Punk de Minneapolis

Setembro é aquele mês em que a nação roqueira adora desenterrar piadas sobre o cara do Green Day devido a música “Wake me up when september ends”.
Só lembro de que existiu Green Day por causa desses memes que já se equiparam ao tiozão querendo ser engraçado com a piadinha do pavê.
E apesar de ter gostado de algumas músicas no passado dessa banda, nunca estive na pegada a ponto de querer ir a um show deles.
Afinal, eu era aquele metaleiro que andava de preto,  coturno,  calças rasgadas,  correntes e às vezes cara pintada (magina um corpse paint feito com tinta de tecido e não ter ficado cego o_O).
E metaleiro jagunço quase não dá bola para o estilo punk. Quase.
Principalmente esse que vos fala, que vibra com eletrônicos variados, clássicos (eruditos mesmo) e árabes para honrar a origem.
Dentro dos sub-gêneros do rock o punk é um dos que se mantiveram na linha e eu curti uma outra música que provavelmente está no mainstream e gaveta das modinhas.
E embora nunca tenha sido um punk ou tido um moicano ainda conseguia me encaixar no que era de bom tom para o Mov.
E falando em Mov me lembro daquele outro que volta e meia é dito como “quem traiu o mov”: João Gordo.
(Muitos) anos atrás o vocalista da banda Ratos de Porão estava explicando sobre estilos punk’s e acabou por enquadrar o Green Day no “punk californiano”.
E é com todas essas voltas que eu chego no intuito desse post.
O álbum Be Good da banda Off With Their Heads.

Lançado nesse ano, caí no gosto de algumas faixas e o tom, estilo e vibração acendeu a fagulha do que o JG disse há muito tempo.
Em rápida pesquisa descobri que a banda é de Minneapolis.
E nos filmes que assisti a cidade sempre me pareceu um ótimo lugar para se viver.
A composição do nome vem de Mine que significa água no idioma indígena Dakota e Pólis, mais popular, significa cidade, do grego.
Às margens do rio Mississipi e com dezenas de lagos, com uma população abaixo de meio milhão.
Em séries e filmes sempre era exibida com a estrutura de uma metrópole com a qualidade de vida interiorana.
E o meu preconceito com esse detalhe urbanoide é que sempre que analisava o momento do surgimento do movimento punk e consequentemente as suas vertentes musicais punk rock as imagens que predominavam eram cenários industriais ou de ruas marginalizadas.
Todo o background de contracultura estava associado a certas decadências da sociedade, e as cidades sempre foram determinantes, pelo menos para mim.
As mudanças políticas que trouxessem desequilíbrios sociais teriam por efeitos estragos nas belas ruas e suas fachadas com as pichações de anarquistas insatisfeitos, números de desabrigados, vadios e outros indivíduos cuspidos para centros comerciais e bairros do submundo.
Quando o João Gordo explicou que Green Day era punk sim, mas um punk californiano, essa ideia intricou na mente de vez.
E toda vez que via uma banda nova que declarava punk, mas que era de uma cidade fodástica ou do primeiro mundo eu meio que torcia o beiço e menosprezava.

Green Day era um exemplo.
Um dos meus sonhos de adolescente era morar na Califórnia num triplex, curtir a vida enquanto rolasse a greenback boogie no meu bolso com o inevitável sucesso da minha carreira de cineasta.
Nunca conseguia imaginar uma revolta punk surgindo de um lugar como a Califórnia.
Anos se passaram e a banda Off With Their Heads lança o álbum Be Good.

Pois bem, esse árabe adulto e que nunca mais sai nas ruas de preto com coturnos e correntes ainda tem seus preconceitos.
Mas alto lá!
O amadurecimento torceu minha mente. Faço careta de bate e pronto, porém, ouço as faixas disponibilizadas pelo canal da gravadora (Epitaph Records) no Youtube.
E eis que relevei com a simples noção de que a ambientação não parece mais um fator tão determinante para a “revolta”.

Talvez seja o momento atual deste século, em que todas as previsões sombrias do cyberpunk se revelam com espectros coloridos e todos humanos sempre excepcionais e felizes em seus avatares virtuais ao invés de céus escuros, paisagens monocromáticas e personas pálidas e taciturnas.

Be Good tem um vocal gutural e carregado em boa parte das faixas.
Mas ainda assim o som que tem sim uma aproximação do punk rock traz uma sensação de estranheza quando parece estar dando esperança.
Se na banda nacional Os Replicantes a música Festa Punk exaltava uma revolta por aqueles que queriam uma festa que rolasse discos punks, Be Good tem uma faixa intitulada Death.
Com um vocal sem letra, e um instrumental que se encaixaria em uma porrada de banda indie.
Be Good até parece uma evocação de revolta, em época de social medias, fastnews, fakenews, ansiedade, neo-facismo, populismos e moralização exaltantes de todos os espectros de polarizações.
“Seja Bom” seria a saída mais simples e de melhor resultado para um revoltado, mesmo que ele já seja cidadão de uma cidade bonita e farta.

Pô! E justo quando eu estava tentando captar a pegada do álbum, enquanto buscava outras faixas, me deparei com a capa:

Be Good

Be Good

A imagem, claramente uma foto amadora, mostra mulheres em trajes aparentemente menonitas, a curtir uma tarde na praia tendo ao fundo uma torre de refrigeração de uma usina nuclear dando um aspecto um tanto bizarro.
Para fins marqueteiros o ambiente ainda parece ter peso afinal…

Ma’a salama!

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