Crônica do Desagrado

Rubro tirano em formato discoide, o sol enterrava-se no horizonte debaixo de um deserto monótono que se estendia por quilômetros. Apenas duas crianças caminhavam solitárias entre a cadeia de montanhas arenosas e assentadas por milênios de exploração mineral. Agora o planeta era administrado pela família de Wuduee, uma das crianças, a outra era seu amigo e tutor por ser uma representação carnal da raça pandimensional conhecida por muitos nomes, mas que o pequeno Wuduee costumava chamar de Anjos Além da Luz, em alusão à localização do sistema em que vivem em sua maioria.
“Por que vamos tão longe hoje?”, indagou Leskat, o amigo-tutor.
“Você já deve saber que estou intrigado com nossa última conversa”
Leskat meneou a cabeça, realmente sabia. E quando Wuduee o forçava a andar mais longe, era porque a ideia tirou algumas noites de sono.
“Sim, mas antes que o sol do meridiano central nasça quer ir até algum lugar especial? Uma caverna talvez?”
“Não. Só vamos subir aquela montanha”
“Wuduee, essa andança toda cansa o meu corpo encarnado, mas a sua intenção de que isso fragiliza a minha mente para que eu solte algum conteúdo extra que esteja propositalmente ocultando não confere”
Leskat encarnou de forma brusca em um corpo fadado à morte. Nasceu com uma pele frágil que emitia um brilho alaranjado e a estrutura óssea no rosto deformada era esteticamente horrível. Não fosse a energia adicional de sua real espécie tal corpo teria sido mais um natimorto.
“Isso eu já sabia. Só quero andar mesmo, superar a distância da última vez”
“É quase uma analogia ao tipo de informação que você requer”
Os dois se encontravam semanalmente para o contato acordado por um pacto antigo. A raça de Wuduee eram uma das mais atrasadas no universo, porém, uma das mais bondosas perante a Confederação Estelar. O pacto proposto pelos próprios Anjos Além da Luz indicava que cada cidadão receberia o acompanhamento desde a infância de um dos seus encarnado à mesma espécie como forma de suporte à evolução. Sabiam que devia ser um processo gradual e tal levaria alguns séculos para atingir o equilíbrio necessário, mas os resultados eram satisfatórios.
“Pronto, aqui estamos”, disse Wuduee assim que chegaram ao topo da montanha.
“Sim, agora diga o que tem te deixado inquieto”
“Quer água?”, indagou oferecendo uma alga colada à sua palma da mão, a água era absorvida por sua pele porosa.
“Não, obrigado. Já colhi alguns mililitros do ar que está bem úmido hoje”
Apesar do corpo deformado, Leskat forçou algumas adaptações no corpo, por sorte, todas permitidas pelas regras do pacto.
“Em nosso último encontro você me disse que muito mal pode surgir de uma ação do bem, ou de uma deturpação e interpretação de algo com boas intenções”
“Sim. Conseguiu elaborar os exemplos que pedi?”
“Sim. Consegui”,  Wuduee enumerou dezenas de exemplos reais do cenário político de seu sistema solar, com referências históricas baseadas nas fontes das enciclopédias que Leskat havia sugerido.
“Perfeito! Tudo certo”, Leskat olhou para o oeste. Antes que a escuridão dominasse o sol do meridiano central surgia no horizonte.  “Pensei que estivesse preocupado em não ter conseguido cumprir com o dever de casa. Então estava enganado, não faço ideia do que te preocupa”
“Mesmo você entrando na minha cabeça?”, provocou Wuduee.
“Ora, já lhe expliquei setecentas e vinte e seis vezes que eu não consigo ler os seus pensamentos. Quando estou ao seu lado, consigo trabalhar de forma telepática na evolução parcial de seu cérebro, corrigindo sinapses e massageando os neurotransmissores para não permitir redundâncias neurológicas. Mas não consigo ler os seus pensamentos, muito menos suas emoções”
“Verdade, desculpe, não quis parecer desconfiado. Você é meu amigo”
“Perdoado, não precisa ficar com essas bochechas coradas. Isso me deixa com inveja, você sabe”, brincou Leskat que de fato não gostava da atitude porque as suas bochechas ficavam num tom laranja fosforescente.
“Existe o oposto?”, indagou Wuduee enquanto forçava os olhos contra o sol que nascia mais rápido que o antecessor.
“Perdão. Não entendi a sua pergunta”, Leskat também dirigiu o olhar ao sol, mas os seus olhos mais frágeis arderam em três segundos e o forçou a desviar. “O oposto do quê?”
“De algo mal que se origina do bem?”
“Hummm”, Leskat fazia a pausa enquanto buscava a informação em seu próprio cérebro encarnado, menor devido à microcefalia, mas a carga neural pandimensional fora direcionada para a medula, outra adaptação permitida pelas regras do pacto.
“Sabia que essa pergunta era a mais forte de todas”, comentou Wuduee após três minutos. A média do tempo de resposta era menos de meio minuto.
Leskat abriu um sorriso, mas tinha os olhos pesados, como se sentisse dor no processo que se prolongava.
“Consegui a sua resposta”
“Não esperava menos de você”, Wuduee sempre gostou do amigo e não escondia o afeto que sentia.
“Sim, existe o oposto”
“Uou! Eu sabia. Mas há algum embasamento em alguma enciclopédia?”
“Sim. Pegarei um exemplo recente. Demorei muito para te responder porque testei a qualificação da informação pelos filtros da heurística e hermenêutica”
“E então?”, Wuduee abriu seu sorriso de entusiasta.
“Essa história pode ter o peculiar rótulo de uma crônica, seria uma ‘Crônica do Desagrado’”
“Sendo o desagrado como o objeto do mal inicial?”
“Exato. Essa história se remete a cinquenta e dois anos e quatro meses e dois dias antes de seu nascimento”
“He-he-he, novamente aquele seu recente, não para mim”, Wuduee ainda ria das diferenças entre os dois, como se tivessem se conhecido há poucos dias.
“Pesquise depois sobre o planeta Abdiaae no quadrante C204 da galáxia de SisiKnum II, administrado por uma democracia confluente, mas dividida por dois hemisférios com economias distintas, o que acabou por atrasar seu desenvolvimento. Nossa história tem pé no palácio do duque do hemisfério sul, que em uma de suas festas que costumava dar chamou um de seus colegas empresários para visitar um viveiro que ficava escondido dos olhos de quem não fosse convidado. Imagine agora, caro Wuduee, uma enorme cúpula de vidro, tão grande que caberia oito vezes todas as casas de suas vilas e sete montanhas dessas de tão alta. Agora, a espessura era tão grossa que a tornava blindada. E a parte exterior continha um escudo que camuflava, por isso ninguém a via de fora. Quando o empresário adentrou o viveiro ficou boquiaberto. Seus olhos arregalaram-se para centenas de espécies de aves diversas, umas em galhos de árvores gigantes, outras voando em direção ao vidro. Imagine aves que têm pernas que são três quartos de sua própria altura, e outras que possuem bicos longos o suficiente para engolir cobras de nove metros estendidas. Imagine penas exuberantes que renderiam penachos soberanos aos seus antepassados da aurora de seu tempo. Toda essa beleza encheu os olhos do empresário, que ficou intrigado com tudo o que via. ‘É uma coletânea rara’, disse o duque com um sorriso convencido. ‘Ninguém nessa galáxia poderia ter outro igual, nem mesmo você’. O empresário ficou fascinado por muito tempo com o passeio, realizado por uma passarela que atravessava toda a cúpula, abrindo espaço entre a vegetação. Ele quase ignorou o comentário do duque, mas depois seu humor se alterou e uma espécie de raiva tomou conta de seu peito. ‘Mas, se eu quiser, posso comprar e ter uma coleção maior’, ‘Tente, se conseguir um décimo do que eu tenho lhe entrego até o meu título’, desafiou o duque. O empresário calculou mentalmente e sentiu o peso da derrota, seria um gasto altíssimo para uma disputa feita para poucos olhos. Porém, seu ego ansiava por uma intervenção. Ele desfrutou da visita e das palavras arrogantes do duque com um sorriso falso e elogios improvisados. Assim que retornou ao seu gabinete onde elaborava estratégias comerciais, buscou formas de sabotar o orgulho do duque”
“Sabotagem como uma explosão?”, interrompeu Wuduee.
“Não, de início o empresário até cogitou algum tipo de ato violento ou que tivesse como fim a destruição do viveiro e as aves. Mas era arriscado demais, se houvesse falha no plano poderia perder tudo, já que lhe ensinei outro dia, lembra da história sobre a reputação?”
“Sim, reputação é como um castelo de cartas”
“Exatamente. E empresários costumam ter essa noção, mesmo que de forma subconsciente, pelo menos em Abdiaae”
Wuduee ficou pensativo, a alga em sua mão já estava quase seca. Pegou de uma algibeira presa ao cinto um punhado de erva e a comeu.
“Estou tentando adivinhar o que o empresário fez, mas nenhuma imagem que consigo criar daria certo na resposta para minha pergunta”
“Se quiser aguardo o tempo que desejar, mas logo o sol vai arder sobre nossas cabeças”
“Não precisa, não conseguirei adivinhar. Pode prosseguir”
“Burocracia, esse é o primeiro verbete que nos direciona para a resposta. O empresário era um burocrata experiente. Assim, como grande influenciador dos legisladores do hemisfério sul. Sendo assim, o mesmo obteve sua ideia ao analisar as papeladas mais recentes que impediam seus avanços de exploração em áreas de preservação ambiental. Lutou décadas contra os ativistas que zelavam por florestas, mares e animais silvestres. Em sua mesa continha centenas de petições desses grupos, muitos deles com destino certo de acordo com o seu poder: o arquivamento eterno”
“Tipo um enciclopédia?”
“Não, enciclopédias existem para que a informação seja viva por períodos que transcendem corpos biológicos, mas com o propósito de servir a mentes sedentas por conhecimento. As salas de arquivos de um burocrata são é lugar em que a informação morre, oculta na escuridão, estagnada por um lacre sucinto”
Um som ribombou tal como um forte trovão. As duas crianças olharam para o leste. Um traço cortava o céu.
“Deve ser meu primo Wukaee, mas ele não está atrás de nós porque avisei para minha mãe que iria longe hoje e demoraria mais que de costume. Ele deve estar indo checar a estação autônoma de monitoramento do norte”
Leskat observava a atmosfera úmida resvalando ao longo do metal azul.
“Wukaee, o seu primo que reprovou na segunda fase de aprimoramento de evolução pilota uma nave supersônica”, ponderou Leskat com um sorriso zombeteiro. “Se você continuar com sua dedicação aos nossos ensinamentos poderá se tornar o patriarca não só de sua família, mas também ocupar um cargo importante no sistema de seu povo”
“Como um empresário burocrata?”
“Não, pedra pontuda. Voltemos a história para que você possa sonhar e almejar corretamente”
“Há-há-há, sim, voltemos”
“O empresário burocrata requisitou que uma assistente sênior buscasse as petições  recentes que mencionassem tráfico de aves silvestres. Assim que teve em sua mesa todos os documentos suplicados por entidades ativistas decidiu convidar um representante para oferecer apoio à promulgação de uma lei que proibisse que qualquer ave, fosse do tamanho de uma semente fosse do tamanho de uma montanha vivesse em cativeiro de qualquer tamanho fosse gaiola fosse viveiro em qualquer dos hemisférios. Seu poder de barganha convenceu de imediato outros sócios em outros empreendimentos e servindo-se de pressão econômica levou a cabo e em tempo recorde a votação da lei que intrigou os opositores, no entanto, comprados com outros acordos, ratificaram o processo e sua legitimidade e logo, o rei a qual o duque servia, sancionou a lei, suas condições e punições em caso de violação. Imagina a bifurcação que dá vida à sua resposta?”
“Sim, duas vias. Uma para o mal e outra para o bem”
“O mal surgido seria a vingança consumada. O empresário burocrata delatou para grupos de ativistas que o duque escondia uma coleção particular. Não somente teve sua propriedade invadida e destruída enquanto as aves antes presas puderam alçar voo além da cúpula, como toda a ação foi documentada e divulgada para o público. O duque perdeu seu título e suas posses reais. O empresário foi visita-lo na semana seguinte, com uma espécime rara de ave de rapina sobre o seu ombro. ‘Onde está sua coleção?’, perguntou o empresário, ‘Não a possuo mais, ativistas malditos destruíram tudo que eu tinha’, ‘Que pena, eu queria mostrar a minha. Só tenho este, mas não sabia que sem querer eu o ultrapassei’, ‘Mas, como? Tem uma lei que entrou em vigor nesse ano, e ela é mundial’, ‘Sim, mas a lei é clara quando diz que não podemos mantê-los presos’, ‘Não entendo, então ele não é seu’, ‘Sim, pertence a mim, vive em minha fazenda sem grades ou cúpulas de vidro a impedir que vá para longe. Apenas o adestrei para que não deixasse a minha propriedade, ele voa para vários lugares, mas nunca me deixará. A lei não era contra isso’, triste, o ex-duque apenas concluiu: ‘infelizmente não tenho como lhe entregar o meu título, pois o perdi pelas mãos de meu rei’. E desse diálogo o empresário obteve sua vingança pessoal contra um simples insulto. A outra via, podemos visualizar…”
“Milhares de gaiolas sendo jogadas fora”, Wuduee pulou com os braços estendidos, sorriso puro, exaltando-se numa atitude que uma criança se permitia. “Várias aves voltando para a glória da liberdade, poderem cantar alegria verdadeira”
“Sim, o bem surgido por alguém que tinha como propósito seguir a outra via”
“Mas…”, Wuduee interrompeu o que iria dizer, ficou pensativo por meio minuto. “Ah, eu iria perguntar se isso acontece muito no universo, mas acho que já sei a resposta, é sim, né?”
“Sim, o tempo todo”
“Daí eu penso em outra coisa, se levar em consideração, pelo menos nessa história o bem vence pela quantidade o mal. Esse oposto é quase o equilíbrio perfeito da ideia de que há mal que surge do bem, né?”
“Não creio que há equilíbrio para esses casos”
“Tudo bem, não importa, você já me ensinou sobre os equilíbrios congruentes e incongruentes. Mas dessa história, desse exemplo podemos nos concentrar no que o bem proporcionou, né? No caso, várias histórias felizes surgiram para as aves e o mal que foi feito ao duque  pode ser quase ignorado. Né?”
Leskat meneou a cabeça concordando, mas pensativo e com certo olhar cansado.
“O que foi?”, indagou Wuduee preocupado.
“Nada. Você tem razão. A resposta neutralizou por completo a sua dúvida?”
“Sim!”
“Perfeito. Então como dever de casa ficará incumbido de me trazer exemplos semelhantes”
“Pode deixar, essa será fácil, estou ficando craque nas pesquisas das enciclopédias”
As duas crianças iniciaram a descida da montanha rumo às suas casas. Wuduee à vila em que sua família e gestora do planeta vivia e Leskat à estação subterrânea em que ele e outros membros de Anjos Além da Luz iam restabelecer suas energias.
“Notável o desgosto em sua face esteticamente falha”, observou um parceiro que descansava em uma cápsula disposta na vertical.
“Lecionar e suas consequências psíquicas”, Leskat respondeu enquanto adentrava na cápsula ao lado do parceiro.
“O padrão lógico indica mais um abatimento sentimental”
“É. Esses corpos costumam nos providenciar isso”
A capsula emitiu ruídos ao se fechar com o comando interno. Leskat confirmou o sono criogênico por pelo menos dois dias. Antes que seu corpo fosse induzido ao relaxamento total ficou imaginando sobre o que ensinou naquele dia ao jovem Wuduee e como o tal oposto que ele gostaria de saber trazia a tona a real intenção dos Anjos Além da Luz em auxiliar a evolução de seu povo.
Desde o descobrimento dos povos primitivos de Wuduee, uma simulação indicou que se providências não fossem tomadas, eles se tornariam inimigos mortais num futuro distante, mas que em termos de relatividade cósmica, seria prejudicial ao legado. Dessa forma, a tal evolução os forçaria a uma posição que os manteriam subjugados e a um passo de se tornarem servidores eternos com a etapa de dizimação total como objetivo final.
“Uma maldade”, pensou pesaroso Leskat. Tal informação não constava em nenhuma enciclopédia, mas era um conhecimento coletivo.
Mas o ânimo inocente de Wuduee o acalmou, pois a conclusão dele indicava que todas as generosidades e bondades tornavam a via do bem mais extensa. E é lógico, a não menos importante amizade, essa que se tornava mais densa conforme o sóis nasciam e se punham.

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