Steve Jobs Forever

“Quem faz Ciência da Computação são aqueles que vão criar algo, mas não sabem para o quê aquilo vai servir. Os que fazem Sistemas de Informação vão olhar para o que criaram os cientistas da computação e estalam os dedos dizendo: ok, vamos aplicar e monetizar essa coisa”
Essa foi a introdução do professor de Cálculo na minha primeira aula de Sistemas de Informação na universidade Mackenzie. Não tardou a descobrirmos que o tal professor nutria maior afeto e simpatia pelos alunos de Ciência da Computação por serem “mais inteligentes na escolha”. Vai entender.
Mas a frase foi melhor compreendida quando ainda na primeira semana outro professor exibiu o filme Piratas da Informática (Pirates of the Silicom Valley), que esclarecia o nascimento de um conceito computacional voltado para as grandes massas e ampliado ao entretenimento focando nos dois ícones da era digital, a saber Bill Gates e Steve Jobs.
Ambos entendiam que o conceito da época difundido principalmente pela gigante IBM, voltado às indústrias e aos grandes negócios, devia ser modelado para o uso pessoal.
É claro que o afobamento idólatra que muitos carregam acaba cegando para o fato que os ditos groundbreakers não foram os primeiros a pensar na ideia, tanto que as biografias e os filmes fieis à reconstrução histórica mostra o dedo do zeitgeist cutucando o destino, como bem vemos em Piratas da informática as convenções em que eram exibidos os novos experimentos computacionais do momento.
O que mais gosto nesses filmes, além de conhecer os fatos históricos, é entender motivações, desempenho e como tudo se relacionou com a vida pessoal daqueles que se dedicaram em mudar algo no mundo, o que a máxima atribuída ao Jobs “As pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são aquelas que o mudam”, slogan de um comercial da Apple de 1997 da campanha Think Diferent, nos diz sobre os groundbreakers é a existência de resistência em todo o caminhar da renovação ou revolução.
O filme Jobs de 2013, com Ashton Kutcher, foca totalmente na vida do criador de uma das maiores empresas do mundo, muitos sabem que a Apple acumula cifras na casa dos bilhões e está entre as grandes detentoras de patentes digitais.
Mas o filme, que não é ruim, tinha o aspecto de ser um Piratas da Informática parcial, com a vida do Steve Jobs recebendo toda a luz dos holofotes sem um mísero segundo mostrar o outro ícone desse meio. E aí você pode dizer, mas o nome do filme é Jobs né Mohanad, você deve gostar mais do Bill Gates e ficou se doendo por ele não aparecer no filme.
Sim e não.
Sim, pois me atento mais à figura do tio Bill do que o marqueteiro Jobs pelo seu legado de expertise do mundo corporativo e seu empenho no ramo filantrópico.
Não, porque era natural que o filme fosse o show para fanboys da Apple e daqueles que idolatram o Steve.
Mas o que deixou a desejar são os gaps de comportamentos de sua vida entre importantes momentos da carreira. Como os despontamentos da biografia escrita por Walter Isaacson, que possui tons imparciais e chumaços de detalhes que, tudo bem, estavam ali porque o tomo ultrapassa 600 páginas. O que sustenta a opinião de muitos que consideraram o filme como o definitivo que retrata a vida desse ilustre marqueteiro.
E eis que surge o trailer de Steve Jobs:

 

Tudo bem que o filme de 2013 ganha quando o ator já é muito parecido com o personagem, mas Michael Fassbender vem cativando cada vez mais com as suas atuações e dificulta o pensamento de que poderá desapontar nesse papel.
O problema da expectativa é que no mundo real a figura do groundbreaker pincelada pelo mundo corporativo sempre leva a melhor na queda de braço. Dificilmente será 100% fiel à biografia de Walter Isaacson, e atenta-se principalmente pelo fato de manter eternamente acesa a idolatria àquele que preferiu se dedicar à imortalização até o último suspiro do que descansar e se recuperar de um câncer raro (no pâncreas) ao lado da família e dos amigos.
Tanto mais quando a empresa que fundou enfrenta um momento de difícil ocupação no primeiro lugar do pódio de simbologia no mundo da inovação tecnológica, apesar das cifras bilionárias.
O próprio Jobs criticava no Piratas da Informática a idolatria aos deuses mortos e ao perigo do domínio do Big Brother, tudo uma alusão à gigante IBM,  mas parece que no fim, sua empresa e figura acabaram por se tornar o que tanto o incomodava quando iniciava sua longa caminhada pela trilha da inovação.
Bateu uma vontade de parafrasear Nietzsche, mas acho que não se faz necessário.

Ma’a salama!

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