Genocídio em Pauta – Parte Dois

Esse post é a continuação da Parte Um.
Decidi dividir em dois para dar a devida atenção em cada filme em separado.
Neste, falarei sobre o recém-lançado First They Killed My Father (Primeiro Mataram meu Pai, em tradução livre) dirigido por Angelina Jolie e baseado no livro homônimo de memórias da autora e ativista cambojana Loung Ung.
A estética desse filme é fiel ao estilo de um livro de memórias, Angelina soube trazer essa sensação ao centralizar todo o enredo na protagonista não somente nos takes, mas também com POV’s que deixam suaves algumas cenas quando sabemos que o olhar é de uma criança na casa dos cinco anos.
O enredo se passa quando o Khmer Vermelho, o partido comunista liderado por Pol Pot tomou conta do país após os EUA tirarem o dedo intervencionista. Durante a guerra do Vietnã o Tio Sam bombardeou o Camboja, considerado neutro no conflito e isso gerou indignação ao povo. O filme é iniciado com um discurso de Nixon sobre a retirada do país ao som de Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones.
A escalada vertiginosa de vitória do partido comunista estaria ligada a essa retirada, dizem muitos historiadores.
Fato curioso quanto ao posicionamento de Angelina Jolie a tal assunto é o fato de um de seus filhos adotivos, Maddox, ser de origem cambojana. Curiosidade do filme é de Maddox ter sido um dos produtores executivos, e detalhe, ele tem por volta de 16 anos.
Angelina já se engajou em causas sobre refugiados antes como em produções como Amor Sem Fronteiras (Beyond Borders) e no documentário Human Flow, além de ter visitado diversos campos desde que se tornou embaixadora da Boa Vontade da ONU em 2001.

A ambientação da fotografia do país tropical traz a dor do que os personagens sentiram, vemos fartura nas vilas e cidades entre as florestas, um povo modesto e simples que sentiram um regime autoritário dominar tudo em poucos anos com punho de ferro, implementando uma política cuja ambição era transformar todos em indivíduos trabalhadores do sistema denominado Angkar, que inclinava a nação inteira em se transformar em uma supridora agrícola para os camaradas que estariam lutando a guerra contra os capitalistas opressores.

Enquanto há cenas de horror direto, como as crianças que são separadas dos pais porque os mesmos estariam “poluídos” pela ideologia incorreta, há aquelas que chocam de maneira mais discreta, como a lavagem cerebral que os pequenos sofriam nas salas de aula em acampamentos simples, vestindo a mesma indumentária preta e boina. Além daquelas em que ouvimos de um megafone frases que se repetiam durante o dia como “O Angkar é o verdadeiro pai”, “O Angkar é o grande líder”, a semelhança de uma distopia ou ficção cientifica é assustadora, tanto mais ao saber que aconteceu de verdade.

A pequena Loung Ung tentando entender o que está acontecendo

Esse filme bate na tecla não somente no fato de mostrar o que aconteceu e fixar tal ocorrência em um mural no Never Forget, mas também soa como uma crítica quanto às nossas preocupações ao que realmente está acontecendo. Explico: os mesmos hippies que protestaram quanto a retirada das tropas americanas não se importaram com os efeitos que possibilitaram o genocídio no Camboja.
Fato semelhante seria a retirada dos americanos no Iraque que possibilitou o ISIS ou Daesh se preferir, a matar milhares e milhares de pessoas que não fossem islamitas extremistas.

Genocídios partem sobre qualquer etnia e grupo. E surgem de qualquer etnia e grupo que se possa imaginar também.
Fato mais recente (AGORA MESMO) é a perseguição que os Rohingya, minoria muçulmana , vêm sofrendo em Mianmar, país de maioria budista. Yep! Isso mesmo, aqui vemos um quadro em que budistas estão cometendo um genocídio contra muçulmanos.

Mas talvez podemos nos emocionar e pensar no quão insensato foi tal acontecimento daqui dez ou quinze anos quando transformarem o massacre num filme.
Não que devêssemos abandonar o #NeverForget, mas acho que devíamos nos concentrar mais no #NotNow.

PS: Há uma campanha no Avaaz: Parem de apoiar os matadores de Mianmar
Ela já acumula mais de um milhão e duzentas mil assinaturas.

Ma’a salama

Genocídio em Pauta – Parte Um

Assistir dois filmes sobre genocídio na mesma semana dá aquele shake na mente e isso é um gatilho o suficiente para falar sobre esse tema sombrio.
Então, aperte os cintos, que o assunto poderá um ser um pouco extenso, tanto que sabiamente dividi em duas partes.
O primeiro filme é uma produção que passou despercebida até mesmo por mim, que assisto mais trailers e novidades sobre filmaking do que os longas em si.
A Promessa (The Promise) foi lançado nesse ano com atores de grande quilate nos papeis principais: Oscar Isaac como Michael, o armênio de uma vila pequena com a humilde ambição de ser tornar médico e ajudar a comunidade em que cresceu, Charlotte Le Bon como Ana, a armênia que será a beleza que entrelaçará um triângulo amoroso com Michael e Chris, um repórter interpretado por Christian Bale, que no então Império Otomano trabalha como correspondente e observador das tensões que estavam a se desenvolver no início da primeira guerra mundial.

Oscar Isaac como Michael, a promessa ganhou outro significado: o genocídio armênio não pode ser esquecido

Oscar Isaac como Michael, a promessa ganhou outro significado: o genocídio armênio não pode ser esquecido

O curioso desse é o tema do genocídio armênio ser tratado pela primeira vez por Hollywood.
Geralmente grandes produções de guerra focam na segunda guerra, momento histórico em que os EUA se formaram como a maior potência do mundo.
Porém, o problema não era apenas essa falta de gancho simbólico para poder estender a bandeira americana numa cena que inflamasse patriotismo.
O maior impasse deliberado sobre tal genocídio são as alianças políticas que dificultaram a exploração do tema. A Turquia até hoje nega que tal atrocidade tenha ocorrido, não reconhecem sequer o termo genocídio. Possuem seus termos para explorarem os acontecimentos da época, como uma guerra civil descontrolada que sucedeu com baixas entre dois lados.
Mas todos os historiadores e documentações corroboram com a versão constrangedora da humanidade. Mais de 1 milhão e meio de armênios foram mortos entre 1915 e 1917.
Aqui em São Paulo temos uma estação do metrô e um memorial dedicado ao acontecimento, poucos notam isso.

Memorial armênio em São Paulo

Memorial armênio em São Paulo

Muitos se sensibilizam com filmes sobre genocídios, e todo ano há ao menos um sobre o holocausto disputando atenção e a manter a tal consciência do Never Forget.
Mas esses mesmos muitos acabam se furtando de um interesse global e deixam apenas para se emocionarem com boas atuações.
A Promessa tem um triângulo amoroso num melodrama que é abafado pelo desespero da guerra e o genocídio elaborado pela potência turca que tinha como grande aliado naquela guerra a Alemanha que pelas mãos do Kaiser abastecia seu exército com navios e artilharias modernas
Um povo que não teve grande oportunidade de se defender, castigado por um ato conhecido como Marcha da Morte, onde milhares de homens, mulheres e crianças foram lançados ao deserto de Deir ez-Zor para morrerem por inanição e desidratados.
Após assistir ao filme vi que após seu lançamento no festival de Toronto milhares de trolls classificaram site IMDB com uma estrela para desmerecer a obra.
Fato interessante foi quando soube que o investimento não veio de todo dos estúdios americanos e sim de uma herança de Kirk Kerkorian, filho de imigrantes armênios que fez fortuna como empresário e dono de cassinos e que faleceu em 2015, ano do centenário do genocídio.
“Tá, você é o cara que já sabia desse genocídio há muito tempo e agora tá bancando o pedante e crítico do desinteresse dos outros”
Na verdade, sei do genocídio armênio desde que me interesso por rock. Sim. Como admirador da banda System of a Down sempre dei ouvidos ao frontman Serj Tankian, que possui descendência armênia e mantinha o discurso de encorajar a propagação do que ocorreu ao seu povo.
Mas o meu interesse escapou pela diagonal e na época do lançamento do Youtube além de ver vídeos engraçados assisti dezenas e dezenas de documentários sobre outras matanças, como por exemplo o de Ruanda, que por curiosidade há um filme obrigatório para assistir do mesmo diretor de A Promessa: Hotel Ruanda.
E não me sinto confortável, em nenhum aspecto de minha vaidade, em me considerar um pedante quando discorro sobre o tema.
Se achou isso deixo a minha queixa: Pare de ser tonho(a) e se ligue no assunto que é mais urgente.
Pressão política sobre algo que ocorreu há um século é valido sim, tanto mais quando atualmente há uma força contrária aos que se pronunciam contra a Turquia que enverga por um caminho obscuro com Erdogan no poder.
O filme incomodou o antigo Império Otomano. Em defesa de sua versão a Turquia produziu um filme intitulado The Ottoman Lieutenant, que em rápida pesquisa notei críticas severas quanto à desconstrução dos acontecimentos históricos.
Para se ter uma ideia, seria o mesmo que se a Alemanha tivesse lançado uma versão em que mostraria “um soldado nazista consciente que honra o país e o governo ao mesmo tempo em que tentaria salvar alguns judeus de uma guerra civil perpetrada pelo próprios semitas em solo europeu”.
Antes de considerar que as minhas comparações estão tendendo ao desmerecimento do holocausto volto a dizer: Pare de ser tonho(a).
Uma das maiores propagandas das campanhas do #NeverForget enfatizaram que a humanidade precisa, urgentemente, a aprender a se curar com os genocídios, de forma a identificar o patógeno e evitar que outros aconteçam, e não somente ficar rememorando em cenas que arrancam lágrimas.
Um dos banners que vi em 2015 num show da banda SOAD na Armênia trazia uma imagem de uma silhueta do imperador turco usando um chapéu fez e outra de Adolf Hitler com seu bigodinho com os dizeres em tradução livre: “Condenando o primeiro, nós poderíamos ter evitado o seguinte”

Never Forget

Never Forget

PS: entenda “tonho(a)” como bem lhe aprouver.
PS2: A parte 2 sairá em breve.

Ma’a salama