Mínimo de Culpa

Leu algumas chamadas de notícias em seu site predileto pelo celular enquanto o copo plástico era preenchido com cappuccino, algo que podia ser medido em vinte segundos. Conversou com a equipe no momento da pausa matinal, discutiram sobre o fim de semana, comeu o pão de queijo e voltou para a sua mesa. Um sorriso modesto estampava o seu rosto, até quando um novo e-mail invadiu a caixa de entrada.
“Nota de Falecimento”
Correu a ler, na esperança de encontrar a tão sonhada gafe: “É com imenso prazer que anunciamos a m…”, rindo só de lembrar de que comentara uma vez com os amigos numa das conversas especulativas, mas nada espetaculares, partindo do “já pensou se”.
Não havia resquícios de gafe alguma. Indicava apenas o falecimento de algum Isaías. “Esses nomes bíblicos, deve ser algum tiozinho da limpeza”. Excluiu a mensagem sem ao menos ler o local do enterro.
O almoço chegou e ele estranhou que a costumeira movimentação dos companheiros de equipe não ocorria. Alguma nuvem negra descera no andar. E ele não suspeitava de nada.
“Alguém vai ser demitido?”, caotizou sua expectativa.
Foram almoçar todos juntos, saíram dez minutos mais tarde, então para evitar o pico de esfomeados decidiram ir a um restaurante mais luxuoso e seletivo.
Os colegas de trabalho que formavam a equipe se restringiam a quinze, o que na ocupação das mesas do restaurante causava uma distribuição única num canto, naquele dia, ele ficou na ponta.
“Eu pago tudo hoje? Hehehehe”, esperou arrancar mais do que simples sorrisos amarelos de meio segundo.
Assim que escolheram os pratos e devolveram os cardápios ao solicito garçom, alguém de fato quebrou o encanto sombrio:
“Viram quem morreu?”
Não aguentando seu humor escroto soltou:
“Recebi um e-mail, não vi ninguém morrendo, he-he”
“Não era aquele rapaz especial?”
“Ele mesmo”
“Vocês duas o conheciam?”, sua curiosidade se aflorou.
“Ah, ele passou lá algumas vezes, no andar. Acho que ele trabalhava para a diretoria”
“Vocês estão falando do rapaz que sempre vinha de jaqueta?”, a analista contábil bebia o refrigerante como entrada e tinha certo receio na voz.
“Ele mesmo, você também já conversou com ele?”
“Acho que sim, uma vez ele foi até a minha mesa, e puxou conversa quando viu o boneco de lhama”
“Ah, foi o garoto retardado que morreu?”, ele deu risada ao compreender de quem falavam.
Em represália, os olhares julgaram aquele arrogante ao lago de fogo. Em resistência, fingiu que não percebeu que cometera uma indelicadeza quanto a memória de alguém querido e virou seu rosto em direção à televisão que exibia os gols de domingo.
“Troquei uma ideia com ele há duas semanas”, se pronunciou o analista de sistemas. “Simpático, puxava conversa sobre qualquer coisa”
Uma pinçada na mente, e ele sentiu o quanto aquela frase era falsa, normalmente, nas poucas vezes que testemunhou o encontro do falecido com alguém de seu andar, sentia aquela vontade de cair em gargalhadas ao ver alguém consternado de ser abordado do nada por alguém “especial”. Especial era piada, para ele, o rapaz que sempre vinha de jaqueta devia ter algum problema mental, o que em suas classificações se concluía como um retardado.
E o tal de Isaías sempre se aproximava de alguém que não conhecia puxando conversa com algo além da situação climática. Fosse sobre algum objeto na mesa de trabalho, fosse sobre algum detalhe da roupa que estivesse usando. Era um tipo de aproximação que instantaneamente podia identificar que ele era especi…, retardado. Não somente no julgamento dele, mas também no de muitos.
“Morreu do quê?”, a analista de contas quis saber.
“Sabe não? Se matou o coitado”
“Ah não. Sério?”
“Uhum, tomou uma porrada de comprimidos, amanheceu morto”
“Pobre coitado, alguém tão bom. Lembro que ele uma vez falou que não tinha os pais. Eu sempre conversava com ele”
E naquele momento ele compreendeu que todos estariam dispostos a se defender, relatar sobre o encontro, amenizar a situação constrangedora, minimizar a culpa.
“Bom, e ele vivia com quem?”, ele quis saber, de certa forma para entrar na conversa, mas sem entrar no jogo de mentiras dos hipócritas.
“Não sei, acho que morava sozinho”
“Amigos?”
“Também não sei”
“Namorada?”
“Ah sei lá, conversava com ele, mas não sabia de tudo da vida dele”
‘Aparentemente nada’, pensou com certa satisfação.
“Fim de papo. O garoto ‘especial’ parece que estava sozinho. E se ele tinha aquele jeito de se entrosar devia ser um momento de compensar uma coisa que faltava na vida dele. E se só no nosso prédio ele tinha alguém que o tratava com dignidade, ainda era uma vida ruim, né?”
Todos pareceram chocados com o que dissera. Mas ele não esperava reação diferente.
Os pratos foram servidos, o vapor das massas que eram a especialidade da casa a tornar porosas as faces. Com o cuidado de não se queimar ele começou a comer enquanto apreciava os diálogos.
“Quando foi a última vez que ele subiu lá?”, indagou a analista comercial.
“Faz muito tempo não, acho que foi na quinta-feira”
“E faz alguma diferença?”, quis saber o analista de sistemas.
“Ah, queria saber com quem ele conversou por último”
Aqui ele pescou o que poderia ser o golpe fatal, ela queria se livrar de certo grama de culpa ao indicar alguém como o grande fracassado que não pôde salvar a pobre alma.
A exploração direta de delegar o crime a outro não tardaria como pensou após um tempo.
“Conversei com ele no mês passado”, adiantou a defesa o analista de sistemas.
“Ah, que importa com quem ele conversou por último?”
Todos fitaram a analista de projetos com olhares inquisidores, até mesmo ele, por pura diversão.
“Você conversou com ele na quinta-feira?”
Ela fingiu demorar a mastigar a simples garfada de massa com molho à bolonhesa.
“Falei com ele pela manhã. Ele parecia estar bem, do mesmo jeito de sempre”
“Sobre o que ele falou?”
“Perguntou como estava, depois de falar que a manga da jaqueta dele tava curta”
“Desde sempre a manga da jaqueta dele estava curta, né? Hehehehe”
Ele não parecia ter pudor, e mesmo que todos o reprovassem com olhares e caretas contidas, um misto de alívio vinha surgindo.
“Você conversou com ele alguma vez?”, indagou o analista de sistemas.
“Falei”
“E quando foi a última vez?”
“Olha, acho que foi na quinta”, a resposta veio com um misto de investigação mental.
“Sobre o que conversaram?”
“Não lembro, ele falou da manga curta dele, eu falei que não estava sim tão curta, ele pegou um café e deu um tchau. Ué, por que estão me olhando assim? Queriam que eu dissesse: ‘A vida é bela’, ‘não desista, tudo vai dar certo’ e coisas assim? Eu devia adivinhar que o cara iria se matar? Alguém aqui deveria saber?”
“É, acho que ninguém aqui deveria saber o que se passava na cabeça dele”, concluiu o analista de sistemas.
Sabia que ninguém insistiria mais, pois a absolvição coletiva foi dada.
Restou apenas a lembrança da manhã de quinta-feira, quando Isaías invade a copa e o ataca com o comentário sobre a manga curta. A resposta dele fora instantânea:
“Sempre esteve, cara. E tudo mundo já sabe disso. Acho que até você já está farto de saber, né?”
“É…, mas eu gosto dela. Ela é bonita, não acha?”, o rapaz com problemas mentais tinha que ter aquele tom infantil?
“Não sei”, ele pegou o celular e fingiu estar atrasado. “Vou voltar pro meu lugar, acho que você devia encontrar o seu também”
Foram palavras duras? Determinantes? Mortais? “Lógico que não”, sua mente agora latejava. “Não vou entrar no joguinho patético desses merdinhas mentirosos. Que culpa tenho eu? Ninguém mais dava atenção pro retardado? Que culpa eu tenho se ele não tinha família? Não vou entrar nesse jogo idiota. Que culpa tenho eu se o cara…”
E mesmo após pegar a disputada fila da sobremesa, cortesia da casa, ele não percebeu que vinha participando do jogo de forma consensual desde quinta. Antes mesmo de uma vida ter deixado o mundo.

 

 

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