Máximo de Culpa

Ajeitou seu bigode num ato desnecessário de vaidade.
Se tivesse um pequeno pente seria melhor.
Mas não podia exigir muito.
Naquele momento, tudo a que se disponibilizou a fazer escoou pelo ralo e seu suor indicava, não somente pela abundância e odor, e sim da origem que segregou tal substância aquosa, que as falhas foram, no mínimo, patéticas.
O plano fora traçado e testado para ser perfeito. As vilas que ficavam próximas ao sopé da montanha estavam calmas naquele dia. O humilde povo nem imaginava que era alvo de um ataque ordenado pelos próprios governantes do país.
Mantiveram-se de cabeça baixa após rápidas olhadelas nas instalações militares. Ordenhavam as cabras, aravam a terra, regavam girassóis e carpiam as bordas da lavoura.
O exército lançaria os mísseis contra as vilas e depois, com a certeza absoluta e garantida de que não haveria sobreviventes e posteriormente testemunhas, culpariam o país inimigo da ofensiva e teria uma bela desculpa, ou álibi oficial como diziam nos jornais, para testar seus novos apetrechos criados por seus cientistas anônimos em laboratórios subterrâneos secretos e renovar a supremacia na região, algo deveras importante para a mentalidade nacional.
O ministro da defesa deu carta branca. Os encarregados de fazerem tal monstruosidade foram selecionados a dedo e o capitão recebeu o envelope ultra-secreto contendo a estratégia a ser usada numa missão intitulada “Gratidão”, qual o significado? Sabe-se lá. Alguns afirmam que são atribuições aleatórias, mas quando se questiona se ninguém pensa em apertar o botão para outro título cuspido, risadas sinceras ecoam até sumirem no corredor.
Um grupo de trinta soldados, mais ou menos, poucos poderiam indicar o número exato, mas era um contingente aceitável.
Instalaram as armações que disparariam os mísseis, esqueletos metálicos, rampas e plataformas temporárias.
Tudo corria como planejado quando o capitão que observava atentamente a execução do plano sentiu a terrível e angustiante vontade de urinar que o acompanhava há muito tempo.
Ele sofria de uma infecção urinária que lembrava a arame farpado pedindo passagem pela uretra e não podia segurar a vontade. Nisso, correu para a cabine no interior do caminhão militar.
Todos os soldados estavam no lado de fora e apreciavam a vista do topo da montanha.
Um deles carregava o último míssil para o disparador distraidamente, pois esforçava em resgatar as fotografias mentais da namorada sensual que tinha. Não via a hora de voltar para ela e satisfazer suas fantasias.
O serviço secreto clandestino esmagava toda a sua libido. Tanto mais em momentos como aquele, em que há pressão para entregar resultados em curto prazo, entre dezenas de outros parceiros que disputavam a aura testosterônica a cada frase e cada gesto.
Carregava o míssil de pequeno porte nas mãos, deixando o aparato que facilitaria o serviço de lado, a fim de estufar as veias e deixar a luz solar deslizar nos traços de sua musculatura.
“Olhem isso seus babacas fracotes, invejem o meu corp…”, quando tropeçou numa pedra deixando o objeto bélico cair de bico, com toda a carga aprisionada e sensível a poder gozar da liberdade imediata.
E como estava a poucos passos do disparador carregado, travado e ansioso pro trampo, com mais vinte e sete mísseis a explosão que sucedeu fez todos os outros soldados serem lançados alguns montanha abaixo, outros contra o caminhão que por sua vez tombou, fazendo o capitão bater com a cabeça na privada fétida com armação de alumínio, restando ainda alguns decilitros na bexiga e na sofrida uretra.
Ele, por alguma razão sabia que foi um acidente causado por um dos jovens soldados. Quando viu e conversou com os selecionados percebeu que eram burros e que logo o ministério da defesa os aposentaria em gracioso método para que a verdade nunca chegasse a tona.
Sabia que as pessoas das vilas escutaram a explosão e logo chamariam socorro. Elas que seriam martirizadas, eternizadas em símbolo de uma vingança, estariam se recuperando do susto e se mobilizando para descobrir o que ocorrera e talvez ajudá-lo, que na certa era o único sobrevivente.
Naquele momento sentiu um remorso que só teve na infância.
E o que sua mente pôde propiciar como atenuante, era deixar-se levar pela ideia de que o álibi ainda poderia ser usado, e que o orgulho nacional poderia ser comemorado pelos lavradores humildes que o salvaram para contar a verdade do ataque surpresa.
Sangue, suor, urina e matéria fecal da latrina a vomitar o acúmulo fétido se misturavam e ensopavam o bigode que saía em grande estilo nas fotos.
A ferida recém aberta na testa ardeu e seus pensamentos foram atormentados a quase atingir o máximo da sensação de culpa daquele momento.
Deve haver algum padrão militar de vergonha no fato da urina ou merda de outros tocarem a ferida de alguém com maior patente.

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