regulares em subcamadas de chaves e redes neurais de contexto, com textos fragmentados em parágrafos treinados em modelos de aprendizagem de máquina embasado em muita álgebra linear e etc e etc, tô ligado galera, sou programador e me arrisquei em pós em Ciência de Dados.
Não dou o mérito da discussão da eficiência da ferramenta, se ela terá êxito em entender uma externalização informal de diálogo: “Ôrraa, coé fióti di fubangaiada vumitada”. Ou então se conseguiria trespassar semântica e níveis maiores do: “He smells Old Spice”, cuja tradução literal perderia valor de sentido se fosse “Ele cheirava a Old Spice”. Esse último exemplo foi extraído de um vídeo que vi sobre as nuances e desafios de se traduzir o livro Graça Infinita. Ou então, imagine a frase de outro diálogo: “—Me dê uma mão aí.” Em que o resultado final gere a tradução esquivando-se da frase literal: “—Help me here.” Mas que após várias trocas de falas, em artimanha textual descobrimos que a pessoa estava caçoando descaradamente de outro personagem que nos é revelado ao final da página que não possui um braço, ou que, três capítulos atrás já nos fosse introduzida a deficiência de um e personalidade sarrista do outro, justificando a permanência da frase literal.
Poderia alongar essa postagem com diversos exemplos em que paira dúvida do êxito da ferramenta. Porém, o meu ponto de desacordo dessa joça não é competência, e sim, consciência. Não uso e nem pretendo utilizar agentes de IA gerativas para meus escritos, pois, se eu não consigo ou gosto de escrever, por que alguém deveria gostar de me ler? Prefiro mil vezes um texto meu ruim, medíocre e recheado de erros e incongruências, do que um texto impecável gerado por um “não-eu”. Da mesma forma não pretendo habilitar essa zombIA para traduzir os meus escritos, eliminando a existência dessa figura humana do tradutor, que assume um papel de segundo autor da obra, com zelo e olhar atento na melhor reprodução do idioma original. No que depender de mim, nesse processo independente, haverá um ilustrador humano para a capa, haverá um diagramador humano e se desejar ser lido pelo mundão, haverá também um tradutor humano nesse processo.
Obviamente uma imagem não gerada por IA: Torre de Babel, por Pieter bruegel, 1563
“Alma da minha alma”. O autor dessa frase é Khaled Nabhan, cidadão palestino de Gaza, ela foi proferida enquanto abraçava em seu colo o corpo morto de Reem, sua neta de cinco anos, vítima de um bombardeio israelense. Em 16 de dezembro de 2024, Khaled também foi morto por um bombardeio israelense, somando aos mais de 45 mil humanos mortos (e contando…), sendo 17 mil apenas crianças. Todo ano deixo claro que a retrospectiva é somente sobre coisas boas. Mas acho injusto ignorar o que ocorre em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano. A frase de Khaled é puro amor de um avô ante ao corpo ceifado de vida por um governo racista e explorador como o de Israel. Em abril de 2024, durante minhas férias no México visitei o museu Memoria y Tolerancia, na Cidade do México. Além de ter as seções com os temas dos genocídios históricos mais famosos, como o holocausto perpetrado pelos nazistas, o dos armênios, o de Camboja e etc etc, o peso e a densidade de aperto no coração de ver todos aqueles registros foram eclipsados quando me deparei com uma obra exposta no vão entre andares, com várias esferas transparentes penduradas em fios. Ao ler a placa explicativa entendi que aquilo era uma homenagem especial às crianças mortas em genocídios, ficando suspenso no nada e perdido na história pessoas com futuros que nunca ocorreram, poderiam ser cidadãos com diversos potenciais, ou então nenhum, porque vida humana alguma não pode ser qualificada por potencial produtivo, não somos formigas.
Eternas Crianças (Vítimas de genocídios)
Livros
No Rastro de Enayat (Iman Mersal; Trad. Nisrene Matar): Não é uma biografia, é um trabalho de investigação de interesse histórico-sócio-cultural, de rastreio de um sumiço injusto da história de uma autora egípcia. Me alegra a concepção dessa obra pelo fato de ser escrito por uma mulher árabe, ter vencido prêmio árabe e traduzido para o português pela querida Nisrene Matar. Uma densidade original de vozes que clamam pelo lugar ao mundo. Os Grandes Carnívoros (Adriana Lisboa): Prosa deliciosa que desloca no tempo enquanto trata de exílio, redenção e anseios do passado ante a protagonista que é ativista ambiental. A violência humana no páreo como encruzilhada da noção de pertencimento da natureza coletiva. Pangeia (Mariana Basilio): Um atlas poético, partindo da noção do título, do continente único dos primórdios do mundo ainda sem humanos, uma construção literária que enquadra a humanidade na “etimologia do ser”. Em “Nós Não Somos Números”, impossível não se emocionar, principalmente pela noção de ser homenagem aos mortos de Gaza da recente barbárie perpetrada pelo estado de Israel. Os Despossuídos (Ursula K Le Guin; Trad. Susana L. de Alexandria): A genialidade de Ursula não é somente tratar argumentos científicos, sejam hard ou soft, da especulação do gênero da ficção científica, ela é sim muito boa em pincelar a estética e tudo o que é necessário numa obra do tipo, mas o grande tchan é o quão magnífica ela saber sustentar as questões sociais e culturais com importância que eclipsam qualquer “exatas comum” de outras grandes sagas. Leitura obrigatória para quem só leu o ABC (Asimov, Bradbury, Clarke) da ficção científica. Iluminações (Alan Moore; Trad. Adriano Scandolara): Uma confissão, desse livro de contos não li o “Lagarto Hipotético”, tentei por duas vezes, mas a leitura não fluiu, e abandonei. De resto, todos os outros contos são sublimes, “Local Local Local” é um apocalíptico hilário. E o “O que se pode saber a respeito do Homem-Trovão”, que tem o tamanho de um romance é uma bela composição discreta (nem tanto para entendedores) da história da indústria dos quadrinhos com toda a angústia sentida pelo genial autor que sofreu nesse meio, sendo um artista transgressor que abandonou de vez esse mundo e vive dando a letra de como é nocivo adultos cultivarem idolatrias doentias a personagens criados há quase um século para entreter crianças e a classe trabalhadora.
Pangeia
Enfim li Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, ou seja, completei a leitura de ao menos um livro por autor do tal Big Four do cânone americano definido pelo crítico Harold Bloom, ou seja, grande matéria fecal, mas, enfim, adorei o livro e o talento de Cormac para uma trama sombria e sanguinária. Gostei muito de Búfalos Selvagens, da Ana Paula Maia, fechando uma trilogia iniciada com Enterre Seus Mortos. Será a última vez que leremos Edgar Wilson?
Filmes
Duna 2 deu sequência ao épico, uma bela experiência ter assistido no cinema, mesmo não sendo perfeito (algumas problemáticas de edição e algumas cenas de ação mano a mano parcas). Sociedade da Neve (La sociedad de la Nieve) é um ótimo relato do famoso acidente que forçou os sobreviventes a atos de canibalismo com os corpos dos companheiros e amigos mortos.
O pódio fica para: O nacional Ainda Estou Aqui, dirigido de forma bela e angustiante por Walter Salles com ótima atuação de Selton Mello e a perfeita Fernanda Torres e sua mãe Fernanda Montenegro. O japonês Godzilla Minus One que encantou em mim a criança fã de kaijus. Genial a trama ser posicionada em um período recente do pós-guerra, tão traumático para o povo japonês.
Zona de Interesse de Jonathan Glazer, diretor esse de vários videoclipes que adoro, como Karma Police do Radiohead, Rabbit in your Headlight do Unkle, Virtual Insanity do Jamiroquai, para citar alguns. O filme é um retrato sombrio da banalidade e desfoque de uma família/sociedade/cultura ante a barbaridade que foi o holocausto. A abordagem de não mostrar uma morte em cena elaborada e ainda assim deixar claro que do outro lado do muro há um lugar de total anulação da vida humana. E o discurso corajoso do diretor Jonathan Glazer no Oscar, que mencionou o que ocorre em Gaza, sim, um genocídio, e que continha sendo documentado e transmitido em tempo real aos olhos do mundo.
Zona de Interesse
Menções honrosas: Guerra Civil (Civil War), Rebel Ridge (ação heróica massa), Alien Romulus (ótima sessão da tarde), Jurado Nº 2 (Juror #2), Furiosa Uma Saga Mad Max., A Substância (The Substance).
Séries
Shogun veio com a promessa de ser minissérie, porém, o sucesso forçou a renovação para mais uma temporada. Eu, que amei ler os livros de Musashi e apreciador de histórias da época dos samurais que povoavam aquela ilha do pacífico, adorei os episódios com produção de arte belíssima, com o ator Hiroyuki Sanada fazendo o papel de sempre, e com a trilha sonora (novamente Atticus Ross). Únicos defeitos seriam o ator “branco” Cosmo Jarvis, que tem uma cara de cachorro pidão o tempo todo, e os falhos diálogos “Now we are speaking portuguese”.
Ripley. Andrew Scott é ótimo como o vilão Moriarty de Sherlock Holmes ou como o padre de Fleabag. Mas é na pele de Ripley que o ator e personagem expõe seu talento. Bela fotografia, um P&B como pouco se vê, e com as tensões que se espera de um malandro tomando lugar em finos e clássicos ambientes italianos. O Problema dos 3 Corpos (americana e chinesa). Sim, assisti as duas versões. A versão estadunidense é produção original Netflix pelas mãos dos mesmos de Game of Thrones. A versão chinesa contém mais episódios (trinta), e está na faixa no Youtube, com legenda em inglês (bora treinar). Ambas são ótimas adaptações dos livros do autor chinês Cixin Liu que é um expoente na ficção científica global. Curti bastante a versão chinesa pelo ritmo diferente e com destaque maior pelos assuntos tratados na trama, a qualidade em alguns momentos lembra uma novela, e isso não é demérito algum, pelo contrário, deixa a experiência da empatia aos personagens mais palpável. A cena do navio das duas versões, mesmo que tratadas de formas diferentes, foi uma das melhores “ações-absurdas-audaciosas” que vi nos últimos tempos.
Industry foi a minha preferida, iniciei o acompanhamento da série pouco antes da terceira temporada e feliz por terem anunciado uma quarta, embora o episódio final ter focado em resoluções do principais arcos dos personagens. Ansioso para ver se segurarão a bronca, e de ver o povo problemático do mercado financeiro ampliando as escrotices de suas vidas.
Shogun
Menções honrosas: Pinguim, Senna, Sr. e Sra. Smith (Wagner Moura reinando lá fora), Cem Anos de Solidão (Cien años de soledad) em que Gabo ficaria feliz com a adaptação e a boa surpresa Entrevista Com Vampiro (Interview With the Vampire), Fargo (5ª temporada, mais próxima cronologicamente e em termos de realidade)
Música
Não utilizo o Spotify para ouvir músicas, então não posto a retrô como meio mundo faz no fim de ano. Assim, costumo apelar para a memória mesmo do que rodou mais no repeat (esse é o critério mais importante) durante o ano. E daí eu removo coisas como “música-lançada-há-10-anos” em Slow and Reverb ou 100 bpm Plus HQ Multi Compress, e artistas reais (evito IA) tocando músicas e hinos famosas em outros estilos, ex: Personal Jesus in Negative (a original do Depeche Mode no estilo de Type O Negative).
Top 7 do MMO: The Dandy Warhols, com o magistral álbum Rockmaker. As faixas Danzig With Myself, I’d Like to Help You With Your Problem e Teutonic Wine foram as que mais ouvi nesse ano ligeiro ano de 2024. As duas primeiras contém as participações de Black Francis (Pixies) e Slash (um dos deuses da guitarra pelamor) respectivamente. Pearl Jam com Dark Matter. Eddie Vedder é o que sobrou dos grandes do Grunge e ainda produz coisa boa. Upper Hand é maravilhosa. Justice com HYPERDRAMA. O defeito da música Incognito é que ela acaba. Childish Gambino com Atavista. Enfim Donald Glover conseguiu superar o hit This is America com esse álbum xuxu beleza. Final Church tocou no mínimo 100 vezes. The Cure com Songs of a Lost World. Robert Smith fez valer 16 anos por um trabalho decente, com a identidade da angústia do passado em cerca de cinquenta minutos. Glass Beams com Mahal. O grupo indo-australiano liderado pelo produtor Rajan Silva mescla as concepções musicais ocidentais com fortes notas orientais. O álbum curto instrumental é bem relaxante. Kokoko com Butu. Kokoko é uma banda da República Democrática do Congo, não são somente uma banda eletrônica experimental com referências africanas, mas também se destacaram por usar muitos instrumentos caseiros feitos de sucata e captados do lixo. Em dezembro fui ao show deles no Sesc Paulista, depois de um hiato sem ir a shows, e curti pracas. Sugiro começar a ouvir por Salaka Bien e depois degustar tudo o que fizeram nos últimos anos.
ROCKMAKER
HQ (Gibi para os mais íntimos)
Os Filhos de El Topo, com roteiro de Alejandro Jodorowsky e arte de José Ladrönn. Jodorowsky não só dá autógrafos em nome de Paulo Coelho (pesquise esse causo), ele também mantém sua criação artística pulsando mesmo na alta idade, e nesse ano aqui em terra brasilis lançaram esse gibi cuja trama é a continuação do filme mexicano El Topo, escrito, dirigido e protagonizado pelo próprio Jodô em 1970. Que cores e traços lindos que o artista Ladrönn empregou e que papel e gramatura gostosa e sublime que a editora Comix Zone dedicou nessa edição br.
Os Filhos de El Topo
Documentário
Hayao Miyazaki e a Garça (Hayao Miyazaki and the Heron). Esse documentário acompanha em pouco mais de duas horas o projeto e trabalho do renomado diretor e artista Hayao Miyazaki que encantou e continua encantando a infância de milhões com seus animes belos e introspectivos, durante a produção de sua útima animação: O Menino e a Garça (The Boy and the Heron). Gostei bastante desse documentário que acompanha o cotidiano de forma intimista, mas creio que talvez seja legal ter uma postagem somente sobre ele acerca das minhas impressões. Mas não prometo nada.
Costumo seguir uma linha pacifista e menos violenta, não por motivação religiosa, o mais correto seria por definição filosófica de um conceito humanista e ideal (certamente utópico) da pureza racional. Mas não posso fingir que não me deleito com os ruídos internéticos que se proliferam acerca do ocorrido em Nova York pelos pipocos que o jovem Luigi Mangione deu em CEO milionário de uma empresa de seguros de saúde que declinavam de forma indecente coberturas de procedimentos de pessoas que pagavam por aquilo, mas não usufruíam quando mais precisavam.
Luigi vs CEO pilantra
Por um 2025 mais próspero, com justiça e paz. Ma’a Salama!
Amigo meu que mora em Praga além de me dar a satisfação de ser lido na Europa (deixa eu superestimar meu sucesso como quiser), também deu alguns retornos quanto ao meu último livro publicado, a coletânea de contos Quase Mortes. Com críticas positivas e um papear sobre significados, simbolismos e as conexões com minha vida pessoal, também foi destacado um ponto que destoava no entendimento da conclusão do conto intitulado Máximo de Culpa. No livro físico, na página 64, as duas últimas linhas não fazem parte do conto Máximo de Culpa. É, na realidade, um microconto, que deveria estar em uma página única, assim como outros que há no livro, como por exemplo o microconto “Buraco” ou “Batalha Final”. Portanto, saiba que o conto Máximo de Culpa conclui com a palavra “patente”. As duas últimas linhas da página 64 devem ser entendidas como um microconto composto por duas falas, sendo a primeira o título do mesmo: “Sabe com quem está falando?”.
Se um dia houver uma segunda edição de Quase Mortes (deixa eu subestimar meu sucesso como quiser) esse erro não existirá.
Estou aberto a retornos acerca da leitura. Não se acanhem. Podem elogiar, criticar, questionar e apontar o que considerar discutível. Agradeço de antemão se puder avaliar Quase Mortes na Amazon, mesmo que não tenha comprado por lá. Isso ajuda bastante um autor independente.
Findo 2023. Triste final de ano para a minha terra (sou palestino nascido em Jerusalém, para quem não sabe), acometida no último trimestre por um evento violento, com práticas genocidárias aos olhos do mundo (no ataque e na represália), em tempo real e com a atmosfera da impotência a depreciar a alma dia a dia. Para quem segue o site aqui, já sabe que posto somente as melhores coisas, ou boas. Mas o bloco que inicio, que é o de leituras vai para um livro importante para tudo o que está acontecendo: Meu Nome é Adam, de Elias Khoury. O livro é uma reconstrução da memória do Adam do título, nascido na Nakba (catástrofe palestina), e perpassa o massacre de Lidd, um dos muitos vilarejos que sofreram extermínio no início da ocupação israelense. Muitas histórias de 1948 foram caladas por décadas, ocultas em narrativas que lutam para ganhar luz. E esse romance é triste e belo em retratar essa memória de dor, de luta e esperança. Tradução de Safa Jubran.
Meu Nome é Adam
Onde Pastam os Minotauros, de Joca Reiners Terron. Um abatedouro de bois especializado em halal (selo acordado de práticas ligadas à lei islâmica) no interior do Mato Grosso, com fábula do minotauro pelo ponto de vista dos bois e minotauros. Há palestinos em um paratexto intercalado com outros paralelos, seja na matança pelo consumo amparado pelo capitalismo sanguinolento, seja pelos labirintos das noções que temos de nossos meios para sobreviver na esperança de um dia o mundo ser um lugar mais… justo.
Roxo, de Andréa Berriell. Fazia tempo que não lia um romance policial tão bom. E não é somente um romance policial, é uma narrativa envolvente que segundo muita gente comentou nas redes: “Daria uma bela temporada de True Detective”. Andréa Berriell transita entre passado e presente na trama com ótimas referências textuais e visuais que vão além da cor título.
Vou Sumir Quando a Vela se Apagar, de Diogo Bercito. Yacub e seu melhor amigo Butrus trabalham numa vila precária e rural síria. Há a saga de um jovem sírio que vem ao Brasil dos anos 1930. Algo que me fez refletir sobre as vivências de meu avô mascate que veio da Palestina para as terras brasileiras em décadas posteriores a da história, mas que provavelmente com muitos pontos a se imaginar sobre choques culturais. É uma história sobre amor, tragédia, distância e escolhas, muitas escolhas. Escolhas essas que são como um dedo a passar rente a chama de uma vela, transitando em dualismos, seja no Oriente-Ocidente, Real-Fantástico, Vou-Fico, Aceitação-Culpa. E tem um Jinn no meio de tudo isso.
Corpo Desfeito, de Jarid Arraes. É com uma técnica invejosa que Jarid conta a história de Amanda, que sofre pelas mãos de quem deveria ser seu porto seguro. Leitura que flui com uma facilidade sem perder o charme, fez um homem barbudo relembrar a atmosfera dos anos 90 e empatia por uma personagem sofrida.
Mil Placebos, de Matheus Borges. A internet, ah, a internet. O que há na internet, e em nós mesmos nessa era multiconectada? Mil Placebos é uma ficção científica, não somente do nível “Tudo tá sendo FC agora”, mais ou menos como a epígrafe de JG Ballard que tá no começo do livro. Mil Placebos é do tipo de livro que acho melhor a pessoa se arriscar a ler sem saber muito, sem ler a sinopse e ir somente no “vai que é sucesso”. Ah, aparece um palestino lá pelo meio.
A Telepatia Nacional, de Roque Larraquy. O argentino Roque Larraquy é engenhoso no trato que dá ao mostrar o tráfico de indígenas para o projeto de um parque etnográfico, ou zoológico humano, na Buenos Aires dos anos 1930. E para que o absurdo não pare aí, há um objeto trazido pelos indígenas que possibilita um evento telepático. E tem um senso de humor de um nível que não esperava da terra dos hermanos. Tradução de Sérgio Karam.
Das séries que tiveram suas últimas temporadas, vou sentir muito a falta de Succession. E também de How To With John Wilson. Velho demais para Morrer Jovem (Too Old To Die Young) foi uma surpresa caçada, dirigida pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn. Pesado. Algo leve e que garante boas risadas é Na Mira do Júri (The Jury Duty), em que há toda uma estrutura de tribunal e julgamento encenada para enganar apenas uma pessoa que pensa que tudo é real oficial. Planeta dos Abutres (Scavengers Reign) é uma série animada que mostra um grupo de trabalhadores espaciais “naufragados” em um planeta inóspito, com uma natureza tão mortal quanto bela. Ao que parece é a melhor coisa que a HBO (ou Max) lançou de novidade nesse ano. Corpos (Bodies), foi uma minissérie bacaninha de ficção-científica envolvendo viagem no tempo.
Esse ano foi o que parei para assistir a uma indicação que um amigo fez na faculdade 15 anos atrás. E então assisti o anime Monster do criador Naoki Urasawa. Achei genial. E fui pego de surpresa quando a Netflix lançou Pluto, outro anime de Naoki Urasawa. Uma minissérie que mostra um futuro em que humanos e robôs convivem com leis regendo suas vivências. A trama aborda as discussões que lembram Blade Runner, mas focando em um drama que vai ter paralelos com acontecimentos do mundo real (Guerra do Iraque pelas mentiras criadas pelos EUA) com o universo especulativo de lá (Guerra do Reino da Pérsia pelas mentiras criadas pelos Estados Unidos da Trácia).
Mas a série campeã foi Treta (Beef). Um desentendimento no estacionamento acaba gerando um ódio entre Amy (Ali Wong) e Danny (Steven Yeun) que percorre os 10 episódios que vão além de uma perseguição de gato e rato. Falar mais que isso é entregar spoilers irresponsáveis. Ainda bem que não dirijo, e tenho a terapia (self-med-abs) em dia.
De HQs pouco consumi. Mas As Muitas Mortes de Laila Star, de Ram V, foi a melhor aquisição e leitura. O desenlace da deusa da morte do hinduísmo ser demitida após o nascimento do deus que viria a inventar a imortalidade, e as reencarnações dessa demitida tentando se recolocar no mercado de trabalho com a tentativa de impedir que a pessoa nunca invente a tal da imortalidade, tudo é feito com uma sensibilidade, com homenagem cultural, e com cores e traços muito fodas que não via há tempos.
Se teve um documentário que merece respeito e é uma obra de noção da memória e da preservação da arte é Retratos Fantasmas de Kléber Mendonça Filho. Tem a visão pessoal e intimista sobre o uso da casa que sua mãe construiu como cenário de suas produções. Tem mapas nostálgicos de uma Recife mágica onde povoa uma cultura incessante. Tem um projetista que enjoou de O Poderoso Chefão (The Godfather) e viu vantagem quando fardados da ditadura chegaram para encerrar o cinema: “é bom que vou largar mais cedo”. Ah, e tem um cabra que fica invisível. Uma pena que a Academia do Oscar não o considerou como indicado.
Todo um auê por Barbie e Oppenheimer que uniu a internet para infinitos memes, e sim, os filmes são bons, mas também superestimados diante de todo esse auê. Os meus favoritos desse ano: Piscina Infinita (Infinity Pool), dirigido por Brandon Cronenberg (sim, filho daquele Cronenberg), que tem a Mia Goth em outro papel de doida. Os Banshees de Inesherin, com a dupla Colin Farrel e Brendan Gleeson que repetiram a dinâmica belíssima que já tinham feito em Na Mira do Chefe (In Bruges). Nesse filme com um humor bem irlandês vemos uma amizade que se transforma em um duelo de ódio. Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon), o último do Scorcese com o DiCaprio e DeNiro é um resgate histórico sobre o povo Osage, de sua sorte em descobrir petróleo em sua reserva, e do azar do homem branco se levar pela habitual ganância e o extermínio ignorado. Há uma menção rápida ao massacre de Tulsa, que sugiro uma pesquisa sobre o acontecimento que também é de pouco conhecimento (abordado na série Watchmen). Scorcese foi mestre em não transformar a história de Assassinos da Lua das Flores em uma mascarada ode aos símbolos americanos, creio que outro diretor poderia dar toda luz na narrativa focada no “surgimento do FBI”.
Menções honrosas para: Clonaram Tyrone (They cloned Tyrone), que foi subestimado. Tár, da Cate Blanchet sendo a artista gênio cujo umbigo é o centro do universo. El Conde, do diretor chileno Pablo Larraín, que reimaginou o Pinochet como um vampiro e que assim sendo, não morreu em 2006. Beau Tem Medo (Beau Is Afraid), em que Joaquim Phoenix está ansioso (e com medo?) a vida inteira (umas 3 horas). O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind), do diretor Sam Esmail, que fez uma das melhores séries da história (Mr Robot), num panorama apocalíptico. Ah, o filme é produzido pelo casal Obama.
Em se tratando de música fui um tiozinho bem agarrado ao passado nesse ano. Mas posso destacar o ótimo trabalho de Tyler the Creator: Call Me If You Get Lost: The Estate Sale. Um rapper que me fez gostar da música Wharf Talk e Dogtooth, grande indicativo de que o cara é bom. Sem dizer na ótima Sorry Not Sorry, com um clipe que mostra suas versões artísticas em uma reflexão com possíveis culpas.
Mas Tyler merece também um puxão de orelha. Agora em dezembro lançou um clipe para divulgar a sua marca de roupas utilizando uma música brasileira na íntegra (Duplo Sentido performado por Tetê da Bahia; cujo compositor é Gilberto Gil). A encrenca se dá pelo fato de não ter mencionado/creditado/combinado os direitos com os produtores. “Why you puttin’ bad vibes in the?”
Ah, e não menos importante, lancei novo livro esse ano: Quase Mortes. Uma coletânea de contos com o tema morte em suas objetividades e subjetividades nos mais diversos gêneros.
Você pode comprar a versão impressa aqui. E o ebook também está disponível aqui.
Na esperança por um 2024 com mais justiça, humanidade e paz. Ma’a salama!
Findo 2022. Quem não sofreu de ansiedade não viveu esse ano direito. Da parte de minha carreira (quase anônima) literária optei por não publicar esse ano. Tive uma boa experiência nos dois anos anteriores com o KDP e ótimos retornos de leitores Brasil afora, mas decidi administrar o até então por enquanto. Não será um hiato, é mais uma reavaliação das pouco mais de 250 mil palavras publicadas. Dito isso, parto abaixo para a retrospectiva do que consumi artisticamente (todo entretenimento que me convém) filtrado pelo seu melhor.
De livros clássicos tive a oportunidade de conhecer Ursula K Le Guin e me encantar com sua prosa em A Mão Esquerda da Escuridão. Dei uma segunda chance para o Gabo e concluí Cem Anos de Solidão. Li um Pynchon, foi o Leilão do Lote 49. Lerei outra coisa dele? Não tão cedo. De amigos contemporâneos pude ler de Fábio Fernandes o Love Will Tear Us Apart com a experiência hipnótica de Ian Curtis. Adquiri e li também o mais recente do Cirilo Lemos, o Estação das Moscas, que acompanha crianças em Nova Iguaçu nos anos 90 brincando nas ruas e redondezas e seu personagem principal, o Jona que depois se torna Jona Abscura ao ter que enfrentar uma criatura maligna que não tem mais o que fazer. No ano em que as 5 finalistas do prestigiado Prêmio Jabuti foram mulheres, também elenco aqui cinco nomes do que li: Irka Barrios por seu Júpiter Marte Saturno. Os contos preferidos foram A Letra A, Damião sob a Pirâmide e o Viúvas do Silo que merecia se tornar um curta. Socorro Alcioli por seu A Cabeça do Santo. Rico em realismo mágico e brasileiríssimo. Carla Madeira com seu Véspera, sensível e atordoante, das tragédias familiares e afetivas. Maria Fernanda Ampuero por seu Rinha de Galos. Com violência agregada em cada parágrafo. Natalia Borges Polesso por seu A Extinção das Abelhas. Distópico sensível e perturbador em uma prosa sofisticada e fácil de ler.
Júpiter Marte Saturno
Das séries foi um ano de fechamento de algumas que amava como The Last Kingdom e a deleitosa Better Call Saul, que foi uma prequela sensacional e bem costurada até emendar com a queridinha Breaking Bad. Além de um grande início: Sandman. Após décadas Neil Gaiman conseguiu transportar o senhor dos sonhos dos quadrinhos para a telinha. Mo, uma dramédia de um palestino vivendo no Texas e lutando por seu direito de conquistar a cidadania na terra da oportunidade. A britânica Slow Horses também foi um grande acerto da Apple TV. Com Gary Oldman dito em muitas sinopses como o “007 que não deu certo”. Foi um ano de quase fins. Pois Peaky Blinders deu a deixa para o tão comentado e possível filme com uma conclusão mais digna. The Crown que jurava que era a última temporada, fiquei feliz de saber que haverá outra. E Stranger Things que já deu, né?
Mas as melhores que ocupam o pódio são: Andor, que mostrou que a Disney às vezes cochila e os produtores conseguem fazer algo muito bom. É a prequela da prequela Rogue One, feita com dedicação ao cânone e com o zelo de contar uma história sobre rebeldia (Sim mimizento de direita, desde 1977 já existia os rebeldes, conviva com isso). Uma boa surpresa foi a série documental/primeira pessoa/cronista How To With John Wilson. Em que um carinha com uma câmera explora o dia a dia ianque em episódios curtos que mostram absurdos sem fim dentro da pauta em que se desdobra. Olha, se eu tinha dúvida de que Nova York tem doido ela foi sanada com essa série. Por sorte há uma nova temporada saindo do forno agora em dezembro 😊. Landscapers é uma minissérie com os sensacionais David Thewlis e Olivia Colman interpretando um casal estranho mediante um caso de homicídio. Mas a mais fodástica é a Ruptura (Severance). O tema casou muito bem em uma época em que a pandemia ainda faz parte do cotidiano mundial e as corporações passaram a vender muito o mote do benefício entre separar “vida pessoal da profissional”. Acho injusto lançar a sinopse aqui. Será mais proveitoso ir tão somente pelo meu gosto e selo de aprovação.
“Lá vem o RH falar sobre meritocracia e porque não terá PLR nesse ano”
De documentários achei interessante ter sabido que houve um Woodstock em 1999, pelo Desastre Total: Woodstock 99. Que teve bandas de rock da minha época de roqueiro expressivo, vibrando de maneira bem diferente do que foi a clássica e lendária Woodstock de 1969. E é lógico que a minissérie documental vai mostrar que deu errado esse festival, muito errado. Mas o que mais ressoou foi o Diários de Andy Warhol (The Andy Warhol Diaries). Essa minissérie documental narrada pelo próprio Andy através de uma inteligência artificial através de seus escritos de seu diário pessoal deu uma visão mais humanizada da figura icônica, cuja imagem que eu tinha dele era um tanto plástica demais. Toda a transformação da arte pop está lá com seus pares contemporâneos e suas desventuras e tragédias.
Expoentes da Arte: Andy e Basquiat
Única ida ao cinema foi para ver Elvis, dirigido por Baz Luhrmann. Um filme para o grande público, que cumpre o papel de mostrar os detalhes da vida do tal rei do rock com foco em sua tragédia pelas mãos de seu empresário picareta e manipulador Tom Parker. Boas surpresas com Speak No Evil e a estranheza da passividade de alguns povos europeus. Vengeance com uma história de mistério e construção artística que lembrou o meu livro A Melhor Parte da Mentira (escrito em 2015, e que um dia será publicado, ô se vai). Nada de Novo no Front (All Quiet in the Western Front) é o melhor filme de guerra do ano. Argentina 1985 é memorável, indica o erro do passado de não termos feito algo semelhante em terra brasilis. Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness) é a comédia que navega sobre a temática de conflito de classes. Titane é um ótimo body horror com uma desgraceira sem limites. A Mão de Deus (È stata la mano di Dio) é um ótimo italiano, Sorrentino saberá criar seu legado ao nível de Fellini. Uma das maiores expectativas e que por culpa da espera não chegou a ser um “dez” foi O Homem do Norte. Mas alto lá, é um filme nota oito. Com grande produção e ambientação do diretor de A Bruxa (The Witcher) e O Farol (The Lighthouse). Outra promessa que me deixou na expectativa foi Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everwhere All at Once). Mas esse superou a expectativa já alta. Tem ótimas e engraçadas atuações de Michelle Yeoh e Jamie Lee Curtis, em um enredo de ficção científica explorando o conceito de multiverso, que mesmo saturado no entretenimento, foi original e bem desenvolvido. Mas o primeiro lugar, deve ser para o 13 Vidas (Thirteen Lives), lançado na Amazon Prime, com Viggo Mortensen e Colin Farell nos papeis de dois mergulhadores que ajudaram no resgate de um time de futebol mirim presos em uma caverna na Tailândia. O enredo é sublime pela simplicidade de demostrar a trama ocorrida em 2018 e que foi amplamente acompanhada mundo afora durante a copa do mundo daquele ano, balanceado com os pontos de tensão reais, enquanto há uma enorme cooperação local e internacional pelo resgate quase impossível.
Menções honrosas: Bardo – Falsa Crônica de algumas verdades (Falsa Crónica de unas Cuantas Verdades), Glass Onion, A Tragédia de MacBeth (The Tragedy of Macbeth), Não, Não Olhe! (Nope), X – A Marca da Morte, Top Gun Maverick, Men, Mulher Rei (The Woman King), A Lenda do Cavaleiro Verde (The Green Night)
Respire fundo antes de assitir
De gibis (ou HQ se preferir) curti o Intempol – Agora, de Octavio Aragão. Com histórias diversas com roteiristas e artistas singulares, essa antologia mostra que temos uma ficção científica brasileira pujante. E que deveria ser mais valorizada. Fica a dica.
Intempol – Agora
Como bom ouvinte de rock, estou sempre mais atento a lançamentos desse gênero, então não pude deixar de ouvir os álbuns lançados das bandas Planet Hemp (Jardineiros), Slipknot (The End, So Far), Ratos de Porão (Necropolítica). Apesar de ter gostado desses trabalhos, o melhor desse gênero foi da banda alemã Rammstein com seu magnífico Zeit. Angst ficou no repeat por algumas semanas.
Mas a melhor coisa lançada para satisfazer os meus tímpanos foi o belga Stromae com seu Multitude. Stromae dominava as rádios no início dos anos 2010. Mas só nesse ano que me cativou com esse álbum e músicas como L’Enfer, Fils de joie e a minha predileta Santé.
L’enfer
Se pudesse resumir 2022 seria como a minha (única) ida a praia nesse ano. Por sorte as águas estavam numa temperatura excelente. Por azar as águas estavam muito violentas, transtornando um bom banho de mar, com ondas que golpeavam furiosas, forçando essa pessoa que não sabe nadar para fora. E foi assim mesmo esse ano, não foi ruim, mas o fim vem com grande alívio.
“Ainda bem que raspei o cabelo, não vai sair a calvície”
Na Era em que os Gárgulas Andavam é meu mais novo livro, publicado de forma independente em ebook pelo KDP da Amazon. Está com um preço (por tempo limitado) inaugural bem camarada: R$ 5,99 (Cinco reais e noventa e nove centavos). Para comprar basta clicar neste link: https://www.amazon.com.br/dp/B09HP4WMN2
Sinopse:
Dalileia, uma jovem marinheira, encontra no porão do navio de escravos um livro em branco. Livros não religiosos não podem ser lidos ou tocados. A escrava Annapuris indica que há um texto oculto no misterioso livro. Curiosa, Dalileia aceita a ajuda da escrava que consegue revelar o texto que desafia as regras da maior religião monoteísta contando outra versão da história. Pela leitura clandestina desbrava um passado fantástico repleto de aventuras e se simpatiza por um gárgula com o dom da cura, mas que até então era considerado uma criatura das trevas. E como parar quando a primeira linha já a condenou à perdição? “Esses são relatos de uma era em que os deuses eram insultados, reis caíam e os gárgulas andavam”
Em Na Era em que os Gárgulas Andavam são homenageadas a literatura, a ciência, a liberdade de pensamento, a ficção científica e fantasia.
Espero que goste dessa obra, está repleta de aventuras em um universo especulativo onde a fantasia e a ficção científica batem de frente assim como em minha obra anterior (Ouro é para os Fracos). Acompanhe a jovem marinheira Dalileia na descoberta de um mundo oculto. Torça pelo gárgula Rindovel envolvido em tramas políticas que envolvem grandes reinos. Viaje pelos domínios de ThuninVor, GaenBorn, LintsDam, MamoninGal, BastinVor, BalesqVor, CrontFenas, AstorGian. Prenda a respiração enquanto vislumbra lutas em arenas clandestinas, torneios contra soldados reais em labirintos mortais, fugas impossíveis, encontros com o Necromonte, sabotadores invisíveis e seres que se dizem próximos da maior divindade do mundo conhecido.
Na Era em que os Gárgulas Andavam
Embarque nas páginas dessa Rocky Saga e tenha uma boa leitura.
Se leu e curtiu o meu último livro publicado (a saber, Ouro é para os Fracos), peço aquele apoio camarada em votar no mesmo no Prêmio Le Blanc 2021.
O prêmio é organizado pela escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ) e a Universidade Veiga de Almeida (UVA). O nome do prêmio é uma homenagem ao artista haitiano André Le Blanc.
Para votar é muito simples, basta acessar o link abaixo e informar apenas nome e e-mail e o livro indicado na categoria.
[EXPIRADO EM 23/04/2021] AGRADEÇO DE CORAÇÃO A TODOS QUE VOTARAM :)
Esse texto não é sobre dicas de investimento, onde vou declarar que apesar de especialistas indicarem que o ouro é a onda da vez há um esquema de pirâmide, marketing multinível ou criptomoeda que vão de fato te garantir rios de dinheiro, e para isso bastaria um simples cadastro para uma apostila paga de um curso meu. Não. Esse post tem o intuito de ofertar não uma apostila, mas um livro. Enquanto “A Melhor Parte da Mentira” não sai, resolvi publicar de forma independente um romance de ficção científica e fantasia com ambientação árabe pela plataforma Kindle. E como gosto muito de você lhe informo em primeira mão que por tempo limitado está com um preço bem camarada: R$ 2,80 (Dois reais e oitenta centavos) —EXPIRADO EM 10/11/2020. Sim, o ebook estará com esse preço inaugural bacanudo devido a todas as crises que as terras tupiniquins vem sofrendo. Mas será por tempo limitado ( EXPIRADO EM 10/11/2020), e a atualização poderá dobrar ou até mesmo triplicar esse valor. Importante: esse valor está disponível no site brasileiro (amazon.com.br), em outros domínios aparecerá com o valor mínimo na moeda local. Sem mais delongas, segue abaixo a sinopse:
Arizz, um ex-pirata, convoca um grupo formado pelo espião ocidental Rogson, a meta-humana Udina, o mascarado Madnun e o alquimista Hamud para realizarem o maior roubo da historia valendo-se do dom de sua parceira Laila, que é o de ver o futuro. Ao convencer o grupo, Arizz antecipa que o alvo do roubo não é ouro, e sim algo que não é de conhecimento humano e existe de forma clandestina no mundo.
O que paga os meus boletos não são os (ínfimos) rendimentos de direitos autorais de meus dois livros publicados.
A minha ocupação oficial ainda é de TI, e essa, por sorte de me simpatizar, é o que mantém tudo em dia e as prateleiras cheias.
Desde que iniciei esse site sempre reservei as postagens para a carreira paralela da escrita, nunca foi o intuito misturar as postagens sobre livros, músicas, filmes, gibis, visitas a exposições com dicas e tutoriais de programação.
Porém, hoje (10/05), é o aniversário que completa uma década de atuação com uma tecnologia específica, e o mais concreto que posso chamar de carreira. E apesar de às vezes sentir cargas de neurose estressantes, levanto todos os dias com alegria por trabalhar com algo que gosto, e ter o retorno financeiro que permitiu realizar o sonho da casa própria e gerar confortos como o de sobreviver sem muitos perrengues uma pandemia mundial (até o momento).
A minha “carreira” literária ainda é apenas um passatempo e não paga uma mísera conta de luz, porém, é um sonho a ser conquistado do qual não desisti.
E apesar das carreiras serem opostas, com distâncias abismais, estava relembrando a música do Chico Science & Nação Zumbi conhecida como Computadores Fazem Arte, e a canção me fez pensar no quanto de arte daria para extrair nessa década trabalhando com uma tecnologia de uma empresa multinacional brasileira cujo sistema principal é utilizados por milhões de trabalhadores diariamente não somente em terras tupiniquins mas em vários países da América Latina e até Rússia.
Poderia criar minicontos sobre pequenos detalhes desses dez anos, desde o início acidental, cujo amigo não quis a vaga e ao me indicar não lembrava bem o nome da empresa contratante ou da mulher com quem falou e que eu, na época estagiário lutando para qualquer vaga CLT na área, correu no Google e ficou digitando as variações das partes dos nomes que ele lembrava até encontrar o site correto com a vaga.
Há histórias de um dia inteiro analisando fontes com mais de 20 mil linhas de código legado e no final descobrir que o erro era um ponto e vírgula que impactava em todo o processamento.
Noites viradas, escritórios escuros e vazios, sua alma única no andar inteiro no desespero para finalizar o job.
Debugs que não faziam sentido. Usuários que pegavam o erro na primeira ação na rotina que você jurava ser perfeita e sem erros. Gambiarras Contornos técnicos alternativos fora dos padrões das boas práticas aplicados nas mais variadas situações.
Deadlines injustos e chefias tirânicas.
Muitas histórias, talvez bem chatas se comparadas às aventuras vividas por seu amigo bombeiro, sim, é verdade…
Mas a arte que eu queria extrair como um profissional de TI não eram minicontos desses causos.
Tão menos os modelos, a indentação dos códigos, a documentação primordial e bem escrita nos comentários para o próximo, o melhor uso das estruturas de dados. Nada disso.
A conclusão que cheguei foi pensando como um engenheiro que constrói uma ponte.
Além da realização, há o trunfo de que tal trabalho gerou uma economia de tempo e recursos para pessoas que antes precisariam percorrer um caminho mais longo para chegar na outra extremidade.
Eram detalhes como o trabalho que uma gerente demorava de dois a três dias para realizar, e com o seu conhecimento e técnica ter criado uma rotina que otimizaria tudo em dez minutos com o esforço de apenas apertar um botão.
Criar um software, um simples programa de computador tem a mesma aura da criação de um artista, ela pode trazer emoções como felicidade e ódio (quem nunca xingou o sistema quando trava ou buga?), traz liberdade e aprisiona também (aqueles problemas que não existiriam se o sistema não tivesse calculado os impostos da Nota Fiscal incorretamente e o ajuste é manual).
Consigo computar cada centavo que essa carreira proporcionou ao meu bolso.
Mas é praticamente impossível saber o que proporcionou aos outros (ou stakeholders e users se preferir) no que diz respeito aos ganhos e perdas além do quesito monetário.
No refrão o Chico diz: “Computadores Fazem Arte, Artistas Fazem Dinheiro”.
Enquanto minha carreira de escritor não paga as contas em definitivo, sigo em paz com a arte que os meus terabytes proporcionaram na última década.
Não é a primeira vez que posto aqui algo que ativa a minha curiosidade quando o assunto é search terms (termos de busca). Demonstrei de forma nada modesta alguns termos que levavam desconhecidos até esse site, cujo domínio é o meu simples nome (a saber: Mohanad Odeh) Pois bem, mais uma vez venho aqui prestar esse serviço de autopromoção do meu trabalho criativo. Então, esteja avisado de que daqui pra frente o assunto pode ser interessante somente se você acompanha o que é postado nesse site.
A plataforma web que utilizo para administrar o site é gratuita e possui ferramentas úteis que permitem uma visão gerencial que atende as minhas necessidades. Um dashboard indica visualizações do site além das páginas acessadas, separando por períodos, visitantes e até países.
E além disso, há uma seção que indica as visualizações recentes e outra com termos recentes pesquisado em buscadores, seja Google, Bing, Baidu, Qwant, Yandex (sim, o Google não é o único deus) e etc. Muitos termos que aparecem lá já me arracaram risadas, pois é retrato do que acabam buscando nesses motores que conectam a vasta rede global compartilhada. E muitos que aparecem por lá, acabam por atiçar a curiosidade e saber qual página do meu site a pessoa acabou por visualizar. Além do meu próprio site, também fico curioso quanto a essa investigação.
Dias desses, um amigo comentou que queria matar algumas dúvidas sobre a 2ª Guerra Mundial e ao digitar o nome do bigodinho que causou o que causou apareceram sugestões do auto-complete, sendo uma delas a que faz o queixo cair: “Hitler era baiano“. Em sua grande maioria, os mecanismos de auto-complete ignoram pontuação como interrogações, mas associa internamente com ramificações que indicam dúvida e não somente afirmação. Dessa forma, encontrei uma postagem no twitter em que alguém dizia que o bigodinho era baiano porque a tradução para “mein fuhrer” é “meu rei”. Saciou a minha curiosidade e, pelo menos para mim, é o que mais fez sentido ao termo buscado, mesmo que seja uma manifestação cômica no melhor estilo “Hue hue hue br br br”.
Voltando ao meu site, já senti uma ponta de felicidade quando vi “Aparelho que os jedi usam pra respirar debaixo d’água” levando a uma página daqui. A sensação de ter contribuído com a comunidade nerd foi momentânea, pois a página acessada (Jedi usa relógio?) não responde a questão levantada, e cuja resposta tive que buscar para sanar outra inquietude que esses termos incitam. A99 Aquata Breather é o nome do dispositivo que os Jedi utilizam para respirar embaixo d’água.
Tenho um texto cujo título é “Engasgado com Farofa e Carne Seca”, aliás, devo aproveitar e dizer que aqui há vários textos de minha autoria disponibilizados gratuitamente para apreciação, e que, embora raramente, rendem retornos positivos e negativos. Não darei abertura para reclamações quando meus textos estiverem em plataformas pagas (o que pode ser real num futuro próximo), pois pretendo deixar muita coisa aberta por aqui. Enfim, há esse texto intitulado “Engasgado com Farofa e Carne Seca“. Ele é simples, escrito como uma forma de exercício em que um amigo que trabalhava comigo num dia de ócio levantou o desafio através de uma postagem do Buzz (serviço extinto do Google que ambicionava ser um Twitter) em que eu deveria escrever um conto rápido que envolvesse preconceito, comida e morte. Como disse anteriormente, o ambiente gerencial do site indicou uma visualização desse texto, no mesmo dia em que surgiu o termo buscado que o levou até ele: “Morri engasgado com farofa“ O verbo no pretérito perfeito faz parecer que a frase foi escrita por um Brás Cubas (por favor entendam a referência de nossa literatura clássica) e novamente a curiosidade veio. Para esse mortal que vos escreve o mais comum seria algo como “o que fazer ao engasgar com farofa” ou afins. O que para efeitos práticos, meu texto não teria utilidade alguma. A curiosidade aumentou quando surgiu uma mensagem no mesmo no site: “Isso ai aconteceu de verdade???”
Mensagem do além
A pessoa não postou nos comentários do texto, enviou como mensagem privada, e não detalha a dúvida dela, mas considerando os rastros desse dia, creio que seja a mesma que chegou ao texto pelo termo buscado. Bom, meu caro leitor eventual, conforme respondi também no particular: não. Os contos publicados na categoria “Textos” do site são ficções, mesmo que realistas, fantásticos, com pé na científica, ou tramas policiais. Eventos reais são mencionados em outras categorias, como por exemplo “Da Boca pra Fora“, em que costumo resenhar filmes, músicas, quadrinhos, livros e afins. Ainda não sei se a minha resposta ajudou a visita inesperada em seu momento pós-vida, mas espero que mesmo no além, tenha se interessado por meu trabalho, afinal, um dos maiores propósitos do site é o de divulgar esse ofício incompreendido que se apoderou de minha alma.
Talvez, nessa ânsia de que mais pessoas cheguem a esse pequeno espaço na grande rede mundial compartilhada, acabo por me deparar com situações dessas. É o preço por ter optado em escrever assuntos variados. E olha que sou negligente e procrastinador, posso ter evitado uma penca de “quedas” aqui, por pessoas que estejam buscando algo mais útil que meus contos e pertubações.