O Melhor de 2025

Findo 2025.
Um ano belo e de gozo pelo cinema brasileiro tendo seu reconhecimento na cerimônia da estatueta do hominho dourado com Ainda Estou Aqui, com destaque para também para o documentário israelo-palestino Sem Chão (No Other Land) que levou o Oscar de melhor documentário.
Por um lado, o cinema nacional agora sonha em alçar voos maiores e com gana de figurar anualmente em todos os maiores prêmios. Por outro lado, o povo palestino, mesmo com um documentário denunciante com um prêmio expressivo como o da Academia, ainda tende a sofrer, inclusive um dos produtores, Hamdan Ballal, foi agredido brutalmente por colonos israelenses de forma covarde, ainda em meados de março, mesmo mês da cerimônia.
Sinais de como funciona a opressão do meu povo…

Desde que iniciei a série de retrospectivas “O Melhor de [Ano]” há mais de 10 anos, eu havia definido que a regra sempre seria expor as melhores coisas, porém, uma carga de angústia tem me consumido nos últimos anos, e não consigo omitir os fatos, então sempre hei de mencionar e denunciar, mesmo para essa minha mui pequena audiência, tudo o que me incomoda, ainda que de forma preambular.
Nenhum ano é inteiramente ruim, Nenhum ano é inteiramente bom.

LIVROS

Eles Vivem, Ray Nelson, (Trad. L.F. Lunardello; Nathalia Sorgon Scotuzzi)
Coletânea primorosa de contos de ficção-científica do autor Ray Nelson, cujo conto “Oito Horas da Manhã” serviu como base para o famoso filme Eles Vivem (They Live) do renomado diretor John Carpenter. Adorei pirar nesses contos do escritor contemporâneo e parceiro de “escola” da paranoia do outro mago da FC Philip K. Dick. Os contos “Viagem no Tempo para Pessoas Ordinárias” e “Desligue o Céu” são peças magníficas.
O Som do Rugido da Onça, Micheliny Verunschk.
Estava devendo ler a prosa da elogiadíssima Micheliny Verunschk, cujos parágrafos desses relatos do século XIX, que se misturam com ecos no mundo contemporâneo, sobre uma tragédia colonialista em que exploradores arrancam de sua terra natal duas crianças indígenas levando-as para a fria Alemanha. Triste que a trama do preconceito de um encontro com a criança menina Iñe-e com Tipai uu, a “Onça Grande” permitiu que o seu destino fosse o de ser levada pelos europeus pela desconfiança paterna.
Micheliny consegue transformar uma cena simples em um ponto de perturbação, como no caso de uma sala de espera em um banco com quadros de indígenas em suas paredes.
Meridiano Infinito, Mariana Carolo.
Li Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy no ano passado, então, toda aquela saga de um faroeste supra-violento estava bem fresco em minha memória. Já Graça Infinita li há dez anos, porém, David Foster Wallace também segue vivo em minha memória, não somente pelo calhamaço publicado em 1996, mas por suas frases e por seu trágico fim.
Mariana Carolo é brasileira e não desiste nunca.
Como pode notar, ela não é referida como tradutora aqui, mesmo tendo traduzido os textos, ela aqui deveria ser marcada como algo a parte, superior a uma “organizadora”, porque a braba insistiu, lutou, esbravejou com estudiosos estadunidenses pedantes para conseguir publicar aqui em terra brasilis um trabalho que é o encontro desses dois gigantes, sendo no caso o David Foster Wallace criando notas e observações sobre o livro de Cormac.
Além de um trabalho editorial, além de um material interessante para fãs de ambos autores, além de um guia íntimo interessante para escritores sentirem que os grandes também têm suas dúvidas diante de trabalhos de pares, Meridiano Infinito é um dos livros que orgulho de ter adquirido por conta do processo que o trouxe à vida.
Frankito em Chamas, Matheus Borges.
Esse deveria ser de leitura não obrigatória, mas necessária, para millennials que em algum momento já tiveram aquela sensação de que o tempo de fazer algo que valha a pena na vida já se foi.
Mas Frankito em Chamas não é será um manifesto ou acalentador para nós millenials, e tenho certeza de que não existiria livro que fosse capaz disso.
Nessa obra do gaúcho Matheus, há cenas de um sossego de espírito quanto ao que se deveria esperar de uma trama que acompanha um roteirista indo para o Uruguai acompanhar as filmagens do filme baseado em seu roteiro. Cenas naipe “Criterion Collection” entre dois entendidos em que poderia ter uma exibição de um cinema diferentão como escolhido e no final o personagem deseja assistir Ishtar cruzam com outras cenas naipe em que a canção Tic Tic Tac do grupo Carrapicho acalmando o coração solitário de uma mulher num karaokê no distante Japão. A ideia de reescrever algumas cenas do filme durante a produção deixa um quê do que todos queremos: ter um senso de forçar esperança ao ver queimar aquilo que não vivemos.
Stella Maris, Elias Khoury (trad. Safa Jubran).
Infelizmente o escritor libanês Elias Khoury faleceu no ano passado. Esse sim merecia um prêmio Nobel.
A continuação de Meu Nome é Adam, da trilogia Crianças do Gueto era um dos mais esperados do ano, e chegou no começo de dezembro. Agora a trama acompanha Adam Dannun, o primeiro nascido no gueto após o massacre de Lidd, tentando sobreviver na pele identitária de um país ocupado.
Vemos o jovem abandonando o gueto, indo para a bela cidade de Haifa, e em sua tentativa de adaptação mentir em várias vezes que é judeu, transfigurando até o sobrenome, eliminando um N e trocando o U por O (Danon), sendo acolhido em lares que custam a entender seu lado da história quando é descoberto como árabe. Adam tem sua primeira experiência amorosa e sexual, consegue iniciar estudos na universidade e é levado a contragosto até a Polônia numa excursão ao gueto de Varsóvia, onde revive as lembranças não vividas, mas sabidas por herança da Nakba que todo palestino acaba por carregar em sua vida. Adam Dannun acaba por se entender como um ausente presente, e é confrontado com esses fantasmas do passado, assim como pelos israelenses que custam a acreditar que ele é sobrevivente também de um holocausto, e que também viveu em um gueto, tanto mais, quando os causadores de tal sofrimento são os próprios israelenses.

Adam Dannun, filho do gueto, em sua luta identitária
Adam Dannun, filho do gueto, em sua luta identitária

Dois argentinos que devia conhecer e acabei por ler esse ano foram, o primeiro, César Aira , com o livro O Congresso de Literatura, e a outra a Samantha Schweblin com o O Bom Mal.
Gostei de ter conhecido a prosa da Verena Cavalcante com o Como Nascem os Fantasmas.
Fui iniciado no mundo da psicanálise, mas de forma micro-dosada, com o Olhando Torto: uma introdução a Jacques Lacan através da cultura popular, do filósofo Slavoj Zizek, em que aborda muito da teoria pelo cinema de Hitchcock e seus contemporâneos.

HQ
Ouroboros de Luckas Iohanathan, em um belo gibi que costura um retrato de violências do drama familiar, com cenas de contemplações taciturnas e belos tons de azuis melancólicos.

Ouroboros
Ouroboros

SÉRIES
Slow Horses figurará em primeiro lugar para não ficar naquela pataquada de menção honrosa, visto que ano após ano ela persiste em uma das melhores criações de comédia para televisão dos últimos anos. Jackson Lamb, o personagem de Gary Oldman nunca perde a graça.
Andor
E não é outra a melhor do ano, senão a querida Andor. A segunda e última temporada da série que revela a verdadeira faceta dos rebeldes do universo da “Guerra nas Estrelas”, no compasso político rente ao zeitgeist, com seriedade e foco no microcosmos das vidas mais ordinárias dos que sofrem em um império opressor. Se fosse ingênuo ficaria me perguntando como é que a Disney conseguiu produzir algo tão bom.

Andor: Tiro, Porrada e Bomba e... belo discurso
Andor: Tiro, Porrada e Bomba e… belo discurso



O Eternauta
A série argentina sobre uma neve tóxica matadora sobre Buenos Aires foi outra ótima produção da gigante do streaming Netflix que tem apostado em adaptar obras latino-americanas, sejam livros ou história em quadrinhos como no caso da série com o ator mais que conhecido Ricardo Darin.
Black Rabbit
A minissérie da Netflix me pegou de surpresa, com Jude Law e Jason Bateman como irmãos em uma dinâmica que vai se desenrolando para adivinharmos quem é pior dos dois em um drama familiar envolvendo egos, restaurante, Brooklin e uma penca de decisões duvidosas.
Chefe de Guerra
Jason Mamão Momoa reprisa o papel destinado ao seu físico, e aqui não se sobressai em atuação, mas foi interessante assistir essa série que mostra mais sobre essas belas ilhas do pacífico (hoje Havaí) e seus povos originários em lutas por poder, e bacana por entender que o nome do golpe mais famoso de Goku veio de um líder histórico e real: kamehameha.
Mammals
Descobrir-se corno acontece nesse mundo, e o interessante é o andamento posterior, essa minissérie de episódios curtos foi bem engraçada e tá quase escondida no Prime.
Pluribus
Rhea Seehorn era fabulosa em Better Call Saul, e agora brilha sem filtro nessa série cujos holofotes são voltados para a personagem dela em uma trama que pisca para o paradoxo de Fermi e vai além com um mundo que desenvolveu uma consciência coletiva deixando por questões genéticas e da estatística ínfima doze outliers, sendo ela um dos imunes. A ideia já foi explorada no SciFi há décadas, fãs de Star Trek que o digam, mas o hiper-foco dessa série e na maneira como Vince Gilliam consome a narrativa traz um frescor mais acessível ao público do que o jeito hard da galerinha das naves.

Contra o mundo
Contra o mundo



Das temporadas continuadas valeram a segunda de Mo, do palestino Mohammed Amer, com roteiro audacioso sobre as discussões da causa palestina que não foi eclipsada pós o sete de outubro.
Destaca-se também a segunda de O Ensaio (The Rehearsal) com Nathan Fielder voando mais alto aqui, tocando em uma pesquisa do que poderiam ser grandes causas de acidentes aéreos.
A terceira de Fundação parecia mais promissora que sua concepção, com a aparição de um dos personagens antagônicos mais famosos da literatura, a figura do Mulo foi um dos pontos altos de quando li a trilogia na adolescência, porém, considerei essa última temporada melhor que a segunda.

FILMES
Um Homem Diferente
Sebastian Stan conseguiu se sobressair na carreira de estrela da Marvel optando por dar vida ao Potus laranjão no filme O Aprendiz (The Apprentice) e no engraçado Um Homem Diferente (A Different Man), em que está em paralelo com o duplo de Dostoiévski quase às avessas.

Um Homem Diferente
Um Homem Diferente



Casa de Dinamite
Fazia tempo que um filme sobre geopolítica não me ativava a ansiedade como esse. Excetuando a alienação do cenário contemporâneo de potências elencáveis para a ameaça nuclear, já que aqui a trama cheira a bolor quando foca nos russos e ignora a importância da China ou Coreia do Norte, tu fica preso na tensão dividido em três atos.

Uma Batalha Após a Outra
Todo mundo pira com a cena de perseguição dos carros, com razão, Paul Thomas Anderson é um gênio. Mas há outras dezenas de cenas memoráveis, tensas e mui engraçadas no longa, como o Leo Di Caprio despencando de um prédio ou ele sofrendo em se comunicar em espanhol com mexicanos.

O Agente Secreto
Wagner Moura em entrevista recente agradeceu por ter feito um filme no nosso idioma brasileiro, o astro têm brilhado e labutado muito em produções estrangeiras. Além dele ser ótimo temos a revelação de Dona Sebastiana, personagem da atriz Tânia Maria, que dá um sabor especial nessa estória de Kléber Mendonça Filho.
“Quem tem medo da perna cabeluda?”

Pecadores
Um “vampiro rei” bate a porta numa festa de negros em Pecadores (Sinners), ótimo filme do diretor Ryan Coogler que tem mais acertado do que errado (não curti muito o segundo Pantera Negra).


A Única Saída
O sul-coreano A Única Saída (No Other Choice) de Park Chan-wook, diretor muito conhecido por Old Boy bateu em mim pelo fato de ter sido demitido nesse ano, um fato que abala qualquer um quando vem sem aviso, mesmo em uma situação em que minha vida financeira e profissional estivesse em sólidos alicerces, e apesar do filme ir por um caminho de violência e desespero, a ânsia estava bem pareada com todos os temores que os proletários desse século do capitalismo tardio há de sentir, tanto mais com essa ridícula bolha de IA vindo na sola das “automatizações” e precarizações da força humana.

Lá vou eu atualizar a foto do LinkeDisney
Lá vou eu atualizar a foto do LinkeDisney




Gostei da sessão da tarde que foi o novo Superman.
Gostei do sensível Sonhos de Trem.
E gostei também do clássico e desgracento Vá e Veja (Come and See) de 1985 que “mostra os horrores da guerra”.

MÚSICA
Viagra Boys
A banda sueca de pós-punk lançou o ótimo álbum Viagr Aboys, com a faixa Man Made of Meat no meu repeat do ano.

Man Made of Meat
Man Made of Meat



Bob Vylan
Se posicionou contra o genocídio em Gaza sem papas na língua e com essa atitude descobri esse artista maravilhoso que é o Bob Vylan. A The Hunger Games é um hino da revolta e do desgaste nosso de cada dia nesse capitalismo tardio.

Bob Vylan
Bob Vylan



Amaro Freitas
Bela descoberta desse pianista genial, fui no show e vibrei com sua maestria e experimentalismos com chocalhos evocando sons indígenas e prendedores nas cordas do piano que produzem ritmos de percussão. Esse pernambucano merece um maior reconhecimento.

***Mais do Mesmo que satisfazem a vontade de ouvir um novo mais do mesmo
Samael com a Black Matter Manifesto.
Soulfly com a Nihilist.
Tyler the Creator com Sugar on my Tongue.

***Belas misturas***
Berghain da Rosalía com Björk e Yves Tumor  
Luther do Kendrick Lamar com SZA
Talk Olympics do Obongjayar com Little Simz

***Show inusitado***
Do neida, passeando na galeria Metrópole com a namorida, tá lá o Andreas Kisser (Sepultura dã) atrás de uma vitrine tocando violão para uma dúzia de cadeiras e uma galerinha de pé.

Andreas Kisser tocando atrás de uma vitrine
Andreas Kisser tocando atrás de uma vitrine


DOCUMENTÁRIO
The Fire Within: A Requiem for Katia and Maurice Krafft, do Werner Herzog. O documentário é uma homenagem ao casal francês de vulcanólogos mortos por uma nuvem piroclástica no Japão no início dos anos 90. A narração e as belas imagens traçam uma obra poética por um amor à natureza bruta.


Aka Charlie Sheen, documentário da Netflix dividido em duas partes, que mostra a história de um dos nepo babies mais famosos de holywood, desde os anos 80, do sucesso acumulado nas décadas seguintes, tendo se tornado o ator mais bem pago da TV nos anos 2010 tendo recebido em média 1,5 milhão de doletas por episódio da série Dois Homens e Meio (Two and a Half Man). O documentário apesar de simples foi interessante pelo apelo nostálgico dos filmes que ele participou, dos detalhes desnudados de seus vícios e polêmicas e de ficar feliz por saber como alguém conseguiu sobreviver e poder dizer hoje que está há anos sóbrio.

O Freelancer – O Homem por Trás da Foto, o documentário investigativo de reparação histórica pelo crédito de uma das fotos mais famosas da história, a da criança nua correndo com os braços pendidos e semblante de sofrimento, todo mundo já viu em algum momento a foto de Kim Phúc, conhecida como a “Garota do Napalm”. O documentário revela que o autor do clique, Nick Ut, que gozou de reconhecimento, venceu Pulitzer e deu palestras por décadas não é o responsável real do ícone denunciante da guerra do Vietnã, o verdadeiro autor da foto foi o freelancer Nguyen Thanh Nghe, que na época recebeu 20 dólares e nada mais.


Trilha Sonora para um Golpe de Estado (Soundtrack to a Coup d’Etat), documentário foda demais, que escancara as maquinações mesquinhas políticas e de serviços secretos para o assassinato de Patrice Lumumba, primeiro-ministro do Congo que tinha acabado de conquistar a “independência”.
Assistir ao documentário é como almoçar uma comida que não gosta em um local nada aprazível, e tenho a impressão que é esse retrogosto das personagens envolvidas em tudo o que aconteceu, como os grandes músicos de jazz que foram usados para disfarçarem conspirações europeias e americanas.

Trilha Sonora para um Golpe de Estado
Trilha Sonora para um Golpe de Estado




Bienal
Enfim conheci a Bienal, nunca tinha visitado uma bienal de arte de São Paulo.
Conhecer as estruturas arquitetônicas da região do Ibirapuera sempre me cativava quando ia nas raras excursões da escola.

Para mim: uma árvore da vida
Para mim: uma árvore da vida


Por votos de um 2026 recheado de coisas boas, disputando espaço nessa tarefa de elencar o que foram os melhores momentos.

Ma’a Salama!

O Melhor de 2024

“Alma da minha alma”.
O autor dessa frase é Khaled Nabhan, cidadão palestino de Gaza, ela foi proferida enquanto abraçava em seu colo o corpo morto de Reem, sua neta de cinco anos, vítima de um bombardeio israelense.
Em 16 de dezembro de 2024, Khaled também foi morto por um bombardeio israelense, somando aos mais de 45 mil humanos mortos (e contando…), sendo 17 mil apenas crianças.
Todo ano deixo claro que a retrospectiva é somente sobre coisas boas.
Mas acho injusto ignorar o que ocorre em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano.
A frase de Khaled é puro amor de um avô ante ao corpo ceifado de vida por um governo racista e explorador como o de Israel.
Em abril de 2024, durante minhas férias no México visitei o museu Memoria y Tolerancia, na Cidade do México. Além de ter as seções com os temas dos genocídios históricos mais famosos, como o holocausto perpetrado pelos nazistas, o dos armênios, o de Camboja e etc etc, o peso e a densidade de aperto no coração de ver todos aqueles registros foram eclipsados quando me deparei com uma obra exposta no vão entre andares, com várias esferas transparentes penduradas em fios. Ao ler a placa explicativa entendi que aquilo era uma homenagem especial às crianças mortas em genocídios, ficando suspenso no nada e perdido na história pessoas com futuros que nunca ocorreram, poderiam ser cidadãos com diversos potenciais, ou então nenhum, porque vida humana alguma não pode ser qualificada por potencial produtivo, não somos formigas.

Eternas Crianças (Vítimas de genocídios)
Eternas Crianças (Vítimas de genocídios)

Livros

No Rastro de Enayat (Iman Mersal; Trad. Nisrene Matar): Não é uma biografia, é um trabalho de investigação de interesse histórico-sócio-cultural, de rastreio de um sumiço injusto da história de uma autora egípcia. Me alegra a concepção dessa obra pelo fato de ser escrito por uma mulher árabe, ter vencido prêmio árabe e traduzido para o português pela querida Nisrene Matar.
Uma densidade original de vozes que clamam pelo lugar ao mundo.
Os Grandes Carnívoros (Adriana Lisboa): Prosa deliciosa que desloca no tempo enquanto trata de exílio, redenção e anseios do passado ante a protagonista que é ativista ambiental. A violência humana no páreo como encruzilhada da noção de pertencimento da natureza coletiva.
Pangeia (Mariana Basilio): Um atlas poético, partindo da noção do título, do continente único dos primórdios do mundo ainda sem humanos, uma construção literária que enquadra a humanidade na “etimologia do ser”. Em “Nós Não Somos Números”, impossível não se emocionar, principalmente pela noção de ser homenagem aos mortos de Gaza da recente barbárie perpetrada pelo estado de Israel.
Os Despossuídos (Ursula K Le Guin; Trad. Susana L. de Alexandria): A genialidade de Ursula não é somente tratar argumentos científicos, sejam hard ou soft, da especulação do gênero da ficção científica, ela é sim muito boa em pincelar a estética e tudo o que é necessário numa obra do tipo, mas o grande tchan é o quão magnífica ela saber sustentar as questões sociais e culturais com importância que eclipsam qualquer “exatas comum” de outras grandes sagas. Leitura obrigatória para quem só leu o ABC (Asimov, Bradbury, Clarke) da ficção científica.
Iluminações (Alan Moore; Trad. Adriano Scandolara): Uma confissão, desse livro de contos não li o “Lagarto Hipotético”, tentei por duas vezes, mas a leitura não fluiu, e abandonei.
De resto, todos os outros contos são sublimes, “Local Local Local” é um apocalíptico hilário. E o “O que se pode saber a respeito do Homem-Trovão”, que tem o tamanho de um romance é uma bela composição discreta (nem tanto para entendedores) da história da indústria dos quadrinhos com toda a angústia sentida pelo genial autor que sofreu nesse meio, sendo um artista transgressor que abandonou de vez esse mundo e vive dando a letra de como é nocivo adultos cultivarem idolatrias doentias a personagens criados há quase um século para entreter crianças e a classe trabalhadora.

Pangeia
Pangeia



Enfim li Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, ou seja, completei a leitura de ao menos um livro por autor do tal Big Four do cânone americano definido pelo crítico Harold Bloom, ou seja, grande matéria fecal, mas, enfim, adorei o livro e o talento de Cormac para uma trama sombria e sanguinária.
Gostei muito de Búfalos Selvagens, da Ana Paula Maia, fechando uma trilogia iniciada com Enterre Seus Mortos. Será a última vez que leremos Edgar Wilson?


Filmes


Duna 2 deu sequência ao épico, uma bela experiência ter assistido no cinema, mesmo não sendo perfeito (algumas problemáticas de edição e algumas cenas de ação mano a mano parcas).
Sociedade da Neve (La sociedad de la Nieve) é um ótimo relato do famoso acidente que forçou os sobreviventes a atos de canibalismo com os corpos dos companheiros e amigos mortos.

O pódio fica para:
O nacional Ainda Estou Aqui, dirigido de forma bela e angustiante por Walter Salles com ótima atuação de Selton Mello e a perfeita Fernanda Torres e sua mãe Fernanda Montenegro.
O japonês Godzilla Minus One que encantou em mim a criança fã de kaijus. Genial a trama ser posicionada em um período recente do pós-guerra, tão traumático para o povo japonês.


Zona de Interesse de Jonathan Glazer, diretor esse de vários videoclipes que adoro, como Karma Police do Radiohead, Rabbit in your Headlight do Unkle, Virtual Insanity do Jamiroquai, para citar alguns.
O filme é um retrato sombrio da banalidade e desfoque de uma família/sociedade/cultura ante a barbaridade que foi o holocausto.
A abordagem de não mostrar uma morte em cena elaborada e ainda assim deixar claro que do outro lado do muro há um lugar de total anulação da vida humana.
E o discurso corajoso do diretor Jonathan Glazer no Oscar, que mencionou o que ocorre em Gaza, sim, um genocídio, e que continha sendo documentado e transmitido em tempo real aos olhos do mundo.

Zona de Interesse
Zona de Interesse


Menções honrosas: Guerra Civil (Civil War), Rebel Ridge (ação heróica massa), Alien Romulus (ótima sessão da tarde), Jurado Nº 2 (Juror #2), Furiosa Uma Saga Mad Max., A Substância (The Substance).


Séries

Shogun veio com a promessa de ser minissérie, porém, o sucesso forçou a renovação para mais uma temporada. Eu, que amei ler os livros de Musashi e apreciador de histórias da época dos samurais que povoavam aquela ilha do pacífico, adorei os episódios com produção de arte belíssima, com o ator Hiroyuki Sanada fazendo o papel de sempre, e com a trilha sonora (novamente Atticus Ross).
Únicos defeitos seriam o ator “branco” Cosmo Jarvis, que tem uma cara de cachorro pidão o tempo todo, e os falhos diálogos “Now we are speaking portuguese”.

Ripley. Andrew Scott é ótimo como o vilão Moriarty de Sherlock Holmes ou como o padre de Fleabag. Mas é na pele de Ripley que o ator e personagem expõe seu talento. Bela fotografia, um P&B como pouco se vê, e com as tensões que se espera de um malandro tomando lugar em finos e clássicos ambientes italianos.
O Problema dos 3 Corpos (americana e chinesa). Sim, assisti as duas versões.
A versão estadunidense é produção original Netflix pelas mãos dos mesmos de Game of Thrones.
A versão chinesa contém mais episódios (trinta), e está na faixa no Youtube, com legenda em inglês (bora treinar). Ambas são ótimas adaptações dos livros do autor chinês Cixin Liu que é um expoente na ficção científica global.
Curti bastante a versão chinesa pelo ritmo diferente e com destaque maior pelos assuntos tratados na trama, a qualidade em alguns momentos lembra uma novela, e isso não é demérito algum, pelo contrário, deixa a experiência da empatia aos personagens mais palpável.
A cena do navio das duas versões, mesmo que tratadas de formas diferentes, foi uma das melhores “ações-absurdas-audaciosas” que vi nos últimos tempos.

Industry foi a minha preferida, iniciei o acompanhamento da série pouco antes da terceira temporada e feliz por terem anunciado uma quarta, embora o episódio final ter focado em resoluções do principais arcos dos personagens. Ansioso para ver se segurarão a bronca, e de ver o povo problemático do mercado financeiro ampliando as escrotices de suas vidas.

Shogun
Shogun


Menções honrosas:
Pinguim, Senna, Sr. e Sra. Smith (Wagner Moura reinando lá fora), Cem Anos de Solidão (Cien años de soledad) em que Gabo ficaria feliz com a adaptação e a boa surpresa Entrevista Com Vampiro (Interview With the Vampire), Fargo (5ª temporada, mais próxima cronologicamente e em termos de realidade)


Música

Não utilizo o Spotify para ouvir músicas, então não posto a retrô como meio mundo faz no fim de ano.
Assim, costumo apelar para a memória mesmo do que rodou mais no repeat (esse é o critério mais importante) durante o ano.
E daí eu removo coisas como “música-lançada-há-10-anos” em Slow and Reverb ou 100 bpm Plus HQ Multi Compress, e artistas reais (evito IA) tocando músicas e hinos famosas em outros estilos, ex: Personal Jesus in Negative (a original do Depeche Mode no estilo de Type O Negative).

Top 7 do MMO:
The Dandy Warhols, com o magistral álbum Rockmaker.
As faixas Danzig With Myself, I’d Like to Help You With Your Problem e Teutonic Wine foram as que mais ouvi nesse ano ligeiro ano de 2024.
As duas primeiras contém as participações de Black Francis (Pixies) e Slash (um dos deuses da guitarra pelamor) respectivamente.
Pearl Jam com Dark Matter. Eddie Vedder é o que sobrou dos grandes do Grunge e ainda produz coisa boa. Upper Hand é maravilhosa.
Justice com HYPERDRAMA. O defeito da música Incognito é que ela acaba.
Childish Gambino com Atavista. Enfim Donald Glover conseguiu superar o hit This is America com esse álbum xuxu beleza. Final Church tocou no mínimo 100 vezes.
The Cure com Songs of a Lost World. Robert Smith fez valer 16 anos por um trabalho decente, com a identidade da angústia do passado em cerca de cinquenta minutos.
Glass Beams com Mahal. O grupo indo-australiano liderado pelo produtor Rajan Silva mescla as concepções musicais ocidentais com fortes notas orientais. O álbum curto instrumental é bem relaxante.
Kokoko com Butu. Kokoko é uma banda da República Democrática do Congo, não são somente uma banda eletrônica experimental com referências africanas, mas também se destacaram por usar muitos instrumentos caseiros feitos de sucata e captados do lixo.
Em dezembro fui ao show deles no Sesc Paulista, depois de um hiato sem ir a shows, e curti pracas.
Sugiro começar a ouvir por Salaka Bien e depois degustar tudo o que fizeram nos últimos anos.

ROCKMAKER
ROCKMAKER


HQ (Gibi para os mais íntimos)

Os Filhos de El Topo, com roteiro de Alejandro Jodorowsky e arte de José Ladrönn.
Jodorowsky não só dá autógrafos em nome de Paulo Coelho (pesquise esse causo), ele também mantém sua criação artística pulsando mesmo na alta idade, e nesse ano aqui em terra brasilis lançaram esse gibi cuja trama é a continuação do filme mexicano El Topo, escrito, dirigido e protagonizado pelo próprio Jodô em 1970.
Que cores e traços lindos que o artista Ladrönn empregou e que papel e gramatura gostosa e sublime que a editora Comix Zone dedicou nessa edição br.

Os Filhos de El Topo
Os Filhos de El Topo


Documentário


Hayao Miyazaki e a Garça (Hayao Miyazaki and the Heron).
Esse documentário acompanha em pouco mais de duas horas o projeto e trabalho do renomado diretor e artista Hayao Miyazaki que encantou e continua encantando a infância de milhões com seus animes belos e introspectivos, durante a produção de sua útima animação: O Menino e a Garça (The Boy and the Heron).
Gostei bastante desse documentário que acompanha o cotidiano de forma intimista, mas creio que talvez seja legal ter uma postagem somente sobre ele acerca das minhas impressões. Mas não prometo nada.


Costumo seguir uma linha pacifista e menos violenta, não por motivação religiosa, o mais correto seria por definição filosófica de um conceito humanista e ideal (certamente utópico) da pureza racional.
Mas não posso fingir que não me deleito com os ruídos internéticos que se proliferam acerca do ocorrido em Nova York pelos pipocos que o jovem Luigi Mangione deu em CEO milionário de uma empresa de seguros de saúde que declinavam de forma indecente coberturas de procedimentos de pessoas que pagavam por aquilo, mas não usufruíam quando mais precisavam.

Luigi vs CEO pilantra
Luigi vs CEO pilantra



Por um 2025 mais próspero, com justiça e paz.
Ma’a Salama!

Todos os olhos (impotentes) em Rafah

Ninguém gosta de ver imagens de crianças mortas, com feridas abertas, sangue ensopando suas peles e roupas, sem cabeça, ou a deixarem lágrimas escorrerem em suas bochechas por dores de um massacre.
Ninguém gosta. Pode ser do seu bairro, ou de algum lugar distante em mais de 10 mil quilômetros.
Me incluo nessa gente. Porém, nos últimos 8 meses não fiquei um dia sequer sem ver uma imagem real disso.
Dias atrás, uma imagem (provavelmente) gerada por IA foi uma das mais compartilhadas desde o início do massacre em Gaza.
Com a mensagem “Todos os olhos em Rafah”, em inglês, ao centro, a imagem é passiva, higienizada de sague e ausente de corpos despedaçados, rostos em melancolia, desespero e angústia de quem não tem para onde fugir.
Não é intuito condenar quem compartilhou a imagem, eu a compartilhei.
O problema é quando percebemos a seletividade, e a impotência em nós, distantes e em conforto, quanto ao que está acontecendo, diante de milhares de evidências escancaradas diariamente.
Milhões de compartilhamentos da imagem indicou que milhões de pessoas estão de olhos em Rafah.
Somente Rafah?
Somente o sul de Gaza?
Somente Gaza?
Somente Palestina?
São, até o momento, mais de 35 mil mortes, metade são menores de idade.
Um milhão e meio de pessoas deslocadas de suas residências originais, orientadas por meio de arrasa-quarteirões a se amontoarem em Rafah.
A fome não dá trégua, pois a ajuda humanitária foi reduzida a números insatisfatórios e cada dia mais aumentam os empecilhos para entregas necessárias.
Outras centenas de vítimas na Cisjordânia, em confrontos com colonos israelenses que avançam com seus assentamentos ilegais e têm o amparo das forças armadas ao seu lado.

Arte de Sliman Mansur
Arte de Sliman Mansur



Apelo para a lembrança de que o famoso Picasso pintou a famosa Guernica estando na França e que tinha se abalado pelas fotos e relatos dos jornais.
Guernica foi uma obra ovacionada como uma imagem de manifesto contrário à guerra.
A segunda guerra mundial se iniciou dois anos depois, os nazistas não se sensibilizaram pelo quadro.
Isso quer dizer que mostrar algo sobre a guerra é inútil?
Não.
Mas deixa claro até que ponto somente ter os olhos em Rafah, ou Gaza, ou Palestina, ou Oriente-Médio não bastam.
Há movimentos que forçam não somente políticos, mas influenciadores, artistas e personalidades em geral a se manifestarem sobre a causa, não somente na opressão que ocorre na Palestina nos últimos 76 anos e 8 meses, mas em outros massacres e genocídios que estão ocorrendo hoje nesse pequeno grande mundo (pesquise o que vem ocorrendo no Congo).
Nesse movimento, pedimos que cobre um posicionamento de seu “ídolo”, que nos ajude a expor as imagens e situações do massacre que ocorre sem cessar há meses.
Esse apoio massivo é necessário, cada vez mais, sempre urgente.

Não vou parar de falar sobre a Palestina.
Não vou parar de compartilhar imagens nas redes sociais.
Mesmo que passivas, ou meras caricaturas, já que ninguém gosta de fato de ter que ver crianças reais mortas, com feridas reais abertas, sangue ensopando suas peles reais e roupas, sem cabeça, ou a deixarem lágrimas reais escorrerem em suas bochechas por dores reais de um massacre real.

Ma’a salama!

O Melhor de 2023

Findo 2023.
Triste final de ano para a minha terra (sou palestino nascido em Jerusalém, para quem não sabe), acometida no último trimestre por um evento violento, com práticas genocidárias aos olhos do mundo (no ataque e na represália), em tempo real e com a atmosfera da impotência a depreciar a alma dia a dia.
Para quem segue o site aqui, já sabe que posto somente as melhores coisas, ou boas.
Mas o bloco que inicio, que é o de leituras vai para um livro importante para tudo o que está acontecendo:
Meu Nome é Adam, de Elias Khoury.
O livro é uma reconstrução da memória do Adam do título, nascido na Nakba (catástrofe palestina), e perpassa o massacre de Lidd, um dos muitos vilarejos que sofreram extermínio no início da ocupação israelense.
Muitas histórias de 1948 foram caladas por décadas, ocultas em narrativas que lutam para ganhar luz.
E esse romance é triste e belo em retratar essa memória de dor, de luta e esperança.
Tradução de Safa Jubran.

Meu Nome é Adam
Meu Nome é Adam



Onde Pastam os Minotauros, de Joca Reiners Terron.
Um abatedouro de bois especializado em halal (selo acordado de práticas ligadas à lei islâmica) no interior do Mato Grosso, com fábula do minotauro pelo ponto de vista dos bois e minotauros. Há palestinos em um paratexto intercalado com outros paralelos, seja na matança pelo consumo amparado pelo capitalismo sanguinolento, seja pelos labirintos das noções que temos de nossos meios para sobreviver na esperança de um dia o mundo ser um lugar mais… justo.

Roxo, de Andréa Berriell.
Fazia tempo que não lia um romance policial tão bom. E não é somente um romance policial, é uma narrativa envolvente que segundo muita gente comentou nas redes: “Daria uma bela temporada de True Detective”.
Andréa Berriell transita entre passado e presente na trama com ótimas referências textuais e visuais que vão além da cor título.

Vou Sumir Quando a Vela se Apagar, de Diogo Bercito.
Yacub e seu melhor amigo Butrus trabalham numa vila precária e rural síria.
Há a saga de um jovem sírio que vem ao Brasil dos anos 1930. Algo que me fez refletir sobre as vivências de meu avô mascate que veio da Palestina para as terras brasileiras em décadas posteriores a da história, mas que provavelmente com muitos pontos a se imaginar sobre choques culturais.
É uma história sobre amor, tragédia, distância e escolhas, muitas escolhas.
Escolhas essas que são como um dedo a passar rente a chama de uma vela, transitando em dualismos, seja no Oriente-Ocidente, Real-Fantástico, Vou-Fico, Aceitação-Culpa.
E tem um Jinn no meio de tudo isso.


Corpo Desfeito, de Jarid Arraes.
É com uma técnica invejosa que Jarid conta a história de Amanda, que sofre pelas mãos de quem deveria ser seu porto seguro. Leitura que flui com uma facilidade sem perder o charme, fez um homem barbudo relembrar a atmosfera dos anos 90 e empatia por uma personagem sofrida.


Mil Placebos, de Matheus Borges.
A internet, ah, a internet. O que há na internet, e em nós mesmos nessa era multiconectada?
Mil Placebos é uma ficção científica, não somente do nível “Tudo tá sendo FC agora”, mais ou menos como a epígrafe de JG Ballard que tá no começo do livro.
Mil Placebos é do tipo de livro que acho melhor a pessoa se arriscar a ler sem saber muito, sem ler a sinopse e ir somente no “vai que é sucesso”.
Ah, aparece um palestino lá pelo meio.

A Telepatia Nacional, de Roque Larraquy.
O argentino Roque Larraquy é engenhoso no trato que dá ao mostrar o tráfico de indígenas para o projeto de um parque etnográfico, ou zoológico humano, na Buenos Aires dos anos 1930.
E para que o absurdo não pare aí, há um objeto trazido pelos indígenas que possibilita um evento telepático.
E tem um senso de humor de um nível que não esperava da terra dos hermanos.
Tradução de Sérgio Karam.


Das séries que tiveram suas últimas temporadas, vou sentir muito a falta de Succession.
E também de How To With John Wilson.
Velho demais para Morrer Jovem (Too Old To Die Young) foi uma surpresa caçada, dirigida pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn. Pesado.
Algo leve e que garante boas risadas é Na Mira do Júri (The Jury Duty), em que há toda uma estrutura de tribunal e julgamento encenada para enganar apenas uma pessoa que pensa que tudo é real oficial.
Planeta dos Abutres (Scavengers Reign) é uma série animada que mostra um grupo de trabalhadores espaciais “naufragados” em um planeta inóspito, com uma natureza tão mortal quanto bela. Ao que parece é a melhor coisa que a HBO (ou Max) lançou de novidade nesse ano.
Corpos (Bodies), foi uma minissérie bacaninha de ficção-científica envolvendo viagem no tempo.

Esse ano foi o que parei para assistir a uma indicação que um amigo fez na faculdade 15 anos atrás. E então assisti o anime Monster do criador Naoki Urasawa. Achei genial.
E fui pego de surpresa quando a Netflix lançou Pluto, outro anime de Naoki Urasawa. Uma minissérie que mostra um futuro em que humanos e robôs convivem com leis regendo suas vivências. A trama aborda as discussões que lembram Blade Runner, mas focando em um drama que vai ter paralelos com acontecimentos do mundo real (Guerra do Iraque pelas mentiras criadas pelos EUA) com o universo especulativo de lá (Guerra do Reino da Pérsia pelas mentiras criadas pelos Estados Unidos da Trácia).

Mas a série campeã foi Treta (Beef).
Um desentendimento no estacionamento acaba gerando um ódio entre Amy (Ali Wong) e Danny (Steven Yeun) que percorre os 10 episódios que vão além de uma perseguição de gato e rato. Falar mais que isso é entregar spoilers irresponsáveis. Ainda bem que não dirijo, e tenho a terapia (self-med-abs) em dia.


De HQs pouco consumi. Mas As Muitas Mortes de Laila Star, de Ram V, foi a melhor aquisição e leitura.
O desenlace da deusa da morte do hinduísmo ser demitida após o nascimento do deus que viria a inventar a imortalidade, e as reencarnações dessa demitida tentando se recolocar no mercado de trabalho com a tentativa de impedir que a pessoa nunca invente a tal da imortalidade, tudo é feito com uma sensibilidade, com homenagem cultural, e com cores e traços muito fodas que não via há tempos.



Se teve um documentário que merece respeito e é uma obra de noção da memória e da preservação da arte é Retratos Fantasmas de Kléber Mendonça Filho.
Tem a visão pessoal e intimista sobre o uso da casa que sua mãe construiu como cenário de suas produções. Tem mapas nostálgicos de uma Recife mágica onde povoa uma cultura incessante. Tem um projetista que enjoou de O Poderoso Chefão (The Godfather) e viu vantagem quando fardados da ditadura chegaram para encerrar o cinema: “é bom que vou largar mais cedo”.
Ah, e tem um cabra que fica invisível.
Uma pena que a Academia do Oscar não o considerou como indicado.




Todo um auê por Barbie e Oppenheimer que uniu a internet para infinitos memes, e sim, os filmes são bons, mas também superestimados diante de todo esse auê.
Os meus favoritos desse ano:
Piscina Infinita (Infinity Pool), dirigido por Brandon Cronenberg (sim, filho daquele Cronenberg), que tem a Mia Goth em outro papel de doida.
Os Banshees de Inesherin, com a dupla Colin Farrel e Brendan Gleeson que repetiram a dinâmica belíssima que já tinham feito em Na Mira do Chefe (In Bruges). Nesse filme com um humor bem irlandês vemos uma amizade que se transforma em um duelo de ódio.
Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon), o último do Scorcese com o DiCaprio e DeNiro é um resgate histórico sobre o povo Osage, de sua sorte em descobrir petróleo em sua reserva, e do azar do homem branco se levar pela habitual ganância e o extermínio ignorado.
Há uma menção rápida ao massacre de Tulsa, que sugiro uma pesquisa sobre o acontecimento que também é de pouco conhecimento (abordado na série Watchmen).
Scorcese foi mestre em não transformar a história de Assassinos da Lua das Flores em uma mascarada ode aos símbolos americanos, creio que outro diretor poderia dar toda luz na narrativa focada no “surgimento do FBI”.


Menções honrosas para:
Clonaram Tyrone (They cloned Tyrone), que foi subestimado.
Tár, da Cate Blanchet sendo a artista gênio cujo umbigo é o centro do universo.
El Conde, do diretor chileno Pablo Larraín, que reimaginou o Pinochet como um vampiro e que assim sendo, não morreu em 2006.
Beau Tem Medo (Beau Is Afraid), em que Joaquim Phoenix está ansioso (e com medo?) a vida inteira (umas 3 horas).
O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind), do diretor Sam Esmail, que fez uma das melhores séries da história (Mr Robot), num panorama apocalíptico. Ah, o filme é produzido pelo casal Obama.

Em se tratando de música fui um tiozinho bem agarrado ao passado nesse ano.
Mas posso destacar o ótimo trabalho de Tyler the Creator: Call Me If You Get Lost: The Estate Sale.
Um rapper que me fez gostar da música Wharf Talk e Dogtooth, grande indicativo de que o cara é bom.
Sem dizer na ótima Sorry Not Sorry, com um clipe que mostra suas versões artísticas em uma reflexão com possíveis culpas.

Mas Tyler merece também um puxão de orelha.
Agora em dezembro lançou um clipe para divulgar a sua marca de roupas utilizando uma música brasileira na íntegra (Duplo Sentido performado por Tetê da Bahia; cujo compositor é Gilberto Gil).
A encrenca se dá pelo fato de não ter mencionado/creditado/combinado os direitos com os produtores.
“Why you puttin’ bad vibes in the?”


Ah, e não menos importante, lancei novo livro esse ano:
Quase Mortes.
Uma coletânea de contos com o tema morte em suas objetividades e subjetividades nos mais diversos gêneros.


Você pode comprar a versão impressa aqui.
E o ebook também está disponível aqui.


Na esperança por um 2024 com mais justiça, humanidade e paz.
Ma’a salama!

Mo (Série da Netflix)

Eu iria colocar como título Mo – Um palestino no Texas, mas tive o receio de que interpretassem como um subtítulo brasileiro genialmente pensado pelo marketing.
Mo é uma série que estreou em agosto na Netflix em amplitude mundial.
O que mais me chamou a atenção é que a produção é da A24, estúdio responsável por grandes filmes nos últimos anos, principalmente de terror e com liberdade criativa atribuída aos produtores.
A série é estrelada por Mo (Mohammed) Amer como o personagem-título. A série é vagamente baseada na própria vida de Amer como um refugiado palestino que vive em Houston, Texas.)
Os americanos adoram reduções de nomes, Mohammed vira Mo (ou Moe), Alphonse vira Al (lembra do famoso mafioso Al Capone? Pois é), e nunca vi nisso um problema.
Considero a abreviação até charmosa.
Maratonei a série assim que estreou e o meu veredito é positivo, adorei o roteiro amparado na dramédia.
Sabia que existia um comediante chamado Mo Amer, mas nunca assisti nenhum stand-up dele, ou qualquer outra produção.
Como um palestino em uma família que está aguardando a oficialização da cidadania americana, empacada por burocracias mil e envolvida em todo rolo que é ser um imigrante refugiado palestino, o personagem se desdobra para viver e manter as contas em dia no tradicional estado do Texas, que a título de curiosidade, nos últimos anos tem sido figurado em um movimento separatista dos EUA com o nome TEXIT (pegando carona no Brexit) conquistando diversos políticos republicanos no engajamento.
A série não se perde muito em grandes explicações, não é documentário, é de fato uma dramédia focada em um personagem que mal segue o islã e vive em um ambiente culturalmente misto (a namorada de Mo é descendente de mexicana) em um estado tradicional e que possui grande luta contra imigrantes ilegais.
Mo tem nuances de todo o rolo cultural envolvido, muitas das piadas expressas eu vivenciei de alguma foram aqui no Brasil.
É sobre a ignorância histórica e geopolítica sobre a região, como muitas pessoas confundindo Palestina com Paquistão, ou então atribuindo referências judaicas quando tento esclarecer e centralizar sobre onde nasci: “Shalom!”, dizem muitos em boa intenção, mas equivocados porque sou do outro lado da fronteira e apesar da palavra para paz em árabe ser muito parecida (Salam), isso cai na dor de sermos um povo muitas vezes ignorada em seus problemas atuais (liberdade, refugiados, conflitos).
Veja, não clamamos o pódio de coitados número da região, há diversos povos que têm sofrido e muito em tempos recentes, procure pela situação dos curdos ou iemenitas por exemplo.
Porém, a causa palestina é algo que perdura há décadas, nossa Nakba começou no século XX, e não há milênios atrás.
São muitos detalhes a serem apontados, e todos considero importantes, pois são pequenas lutas, até erros de legenda que me incomodaram pelo simbolismo da luta que enfrentamos.
No segundo episódio intitulado “Mãe” há o detalhe descuidado por quem traduziu e legendou a frase original em inglês:
“Not as beautiful as back home but nice”
Ficando como:
“Não tanto quanto as de Israel, mas é”
O personagem é palestino, lar (home) para ele não é Israel, e sim Palestina.
E isso ocorre logo após uma cena em uma fazenda de azeitonas em que dois fazendeiros texanos expressam sua ignorância quanto a cultura.
Acho bom deixar claro que não culpo quem traduziu e legendou a série para português, tampouco rebaixar o seu trabalho, até porque tenho a impressão que esse ofício não é dado a cronogramas extensos, ainda mais quando a estreia da série é realizada na plataforma de forma mundial.
Esse foi um exemplo pequeno e ao mesmo tempo que incomoda que me deparo desde que me conheço como palestino vivendo no ocidente.

No mais, Mo é uma boa série contemporânea para assistir e dar umas risadas.

Mo
Mo

Ma’a salama!

Para entender Palestina x Israel – Parte 1

Se você tiver um interesse genuíno em entender o conflito Palestina x Israel, com paciência e dedicação mínima, além dos noticiários e postagens internéticas deixo aqui algumas recomendações de filmes e documentários, não somente de produções palestinas, mas do lado israelense também.
Por ter nascido lá, ter família nos territórios ocupados, é óbvio que sempre terei o ponto de vista a partir da Palestina, a favor da liberdade, dignidade e prosperidade desse povo que sofre não somente há décadas, mas há séculos, considerando que o território palestino sempre esteve ocupado por outras potências e impérios.
Por ter sido criado em terras tupiniquins, não seguir cegamente uma religião e ter uma visão humanista, sempre busquei atenuar o óbvio ódio que inflamaria ao ver qualquer notícia de lá.
Se você entender a questão palestina, tenha em mente que não deve odiar Israel, ou pior, se tornar um antissemita.
As atuais lideranças extremistas dos dois lados são repugnantes e desumanas. Mas tenha certeza que a maioria de civis de ambos os lados desejam a paz e infelizmente são os que mais sofrem.
Os palestinos, além da paz, também são esperançosos quanto a um direito básico: liberdade.


Filmes

O Paraíso, agora! (Paradise Now; 2005) [PALESTINA]
Em Nablus, Said e Khaled, dois jovens amigos de infância se alistaram em um grupo terrorista.
O chamado vem e são escalados para uma missão suicida em Tel Aviv.
O filme demonstra de forma muito humana os personagens, indicando os pormenores das famílias dos homens-bomba, suas motivações, além de mostrar as diferenças entre os dois lados da fronteira.
Há certos momentos de humor bem dosados na quebra da tensão.

Belém: Zona de Conflito (Bet Lehem; 2013) [ISRAEL]
Belém é uma cidade de grande importância para os cristãos. E sim, há palestinos cristãos na cidade palestina de Belém, que abriga a igreja da natividade, denominado como o local de nascimento
de Jesus Cristo.
No filme, a cidade é palco de disputas de soldados israelenses contra grupos terroristas como o Hamas que querem expandir seus domínios além da Faixa de Gaza.
O jovem Sanfur é recrutado por Razi, um agente do serviço secreto Shin Bet como informante.
A trama mostra o desenrolar crítico entre os dois lados e o desequilíbrio do jovem informante.
Há diversos pontos narrativos que considero tendenciosos, de modo discretos, através de arquétipos, mas o roteiro contém vários detalhes que sumarizam e muito a essência do conflito, principalmente sobre teimosia:
“Ainda assim é uma cabra”

Após esses dois filmes fique a vontade para ver uma penca de outros:
[Palestina]
O Paraíso deve ser Aqui ( It Must Be Heaven; 2019)
Omar (Omar; 2013)
O Ídolo (Ya Tayr el Tayer; 2017)

[Israel]
O Limoeiro (The Lemom Tree; 2008)
Valsa com Bashir (Valtz with Bashir; 2008) *animação dirigida por um ex-soldado
Uma Garrada no Mar de Gaza (A Bottle in the Gaza Sea; 2013)

Série

Our Boys (2019) {ISRAEL-PALESTINA}
Essa série da HBO é uma produção em conjunto entre Israel e Palestina, abordando as trágicas histórias dos adolescentes mortos em 2014, primeiro os três judeus sequestrados por terroristas
árabes e mortos, e posteriormente o sequestro de um jovem palestino por um grupo de judeus fanáticos que desejavam fazer justiça com as próprias mãos.
Em dez episódios são mostrados o ocorrido, a investigação e o julgamento do grupo israelense-judaico responsável pelo sequestro do jovem palestino.
A série deixa claro o problema que ambos os lados enfrentam ao lidar com seus fanáticos que agem por conta própria, pois até mesmo o Hamas nunca assumiu a autoria do plano do sequestro dos três jovens judeus.
O conflito de 2014 foi um dos mais sangrentos das últimas décadas.

Listei os filmes primeiro, pois a arte e adaptação humaniza, remove o preto e branco, o lado certo, o lado errado.
Após ver esses filmes, sugiro ver documentários que exploram o assunto.
Há dezenas deles, certamente, indicariam o Occupation 101, mas para ser franco, há dois que elenco como essenciais:

5 Cameras Quebradas (5 Broken Cameras) [PALESTINA-ISRAEL]
Feito de forma “artivista”, caseira, político desgarrado de vínculo partidário, muito sincero e que mostra a luta que escoe pelo tempo.
5 Câmeras Quebradas mostra Emad Burnat e suas cinco câmeras filmadoras que foram destruídas durante os anos de documentação da resistência pacífica-criativa e protestos contra o contínuo roubo de terras palestinas por colonos apoiados pelo exército e aparato sofisticado de um estado imensamente superior.
Esse documentário me tocou muito, porque muitas cenas que são mostradas tinha visto no decorrer dos anos em noticiários de sites como Haaretez e YnetNews.

Os Guardiões (The Gatekeepers; 2012) [ISRAEL]
Seis ex-chefes ainda vivos do Shin Bet, o serviço de inteligência israelense criticaram em entrevistas elaboradas pelo diretor Dror Moreh abertamente a política de segurança
de Israel, incluindo missões que causaram inúmeras vítimas civis e assassinatos de líderes palestinos.
Esse documentário aborda principais tópicos do conflito desde a fundação do estado de Israel em 1948.
Esse documentário me perturbou em vários momentos, talvez, por ser sincero quando os entrevistados são antigos “Heads” que tomaram grandes decisões, apartando uma estética “artivista”.
As conclusões dos entrevistados continuam refletindo o grande problema em que o estado vem se atolando.

Espero que essas indicações ajudem a entender o que acontece lá.

Salam (paz)!
Ma’a Salama!

Our Boys – Parte 2

Esse post se refere aos acontecimentos dos episódios 2, 3, 4, 5 e 6 da série Our Boys, uma produção israelo-palestina que está sendo transmitida pela HBO e que eu recomendo para quem se interessa pela região e a história dos conflitos.

O segundo episódio “Eu amo Toto” (I love Toto) tem um fluxo natural da continuidade em relação ao piloto, a Shabak (Agência de Segurança de Israel) inicia as investigações do sequestro de Mohammed Abu Khdeir, encontram seu corpo carbonizado e montam uma força-tarefa que analisa imagens do local da abdução. Além do pai desnorteado, um dialogo interessante na sala de comando é quando discutem sobre os principais suspeitos não serem árabes, e sim judeus.
“Tem a ver com linguagem corporal”, diz Simon Cohen, o personagem principal na empreitada das investigações, e o dialogo é interessante porque entre os dois povos há muitas semelhanças, devido ao ancestral comum e por partilharem de religiões abraâmicas.

Outro ponto de grande destaque é o do terceiro episódio “Dois Maços de Next Vermelho” (Two Packs of Red Next) em que recai a suspeita de que o sequestro se encaixe em violência doméstica quando a Shabak associa conversas de celular e fotos a um comportamento homossexual do sequestrado.
O baque ao pai é grande deixando mais desnorteado, afinal, o assunto é grande tabu em países árabes, onde homossexuais devem viver na surdina por temor de serem mortos. Do lado israelense plantam notícias falsas dizendo que o garoto já havia procurado ajuda em ONG’s especializadas. Um dos envolvidos na notícia plantada confessa e justifica que o sequestro do jovem palestino fez todos se esquecerem dos três adolescentes judeus mortos.
O quarto episódio “O Mártir do Amanhecer” (The Dawn Martyr) traz uma cena que muitos podem ter visto em noticiários, quando uma multidão acompanha em fervorosa um procissão fúnebre, carregando o corpo do mártir, endossando a vontade de luta de todos os envolvidos.
O pai fica irritado quando vê as pessoas levando os restos mortais do filho evocando como ele se fosse um “mártir de Al-Qsa”. Sua revolta se dá pela incoerência, afinal, seu filho não se habilitou para morrer por uma causa, tão menos era militante. “Nunca nos envolvemos com política”.
Durante a procissão, temendo que o destino fosse a jerusalém oriental e se enfiassem em um combate com as polícias de fronteiras ele improvisa outro cântico: “o mártir do amanhecer uniu os palestinos”, ganhando evocação aos próximos, até que mudam a direção da caminhada, se mantendo na cidade.
Essa cena em particular me lembrou a de outro filme israelense: Belém – Zona de Conflito (Bethlehem, 2013), quando um corpo de um militante é disputado em seu funeral por diferentes grupos terroristas, que o reivindicavam como um dos seus.
O requinte de espionagem se acentua quando Simon vai a uma sinagoga para se infiltrar em uma família suspeita no episódio “Bom Sábado” (Shabbat Shalom).
Com escutas e imagens capturadas por drones a Shabak acompanha o policial indo a um jantar na casa de um rabino, onde seu filho e netos são os principais suspeitos do sequestro.
Um judeu russo comenta sobre a eficiência da Shabak, dizendo que ela não era como a antiga KGB, não que a apoiasse, mas que os métodos dela, de possuir conhecimento de tudo e todos era um dos pontos que faltavam para uma força policial mais assertiva.
Nessa mesa de jantar há declarações sobre razão e emoção, e é lógico que são mencionados versículos da Torá, que descrevem fatos de violência justificados pelo grande Deus monoteísta. Não muito diferente se fosse em uma família muçulmana focada diariamente e estritamente nos preceitos religiosos.
No episódio “Aceitação do Silêncio” (Acceptance of Silence) dá-se a continuidade das investigações, mas agora, com os principais suspeitos presos. Simon, desde o momento em que se infiltrou na casa do rabino se afeiçoou com o jovem Avishai, que no piloto se emocionou muito com os sequestros dos adolescentes judeus e acabou se influenciando por seu tio a realizarem um ato de vingança contra os palestinos.
Pouco antes de ser preso, Avishai inicia um voto de silêncio, que se prolonga após estar encarcerado.
Não pesquisei se esse lance do principal investigador se relacionar com a família está fiel aos fatos, ou se é meramente liberdade criativa.
Existem muitos detalhes a serem explorados, mas se eu for comentar todos acabaria por transcrever tudo, e não é o intuito aqui, a ideia é incentivar a alguém interessado naquele pedaço de terra de tantos conflitos a assistir essa série.

Provavelmente a Parte 3 será um post final sobre os últimos episódios.

Ma’a Salama!

 

Our Boys – Parte 1

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, anunciou, de forma idiota como sempre, que a série Our Boys, transmitida pela HBO, falada em hebraico e árabe é antissemita.

Assisti ao piloto da série, que me cativou mais do que também a israelense Fauda (disponível na Netflix).

Antes de prosseguir, preciso deixar claro aos que não me conhecem que não nutro simpatia por nenhum tipo de extremismo.
E até mesmo no caso da causa palestina tenho meus ideais mais focados em empatia pelos lados envolvidos e com apelo ao conceito de diplomacia que todo nobre ser humano deveria se esforçar em partilhar antes de atirar a primeira pedra.
Não cresci com uma foto do Arafat na sala, tudo sobre a minha terrinha foi aprendido mais no pós 11 de setembro por vontade própria (meu pai voltou para nosso país natal um ano antes do fatídico dia e antes disso nunca me ensinou ou doutrinou sobre a tal causa) e sobrevivendo ao conteúdo absorvido na adolescência enquanto tentava me encaixar em alguma legitimidade de identidade.
Não sou nenhum Gandhi da vida, mas estou longe de evocar fogo e sangue, e consigo analisar os fatos com um olhar mais frio e “científico” do panorama todo.
Dito isso, espero que leiam, sem comichão de comentar prós ou contras ignóbeis, esse conteúdo sobre a série que irei postando conforme for assistindo aos episódios.

Os eventos da série são sobre o verão de 2014, em junho/julho, em que três garotos judeus são sequestrados na Cisjordânia e posteriormente encontrados mortos.
Tal episódio comoveu Israel, com grandes campanhas pelas buscas, criando levantes do exército sobre os territórios ocupados em semanas de aflição.
Na época, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que tal sequestro foi obra do grupo terrorista Hamas, algo que a organização negou veemente, e isso já seria ponta de desconforto político, pois todo grupo extremista não perderia tempo de assumir seus atos pelo simples conceito de espalhar o terror.
Assim que os corpos dos três garotos foram encontrados houve grandes levantes populares em diversas regiões, e em uma dessas aglomerações um jovem palestino foi sequestrado e queimado vivo por extremistas judeus.
Na sequência, manifestações no lado palestino eclodiram por todos os territórios e o Hamas, para ganhar protagonismo iniciou ataques de foguetes contra os territórios israelenses, que forçou ao exército ao contra-ataque deflagrando a batalha que foi batizada de Operação Margem Protetora.

O piloto mostra apenas o início de tudo, começando com uma ligação de um dos sequestrados e percorrendo os personagens dos envolvidos na investigação e do outro lado mostrando a outra vítima, o jovem palestino morto após a descoberta das mortes dos três jovens judeus.

Our Boys

Our Boys

O mais interessante no que diz respeito a produção da série é divisão de direção.
Enquanto que Joseph Cedar dirige sobre os eventos do lado israelense, Tawfik Abu Wael, de origem árabe, dirige o desenrolar no lado palestino.
O próprio título nos créditos iniciais aparecem em hebraico e árabe saudando a coprodução e participação conjunta.
Fauda tinha um pouco disso também, embora ficasse mais nos atores árabes a participação, sem abertura para produção.

Our Boys tem tudo para ser a série que eu queria ver sobre o conflito que ocorreu em 2014.
Critica os lados políticos sem se agarrar a outro lado político, focando, sem ser piegas, em um alicerce mais puro: as jovens vítimas que toda guerra santa maldita abocanha.

Ma’a salama!