Fé nos Heróis

Comecei a assistir a série The Boys, da Amazon.
Ela é baseada na ótima HQ dos criadores Garth Ennis e Darick Robertson.
Ótima no sentido de doentia, perversa e sem pudores, vale a pena ressaltar.
No universo apresentado, os heróis nascem aos montes pelo mundo, nem todos excepcionais, mas há um número considerado de super-humanos.
Não quero entregar muita coisa, e gostaria de evitar spoilers desnecessários, então para evitar é só desconsiderar os textos em itálico e sublinhado.

 

O impacto maior no piloto é em duas cenas que afetam diretamente mulheres, como a desintegração por impacto de uma garota, namorada de um dos personagens principais, por um dos heróis mais famosos do mundo.
E quando uma heroína jovem, cristã e que combatia os malfeitores no interior com o codinome Starlight é selecionada para ser integrante da nata conhecida como Os Sete.
No primeiro dia de ofício a pobre garota em sua inocência e ingenuidade heroica acaba por sofrer um abuso doentio pelos maiores heróis desse universo especulativo.

Os efeitos são bons, a produção não deixa a desejar em questão de cenários mistos com fictícios e reais.
E o fato de estar assistindo essa série é que me lembrou as razões de ter um roteiro de HQ que flerta muito com esse estilo de descontrução de heróis.
ALÔ EDITORAS! INTERESSADOS INBOX ME!”
Porém, acho válido deixar claro que o meu projeto é menos doentio que o The Boys.
Ele é ambientado num Brasil futurístico, em que tomamos as rédeas do domínio global.
E os heróis aqui se mantém em sua simbologia pura. A desconstrução viria em outros conflitos.
A noção inicial provavelmente veio de Watchmen, quando li a excelente e uma das mais fodásticas HQ’s, escrita pelo lendário Alan Moore e com uma arte groudbreaker de Dave Gibbons.
O filme lançado dois anos depois de eu ter lido essa HQ, pelas mãos de Zach Snyder, fincou ainda mais esse conceito da perda de fé nos heróis.
Agora, esse conceito voltou a ser explorado pelos grandes estúdios.
Não somente The Boys está no páreo pela Amazon, como a série Watchmen virá pela HBO mostrando os acontecimentos após a HQ original.
Recentemente, para quem acompanha mais as HQ’s também se deparou com a virada em 180º do Capitão América, em que se revelou como um grande agente infiltrado da Hydra.

Mas além de todos esses exemplos a minha série de HQ preferida é Imperdoável (Irredeemable) escrita por Mark Waid.
Ao que parece ela veio para o Brasil pela editora Devir.
A história de Imperdoável se resume de forma mais simples como um Super-Homem que pirou e se tornou vilão. No caso desse universo, ele é conhecido como Plutoniano.
E há grandes referências dos mais populares heróis dos maiores selos da Marvel e DC, além de outras da cultura pop (o personagem Qubit me pareceu uma homenagem ao Doctor Who).

Imperdoável
Imperdoável

O nosso interesse por heróis que mudam de lado, que nos fazem perder a fé em sua simbologia não é atual.

Esse espasmo iconoclasta vem das odes de deuses gregos, que ora transitavam entre os meros mortais.
Não raro eles eram retratados com seus sensos de justiça de forma egocêntrica, extrapolando um dualismo mais pertinente aos humanos.
Nos tempos atuais perdemos a ingenuidade nos políticos, em seus discursos, quando sabemos que há muita coisa por trás.
Não falo de maniqueísmos de sociedades secretas, mas sim da consciência das propagandas para manter aquela antiga imagem.
Pior do que essa falta de imagem vem o mote do “Ele fala o que pensa”, e as imagens da simbologia centrada se perde para populismos.

Trabalhar com esse conceito no fim das contas é complicado.
Se eu analisar o meu projeto engavetado vejo que o que prevaleceu foi um equilíbrio entre iconoclastia e a antiga fé nos valores heroicos.


Ma’a salama!

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